Notas iniciais
Bem, chega de escrever "preciso recuperar o tempo perdido", já está bem claro que isso está sendo trabalhado. Então, bem, boa leitura.

Entrar novamente naquela sala pequena e clara, ver novamente a mesma face presa em uma expressão serena, estranhamente fazia com todo o estresse que passou sumisse, sua mente estava livre de pensamentos de morte.

Um suspiro abandonou seus lábios antes que ele se desse conta, suas pernas se apressando para alcançar a cadeira que havia sido posta ali unicamente para que ele pudesse se acomodar, embora ele não visse problemas em ficar em pé, parecia que os médicos que estavam ao seu redor pensavam o contrário ou, apenas queriam lhe agradar, temendo que o ouriço negro pudesse se irritar com eles.

Não importava, ele estava ali novamente, diante dele e presenciando uma significativa melhora desde os últimos 15 minutos em que esteve ali na última vez que o visitou, tinha sido mesmo ontem?

Sua pele pêssego que tinha recuperado o tom exato característicos, seus braços e mãos ainda estavam carregador de hematomas, mas estavam em um grau claramente menor, o tom roxo doentio tinha se suavizado em uma coloração vermelha clara.

Suas próprias mãos foram automaticamente para a dele, sentando-se na cadeira e a puxando para mais perto, o suficiente para que conseguisse colocar a mão pêssego espalmada eu sua face, o toque agora quente lhe trazia um conforto sem igual, sua própria mão tocou o rosto dele, a bochecha quente tinha um toque suave sobre suas mãos sem luvas, seus olhos vermelhos antes tão opacos e desprovidos de vida ganharam um brilho cristalino, poças de lágrimas de acumulavam nas bordas de seus grandes olhos, sua boca estava comprimida em uma linha fina, seus dentes trincados o suficiente para fazer seu maxilar doer.

Ele não sabia se tinha limite de tempo dessa vez, não sabia que o médico a qualquer momento irromperia a sala em desespero acreditando que Shadow era perigoso demais para ficar sozinho com um paciente em coma sem qualquer supervisão, ele precisava ficar atento a qualquer movimentação, mas não queria soltar a mão que estava em seu rosto, nem mesmo abandonar o calor das bochechas pêssegos, sabendo muito bem que ele era mais perigoso sem esse contato que com ele.

Todos esses anos em que ele passou em companhia de Sonic, ambos aprenderam com o tempo formas bastante efetivas para poder um acalmar o outro.

Sonic sabia, muitas vezes só dele permitir que Shadow pegasse sua mão, parecia o fazer se sentir melhor, tocar seu rosto, sorrir para ele, envolve-lo em um braço forte, puxá-lo para seu colo enquanto brincava com as orelhas negras inquietas eram formas que ele descobriu serem bastante eficazes.

Em contrapartida, Sonic por sua vez conseguia se acalmar com diversas atividades, ele não era complicado de distrair e entreter, para Shadow era divertido como o ouriço era bastante fácil de distrair, fácil de conviver, mesmo muitas vezes ele sendo impaciente e impulsivo, mas muitas vezes só desejava um momento em silencio para poder descansar sua mente, um abraço apertado, uma caricia leve, um beijo suave.

Ele acariciava a face serena com cuidado, movimentos leves e lentos, simples e ao mesmo tempo complexos, um nó se fazia em sua garganta, ele permanecia de dentes trincados, o medo de deixar um soluço irromper por seus lábios, mas já não podia dizer o mesmo de seus olhos, cada piscar que dava fazia com que as lágrimas ganhassem impulso o suficiente para que escorressem sem controle pela face bronzeada, contornando a mão em seu rosto e passando a escorrer pelo braço pêssego.

— Sonic... — Ele desistiu de impedir o choro, ele sentia que precisava disso, ele precisava aliviar seu peito de toda dor que havia deixado acumular, seu peito queimando de dor, seu coração esmagado parecia estar sendo cada vez mais comprimido por uma força invisível, corroendo suas entranhas e fazendo com que as emoções passassem por sua face sem qualquer muro protetor.

Estava exposto, estava fragilizado diante de alguém em um coma que ele não sabia se um dia iria acordar, sua insegurança para o destino do ouriço que tanta ama, seus medos de nunca mais ser possível ver de novo aqueles olhos esmeraldas que lhe cativavam e lhe deixava muitas vezes sem reação sempre que os encaravam.

A dor de pensar que talvez não os visse abrir os olhos era suficiente para lhe tirar o ar, ele nunca antes teve uma crise daquela forma, no entanto toda a aura assassina que tinha logo desapareceu, não parecia mais sair de si e espalhar pelos locais assustando qualquer um que o visse. O clima tinha mudado drasticamente para um carregador de tristeza de dor, onde o ouriço negro parecia estar tendo grande dificuldade para recuperar a compostura, perdido em sua bolha de sofrimento e auto ódio.

