Lost Stars

3 Capitulo 3 - Levi


Notas iniciais
Aqui está mais um capitulo (sei que demorou, desculpe, mas pelo menos está bem longo), e obrigado para todos que comentaram no anterior :)

Jorge não apareceu em nenhuma das noites do fim de semana, mas o que deveria ser um alivio para nós era motivo de desespero, porque na maioria das vezes em que ele ficava sumido por muito tempo, ele voltava com muita raiva e mais perigoso. Mas como no dia seguinte eu teria aula, resolvi apenas me concentrar nos problemas mais próximos.

Acordei na segunda de manhã bem cedo. Escolhi novamente roupas com cores discretas, na tentativa de me tornar invisível, e peguei minha mochila.

Quando cheguei a cozinha notei que minha mãe ainda não havia acordado, tudo bem na verdade, como eu preferia ir a pé para a escola eu costumava levantar muito cedo, mais do que as outras pessoas, e minha mãe não era obrigada a seguir meu ritmo, mas isso me obrigava a me virar com o café. Não que eu desse muita prioridade ao café da manhã ou a qualquer refeição do dia, mas sabia que se eu não comesse e minha mãe descobrisse ela iria querer me internar e injetar comida direto na minha veia.

Quando abri a geladeira para procurar o que comer encontrei um sanduiche já pronto com um bilhete.

“Não saía sem comer. Com amor, mamãe”

Como eu disse, extremamente cuidadosa com a minha alimentação.

Terminei de comer em silencio e finalmente saí de casa.

Novamente o dia estava frio, e isso me deixa confortável, o frio sempre me deixou confortável e acolhido, por isso a caminhada até o colégio não foi tão entediante, a sensação do vento frio assoprando sobre o meu rosto era ótima. Mas assim que avistei o prédio do colégio todo esse conforto pareceu fugir.

Me aproximei do lugar, e a cada passo que eu dava me diziam para dar dois para atrás, mas eu não podia.

Não que eu odiasse a escola, quando eu era pequeno eu sonhava em ser cientista, adorava ver seriados e filmes mostrando o trabalho das pessoas em laboratórios, descobrindo coisas novas, mas quando meu pai começou a ter os transtornos dele as coisas mudaram, a minha depressão começou e eu me tornei alguém mais fechado, minhas notas antes perfeitas caíram e meus amigos se foram. Desde então minha vida escolar só ia de mal a pior.

Eu não entrava pela porta principal do prédio como todos faziam, preferia ser mais discreto e entrar por uma porta lateral que sempre estava aberta mas que ninguém nunca dava atenção. Ela levava até um corredor escuro com alguns armários cheios de materiais extras e outros com materiais de limpeza, possivelmente aquilo era um mini-deposito. Se seguisse até o final você encontraria a porta de saída, que levava para um dos corredores de aulas.

Como eu não tinha o que fazer até a aula começar, me sentava ao lado da porta de saída e lia algum livro. Naquele dia em especial, estava novamente com o livro de poesias que estava lendo quando me encontrei com Herodes pela primeira vez, e ao olhar para ele me lembrei rapidamente do rapaz tão irritantemente bonzinho que estava tentando me ajudar. Foi só lembrar daquele rosto que meu celular vibrou no meu bolso.

“O que vai fazer hoje?” – Herodes

“Tenho aula” – Levi

“É verdade, você ainda está estudando. Bom, eu vou trabalhar” – Herodes

“Sorte sua” – Levi

“He He, algum dia você deveria conhecer o meu local de trabalho, vai gostar” – Herodes

Como eu não sabia o que responder, resolvi deixar quieto. Assim que guardei meu celular o sinal tocou, e com um suspiro cansado me levantei e saí para a aula.

