Lost Memory.
16 16. Love by Grace.
Notas iniciais
E Sonic, a medida que o beijo progredia, seus corpos se aquecendo em uma necessidade mútua de contato e toque.
Então se afastou, encarando com uma determinação nova os olhos carmesins, seus lábios estavam vermelhos e inchados, ainda sentia o toque fantasma da boca de Shadow esmagando os seus.
E então com uma coragem desconhecida, proferiu seu pedido rouco:
— Faz amor comigo?
.
.
Os olhos carmesins encaram surpresos as íris esmeraldas do ouriço cobalto.
Aquela voz rouca, quase desolada derretia seu coração congelado, criava esperanças onde antes apenas existia dor de desamparo.
E vê-lo, diante de si com aquela expressão apaixonada, carente e necessitada, despertava instintos que antes estavam perdidos dentro de si.
Desejava abraça-lo e mantê-lo eternamente nos seus braços. Acordar todos os dias sabendo que assim que abrisse os olhos, Sonic estaria do seu lado.
Cada mísera célula de seu corpo clamava por Sonic, cada fração mínima de chaos de seu corpo reagia a energia do ouriço cobalto, sua mente por outro lado, a única parte racional e lógica do seu corpo, sabia que aquela não era a hora certa.
Sonic poderia dizer com todas as palavras que desejava-o, que estava pronto.
Mas apenas de ter encontrado Sonic naquele estado de pânico, apenas causado pela mínima ideia de dormirem juntos, fizera seu peito doer.
“Ele ainda não está pronto.” Sua mente disse para si, com tamanha convicção que parecia quase dito em voz alta.
Ao contrário do que ele esperava sentir, não tinha nenhuma decepção perturbando sua mente. Só uma paciência e carinho que Shadow não estava esperando sentir.
Tocou a bochecha pêssego quente, um sorriso sutil em seus lábios bronzeados enquanto observava o ouriço implorando com os olhos, corpo e palavras.
Infelizmente para Sonic, Shadow era bem mais resistente.
— Não agora. — Seu tom era compreensível, tão tranquilo quanto um sussurrar. Não carregava repreensão, não carregava incerteza.
Sonic mordeu o lábio com a negativa.
Claro.
O que ele estava pensando?
Shadow não queria aprofundar a relação. Por que insistir mais naquilo?
Ele não era assim tão desejável. Tinha fãs que clamavam por ele? Mas todas também gritavam por qualquer artista ou banda que fazia sucesso. Ele era só mais um, nada especial.
Sua cabeça baixou, sentiu novas lágrimas escorrendo por sua face enquanto se afastava bruscamente, se ponto de pé tão rápido quanto só ele conseguia fazer.
De repente o quarto se tornou abafado, as paredes rodavam.
Não era desejável. Não era atraente. Não tinha nada especial. Não era o suficiente.
Sua mente gritava zombeteira contra ele.
Aquilo tudo não passava de um erro. Um erro imbecil.
— Faker? — Shadow chamou alarmado, estendendo a mão para a frente e alcançando o braço pêssego, segurando seu pulso com firmeza.
Sonic puxou o braço com força, sentindo a pele arder pelo movimento brusco. Tudo o que queria naquele momento e mais desejava era não quebrar diante de Shadow, cair em prantos idiotas em uma reação nada madura ou autoconfiante.
Mas como ser autoconfiança quando tudo o que dizia ser era apenas por aparências e o verdadeiro Sonic the Hedgehog era um fracote que não conseguia encarar suas próprias emoções? Chegava a ser patético, humilhante.
— Sonic?! — Shadow se levantou e se postou em frente ao ouriço cobalto, tentando ler o que acontecia na mente do ouriço cobalto através de seus olhos, embora a cabeça baixa não o permitisse ver muito além.
Suas mãos envolveram os ombros cobalto, os dedos apertando levemente, Sonic se retraiu com o toque quase como se Shadow o tivesse machucado.
Ele se sentia machucado. E completamente rejeitado.
Shadow havia quebrado sua máscara de arrogância. Sua falsa alegria incontrolável e encontrou o desespero enquanto todos os outros viam sarcasmo e humor irritante.
— Olha para mim! — A voz de Shadow estava tão alarmada que atraiu a atenção de Sonic que não conseguira evitar não obedecer.
E então se viu refletido naquele olhar carmesim, tão cristalinos e puros quanto o reflexo do espelho. Viu sua imagem patética encarando-o de volta, viu o estado deplorável e ridículo em que estava. Sua voz havia se perdido em algum lugar e não conseguia encontrá-la.
Pouco a pouco, as engrenagens mentais se encaixavam na mente de Shadow e, recapitulando os últimos momentos, percebera que sua negativa havia sido mal interpretada.
Podia ver o sentimento de rejeição nos olhos esmeraldas, quase como se Sonic estivesse gritando em alto e bom som.
