Lost Stars
2 Capitulo 2 - Levi
Notas iniciais
A primeira coisa que eu fazia quando chegava em casa era olhar para o parapeito da janela da frente. Para sinalizar se meu pai estava em casa minha mãe colocava um lenço vermelho na janela. Ele só costumava beber a noite, mas nem por isso a presença dele era mais agradável.
Naquele dia a barra estava limpa, então entrei sem nenhuma cerimônia, algo que devia ser habitual para qualquer adolescente, mas para mim não.
Minha casa era bem modesta, a sala era pequena, logo ao lado ficava a cozinha e ao fundo a lavanderia, já no andar de cima podíamos encontrar dois quartos e um banheiro. O nosso único banheiro ficava no corredor, o que me causou vários problemas quando eu era pequeno e precisava me manter trancado no quarto, mesmo com muita vontade de utiliza-lo.
Logo que entrei na casa escutei minha mãe mexendo nas panelas da cozinha. Amélia aparecia que nunca saia da cozinha ou da lavanderia, ela sempre estava fazendo alguma tarefa domestica, o que me deixava indignado. Por muitas vezes eu e minha mãe brigamos por que eu queria que ela fosse mais independente, que ela arranjasse um emprego e se desprendesse do meu pai, mas ela tinha medo, tinha medo do que ele poderia fazer, ele era um tipo bem machista e que dizia coisas do tipo ‘Lugar de mulher é na cozinha’. Patético.
– Você chegou cedo querido – ela disse enquanto saía da cozinha, limpando as mãos no avental.
– Sim, não quis ficar na cafeteria do hospital hoje.
– Nossa, achei que queria a companhia da sua adorada mãe – ela brincou.
– Você sabe que eu sempre quero.
Lhe dei um abraço e um beijo rápido e subi para o meu quarto.
Ele era um quarto normal, normal até demais. Acho que para um adolescente eu devia ter vários pôsteres de cantores e bandas famosas, uma prateleira recheada de vídeo games e muita bagunça. Mas não. Meu quarto era completamente organizado, quase militar, e com pouca personalidade.
Deixei minha bolsa de lado e tirei os sapatos. Segui para minha escrivaninha e liguei meu computador. Em rápidas tecladas eu já estava dentro de uma grande rede social, logado no meu perfil.
Pode até parecer estranho um depressivo como eu ter um perfil em uma rede social, mas até que não era tão ruim. Eu tinha a maioria das pessoas da escola adicionadas, e não sei por que, talvez por um amor secreto pela dor, eu ficava horas observando fotos e postagens dessas pessoas, em suas vidinhas felizes e perfeitas. Acho que os posts que mais me enojavam era quando alguma adolescente com meio cérebro começava a se lamentar por algum motivo idiota como ‘Meu pai não quer me dar um Iphone 6 dourado, vou me matar’. Não precisa se matar, eu mesmo mato você sua vadia ingrata.
Desci minha time line por alguns instante até que uma solicitação de amizade surgiu na minha tela.
‘Herodes Voltolini quer te adicionar como seu amigo’
Que cara rápido.
Aceitei o pedido logo de uma vez, e aproveitei para dar uma espiada na vida dessa pessoa tão curiosa que estava se introduzindo na minha vida.
Claro, o básico, Herodes Voltolini, dezessete anos, já formado, sem local de trabalho marcado, aniversario no dia 13 de maio, e aparentemente bem popular, quatrocentos amigos, status, solteiro. Ok, nada demais.
Pela time line pode notar que ele gostava bastante de postar sobre seus trabalhos sociais e de caridade, ‘agora está explicada essa amizade repentina, sou o trabalho dessa semana’, pensei.
Ele não postava coisas da sua vida pessoal aparentemente, as poucas fotos que ele já havia postado, que não eram dos grupos sociais, pareciam ser antigas, ele com algum familiar, mas dava para notar que ele era mais novo na foto.
Quando vi que já era uma da tarde decidi parar de fuçar a vida do senhor caridade e ir almoçar.
Saí do meu quarto, lavei as mãos no banheiro e desci para a cozinha, seguindo o rastro do cherio delicioso da comida da minha mãe.
– Você parece um cachorro de aeroporto cheirando uma mala de cocaína – Amélia zombou quando entrei na cozinha.
– Analogia interessante, qual é a droga que temos hoje?
– Eu preparei uma salada de batatas com molho, um bife e um arroz temperado quentinho.
– Parece ótimo – sorri.
Aqueles momentos felizes com a minha mãe eram um contraste com toda a desgraça que acontecia á noite, eu queria poder parar o tempo naquele instante e nunca mais precisar continuar, viver eternamente aquele momento, como se fosse o único.
Amélia serviu dois pratos e os colocou na mesa junto com dois copos de suco, e então logo em seguida se sentou na minha frente e começamos a comer.