Minha primeira aula do dia seria química. Para muitas pessoas aquela matéria era muito difícil, mas para mim parecia como somar dois mais dois, e mesmo assim eu tirava notas baixas nas provas, mas não porquê eu não sabia a matéria, mas sim por que eu não ligava, eu não me importava, aqueles números e palavras em uma folha branca me pareciam tão inúteis e entediantes que eu simplesmente os ignorava e deixava a prova em branco. Mesmo assim meu professor, que se chamava Patrick, sabia do meu talento, pois um dia ele me pediu para ficar até depois das aulas com ele, para estudarmos um pouco juntos, foi quando ele resolveu fazer algo mais pratico comigo, fizemos várias experiências com substancias químicas no laboratório, e aquilo fazia muito mais sentido para mim, estar movendo minhas mãos e vendo os efeitos na minha frente pareciam ter muito mais propósito do que responder perguntas em um papel apenas por uma nota.

Mesmo assim, Patrick ainda me dizia para tentar fazer as provas, pois sem elas eu não passaria de ano. Em resposta eu sempre dava de ombros e continuava a fazer o que eu sempre fazia, e quando chegavam as recuperações durantes as férias eu me obrigava a tirar notas altas em todas as provas e fechava o ano, preferia ter que fazer esse esforço durante um mês só do que durante um bimestre inteiro.

Depois da aula de química nós tivemos literatura e historia, as mais chatas para mim e as mais fáceis para alguns.

Quando essas aulas passaram o tão esperado intervalo chegou. O tão esperado intervalo dos outros alunos, porquê para mim não, eu preferia muito mais ficar no laboratório mexendo com meus experimentos do que ter que ser obrigado a me introduzir naquele meio social.

Todos os alunos eram obrigados a ficar no refeitório, nós não podíamos ficar perambulando pela escola durante o intervalo, o que para mim era o mesmo que uma prisão. Na verdade, aquilo realmente parecia uma prisão, várias pessoas juntas e confinadas, divididas em várias grupos, sendo que alguns deles comandavam tudo no lugar. Como eu não estava incluso em nenhum desses grupos, preferia tentar passar despercebido por todos e me sentava perto da porta de entrada. Poderia parecer um lugar estúpido, já que todos entravam por lá, então todos estavam lá, mas pare para pensar, quando você entra por uma porta, você sempre olha para a frente, não fica prestando atenção nos lados, e esse era o meu truque, quase sempre dava certo.

Quase.

Um dos grupos divididos da escola era o clássico grupo dos populares, formados por uma parcela de pessoas que se destacavam por coisas fúteis, como beleza e talentos com esportes. Nem tanto o talento, já que a beleza era um pré-requisito, já que alguns dos esportistas da nossa escola não eram inclusos nesse grupo, como Beth Caje, que ganhou três anos seguidos a medalha de ouro na natação, mas que era rejeitada já que usava óculos enormes, tinha o cabelo curtinho e era desajeitada. Pobre Beth, ela sempre tentou se aproximar de mim para me ajudar em literatura. Garota legal.

Mas voltando ao assunto. O time dos populares pareciam ter um prazer imenso em torturar pessoas não tão populares ou desajustadas, ou seja, eu. E foi o que aconteceu naquele dia, novamente.

Um pequeno grupo formado por dois meninos e duas meninas se aproximou de mim enquanto eu lia o meu livro. Eu sabia da presença deles a minha volta, mas não levantei meu olhar, preferia esperar e ter esperança de que eles iriam embora, mas não foram. Um deles arrancou o livro de minhas mãos, me obrigando a levantar o olhar para eles.

— Olhe para nós quando passarmos esquisitinho – uma garota morena asiática falou com a voz esganiçada.

— Não vi que estavam aí – menti.

— Mentiroso – o garoto, ou muralha, que pegara meu livro falou. Ele eu conhecia, seu nome era Jimmy, ele era o capitão do time de futebol da nossa escola, um cara bem grande e que já havia me causado várias hematomas.

— Vamos galera, acho que ele apenas cometeu um erro infeliz – o rapaz da frente disse. Também o conhecia, ele era um dos chefinhos daquele grupo, mas nem era o pior dele, na verdade, eu tinha dó dele. Seu nome era Ethan, por ser bonito, rico e até um pouco inteligente ele conseguia comandar os populares, mas o que a maioria não sabia é que ele escondia uma coisa, algo que provavelmente o faria ser excluído de sua panelinha. Ele era gay.