Suspirou, antes de lentamente subir suas mãos até o rosto de Sonic, segurando-o como se fosse um vaso de vidro que poderia escorregar de seus dedos ao menor descuido e se estilhaçar.
— Eu nunca disse que não faríamos, Faker. — Manteve seu tom suave, tentando não assustar o pobre ouriço tremulo. — Só que não nesse momento. Não enquanto você estiver assim. — Se aproximou lentamente, até que seus corpos estivessem juntos, encostando as testas juntas.
— Eu... — Sonic tentou dizer, no entanto as palavras novamente não saíam.
Se sentiu patético novamente, sua cabeça doendo pelas crises constantes, sua mente o criticando, enquanto seu corpo sentia a necessidade e ansiava por afeto e toques.
Fora o primeiro a adiantar o passo, tocando a cintura ébano.
— Me desculpe. — Deu um aperto forte. E depois só o soltou. — Eu preciso ir.
— Está tarde. — Shadow comentou, mas não forçando o ouriço a ficar. — Pelo menos durma aqui, só por hoje. Eu durmo no quarto de hospedes se não quiser ficar perto. — Ofereceu.
Sonic encarou Shadow longamente, não acreditando nas palavras proferidas, como se tivesse imaginando coisas.
— Essa é a sua casa... — Sussurrou. E depois o abraçou com força. — Eu só preciso de um tempo. — Pediu, sua voz falhando.
Shadow assentiu e Sonic o liberou, calçando seus sapatos de qualquer forma e as luvas caindo desleixadas nos pulsos, caminhou até a porta, o ouriço ébano o acompanhando silenciosamente. Não houve implorar, não teve sequer um novo pedido para que ficasse. Ambos sabiam que pelo menos por hora, aquilo era necessário.
— Tome cuidado. — Shadow pediu baixo. — Volte para mim quando se sentir pronto. — Sonic assentiu levemente.
Estava de costas para Shadow, sabendo muito bem que no momento em que o encarasse, toda sua coragem correria por água abaixo e jogaria naqueles braços.
Abriu a porta e saiu. Os olhos erguidos para o céu escuro, encobertos por nuvens de chuva, assim como se sentia interiormente, prestes a passar por uma tempestade.
Na soleira da porta, Shadow mantinha os braços apertados no peito, tentando se manter inteiro quando sentia seu coração bater dolorosamente e rachar.
Quase imperceptível, uma única lágrima escorreu pelo focinho bronzeado.
.
.
Havia se passado uma semana desde que nem mesmo se falavam. Sonic arrumava desculpas e pretextos para não estar em casa que não incluíam missões, tendo evitar o olhar astuto de seu mais novo irmãozinho, sabendo muito bem que Tails perceberia logo que algo estava completamente errado.
Já Shadow, mascara seu estado de espirito com um humor azedo e sombrio, falando somente o necessário com Rouge durante missões e pedindo o Comandante Towers que dobrasse seu expediente, embora não fosse uma decisão motivada pela necessidade de dinheiro, desde que ele tinha o suficiente para que não precisasse se preocupar por um tempo.
Era óbvio que algo havia acontecido e Rouge não era tão alheia a isso, porém parou de perguntar quando sua vigésima tentativa de iniciar uma conversação casual falhou, frustrada e sem muitas opções, começou a investigar Sonic.
Se Shadow estava procurando pretextos para ocupar a mente e não ficar muito tempo em casa, alguma deve ter acontecido.
Chegou até a porta da pequena casa que era compartilhada pela dupla, demorou algumas batidas até que fosse atendida, Sonic tinha um olhar morto no rosto quando abriu a porta, apesar de forçar um sorriso alegre quando percebeu quem era.
Rouge logo franziu a testa, encarando o ouriço cobalto com curiosidade e preocupação, principalmente porque era mais que óbvio que Sonic nem mesmo estava conseguindo dormir direito, quiçá até se alimentar direito.
— Ok, Blueboy. — A morcega colocou a mão na cintura, enquanto usava o apelido que ela dera para ele, seus olhos cercetas estavam estreitos para o ouriço. — Qual foi o motivo da briga? — Perguntou sem rodeios.
“Direto e curto.” Sonic amaldiçoou a linha de pensamento rápido de Rouge, sabendo muito bem que se não fosse inteligente, não teria um lugar privilegiado como espiã de alta classe da GUN.
Resmungou algo ininteligível a meia voz, baixando os ombros em derrota.
De certa forma, precisava conversar com alguém. Fugir não estava adiantando mais e não adiantava correr até a exaustão, seu corpo doía de cansaço e das noites mal dormidas ao relento, já que literalmente desmaiava depois que seu corpo chegava ao limite.
— Vamos caminhar então. — Olhou para trás sugestivamente, como se tivesse alguém atrás dele, embora não houvesse. Rouge entendeu o recado.
Certo, Sonic ainda tinha a mania de tentar esconder seus problemas do irmão, segurando o mundo nos ombros e guardando todos os problemas para si mesmo.
