Lost Memory.
11 11. Esquecimento.
Notas iniciais
Seu despertar foi lento e calmo, seus olhos se abriram preguiçosamente, o som irritante ressoava em seus ouvidos, piscou algumas vezes para se acostumar com a luminosidade que agora machucavam seus olhos, seu rosto se contorceu em uma careta enquanto olhava para os lugares, tentando limpar a mente dos pensamentos nublados ocasionados pelo sono.
Um bocejo escapou de seus lábios, ao mesmo tempo em que parecia um misto de surpreso e confuso.
Ele dormiu em uma cadeira de hospital? Não era lá um dos melhores lugares mais confortáveis para se cair no sono, principalmente um tão profundo tanto o que estava anteriormente, apesar da postura tensa e as orelhas meio caminho alertas, ainda era profundo o suficiente para ele, dado a noção de que ele aprendeu a viver sempre em alerta, até mesmo no sono.
Se alguém entrou no quarto e os viu, ele não conseguiria saber, nem ao mesmo conseguiu entender porque acabou dormindo tão facilmente em um lugar como aquele. Não foi culpa do calmamente, sua circulação sanguínea o teria eliminado rapidamente, era algo a mais.
E ele sabia exatamente ao que se devia.
Era Sonic.
Sua presença sempre foi como um dardo concentrado de tranquilizante para si, mesmo que ele simplesmente não fizesse nada para isso, era apenas confortável, isso quando claro, ele não estava lhe enchendo a paciência para correrem ou reclamando de alguma coisa, mesmo sabendo que ele fazia de propósito.
Shadow gostava do silencio calmamente e acolhedor de uma campina, apenas de admitir várias vezes para si mesmo que gostava do timbre da voz do ouriço, mesmo quando ele estava reclamando de coisas absolutamente absurdas, mesmo que ele só falasse aleatoriamente.
Ele gostava de ouvir sua voz, ver o sorriso em seu rosto, havia decorado cada um de seus sorrisos, dos olhos verdes sempre que ele estava excitado com alguma novidade ou apenas estava animado com a oportunidade de poderes correr por horas até que eles parassem em uma colina e apreciassem o pôr do sol, apertassem as mãos enquanto Sonic simplesmente deitava a cabeça em seu peito e dizia o quanto gostava desses momentos.
Apertou suavemente a mão que segurava ainda, seus dedos juntos em uma sensação tranquila de conforto e paz.
Nos momentos em que estava dormindo, ele já podia notar claras diferenças, os hematomas tinham suavizado o suficiente para parecessem que havia se passado semanas desde que ele o adquiriu e não apenas alguns poucos dias. Seus espinhos e pelagem parecia mais viva, mais brilhante, mais macia. Suas mãos formigaram com a vontade de poder tocá-los, mesmo que levemente, seu rosto tão sereno parecia para si um convite silencioso para que ele o tocasse, deslizasse os dedos por suas bochechas e contornasse com o polegar seus lábios.
— Você é teimoso demais, Faker. — A voz de Shadow saiu baixa, levemente rouca pelo sono, um meio sorriso deslizando por seus lábios bronzeados. — Não se entrega tão fácil, essa determinação é impressionante! — Seu polegar acariciava a mão que segurava delicadamente.
Não sabia porque estava falando com alguém que possivelmente não estaria o ouvindo, apenas sentiu vontade, impelido pelo fato de que ele parecia exatamente da mesma forma que sempre esteve, vivacidade exalava de seu corpo, como se sua presença fosse mais forte ali.
O cheiro que entrava pelas narinas de Shadow era claramente o cheiro que se lembrava, mais forte, mais tranquilizador, como se Sonic soubesse que ele precisava desesperadamente ser tranquilizado.
— Amanhã vou perguntar ao médico se posso trazer Tails aqui. — Falar o nome dele parecia incomum vindo dele, desde que já tinha se acostumado a se referir à ele como garoto e não pelo nome, assim como tinha se acostumado a chamar Sonic de Faker, desde que parecia que os mesmos não pareciam se importar muito.
Levantou as mãos com os dedos entrelaçados juntos, seu nariz aspirava o cheiro ao mesmo tempo em que ele suavemente beijava sua mão, apertou levemente antes de a colocar novamente na cama e se levantar da cadeira. Seus ossos estalaram, um som bastante audível, mas que Shadow simplesmente ignorou.
Ele não tinha o que fazer ali mais, certamente o médico que tinha o permitido entrar já não estava no plantão, nem ao menos sabia quanto tempo esteve dormindo ali, tão alheio ao tempo ao seu redor que não se deu conta que corria risco de expor a relação que ele e o ouriço azul tinham.