Se você olhasse para ele não iria notar nada, mas eu havia descoberto aquilo por acidente. Em um dos dias de recuperação durante as férias, eu estava indo embora depois da aula e resolvi cortar caminho pelo gramado, e foi em uma curva que eu notei um barulho de gemidos vindos de uma moita. Não que eu fosse curioso, eu estava pouco me explodindo de dois adolescentes resolveram transar no meio do mato, mas eu já estava em um ponto de visão comprometedor e consegui ver os dois rapazes escondidos e trocando caricias nada inocentes em meio as moitas. A minha maior surpresa foi por que um dele era Ethan, o valentão reizinho, e o outro era Brandon. Eu já conhecia Brandon, ele era filho do nosso professor de química e um artista nato, conhecido pelo seu talento com instrumentos e pela sua voz, mas assim como Beth, ele era excluído, mas não por que era feio, mas sim por que tinha uma aparência delicada e gentil, e por isso sempre zombavam dele o chamando de gay. Bom, aparentemente não era mentira.

Claro que depois daquele dia comecei a ver Ethan com outros olhos, para mim, tudo que ele fazia era uma mascara montada para esconder alguém com medo de assumir para si mesmo o que era de verdade, e isso me dava dó, e se você consegue fazer um depressivo ter dó de você, é por que você está mal mesmo. Também via Brandon andando sozinho pelos corredores e pensava o quando ele deveria sentir falta do namorado, caso os dois fossem mesmo namorados, já que Ethan não demonstrava nada por Brandon enquanto estava com seu grupinho.

— Ei, preste atenção em nós seu mongol – a outra garota me xingou, tentando me trazer na realidade depois de me perder em pensamentos.

— Nossa, depois desse xingamento ele nem vai dormir – o Ethan zombou com ironia da garota, que pareceu ficar acanhada.

— Então, não está prestando atenção na gente é? Acho que está se achando demais hoje esquisitinho — Jimmy falou enquanto apoiava o braço do lado da minha cabeça, como se quisesse me encarar e me ameaçar, e em resposta apenas me mantive em silencio. — Me responda imbecil.

— Não tenho o que te responder – o que eu disse soou frio e até mesmo afiado, e Jimmy não pareceu ficar feliz.

— Olha aqui seu imbeciloide – ele rosnou, agarrando meus cabelos me fazendo sentir uma leve dor. – Você está muito engraçadinho hoje, eu tomaria cuidado de volta para a casa se eu fosse você.

Depois daquela ameaça o grupinho se afastou murmurando uns com os outros, e eu, bom, sabia que iria apanhar novamente.

O sinal tocou, avisando sobre o fim do entrevá-lo, então todos seguimos de volta para as salas.

As aulas seguintes continuaram sem muitas surpresas. Quando o ultimo sinal tocou eu me senti aliviado e ao mesmo tempo exasperado pela ameaça.

Você pode até zombar de mim por não querer levar uma surra, considerando que já tentei me suicidar, mas são duas coisas diferentes, uma é decisão minha, outra é decisão de outra pessoa, quase uma humilhação, e eu já era humilhado demais, eu já não tinha dignidade, não queria saber qual era o nível abaixo disso. E como eu não estava muito afim de apanhar hoje resolvi ficar até um pouco mais tarde no colégio, apenas para ver se eu escapava.

Me mantive escondido no corredor por onde eu entrava, e depois de uma meia hora saí e resolvi caminhar pelos corredores da escola, apenas para dar mais meia hora e então tentar chegar em casa.

Já no segundo andar, enquanto eu andava consegui escutar uma música vindo de uma das salas, que era claramente a sala de música. Alguns clubes da escola permitiam que as salas fossem usadas pelos membros depois da aula, e esse era o caso. Quando olhei pela pequena janela de vidro da sala pude ver Brandon tocando o piano do clube.