Quando estava em uma distância segura, Rouge o parou e então começou o interrogatório.
A morcega ouviu atentamente, para o total constrangimento de Sonic que tropeçava nas palavras, gaguejando e corando. Houve momento que simplesmente não conseguia terminar uma frase, culpa e remorso temperando suas palavras assim que percebeu que estava sendo absurdo com tudo o que dissera, com como se sentiu e com a autoestima meio afetada depois que Shadow negou fazerem amor.
Rouge ao contrário do esperado, não riu, nem fizera comentários depreciativos, parecia inclusive preocupada, olhando para Sonic com seus olhos cercetas com uma gravidade inesperada.
— Ele não queria te forçar, Blueboy. — A morcega enfatizou suavemente. — A relação de vocês dois são complicadas. Ambos são teimosos demais para procurar qualquer ajuda ou conversar com um amigo. — Revirou os olhos.
— É constrangedor. — Rebateu, se encolhendo e abraçando os joelhos. A conversa havia se estendido o suficiente para que sentissem a necessidade de sentar.
— Não falo sobre especificamente de sexo. — Rouge riu levemente. — Mas sobre medos, inseguranças essas coisas. Sabe, eu conheci Shadow um pouco mais antes de você, antes de vocês se relacionarem, ele é meu companheiro de equipe e, posso te assegurar, eu nunca o tinha visto tão... Feliz? — Riu. — Não feliz, feliz, mas feliz o suficiente. Isso depois que vocês ficaram juntos. Apenas você proporcionou uma mudança grandiosa na vida dele.
— Eu? — Perguntou rouco, levantando a cabeça. Parecia bobo, era bobo, mas ouvir que havia feito a diferença na vida de alguém, mesmo sendo Sonic the Hedgehog, quem sempre fazia diferença salvando as pessoas, nunca havia parado para pensar no pessoal, na sua vida amorosa, sobre o quanto poderia ter mudado em algo a vida de alguém.
— Quem mais seria? — Revirou os olhos cerceta com a pergunta. — Vocês dois parecem ter o mesmo maldito problema. — Suspirou enquanto se recostava mais confortável em um tronco. — Insegurança, problemas de se expressar, teimosia... — Listou nos dedos.
Sonic bufou divertido, depois olhou para o céu que estava claro, felizmente as nuvens estavam escassas e o sol brilhava alto. Não chegava a ser desconfortável, apenas quente e agradável.
— Eu não sei, fui burro e não tentei entender... — Admitiu encarando a drama, evitando o olhar da morcega, covarde demais para lidar com talvez um julgamento. — Digo, é geralmente doce que Shadow se preocupe comigo, mas estou bem. — Deu de ombros.
Rouge discordava, porém nada comentou.
— É da índole dele. — Comentou despreocupada, fazendo um gesto de desdém. — Foi educado para ser respeitoso, embora alguns conceitos acredito que parta dele, principalmente sobre não avançar com as coisas, sabe, começarem a transar logo que conhece alguém. — Riu, não percebendo que Sonic se remexeu desconfortável com o uso do termo. — Ele veio de outra época, onde ser romântico ou um cavalheiro era regra, não exceção.
Sonic ponderou. Nunca havia parado para pensar sobre os conceitos morais de Shadow, nem a forma doce e carinhosa com que era tratado, como se fosse o ser mais precioso existente.
E Shadow era assim apenas para ele. Nem mesmo Rouge era tratada daquela forma, embora fosse uma dama e fosse muito bem educada.
Então a epifania veio tardia. Embora fosse claro e óbvio que se questionou por um momento como nunca havia parado para pensar sobre isso antes.
Shadow o amava, ao ponto de abdicar os seus desenhos carnais em prol do seu conforto e, mesmo que visse desejo muitas vezes nos olhos carmesins, o carinho e cuidado sempre sobrepujava os pensamentos carnais.
Então Sonic percebeu que, poderia ter arruinado tudo, agindo infantilmente, sendo pego por pensamentos autodepreciativos que apenas lhe trazia mais dor, o fazia ignorar a verdade e tudo em seu entorno.
Suspirou decidido.
— Eu preciso me desculpar... — E então caiu na real. Como o faria? Não fazia ideia do que fazer e como fazer, então olhou para Rouge e admitindo para si mesmo que não conseguiria nada se fosse orgulhoso e teimoso, decidiu aproveitar a oportunidade que lhe fora dada. — Você me ajudaria?
Rouge olhou surpresa para Sonic, depois seus lábios rosados se abriram em um sorriso malicioso.
— Eu sei exatamente o que você poderia fazer... — Cantarolou, os olhos dela brilhavam de uma excitação que Sonic não sabia se temia ou se agradecia.
Mas ele faria tudo que estivesse ao seu alcance para tentar corrigir seu erro e voltar para os braços de Shadow. Porque era ali que ele sentia que deveria estar.
Ah... Como era mágica a graça do amor.
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