– E então, como foi sua consulta?
– O de sempre.
– E o que é exatamente o de sempre?
– Ele me fez as mesmas perguntas de sempre, respondi e ele deve ter ficado satisfeito.
– Você tem que levar essas consultas a sério Levi, é para o seu bem, para evitar que aquilo volte a acontecer.
Eu não queria mais viver, estava cansado, mas sabia que minha mãe havia sofrido e chorado muito achando que eu tinha mesmo morrido, e apenas isso me fez continuar a tentar viver e ir às consultas.
Amélia deixou seu garfo de lado e pegou um dos meus pulsos na mão, acariciando a cicatriz que havia nele.
– Você sabe que eu te amo meu filho, e nós vamos aguentar tudo juntos, mas por favor, eu lhe imploro, não faça algo como aquilo de novo, eu nunca senti tanto desespero na minha vida, você é a coisa mais valiosa que eu tenho meu bebê.
A encarei nos olhos e pude ver a dor brilhando neles.
– Tudo bem mãe, eu tentarei ser forte por você.
– Obrigado meu filho, é tudo que eu lhe peço.
Com um suspiro ela soltou meu pulso e voltou a se concentrar na comida.
– Por que voltou tão cedo do hospital? – ela perguntou enquanto tomava um gole do suco.
– Preferi sair de lá mais cedo já que eu tinha uma companhia não muito desejada, ou melhor, inesperada.
– Do que está falando? Se encontrou com alguém? – a surpresa na voz dela era evidente, eu não tinha amigos, então era estranho eu dizer que tinha me encontrado com alguém.
– É, pode se dizer que sim. Um garoto veio falar comigo na cafeteria do hospital, ele falou do livro que eu estava lendo, li um poema para ele e depois ele pediu meu número, disse que queria ser meu amigo.
– Nossa, só imagino o fora que você deu nele.
– Eu passei meu número para ele.
– Você passou?! – ela pelo menos podia disfarçar a surpresa e a satisfação em ouvir aquilo. Era com essas reações que eu me tocava do quanto solitário eu era e de como aquilo afetava minha mãe.
– Isso é ótimo – ela continuou. – Quero dizer, quantos anos ele tem? Se for muito velho ele pode ser perigoso.
– Dezessete.
– Isso é bom, só um ano mais velho que você, ele deve ser experiente, pode te dar conselhos, tenho certeza que serão ótimos amigos.
– Ele não quer se meu amigo de verdade mãe, sou apenas o trabalho de caridade dele. Ele é um daqueles garotos bonzinhos que acham que sabem como pessoas como nós se sentem e por isso tentam ficar ajudando, ele não passa de um idiota.
Amélia apenas me encarou. Assim como eu, ela sabia que havia momentos que não tinha como discutir, apenas aceitar o silencio como a melhor resposta. É, nós dois sempre tivemos uma boa sincronia.
Terminamos a refeição em silencio.
Depois de disso, ajudei minha mãe com os afazeres da casa. E aliás, era outra coisa que eu não entendo. Várias pessoas da minha idade são saudáveis e cheios de energia, então por que elas não faziam o mesmo? Quero dizer, ajudar seus pais em casa, a maioria deles nem mesmo tem emprego para gastar seu tempo com algo realmente útil. Bom, vai para a minha lista de reflexões.
Passei o dia cuidando de passar as roupas lavadas e guarda-las, e ao final do dia estava exausto. Como aparentemente Jorge não iria chegar cedo hoje, então com relutância minha mãe deixou que eu jantasse com ela no quarto dela. Gostava quando isso acontecia, eu ficava feliz em estar com ela, nós deitávamos na cama e assistíamos a algum programa engraçado e então comíamos.
Quando terminei o jantar minha mãe me mandou ir dormir, depois disso ela se levantou e foi lavar os pratos do jantar. Fiz o mesmo, só que segui para o meu quarto para dormir.
Resolvi apenas espiar o meu facebook antes de ir dormir, então me sentei sobre a cama e o acessei pelo celular. Eu não gostava muito do celular, mas minha mãe havia me dado, tentando me deixar ainda mais próximo de um adolescente normal. Tudo bem então.
Logo que conectei na minha conta uma mensagem apareceu na minha tela.
Herodes Voltolini: Fico feliz em ver que me aceitou, não pareceu muito receptivo quando nos falamos no hospital.
Levi Anderson: Eu aceito praticamente todo mundo no face, não se sinta tão especial.
Herodes Voltolini: L Não me despreze assim.
Levi Anderson: Não é desprezo.
Herodes Voltolini: Há há, eu sei, só estou brincando. Ei, queria te fazer um convite.
Levi Anderson: . . . .
Herodes Voltolini: Você já foi a uma cafeteria antes? Não como a do hospital, uma de verdade.