Ele deixou o rosto que segurava para limpar as próprias lágrimas, a sensação de calor ainda em sua palma, repousou a mão que estava em seu rosto de volta para a cama, ele parecia estar em um estado simplesmente deplorável, raras eram as vezes que ele se permitia ceder as lágrimas, apesar de ter suportado por tempo demais uma carga bastante pesada de dor por muito tempo.

Porém aquela não era a primeira vez que chorava na presença dele, embora aquela seja a primeira em que Sonic não estava consciente para lhe confortar. Segurar toda sua dor era algo que até mesmo ele era incapaz de fazer, principalmente porque mesmo que não quisesse admitir, nem mesmo para si mesmo, estava morrendo de medo do que poderia acontecer no futuro, não sabia o quanto seu sangue poderia mudar no ouriço, não sabia se ele permaneceria por muito tempo em seu sistema e nem se seria forte o suficiente para modificar seu material genético, a incerteza do que seu sangue poderia fazer lhe causava ondas poderosas de medos a fazer com que até mesmo se arrependesse de sua escolha.

Mas não queria deixar com que a oportunidade de salvá-lo escorresse por seus dedos, pelo contrário, ele gostaria de poder o salvar, mesmo não fazendo nenhuma ideia do que poderia esperar, sua mente estava confusa, suas mãos tremiam, entrelaçou seus dedos da mão direita, a mesma que estava em sua face, apertando os dedos juntos em um encaixe perfeito e delicado, como se as mãos tivessem sido feitas para estarem conectadas.

Toda sua onda forte de nervos fazia com que o cansaço tomasse conta de seu corpo, o calmante ainda o deixava sonolento, talvez tenha recebido uma dose bastante concentrada, mas não se importava, nada importava enquanto seus dedos estivessem conectados daquela forma.

Ele poderia lidar com tudo apenas de ter aqueles dedos juntos ao seu.

Sem que ele se desse conta acabou adormecendo, seus dedos nunca se separando.

Se dissesse que não estava aterrorizado, estaria mentindo. A sensação daquela energia poderosa ainda causava arrepios em sua coluna, seus olhos azuis estavam inquietos, preso em um enorme mar de horror, tinha receio do que poderia acontecer à um paciente sob seus cuidados, era arriscado, perigoso, ele não queria imaginar o quanto seu histórico estaria manchado caso entrasse naquela sala e encontrasse o ouriço azul morto, suas mãos se remexiam inquietas, seu corpo parecia desconfortável na cadeira, como se não conseguisse encontrar uma posição confortável, por mais que tentasse, o sentimento de ansiedade corria sua mente.

E se ele não estivesse mais respirando? E se... Ele não poderia sequer pensar em uma tragédia dessa magnitude acontecendo bem debaixo de seu bico, não podia ficar parado se remexendo em sua cadeira, tinha que fazer algo, só não sabia o que esse ‘algo’ significava exatamente, mas tinha que tentar.

Se levantou com determinação, engolido todo o medo que tinha e se colocando em uma posição determinada, ele era o médico, por tanto o ouriço negro era obrigado a seguir as suas ordens no ambiente hospitalar, não era ele que deveria se sentir intimidado quando na verdade ele tinha a voz e o poder ali, o ouriço negro era obrigado a lhe respeitar.

Mas ele estava tentando enganar? Mesmo que fosse médico, havia um sentimento maior que podia claramente interferir em suas tomadas de decisão, a autopreservação. Um sentimento bastante instintivo e forte em mobians, devido aos seus genes animais, ele sabia que Shadow conhecia isso, sabia como intimidar para conseguir o que, mas não conseguia entender porque ele teria que usar intimidação para conseguir acessar o quarto em que Sonic estava no momento, não entenderia porque logo ele, seu rival estaria vindo dia após dia, procurando notícias e exigindo o ver.

Sua mente não conseguia assimilar os eventos que estavam acontecendo, não podia simplesmente ignorar que pela sua visão algo parecia incerto.

Ele o visitava, procurava notícias, doou seu sangue, veio quando ele o chamou, quase como se estivesse esperando por ele.

Ele sabia que Shadow podia invadir o hospital se ele quisesse, até mesmo escalar pelo lado de fora até chegar onde queria, se teleportar até seu quarto ou simplesmente usar os elevadores.

Não entendia porque Shadow pedia sua permissão, sendo que ele poderia simplesmente entrar à força, não havia ninguém que ousaria se interpor entre ele e o quarto, então... Por quê?

