Lost In Paradise
42 Estratégia
Notas iniciais

Yagami mantinha seu foco na tela do computador; a qual, juntamente com as outras telas ligadas, era a pouca iluminação que tinha. O sol logo iria nascer, e sua atenção no trabalho foi tanta que só notou isso ao olhar no relógio, mais uma vez percebendo que havia passado mais uma noite acordado. O jovem fechou as pálpebras e soltou um suspiro cansado, encostando seu corpo relaxadamente na cadeira. Parece que ele e Ryuzaki eram os únicos realmente focados em continuar a investigar a Yotsuba, os outros investigadores estavam cegos com a ideia de Tsuki ser uma atual suspeita, até porque para Soichiro, mesmo simpatizando com a garota, era mais fácil crer que ela era Kira, do que o próprio filho. Era muita tolice eles seguirem essa linha de raciocínio. Seria muito mais inteligente da parte dela se fosse o Kira continuar ali sem levantar suspeitas e continuar vendo o andamento da investigação e descobrindo mais sobre L, já que obviamente, Kira deve ter urgência em eliminá-lo. Não, ela não seria tão idiota de se tornar uma fugitiva assim, o que leva a crer que está com outros planos, mas ainda voltados ao caso Kira. No raciocínio lógico... Ou melhor, na prática, quando aceitamos a culpa sem sermos verdadeiramente os culpados, há duas opções: você se convenceu de que não há como ir contra as provas do acusador e para diminuir a punição se dá por vencido, ou faz isso por alguém pela segurança dessa pessoa e/ou simplesmente a sua própria até encontrar um jeito melhor de sair da situação. Existem outras opções, é claro, mas nesse caso, a possibilidades de ser a segunda opção é bem forte, mas ela fugir ainda dificultaria seu plano, ela deve saber bem mais sobre Kira do que apresentou até aqui, mas suportou mesmo assim aquelas torturas que ele e Misa também foram submetidos só pra manter isso a salvo? Ah, claro... Misa também estava entre os protegidos de Tsuki. Mas será que ela planeja...
— Bom dia, Raito — Ryuzaki manifestou-se fazendo com que o garoto, tão distraído em seus pensamentos, se afastasse da cadeira com o susto.
— Ryuzaki, há quanto tempo está aí? — respirou fundo, se recompondo.
— Desculpe, não queria assustar você.
— Estava me vigiando de novo? Já disse que isso não é necessário. Ainda acha que sou o culpado mesmo investigando os membros da Yotsuba? Você não disse que tinha quase certeza que o Kira estava entre eles?
Alterado com esse assunto como sempre...
— Não me entenda mal, eu também disse que os princípios desse Kira não são o mesmo do original, e que provavelmente, o poder do Kira pode passar de pessoa pra pessoa.
Raito suspirou.
— Entendi... E você ainda acho que eu, o “Kira original”, estou planejando ter esse poder de volta.
— Exato. Embora acredite que você não se lembra dos crimes que cometeu como Kira, se existisse a possibilidade de você estar fingindo não se lembrar, observar seu interesse na Yotsuba e no poder do atual Kira pode me ser útil.
— É... Imaginei que você não iria abrir espaço para nenhum deslize — admitiu sentindo seu estômago revirar. Odiava quando o detetive falava tão firmemente de sua suspeita sobre ele, mas não queria sair nos socos com ele novamente, seria repetitivo, e não iria ajudar em nada e nem diminuir as suspeitas que ele tem em cima de si. Pensando bem, no lugar dele, faria a mesma coisa. — Mas mudando de assunto...
— Descobriu alguma coisa?
— Não, eu acho. Só estive pensando em uma coisa... Se Tsuki ainda tem interesse no caso Kira, é bem possível que ela tente aproximação com o grupo da Yotsuba. Acha que isso é realmente possível? Eu confesso que acho possível, mas ao mesmo tempo, seria arriscado ela se aproximar assim, então é uma ideia meio mórbida, mas achei que você fosse entender meu ponto de vista, diferente dos outros policiais.
