Lost In Paradise
41 Winchester
Notas iniciais

A mistura de cheiros entre o asfalto, grama e madeira molhados a relaxava cada vez que aspirava mais fundo. Seus cabelos negros e lisos, antes encharcados, calmamente se secavam naturalmente. O vento era fraco e não a incomodava, na verdade gostava quando o clima ficava assim, tudo ficava tão calmo à sua volta e a facilitava para colocar as idéias no lugar. Havia tanto o que pensar, Tsuki sabia disso. Mas sua mente não parou um minuto desde que se afastou das pessoas que ama.
O novo mundo que Kira tanto aspira ter só existia na mente dele... E não podia se dar ao luxo de acreditar que Raito estava tendo boas intenções com aquilo e ter pena dele, se tivesse, ele não teria começado a combater fogo com fogo matando criminosos, ele sentia prazer em matar, caso contrário jamais usaria o ataque cardíaco pra ser a marca dele como Kira, ele gostavade ser reconhecido, de ter a vasta sensação de controle. Ele brincou com vidas humanas sem culpa alguma acreditando estar fazendo o certo, quando na verdade, ao matar um assassino ele também se tornava um, o número de criminosos no mundo jamais será reduzido assim. E o pior era que, de alguma forma, Raito não notara que estava sendo uma mera ferramenta de um shinigami que precisava de um humano aleatório que o tirasse do tédio, mudando completamente o andamento da sociedade atual, tanto japonesa quanto do restante do mundo que se afetou inteiramente com a onda de assassinatos.
Mas estava pensando demais, o objetivo ali era outro, não? Estava esperando Tatsuo — bem distante dos comércios da cidade, por sinal. Pelo o que ele descreveu era possível que tenha encontrado o Death Note, mas assim, do nada? Tão fácil de ser encontrado até mesmo por um estudante qualquer? Independente da falta de esforços de quem escondeu o caderno, Tatsuo ficou nervoso em falar com ela pelo telefone depois de tudo o que aconteceu, ele era o tipo de pessoa que quando está ansiosa deixa informações escaparem, a depois de certa insistência, conseguiu convencê-lo a encontrá-la.
Ele deve estar bem nervoso agora... Mas iria confiar nele pra isso.
Esteve pensando se Ryuzaki havia espalhado câmeras pelos pontos principais da cidade, no caso, era provável que mesmo usando tantas roupas e acessórios pra passar despercebida, ele acabasse a notando. Mais do que nunca era importante que ela encontrasse um jeito de sair da cidade, Beyond tinha providenciado documentos e passaportes falsos, e deixou claro que só nisso pretendia ajudar, o resto seria com ela. Pra ele ter ficado disposto a ajudá-la, já era por egoísmo, não tinha como provar, mas era pressentimento de que ele ficar sozinho do Japão era pra arquitetar algum plano dele que ela não possa impedir à distância. Também ponderou se ele tinha a intenção de repetir o que fez anos atrás: criar um crime que L fosse incapaz de resolver. Se fosse, tinha suas dúvidas se era pra isso ou não que ele queria ajudar a pegar o Death Note. Vai saber...
As madeixas loiras e brilhantes passaram em sua frente, sem se dar conta de que ela estava encostada na parede daquela banca de revistas abandonada. A garota foi atrás dele, tampando-a a boca, era melhor se afastarem logo antes de outras pessoas chegarem perto daquele ambiente.
— Tatsuo, venha comigo. Não se preocupe, sou eu... — avisou para não deixá-lo alarmado, e logo ele reconheceu sua voz e fez uma confirmação com a cabeça, fazendo-a tirar a mão de sua boca e segurar a manga de sua blusa o arrastando para um lugar ainda mais reservado. Ela estava tomando cuidado mesmo, como ele imaginou. — Que bom que veio, por um momento achei que você iria furar comigo — sorriu calmamente de lado.
— Eu não iria fazer isso com você... Mas sabe o que penso sobre isso né?
— É, sei que você não concorda com o que estou fazendo.
— Não é isso... Você nem me fala direito o que está fazendo, não sei se está fazendo o certo ou errado, por isso me sinto culpado fazendo isso. Você deveria confiar em mim, certo? Eu também queria confiar completamente em você, mas você está fugindo... E eu não sei porquê você faria isso. Estão te ameaçando?
— Eu lamento por colocá-lo nessa situação. Quer realmente saber o que pode acontecer daqui pra frente?
— O que "pode" acontecer?
— Sim. O resultado de tudo isso que eu comecei.