Levi Anderson: Não, não faz muito o meu estilo.
Herodes Voltolini: Sério? Bom, eu conheço uma que talvez você vá gostar, e já que amanhã é domingo queria saber se você não quer ir comigo. Topa?
Meus dedos se afastaram do celular por um instante para eu refletir.
Não era comum alguém querer sair comigo para qualquer lugar que fosse, e na verdade, eu também não era muito receptivo a esses convites, eu não era uma pessoa muito amigável mesmo. Amanhã minha mãe iria a igreja, e ela nunca me obrigava a ir junto, ela dizia que se eu quisesse me envolver com alguma religião eu faria isso por mim mesmo, então acho que ela não se importaria se eu saísse com Herodes, na verdade, talvez ela me dá-se um prêmio de filho do ano por finalmente estar tendo uma convivência social de verdade.
Levi Anderson: Tudo bem.
Herodes Voltolini: Sério?! :D
Levi Anderson: É.
Depois disso Herodes me passou o endereço de onde eu deveria encontra-lo e a que horas, para irmos juntos até a tal cafeteria. Não prolonguei a conversa depois disso, então desejei boa noite e fui dormir.
Eu estava exausto, e eu gostava disso, por que assim que eu me deitava na cama dormia de imediato, então não poderia ficar refletindo sobre meus problemas ou coisas do tipo.
E foi o que aconteceu. Assim que deitei minha cabeça sobre a almofada o sono me dominou e eu não pensei em mais nada.
–/-
Acordei ao som do aspirador domingo de manhã. Quando olhei meu relógio no celular, vi que eram oito horas. Herodes havia combinado de me encontrar perto de centro, nos iríamos para um café às onze horas.
Me levantei da cama, coloquei meus óculos e me espreguicei e sentindo meus músculos se esticando e depois relaxando.
Fui até o meu armário e escolhi uma roupa qualquer, não ligava para a impressão que eu ia causar, e o senhor caridade provavelmente também não iria ligar.
Saí do meu quarto e segui para o banheiro, não sem antes dar um olhada na minha mãe que está aspirando o chão da sala.
– Bom dia – gritei.
– Bom dia querido.
Era sempre bom quando Jorge não estava por perto, e eu sabia que ele não vai estava em casa, se não minha mãe não teria coragem de fazer tanto barulho com o aspirador, estar na mesma casa que ele era como estar se escondendo de uma cobra, sempre tomando cuidado com cada passo que você dá.
Eu estava descalço e o chão do banheiro frio, para alguns uma combinação ruim, para mim era algo quase familiar, sentir meu corpo frio era como estar morto. Meio mórbido.
Deixei minhas roupas limpas sobre a tampa do vaso e comecei a tirar as que eu usava. Quando terminei as joguei no cesto e entrei de baixo do chuveiro.
Diferente da maioria das pessoas eu não ficava refletindo sobre a minha vida de baixo da água, eu era objetivo, aquilo era apenas higiene, se eu quisesse refletir sobre meus problemas eu tinha o doutor Howard para isso.
Meu banho foi rápido. Me sequei e me vesti com a mesma velocidade. Terminei de secar meu cabelo com uma toalha e o penteei de frente para o espelho da pia. Escovei os dentes e para finalizar tomei meus remédios para depressão. Eram três remédios diferentes, nenhum deles era letal por dose. Vale ressaltar que os remédios para dormir não eram mais guardados no banheiro e só por precaução gillettes foram retiradas também.
Terminei de me arrumar, então saí do banheiro e desci para cozinha.
Como minha mãe ainda não tinha terminado a limpeza teve que servir meu café. Fritei um ovo e fiz duas torradas na torradeira e para beber um suco de laranja. Um café tão comum que até dava náuseas.
Quando comecei a comer o som do aspirador parou e logo minha mãe estava me acompanhando com uma xícara de café.
– E então, está animado para sair com seu novo amigo? – ela perguntou sorrindo.
– Ele não é meu amigo.
– Mas quer ser, e você também tem que tentar.
– Por quê?
– Porquê ter amigos faz bem.
Eu não iria discutir isso com ela, sei que ela só queria o meu bem, mesmo que isso fosse contra o que eu achava.
Quando terminei limpei toda a sujeira que fiz e fui para a sala, me deitei no sofá e liguei em um canal qualquer. Foi então que senti meu celular vibrar no bolso, quando o peguei vi que era uma mensagem de Herodes.
“Bom dia, te vejo mais tarde J”
No mínimo um maluco caridoso.
–/-
Ventava um pouco quando saí de casa.
A cidade que eu vivia não era muito grande, então só precisei andar até um ponto e peguei um ônibus praticamente vazio, que me levou rapidamente até onde eu queria.