Suspirou com desanimo, sabendo muito bem que não podia mais perder tempo ali, mais cedo ou mais tarde uma enfermeira viria ou até mesmo o médico que era responsável. Com um último olhar sobre o corpo ‘adormecido’, ele sussurrou as palavras de comando para se tele portar, o tempo-espaço se distorcendo à sua vontade e fazendo com que seu corpo fosse envolto por uma energia luminosa amarela, quando ela se dissipou, ele não estava mais lá.
Como em um timing perfeito, a porta tinha sido aberta, uma jovem enfermeira entrava com uma nova bolsa e soro e uma seringa com analgésico, sua expressão levemente confusa, devido ao fato dela ter pensado ter ouvido algo, porém ao entrar e não encontrar nada, ela simplesmente interpretou se tratar de sua imaginação, esquecendo o evento, ela se aproximou para fazer os procedimentos necessários, admirada com a visão que tinha em sua frente.
Ela tinha acompanhado de perto todos os progressos do ouriço e se surpreendeu com o que encontrava ali, a imagem moribunda havia cedido espaço para um ouriço que parecia radiante demais para estar preso em uma cama de hospital e cheio de aparelhos e fios interligados ao seu redor, sua aparência era apenas de alguém que estava dormindo tranquilamente, a face serena, o peito em um suave e uniforme movimento de subir e descer, os hematomas que eram escuros demais para serem um enorme destaque em sua pele pálida demais, agora parecia simplesmente fantasmas em sua pele. Ele parecia ser capaz de abrir os olhos em qualquer momento e se levantar dali, sem mais e sem menos, sorrir para todos e depois sair correndo, como se não acabasse de sair de uma situação de quase morte.
Ela não sabia o quanto uma doação de sangue parecia mudar drasticamente uma realidade, nem ao menos tinha ciência que tem havia sido o generoso doador que cedeu de uma vez duas bolsas de sangue, o médico do turno do dia não tinha deixado claro que e nem a razão, só sabia que poderia ser alguém importante, talvez um dos amigos do ouriço que poderia ter feito isso simplesmente por generosidade.
Ela não fazia ciência do que acontecia, nem do que poderia esperar, ela era apenas uma funcionária do hospital, encarregada de medicar o ouriço para que seu estado não piorasse e não sofresse de dor, outros médicos vinham frequentemente lhe visitar, fazer exames, radiografias e entre outros que ela desconhecia por não acompanhar seu caso tão de perto assim.
Ela preferia manter a esperança de que ele logo se recuperaria, sendo uma das inúmeras fãs que trabalhavam no hospital, desejando ardentemente que seu ídolo melhorasse.
Ela não tinha palavras para descrever o tamanho de sua alegria e felicidade ao presenciar que, mais cedo ou mais tarde, Sonic estaria novamente apto para voltar às suas atividades sem qualquer impedimento, estaria de volta à ativa e salvando o mundo como sempre fez.
Com um sorriso no rosto ela correu para fazer suas funções, tomando todo o cuidado com cada item que ela usava.
Quando fechou a porta, para finalmente sair e dar seu trabalho como feito, nem ela e nem ninguém poderia ter visto porém, um breve e pequeno tremer de pálpebras, sutil e por uma única vez.
~
Reapareceu em uma sala escura, talvez não totalmente devido a luz que vinha da televisão, Tails estava diante o aparelho, sentado confortavelmente no sofá enquanto comia um balde de pipoca.
Ou pelo menos essa seria a ideia inicial desde que sua pipoca tinha voado pelo susto, sujando o sofá e caindo pelo chão em uma confusão de bolinhas brancas e salgadas, Shadow fez uma careta ao mesmo tempo que o garoto colocava a mão sobre seu peito, seu coração disparado.
— Não faça mais isso por Chaos! — Tails disse de forma assustada, seus olhos azuis cristalinos enquanto parecia ofegante, ignorando a pipoca que estava até em sua cabeça.
— Desculpe? — Ele levantou o olhar, olhando para Tails com uma expressão levemente cética.
O garoto suspirou, enquanto ele se levantava e ligava a luz, seus olhos passando entre a bagunça antes de olhar para ele com a expressão derrotada.
— Eu estava sem sono, tá legal? — Ele resmungou, enquanto pegava o controle e pausava o filme que estava assistindo, um suspiro de designação enquanto ia para cozinha e pegava uma vassoura e uma pá.
Ele sabia muito bem pelo tempo que conviveu junto do casal que Shadow tinha um TOC bastante acentuado para sujeira e bagunça, o que lhe fazia constantemente se questionar porque ele está em relacionamento com Sonic em primeiro lugar, desde que o ouriço raramente limpava o próprio quarto.
Ele sempre presenciava os ataques de raiva de Shadow para com o desleixo de Sonic, no qual acabava com o próprio ouriço negro limpando o quarto dele junto com ele, apesar de à contragosto, a sessão de limpeza acaba se estendendo para o resto casa no final, corredores, quarto de Tails e de hospedes, sala, cozinha, banheiro e até mesmo seu laboratório nunca esteve tão limpo.