— Hum...? Diga.
— Posso acabar morta, ou acabar matando um certo alguém — falou séria, fazendo-o arregalar os olhos. Não parecia estar brincando... Mas por que ela faria isso? Uma jovem como ela... Só pode ser brincadeira, não têm como acreditar no que ela diz. — São duas opções ótimas, não são? — sorriu forçado, com uma leve ironia. — Mas isso é só a última das últimas opções... Eu espero.
— Do que está falando?
— Na hora certa você saberá.
Saberei mesmo?
—Tatsuo — parou de caminhar, olhando em volta para saber se estavam em uma área segura.
— Sim?
— O caderno.
— Ah, sim — tirou calmamente a mochila de suas costas, abrindo-a com a mesma paciência, finalmente tirando o caderno negro dela e estendendo seu braço para a garota apanhá-lo.
— Obrigada — o segurou. Na aparência, com certeza dava pra julgar como o Death Note. Mas não tinha visto nenhum shinigami... Ou Ryuuku, caso o caderno em questão seja mesmo dele. Mas não dava só com isso dizer que era falso, precisaria passar alguns dias com o caderno para tirar suas dúvidas, não que fosse matar alguém para testá-lo, iria apenas esperar o shinigami dono do caderno aparecer. E se o caderno for falso mesmo, seria quase uma tentativa do Raito de nos fazer procurar um pouquinho mais pelo verdadeiro... Não tem problema. Estava ciente disso, e também preparada — Precisarei ficar com isso, Tatsuo...
— Olha eu não tenho interesse algum nesse caderno, nem sei pro que serve, e assim como você me pediu, eu sequer o abri. Mas não entendo o que quer com ele. Quero saber...
— Tatsuo, você se preocupa muito com a Misa né? E talvez comigo?
— É claro... Óbvio que me importo com vocês! Eu não estaria aqui se não me importasse... — suspirou.
— Confie em mim. Eu juro que estou fazendo isso para proteger Misa e...
— O tal Ryuzaki?
— Sim.
— Imaginei...
— Como eu disse, estou fazendo isso para protegê-los, para o bem deles, e quem sabe dos outros policiais, e dos envolvidos em geral. Por isso estou me arriscando tanto, eu quero que essas pessoas deitem a noite e durmam tranquilas sem temer suas vidas. Eu sei que você não tem motivos para confiar em mim... Mas peço que faça algo por mim antes de eu ir embora.
— Embora? Vai sair da cidade?
— Do país, possivelmente. Mas eu voltarei em breve, não se preocupe.
— Mas... O quê?!
— Já falei demais. Olha, Tatsuo... Já pedi para que confiasse em mim, não irei repetir de novo, embora entenda os motivos para você não confiar, de verdade. Mas como disse, preciso pedir para fazer algo por mim, uma última coisa, eu prometo.
— Não sei se posso fazer... Mas diga.
— Diga para Ryuzaki que me viu.
— Mas... Isso não facilita você ser pega? Vão chamar a polícia ou algo assim!
— Não se preocupe com isso. Quando contar para ele... Faça uma chantagem.
— C-Chantagem?
— Isso. Ryuzaki tem ótimos contatos de detetives particulares que poderão encontrar sua mãe e sua irmã pra você, fale que em troca das informações que tem do meu paradeiro, você quer ajuda nisso. Eu sei que já faz tempo que você quer vê-las e não consegue, e sei que Ryuzaki consegue te ajudar com isso.
— Tsuki... Isso não é um favor que me pede... Está fazendo isso pra me agradecer, certo? Eu... Não quero que você se arrisque desse jeito... Mesmo que seja pra me ajudar assim... Mas sou muito grato por isso, ninguém se colocou em risco assim pra me ajudar.
— Isso tudo foi um risco antes mesmo de você me conhecer, Tatsuo. Fique em paz — sorriu o tranquilizando. — Ficarei bem, prometo.
Ou pelo menos estarei bem até certo ponto...
— Acha... Que vai dar certo?
— Você terá que ser insistente com Ryuzaki, mas se explicar sua versão, ele será um homem justo... Irá te ajudar com isso, eu o conheço, tem um coração bom.
— Mas se for pra contar que te vi, terei que dizer o objetivo desse encontro?