Parecia algo estranho vindo de si, sabendo muito bem pelas notícias e pelo que via de longe que Shadow era de longe alguém que precisava de permissões para fazer algo que queria, independente do que seja.

Ele se questionava enquanto quase corria pelos corredores, recebendo alguns olhares estranhos por onde passava, alguns surpresos e outros olhando curiosos, se perguntando porque ele parecia ter tanta pressa. A razão pela qual ele parecia desesperado, como se temesse que algo ruim pudesse acontecer, como se o destino estivesse em sua mão.

Ofegante ele chegou finalmente na ala de terapia intensiva, os olhos correndo pela sala em um medo desesperado, mas ele não conseguia sentir aquela mesma aura de antes como se toda fonte de seu pavor aterrorizante tivesse simplesmente evaporado, sem deixar quaisquer pistas de que alguma vez já existiu.

Confusão estava estampada em sua expressão, fazendo com que ele se sentisse completamente desnorteado.

Ele finalmente tinha saído do hospital? Mas e Sonic? Como o ouriço estava? Estaria ele ainda respirando?

Suas mãos fecharam-se em punhos fortes, seus passos mais decididos e firmes, agora que não sentia a aura aterrorizante impedindo seus pensamentos e suas ações, ele precisava averiguar para ter certeza de que tudo estava bem e dentro dos conformes, precisava ter a confirmação definitiva de que o que o havia passado naquele dia já havia passado e que somente era uma lembrança infeliz.

Seus dedos estavam trêmulos ao tocar na maçaneta da porta, uma tensão inexplicável pairando no ar enquanto ele prendia a respiração, sem nem ao menos saber o que esperar.

Já havia se passado tempo demais desde que Shadow entrou, já tinha se passado umas boas 3 horas, ele esperava que o ouriço fosse no seu consultório, assim como fez no dia anterior para ao menos demonstrar que estava saindo, no entanto a falta de notícias e/ou qualquer sinal o perturbava.

Girou o material gélido com lentidão, ela fez um barulho baixo enquanto a porta lentamente abria e ele tinha a visão do seu interior.

Não.

Não era o corpo rasgado em uma poça de sangue que ele esperava encontrar.

Pelo contrário, ele estava perfeitamente vivo e repousado na cama, os olhos fechados, a expressão tão tranquila que ele se surpreendeu, sentado próximo ao ouriço estava Shadow, a cabeça baixa, as orelhas pontudas meio caídas, no entanto ainda em alerta, o corpo tenso, mesmo que visivelmente estivesse dormindo.

Não sentia a mesma ameaça que sentiu antes, parecia que ele era apenas inofensivo enquanto estava no mundo dos sonhos, pelo que podia ver, depois que ele adentrou na sala, era que ele parecia tranquilo, mesmo que sua musculatura demonstrasse justamente o contrário.

Viu com surpresa as mãos deles se entrelaçarem, os dedos relaxados, mas não parecia que as mãos iriam se separar tão facilmente.

Confusão deu lugar para surpresa e depois compreensão.

Era óbvio para si agora o que estava acontecendo, claro e cristalino como água.

Seus olhos azuis se suavizaram, não sentiu nojo, não sentiu repulsa. Naquele momento, ao presenciar um toque tão suave e calmo, ele só poderia sentir alivio.

Parecia que tinha julgado o ouriço rápido demais, preso em seus próprios preconceitos para com ele, sobre tudo o que ouviu ser dito pelas manchetes sensacionalistas. Naquele momento parecia que tudo que ele acreditava ser verdadeiro sobre a índole do ouriço parecia apenas mentiras descabidas.

Presenciar a forma como o rosto dele demonstrava uma tranquilidade imensa, fazia com que todo o medo e favor que sentiu ao estar em sua presença fosse efetivamente esquecido. Não importava mais, estava para sempre no passado.

De certa forma entendia-o, como se naquele momento ele pudesse entender porque Shadow estava sustentando aquela aura aterrorizante, porque ele parecia não se importar, mesmo que ele retornasse dia após dia e ficasse por algum tempo naquela sala, nunca falando sobre sua razão e motivação de estar ali.

Foi como se uma luz tivesse sido acessa em sua mente, clareando seus pensamentos e tornando alguns fatos fáceis de compreender.

Ele sorriu. Não um sorriso mal, ameaçador, mas um de compreensão e respeito.

Shadow carregava pesos demais, responsabilidades demais, culpas demais.

Agora ele entendia.

Notas finais
Acaso houver quaisquer erros, por gentileza me avisem. Comentem caso sintam o interesse, gosto de saber o que pensam da história. Até~ by: ShadowShirami