Desci do ônibus, andei até uma esquina e rapidamente avistei Herodes me esperando. Ele também usava um casaco de frio azul escuro, quase preto, e também uma touca da mesma cor, pelo menos ele era prevenido para o frio. Ele parecia bem mais animado do que eu.
– Levi! – ele me chamou com um sorriso enquanto se aproximava. – Que bom que veio.
– Não havia motivo aparente para eu rejeitar.
– Fico feliz por isso. Vamos, vamos, a cafeteria fica aqui pertinho.
Começamos a andar lado a lado, Herodes parecia entender o que eu sentia e por isso não falava enquanto andava e mantinha uma certa distância de mim.
Caminhamos por menos de cinco minutos até passarmos na frente de um café. Herodes, como o bom samaritano que era, abriu a porta para mim. Entrei e ele veio logo em seguida.
Eu nunca tinha estado em um café de verdade antes. Era mais quentinho e aconchegante lá dentro do que do lado de fora, o que na verdade me deixou desconfortável. Tudo tinha tons de bege e pastel, o lugar tinha dois andares, no primeiro haviam mesas e sofás espalhados, e ao fundo o balcão de pedidos, já no segundo, aparentemente era um local de leitura, eu não conseguia ver direito o que havia lá em cima. Era um lugar muito confortável e agradável, e eu novamente estava deslocado.
– Vem, me deixe pagar um café para você – sem minha permissão, Herodes segurou no meu braço e me levou até o balcão.
– Olá, em que posso ajuda-los? – a atendente perguntou enquanto nos lançava aquele sorriso treinado.
– Eu quero um cappucino, e você Levi? – ele falava como se já fossemos amigos íntimos.
– Café puro – o desinteresse com certeza era evidente no meu tom, mas Herodes pareceu não ligar, apenas terminou de fazer o pedido, e depois de alguns minutos já estávamos sentados em uma mesa no fundo do salão com nossos pedidos.
– Então, gostou do lugar? – Herodes me perguntou enquanto bebia um pouco do seu cappucino.
– Não é o tipo de lugar que eu costumo frequentar, na verdade, não costumo frequentar lugar nenhum.
Tirando com a minha mãe, eu não gostava de falar quando me alimentava, e por isso não estimulei que Herodes continuasse a falar, mas assim que terminamos nossas bebidas ele voltou a tagarelar.
– Sabe, eu te trouxe aqui por que no andar de cima dessa cafeteria eles costumam fazer saraus de poesia, e achei que você ia gostar.
– . . .
– Acontecem uma vez por semana, normalmente na noite de quinta feira, e eu queria te trazer para assistir.
Ok, aquele cara já estava me tirando do sério, mesmo querendo fazer algo pela minha mãe eu não queria ficar sendo usado como o trabalho de caridade dele, até mesmo eu tinha alguma dignidade.
– Eu não quero.
Ele pareceu um pouco surpreso com a minha resposta, talvez ele estivesse acostumado com todos sorrindo e achando todas as ideias dele ótimas.
– E por que não?
– Eu já estou cansado dessa sua ceninha, aceitei vir aqui pela minha mãe, mas não sou seu amiguinho, e também não quero ser seu trabalho de caridade.
– Trabalho de caridade?
– É, eu sei bem que você é aquele clássico estilo de garoto bom samaritano que acha que sabe como pessoas como eu se sentem, mas você não sabe, não são seus trabalhos de caridade que vão te tornar mais próximo do que eu sou, por isso não quero que perca seu tempo se dando ao trabalho de tentar me animar ou tornar a minha vida mais colorida.
Me levantei e segui para a porta de saída disposto a me retirar daquele lugar e voltar para o meu frio tão comum, mas quando já estava saindo meu braço foi seguro e quando me virei dei de cara com um Herodes mais sério do que o que eu havia visto antes.
– Você não é o meu trabalho de caridade, quero dizer. . .você pode pensar que eu não te entendo, mas entendo. . .
Claro que entendo.
– Eu apenas quero que me dê uma chance, eu quero te ajudar, eu te imploro.
–. . .
– Sim, eu faço trabalhos de caridade, mas você é diferente, exatamente por estar rejeitando qualquer ajuda, mas eu quero, quero ajudar você, me dê essa chance.
–. . .
– Vamos, ir para um sarau comigo não vai ser essa tortura toda que você pensa – ele forçou um sorriso.
Eu queria apenas empurra-lo e sair dali, mas ai me lembrei do rosto de animação de Amélia ao saber que eu havia feito um “amigo”, e aquilo pareceu aquecer um pouco do meu coração gelado, era mais do que eu precisava.
–. . .tudo bem.
– Mesmo?!
– Sim, mas não vá pensando que sou seu amigo ou coisa do tipo.
– Não se preocupe, vou fazer você ser.
Será que tem como esse garoto se achar mais?
Fale com o autor