— É nessa parte que preciso que faça um favor pra mim, o que mencionei antes é o que posso te retribuir por ter vindo aqui e confiado em mim. O verdadeiro favor é que quero que minta dizendo que eu te abordei quando estava voltando pra casa e te entreguei isso — colocou a mão em seu bolso fuçando-o até sentir o pequeno colar que insistia em escapar de seus dedos, entregando-o para Tatsuo. Era simples e acinzentado, o único detalhe era uma pequena pedrinha que formava a imagem do que parecia ser uma morte; o clichê de uma criatura toda vestida de preto com uma foice. — Diga ao Ryuzaki que eu mandei isso a ele... Tente ser convincente...
Ele com certeza ficará desconfiado, mas Tsuki não se preocupava tanto com isso, já sabia que Tatsuo não seria tão bom mentindo, mas não queria ignorar a ideia de fazer L pensar nela e tentar descobrir suas reais intenções antes de fazer sua viagem, ficando ainda mais distante dele. Queria mandar pequenas mensagens para ele indiretamente, mesmo que sua vontade fosse largar tudo e voltar apenas para abraçá-lo e sentir o gosto agridoce em seus lábios que tanto gostava. Pessoas magníficas como ele raramente eram admiradas pelas pessoas à volta, apenas no anonimato L tinha seu respeito por líderes mundiais, fora dele, as pessoas o enxergavam como um estranho; um gênio perdido. Mas Tsuki sabia que tinha visto através disso, o verdadeiro L, Ryuzaki, Hideki Ryuga... Simplesmente porque ele era Lawliet, a mente mais brilhante que ela já teve o prazer de conhecer. E ele merecia continuar vivo, fazendo o bem que tanto faz ao mundo.
Sorriu serenamente se virando, Tatsuo encarou um pouco perdido, ainda absorvendo tudo o que tinha acontecido, não era surpresa ele estar tão confuso e preocupado, era uma situação de difícil entendimento.
— Cuide da Misa. Você é o único que pode dar o apoio e amor pra ela agora — Misa só havia criado um laço com Raito a partir do momento que descobriu que ele era mais do que Kira, mas o homem que puniu os assassinos de seus pais. A beleza dele também deve ter influenciado... Mas nenhum amor saudável nasce da manipulação que ele fez com ela esse tempo todo, ela se recusava acreditar que Misa de fato o amasse. — Eu acredito de verdade que um dia... Ela o amará de volta, Tatsuo. Não desista.
— Eu nem pensei nessa possibilidade.
✿✿✿
Os fios pretos e molhados foram rapidamente cobertos por uma toalha, passando-a por sua cabeça até tirar o excesso de água de seu cabelo desalinhado. A mesma toalha foi colocada em volta de sua nuca até que terminasse de se vestir. Não havia se secado por completo quando terminou de colocar sua camisa branca costumeira, e assim que abriu a porta do banheiro sentiu um frio gelado pousar em seu corpo, o que não o incomodou na verdade.
Para sua surpresa, viu Amane de braços cruzados o esperando perto da porta de seu quarto.
— Não te ensinaram a bater na porta? — seu tom cansado indagou assim que pousou seus olhos na expressão irritada da modelo. — Sabe que odeio que invadam meu espaço.
— Eu vim falar com você.
— É, percebi — retrucou calmo. — Por que não está pegando no pé do Raito como de costume?
— Eu não vim falar do Raito — repreendeu firmemente. Era novidade ver ela agir mais seriamente, mas algo nela estava alterado, mais pro lado sensível do que o da raiva.
— O que quer, Amane? Se for sobre te deixar sair, já disse, não posso autorizar que você e Raito saiam do QG enquanto forem meus principais suspeitos.
— Também não é isso! — Misa pressionou seus punhos com rigidez, cerrando os dentes e abaixando seu rosto. — Você não entende?! Já faz tanto tempo que não temos notícias da Tsuki... Por que... Por que você não está investigando? Por que não está a procurando agora? — algumas lágrimas ligeiramente começaram a descer por seus cílios, aflita. Era normal para L testemunhar um culpado chorando, mas raramente se deparava com um choro sincero transbordando naturalmente simplesmente pela falta de um próximo. Amane pode ser culpada, mas era uma garota controlável, Raito ter usado sua dor para fazer com que ela o ajudasse, não era surpresa, sinceramente, a ideia já tinha passado por sua mente outras vezes, mas não a tirava a culpa. — Meus pais... Minha amiga... O que mais podem tirar de mim? — passou a mão por seu rosto, tentando limpá-lo.
— Acalme-se, Amane.
— Você desconfia dela? — perguntou, levantando o rosto para fitá-lo. — Quero que seja sincero.