Brandon parecia ser uma pessoa muito boa, diferente de mim ele parecia ser muito gentil, alguém que não faria mal a uma mosca, e além disso era talentoso, sempre tocando nas apresentações da escola. E olhar para ele ali, sozinho, tão solitário, me fazia pensar por que apenas por uma questão de sexualidade Ethan o deixava tão de lado. Aquele preconceito me parecia tão idiota, apenas por que Brandon era homem o relacionamento dos dois parecia mais difícil, o mundo nunca me pareceu tão estúpido.

Mas o mundo realmente é estúpido, acho que o mundo não passa de uma bola cheia de doenças, pessoas que criaram guerras e lutas para impedir outras pessoas de serem felizes. Eu sei que Brandon não era feliz, soube disso quando o som do piano parou e eu pude escutar o seu choro.

—/-

Saí da escola depois de meia hora, e para a minha sorte naquele dia os valentões não resolveram me esperar, havia dias que eles esperavam horas afio pelo prazer de quebrar o meu nariz, mas talvez naquele dia eles tivessem encontrado alguém mais interessante para atazanar.

Andei até minha casa, e sem o sinal na janela, entrei em segurança, sem medo de dar de cara com aquele demônio em forma de gente.

Minha mãe me esperava na cozinha. Ela estava sentada na mesa da cozinha de cabeça baixa, enquanto lia um monte de papeis, contas da casa.

— Mãe. . .- tentei chamar a atenção dela, o que deu certo, já que imediatamente seu rosto se ergueu, inicialmente com um olhar preocupado, mas que logo sumiu e um sorriso caloroso surgiu.

— Olá meu filho, chegou cedo.

— Na verdade, estou até um pouco atrasado – eu disse, notando sua distração, já que graças aos valentões eu estava pelo menos uma meia hora atrasado, talvez um pouco mais.

— Mesmo? Nem reparei, como sou distraída. Perdão, ainda nem servi o nosso almoço.

Ela ia se levantar, mas eu rapidamente a impedi.

— Não se preocupe, eu cuido disso – fui até o fogão e comecei a servir dois pratos com a comida que estava pronta nas panelas. – Então, a senhora quer me contar algo?

— não, por que? Eu deveria? – ela tentou distrair enquanto recolhia os papeis da mesa e os guardava em uma gaveta do armário.

— Ham, acho que não. . .por enquanto – decidi ficar quieto e deixar as coisas fluírem, eu evitava me meter nos assuntos de qualquer um, inclusive da minha mãe, então deixei passar por hora.

Comemos em silencio, pois eu sentia a tensão que havia se formado, já que minha mãe não parecia animada e tentava manter seus problemas longe de mim. Depois que terminamos eu lavei a louça para ela e ela me liberou, dizendo que não precisava da minha ajuda hoje e que eu poderia subir e estudar. Claro que ela sabia que eu não faria isso, mas mesmo assim ela tentava. Provavelmente ela não pegava tanto no meu pé já que ela sabia que no final eu iria passar de qualquer jeito.

Já no meu quarto, larguei minha mochila em um canto e liguei meu computador para mais uma vez fazer meu ritual de auto-tortura no facebook. E logo que entrei uma mensagem já surgiu na minha tela, uma mensagem tão automática que poderia ter sido escrita por um robô, mas não, era o anjo Miguel versão humana.

Herodes Voltoline: oi, como foi o seu dia?

Levi Anderson: o mesmo de sempre.

Herodes Voltoline: o que é ‘o mesmo de sempre’ na vida de Levi Anderson?

Levi Anderson: nada que seja da sua conta na verdade.

Diferente do inicio, não recebi uma resposta imediata, e automaticamente achei que eu o tinha afastado com minha delicadeza, mas logo uma nova mensagem surgiu.

Herodes Voltoline: eu só trabalhei hoje, na verdade, estou trabalhando.

Levi Anderson: pode gastar seu tempo de trabalho no facebook?