Era engraçado ver cenas como essas, mas ele não podia julgar desde que ele convivia no passado com uma overlander tão doente que qualquer poeira poderia a matar, não era como se ele tivesse adquirido o TOC por querer, seu passado era responsável por isso, não ele.
Com um suspiro voltou à sala, encontrando Shadow retirando as almofadas e dando tapinhas nelas, tirando os farelos e sujeiras delas, sua mão retirava todos os restos de pipoca misturando com outros ‘lixos’, incluso algumas embalagens de salgadinhos que ele sabia que tinham sido colocados ali por Sonic, com preguiça de jogar no lixo.
Tails observava a tarefa de Shadow, até notar um pequeno e talvez ignorável detalhe, que talvez pudesse ser ignorado se não fosse seu conhecimento sobre o ouriço.
— Shadow... — Ele começou, meio incerto se deveria ou não continuar, no entanto assim que ganhou a atenção do ouriço, ele sabia que não havia outra saída a não ser concluir. — Suas luvas... — Ele disse em um tom de pergunta, embora ele não tenha terminado de dizer, ele não precisava.
Os olhos vermelhos baixaram para suas mãos, de repente surpreso que não havia notado que não estava com elas. Seu corpo se tornou tenso enquanto o garoto ouvia o rosário de xingamentos foram proferidos de seus lábios, se xingando tanto mentalmente quanto audivelmente.
— Deixei no hospital. — Disse irritado, enquanto seus olhos queimavam com raiva de si mesmo, como deixaria um detalhe como esse passar despercebido?
Tails não disse nada, não questionou ou fez qualquer comentário, ele sabia melhor do que ninguém que Shadow era um dos que mais estavam sofrendo, não que ele não estivesse preocupado com Sonic, mas ele tinha mais esperanças de uma melhora que o ouriço negro. Então não queria perturbar Shadow, compreendia que ele não estava verdadeiramente no seu melhor naquele momento e talvez demorasse a voltar como era antes.
Tratou de recolher todos os restos de sujeiras com a pá, suas caudas inquietas enquanto tentava ser rápido em sua tarefa, tomando o cuidado para não deixar nada para trás.
Voltou para a sala e pegou seu pote de pipocas, ainda tinha uma quantidade considerável de pipoca de microondas de sabor bacon, então deu de ombros suavemente enquanto se sentava novamente no sofá, depois de Shadow ter recolocado as almofadas, o ouriço negro suspirou e se sentou perto, enquanto cruzava os braços, ainda irritado com a falta de suas luvas.
— Que filme é? — Perguntou, mais por educação do que por interesse mesmo, ele tinha outra definição para entretenimento do que sentar diante da televisão e assistir um filme de animação onde uma overlander com poderes de gelo tinha que esconder suas habilidades.
— Frozen. — Ele murmurou com a boca cheia de pipoca, enquanto seus olhos olhavam para a tela. — Não olhe para mim, foi Knuckles que me emprestou, não sei porque. — Ele deu de ombros.
Shadow piscou, depois deu de ombros. Colocou os braços para trás e se acomodou no assento, tentando prestar atenção no que passava na tela, achava irritante todo o musical. Não era o tipo de filme que ele usualmente assistia, mas estava tão entediado que ele certamente assistia qualquer coisa.
— Amanhã vou pedir o médico para deixar com que você possa vê-lo, garoto. — Shadow disse, enquanto rolava os olhos para uma piada que ele não tinha encontrado graça.
— Obrigado. — Tails murmurou calorosamente enquanto colocava o pote de pipoca agora vazio na mesinha de centro, os olhos cansados, agora que o sono começava a cobrar de seu corpo.
Quando o filme estava em seu final, porém, o garoto já tinha se rendido ao sono, sua cabeça inconsciente pendeu para o peito de Shadow, se nenhum apoio.
O ouriço se surpreendeu com a ação, olhando para o garoto com surpresa ao mesmo tempo com ternura. Ele não culpava o garoto, estava apenas cansado demais para se dar conta que havia invadido seu espaço pessoal.
Ele suspirou, enquanto segurava o corpo adormecido nos seus braços e seguia para as escadas, entrando em seu quarto e o colocando na cama, acabando por o cobrir com a coberta, olhou levemente para o garoto, ele lhe lembrava Maria de todas as formas possíveis, sua teimosia, sua busca por independência e sua genialidade eram quase idênticas, se não fosse por ser mobian, ele podia simplesmente dizer que estava diante de uma versão masculina da garota que sempre adorou como uma grande irmã.
Suspirou enquanto fechava a porta e descia para as escadas, enquanto o filme já se encerrava, desligou o aparelho enquanto sentou novamente no sofá.
Amanhã seria outro dia.
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