L suspirou profundamente, essa era uma pergunta que embora já tivesse respondido antes, nunca estava preparado para voltar a responder.
— Sim.
— Seu idiota! — pressionou as mãos contra o peito do detetive, empurrando-o contra a cama. — Depois de tudo o que ela fez por você?! Ela foi de grande ajuda pro caso Kira, não foi? Como suspeita dela? Ela admirava você!
— Eu já pedi pra você se acalmar — segurou o pulso dela afastando-a. — Eu não tenho escolha. Embora eu nunca tenha a visto como culpada, e ainda não consiga acreditar que ela seja, ela fugiu em meio a uma investigação de assassinatos depois de tudo o que presenciou, e eu sequer sei como e com quem ela fugiu. Os outros policiais trabalham com evidências, querendo ou não, aponta-se que ela é suspeita, ou que foi simplesmente sequestrada, o que é mais plausível ao meu ver, mas em todo o caso, eu queria tanto quanto você encontrá-la. Acha que é a única que sente falta da Tsuki? Pois eu também... Queria que ela estivesse aqui — admitiu, logo se arrependendo por deixar seus pensamentos escaparem tão fácil de si, mudando de assunto: — Seja como for, não cobre de mim o que já estou cobrando de mim mesmo. Sai do meu quarto.
— Você... A ama?
Misa deu um passo para trás, estava surpresa por ter ouvido aquilo, Ryuzaki nunca pareceu ser tão franco com ela quanto agora. Ele estava realmente falando sério?
— Ryuzaki — Watari se pronunciou após uma leve batida contra a porta, impedindo que ele respondesse a pergunta anterior de Amane.
— Sim, Watari?
— O jovem Tatsuo está na portaria, diz que tem algo para tratar diretamente com você.
Com o Ryuzaki? , Misa questionou mentalmente na mesma hora.
— Isso é inesperado. Ele não falou mesmo sobre o que se trata? Nem preferiu deixar recado como nas outras vezes?
— Não.
— Certo. Já estou descendo. Obrigado, Watari — encarou Misa de lado. — É melhor eu tratar disso sozinho.
— De jeito nenhum, eu vou também.
— Não insista, Amane. Ele solicitou a minha presença, não a sua.
— Mas!
— Depois eu o convidarei para subir e conversar com você, mas deixe isso comigo. Deve ser importante, ou pelo menos eu espero que ele não esteja tomando meu tempo atoa.
— Hum... Tá! — cruzou os braços ainda emburrada. — Mas sobre nossa conversa agora a pouco...
— Eu já falei tudo o que tinha para falar — saiu batendo a porta sem delicadeza.
Todo esse assunto de Tsuki ser ou não culpada o deixava bambo, só de pensar que ela poderia ser a culpada e acabaria sendo executada pelos crimes que os outros policiais da força tarefa acreditam que ela fez, todas as suas estruturas e esforços para jamais demonstrar seu lado sentimental desmoronavam como um prédio antigo sendo atingido por uma bola de demolição. Mas que bela comparação. Nunca se sentiu tão derrotado em toda sua vida, quanto agora que sabia que amava uma mulher que poderia ser punida por suas próprias mãos. Essa era a parte mais cruel em ser a justiça; embora doesse, embora o assustasse... Não havia como impedir, o senso comum de justiça, gostando ou não de alguém, sempre esteve em seus genes.
Após pegar o elevador e tentar se distrair fazendo cálculos aleatórios — que por incrível que pareça o relaxava tanto quanto empilhar coisas quando estava com a mente desorganizada, de alguma forma ajudando-a a organizar seus pensamentos —, chegou até a portaria, sendo recebido pelo sorriso do loiro.
Com as mãos no bolso e sua falta de postura diária, se aproximou já com expressão de poucos amigos.
— Queria falar comigo?
— Boa tarde, Ryuzaki — cumprimentou simpático como sempre.
— Boa tarde.
— Então... — começou, sem jeito com o olhar analítico de Ryuzaki fixado em si. — Talvez pareça mentira da minha parte, mas o que vou dizer é verdade...
— Entendo. Diga logo então, tenho muito o que fazer por aqui.
— Eu me encontrei com a Tsuki...
— Do que está falando?
— Fui abordado quando estava voltando pra casa, não esperava que fosse ela porque estava bem diferente mas... Ela me falou algumas coisas aleatórias, e principalmente, me pediu para te entregar isso — pegou o colar entregando para Ryuzaki, que segurou entre o dedão e o dedo indicador, olhando fixamente. —Ela estava sozinha e não quis tocar no assunto de como desapareceu daquele jeito...