Herodes Voltoline: vamos dizer que o chefe é tolerante com o meu comportamento.

Levi Anderson: que chefe gente fina.

Herodes Voltoline: e ele é mesmo, um cara demais, vocês deviam ser amigos.

Levi Anderson: papo estranho.

Herodes Voltoline: há há.

Levi Anderson: aonde você trabalha afinal? Você não marcou no seu perfil.

Herodes Voltoline: gosto dessa privacidade, e eu não direi, você terá que vir aqui para conhecer.

Aquilo era claramente era convite, mas como não era um convite formal, não dei uma resposta direta.

Levi Anderson: quem sabe um dia desses.

—/-

A noite de segunda foi no mínimo estranha, mas não perturbadora.

Jorge apareceu, e enquanto eu jantava em meu quarto só esperava a hora dos gritos e do choro, mas não aconteceu, tudo estava em perfeito silencio, ele estava calmo naquele dia, tão calmo que acabou dormindo rapidamente, dando tempo para minha mãe vir ao meu quarto e me desejar um boa noite.

Agradeci aos céus.

Os dois dias seguintes seguiram o mesmo ritmo, Jorge não causou nenhum escândalo e a escola continuou na mesma, mas com os valentões afastados, aparentemente entretidos o suficiente para não precisar de mim para essa missão.

Foi na tarde de quinta feira que eu comecei a sentir alguma diferença, já que era naquela noite que eu iria me encontrar com Herodes em seu sarau.

Minha mãe logicamente estava mais animada que eu, ela havia pegado uma roupa minha que ela considerava a mais bonita para a ocasião e a lavado e passado especialmente para aquele dia. Amélia me ajudou a me vestir e até me obrigou a passar perfume, no mínimo desnecessário.

— Mãe, eu estou indo escutar poemas com o senhor caridade, e não sair com o príncipe Harry – tentei colocar juízo na cabeça dela, mas não rolou.

Quando eu já estava na porta para sair ela veio até mim e me explicou o plano de ação. Se eu chegasse em casa e o pano vermelho estivesse na janela eu deveria esperar até as luzes da casa serem apagadas, e só então eu poderia subir, assim Jorge não saberia sobre minha saída.

Depois que terminamos o nosso planejamento ela beijou meu rosto e me desejou boa sorte. Sorte para que mesmo?

—/-

Desci no mesmo ponto que o do outro dia, mas dessa vez segui sozinho até o café.

O lugar estava quase vazio no andar de baixo, mas eu podia notar uma movimentação no andar de cima, e enquanto eu olhava para isso Herodes se levantou da mesa onde estava e veio me receber.

— Que bom que apareceu, fiquei com medo de que eu levasse um bolo, e você está cheiroso – ele disse, enquanto se aproximava de mim para cheirar o meu pescoço.

— Se levar um bolo vai ser na cara mesmo – respondi na defensiva, enquanto eu me afastava.

— Quem diria, você tem senso de humor.

— Eu to falando sério.

Meu tom era frio em tudo que eu dizia, o que deveria tê-lo intimidado, mas nem isso parecia esfriar o calor da alegria do senhor caridade.

— Vamos subir, o sarau já vai começar.

O segundo andar era bem organizado, com prateleiras cheias de livros nas laterais, vários sofás, poltronas e puffs espalhados, e na frente um pequeno palco.

Herodes me guiou por entre as pessoas que já estavam sentadas e nos sentamos juntos em um sofá. Aquele lugar era extremamente desconfortável para mim, haviam muitas pessoas me cercando, sem falar em Herodes sentado colado ao meu lado. Eu odiava tanto contato humano, mas eu tinha que suportar, por Amélia.

Haviam cinco pessoas que iriam ler algum poema naquele dia, e o objetivo era que escutássemos e discutíssemos sobre o que o poema dizia, o que havíamos tirado daquelas palavras.