— É sério mesmo? — é, não havia motivos para Tatsuo arranjar uma mentira tão cabeluda quanto aquela. Mas não parecia ter um objetivo de Tsuki o enviar aquilo, apesar de que aquela imagem da morte parecia uma referência aos deuses da morte que o lembrou que Kira citava coisas parecidas em cartas de suicídios de suas vítimas. Havia 70% de chances de isso ter uma ligação. Mas não tinha tanto cabimento, ela estava tentando reforçar o que Kira disse nas cartas, ou querendo que ele estudasse sobre deuses da morte por algum motivo desconhecido? — Muito obrigado, Tatsuo. Apesar disso ser inesperado e você não ter falado muito, não parece estar mentindo na parte de ter a encontrado. Me alivia muito saber que ela está bem.
Um “obrigado” não era algo que ele esperava vindo de Ryuzaki, de alguma forma aquilo tinha o empolgado, será que Ryuzaki percebeu algo que ele não? Ou será que acabou deixando algo escapar? Esperava que não! Tsuki confiou nele, só falta ter dado uma de bobo!
— Mas precisarei de mais detalhes — L continuou. — Gostaria que entrasse e me contasse calmamente tudo sobre o dia em que isso ocorreu.
— Hã... Claro, mas...
— Qual o problema? — encarou.
— Estarei disposto a apresentar minha versão, mas gostaria de algo em troca...
— O quê?
— Preciso de algum detetive particular para me ajudar a encontrar minha mãe e irmã... Já faz um tempo que não as vejo, mas os detetives que contatei para me ajudar a descobrir suas localizações atuais, falharam. Então... Fiquei sabendo que você tem bons contatos e pode ser de grande auxílio.
Ele com certeza não sabia que Ryuzaki era detetive, mas sabia que ele tinha contato com o trabalho de detetive, provavelmente informação que Tsuki o forneceu, ou seja, a conversa deles não foi tão aleatória e breve quanto ele tentou parecer, ela passou informações bem sugestivas pra ele, isso alimentou a curiosidade de Lawliet.
Colocando o dedo entre os dentes, abriu um sorriso satisfeito.
— Tudo bem, se me explicar a situação de suas parentes, ajudarei com o que tiver ao meu alcance para encontrá-las. Mas terei que ter mais informações sobre seu encontro com ela, se assim fizer, terá sua recompensa.
— É sério? — sorriu empolgado. — Muito obrigado, Ryuzaki! Isso me deixa muito feliz.
— Deixe para me agradecer depois, agora, por favor, queira entrar para conversarmos melhor.
Aquele sim seria um interrogatório interessante...
✿✿✿
Winchester, Inglaterra
Mello estava deitado na cama, a moleza de seu corpo ainda não tinha o deixado, e a cama sempre ficava mais confortável logo de manhãzinha. Encarou o teto por um tempo até tomar coragem para levantar, esfregando seus olhos. Como sempre, já acordava de mau humor, e no mesmo momento, pegou um de seus travesseiros lançou em Matt, seu colega de quarto, que dormia um tanto relaxado pro horário padrão em que deviam se levantar na rotina de estudo no orfanato.
— Levanta, Matt — avisou, rabugento. Seu colega simplesmente suspirou pesado e afundou seu rosto no travesseiro, ainda sem coragem pra levantar.
Embora na maioria das vezes fosse contra algumas regras do orfanato, ele não ia contra a rotina, e nem se atrasava pras aulas, na verdade era até um garoto estudioso, às vezes, claro. Mas de qualquer jeito, não é um orfanato comum, alguns podem considerá-lo um orfanato "especial", apesar de todos os contras. Wammy's House, entre tantos orfanatos fundados por Quillsh Wammy, nada mais é, do que um centro de treinamento para crianças superdotadas, com ensino superior e também com o objetivo de uma das crianças ser um futuro sucessor de L, o maior detetive do mundo, e também a maior fonte de inspiração da maioria dos órfãos que frequentam esse lugar. Com Mello não era diferente, era extremamente grato ao L, e com certeza ser seu sucessor seria uma honra, mesmo com Near — um dos superdotados mais talentosos atualmente no orfanato — em seu caminho e todas as suas disputinhas para ver quem possuía o QI mais elevado. Não satisfeito em sair em segundo lugar, Mello se dedica mais do que a maioria ali quando realmente queria, até mais do que o próprio Near, apesar do desempenho do albino por alguma razão ainda sair melhor.
Encarou a decoração do quarto enquanto se despreguiçava; o veludo revestia as paredes em tons de marrom variados e poucas estampas, a lâmpada agora acessa balançou no momento em que foi acessa, o tapete elegante e fofo trouxe conforto aos seus pés quando nele foi pisado. Era um luxo que jamais teve antes do orfanato, mas claro que todas as boas condições em que viviam tinham seus preços. A maioria dos órfãos se sentiam muito pressionados com o objetivo do orfanato, isso fazia mal a muitos, embora Mello não visse como obrigação nada daquilo que treinava ali.
— Matt, foi você que deixou essa caixa jogada aqui? Sabe que odeio quando deixa as coisas bagunçadas — reclamou, já elevando um pouco seu tom de voz. Por ironia do destino ele nem era tão organizado, mas detestava quando outras pessoas bagunçavam em seu espaço.
Parecia uma caixa de presente, mas não tinha nenhum papel bonitinho ou coisa do tipo, por que Matt deixou aquilo jogado daquele jeito?
— Que caixa, Mello? Ficou louco? — resmungou virando-se de costas pro garoto, ainda sonolento. — Eu não mexi em nada no quarto desde ontem à noite.
— É sério?
— Sim, sim. Me deixa dormir vai — pediu calmamente. Ele sempre enrolava na hora de acordar. Nem parecia ser um aluno tão bom quanto era, e nem um gênio em computação.
— Devem ter deixado isso pra mim então — deu de ombros, abrindo a caixa e encontrando uma barra de chocolate com um bilhete em cima.
“Mihael Keehl, me encontre no parque em frente ao orfanato. É importante.
Espero-lhe às 07h12min em ponto, por favor, não se atrase.
Ps: terá mais chocolate, se tiver interesse. “
O que era aquilo?! Só havia alguém além de Quillsh, Roger — um dos diretores do orfanato — e o próprio L que sabia seu verdadeiro nome... Beyond Birthday! Lembrava que na pouca convivência que teve com ele no orfanato, ele o chamava por seu verdadeiro nome para provocá-lo. Mas já não haviam dito que ele estava morto? Como poderia ser ele? Ou era o próprio L? Talvez fosse uma armadilha, vai saber! Outra pessoa poderia ter acesso a essas coisas, mas por que mandaria diretamente pra ele?
Agora queria conferir.
Apressou-se no banho, escovou seus dentes e se vestiu sem muito capricho já pensando em resolver essa questão, ansioso como sempre. Pegou uma barra de chocolate que já tinha guardada na segunda caveta na mesinha ao lado da cama — por sinal, Beyond também sabia de seu vício por chocolate, e quem citou isso na carta provavelmente tratou como deboche — e caminhou normalmente até o corredor dos meninos, após chamar a atenção de Matt mais uma vez para se levantar (nem se importava tanto mais, porém, a convivência entre os dois fazia essas cenas serem bem comuns, principalmente briguinhas bobas entre os dois superdotados).
Saiu pelo portão do orfanato sem avisos, normalmente o certo era avisar a Roger como todos os alunos faziam, mas Mello não ligava, já tinha saído outras vezes e só levou uma bronca ou outra, um castigo ali outro aqui, nada que já não tivesse se acostumado.
Era estranho, por que alguém suspeito iria marcar um encontro tão perto do orfanato? Era arriscado ir até lá, sabia disso, mas seu orgulho era muito grande pra avisar a algum colega ou inspetor do orfanato para ajudá-lo, não iria pagar de covarde.
Mesmo assim... O que essa pessoa queria? Foi apenas ele que foi chamado ali? Essas dúvidas não paravam de borbulhar em sua mente enquanto atravessava a rua e caminhava pelo parque dando uma boa analisada a sua volta.
— Bom dia, Mihael — a voz feminina surgiu de trás da árvore que tinha logo a sua esquerda, Mello parou no mesmo instante, curioso. E aos poucos a figura saiu de trás da mesma, havia um sorriso cansado, porém ainda bonito, em seus lábios. Seus olhos estavam avermelhados em volta, pareciam tristes, porém era provavelmente o olhar mais determinado que ele já tinha visto. Obviamente não era Beyond e nenhum outro conhecido, e nem tinha indícios de ter alguém que ele reconhecesse por perto, estava sozinho com uma desconhecida que sabia seu verdadeiro nome... Mas... Quem é e de onde surgiu essa mulher? — Eu tenho uma proposta para lhe fazer.
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