Eu não prestei realmente atenção em quase nada do que eles diziam, já que tudo parecia se resumir a amor e suas várias formas. Blé. Mas o ultimo poema me chamou a atenção, e eu o escutei com mais atenção.

A Índole da Multidão – Charles Bukowski

Há suficiente traição, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
—ENFIM- SÃO AQUELES QUE PREGAM
PAZ

Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam Paz
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado Com Os Conhecedores.

Cuidado
Com Aqueles
Que Estão SEMPRE
LENDO
LIVROS

Cuidado Com Aqueles Que Ou Destestam
A Pobreza Ou Orgulham-se Dela

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Elogiar
Pois Eles Precisam de LOUVOR Em Retorno

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Censurar:
Eles Temem O Que
Desconhecem

Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantemente
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos

Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
CUIDADO Com O Amor Deles

Seu Amor É Vulgar, Busca
Vulgaridade
Mas Há Força Em Seu Ódio
Há Força Suficiente Em Seu
Ódio Para Matá-lo, Para Matar
Qualquer Um.

Não Esperando Solidão
Não Entendendo Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Difira
Deles Mesmos

Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte

Considerarão Seu Fracasso
Como Criadores
Apenas Como Falha
Do Mundo

Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
ENTÃO TE ODIARÃO

E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta

Sua Mais Refinada

ARTE “

Todos começaram a discutir o poema, mas eu me separei de todos como sempre faço e comecei minha própria reflexão particular.

Aquelas palavras precisavam ser revisadas várias vezes para pegarmos o sentido completo. O autor nos notificava sobre as pessoas com as quais devemos ter cuidado, vários tipos de pessoas, pessoas que se escondem atrás de uma mascara de perfeição, aquelas que parecem amar a tudo, que parecem sempre certos, mas que não são bem assim, pois eles são os piores. E, quase que automaticamente, meus olhos seguiram até encarar o rapaz que havia me arrastado até ali e que parecia ser a pessoa mais perfeita e boazinha que existia.

— Talvez uma mascara de perfeição para esconder seu rosto tenebroso – a voz de Herodes me acordou de meus devaneios, e devagar ele retribui o meu olhar. – Era algo desse tipo que você estava pensando?

— Na verdade, não exatamente.

— É, sei, mas já imagino a natureza da coisa. Você suspeita de mim? Acha que sou um homem mascarado com a missão de se fazer de bom para os outros.

— Talvez.

— É, acho que é um bom raciocínio.

— As pessoas são moralistas, fingem entender os outros, mas a verdade é que não sabem nada sobre essas outras pessoas.

— Isso é uma verdade, eu não sei nada sobre você, e eu gostaria que me contasse.

Mas antes que eu respondesse a esse comentário, Herodes se levantou e seguiu para em direção ao palco.

— Senhores, para finalizar nosso sarau, nosso amigo Herodes ira fechar o dia com um número musical.

Herodes se sentou atrás de um teclado já preparado no pequeno palco e começou a cantar uma música que ele disse se chamar Cigaretts and Chocolate Milk de um tal de Rufus Wainwright. Enquanto cantava ele não parava de me encarar, como se a música fosse dirigida a mim.

“Parece que eu gosto de tudo um pouco mais forte, um pouco mais exagerado, um pouco nocivo para mim”

Seus dedos passeavam com leveza pelas teclas enquanto ele colocava para fora essas palavras que aparentavam ter mais significados do que uma simples canção.

“Vá em frente, acuse-me de apenas cantar sobre lugares"

Lugares, situações, acusa-lo de não entender.

"Você não pode esperar que o mundo seja sua boneca de pano"

Nunca esperei que o mundo fosse nada para mim.

"Você tem que se manter no jogo"

Se manter firme é o que todos dizem.

"Onde quer que eu te veja, então, por favor, seja compreensivo se eu me atrapalhar"

Engraçado pensar no senhor caridade deixando sua perfeição de lado e admitindo fraquezas.

"Cigarros e leite com chocolate"

Uma combinação nociva e diferente, mas que alguém parece não ter medo de experimentar.