— Honestamente, a ideia já me passou em mente. Porém, concordo que seja de grande risco ela tentar aproximação, mas mesmo as chances disso acontecer sendo pequenas, as câmeras e escutas que instalei nas casas dos membros da Yotsuba ainda estão ativas, mas para ter certeza que não terão nenhum contato fora da empresa ou da residência dos suspeitos, deixarei alguns membros da força tarefa os observando nos próximos dias.
— E irá focar a espionagem no mais ganancioso e propenso a ser o Kira, no caso, Higuchi.
— Sim. Como sempre, você é muito bom em interpretações.
Raito estava acostumado com elogios, pareceu não dar tanta bola. Embora L não tivesse a menor intenção de aumentar o ego do estudante, na verdade a autoconfiança dele já tinha uma proporção bem grande em seu natural. Talvez nem mesmo o próprio detetive tivesse tanto orgulho de suas habilidades quanto Yagami tinha das suas, o que era bom... O narcisismo é uma grande fraqueza. Kira tinha essa fraqueza como pecado.
— Falando nisso Ryuzaki — colocou as mãos no bolso, encostando seu corpo pra trás na mesa de computadores onde mantinha suas pesquisas anteriormente. — Aquele Tatsuo esteve aqui ontem. O que tanto conversaram? Você nem simpatizava com a presença do rapaz por perto, por que do nada não só permitiu sua passagem como o convidou para uma conversa particular? — perguntou sem nenhum rodeio.
— Tem relação com o sumiço da Tsuki, se é o que quer saber — apoiou a mão na cadeira mais próxima, girando-a para sua direção e colocando seus pés seguidamente em cima dela até acomodar-se por completo. — Mas não preciso te dar tantos detalhes por enquanto.
— Que pena, confesso que fiquei curioso — sorriu de humor leve.
— Ah, não se preocupe. Tenho certeza que sua mente brilhante será capaz de descobrir toda a minha conversa com Tatsuo sozinha — ironizou, fazendo Yagami torcer os lábios. — De qualquer modo... — balançou seu corpo fazendo a cadeira giratória se voltar frente à mesa de computadores, colocando seus finos dedos para trabalhar no teclado ao seu alcance. — Temos muito o que fazer por aqui. Se nossa teoria estiver certa, é melhor marcarmos vigilância constante em cima do grupo Yotsuba.
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— Está propondo que eu faça parte de uma investigação sobre Beyond Birthday? — Mello indagava tanto surpreso quanto relutante. — Ou melhor... Está propondo que eu e o Neartrabalhemos juntos nisso? — soltou uma risada debochada, abrindo uma de suas barras de chocolate impacientemente. — Está claro que não nos conhece — colocou a barra entre os dentes, encarando com desprezo do canto dos olhos o albino que calmamente mexia em uma mecha de seu cabelo circularmente, sentado no chão com seu pijama limpo e alinhado sem se preocupar em se sujar. Essa postura de desinteresse era uma das coisas que mais incomodava Mello em relação ao garoto.
— Você sabe muito sobre nós, Tsuki — Near interrompeu, sua voz era bem mais calma e despreocupada do que a do loiro estressadinho. — Embora algum hacker pudesse conseguir essas informações, não seria tão fácil assim, principalmente saber coisas tão pessoais ao nosso respeito. Você com certeza conheceu L, ou o próprio Beyond como diz, que é o nosso problema aqui.
— Mesmo assim, ela só apresentou argumentos genéricos. Vai precisar mais do que isso pra me convencer. Você não me parece de confiança, se quer saber — mordeu a barra de chocolate fazendo um leve barulho, tirando um pedaço que em segundos foi parar dentro de sua boca que só soube reclamar até agora.
— Antes de conversarmos melhor... Garotos, vocês têm certeza que não terão problema por estarem matando aula? — encarou os dois calmamente. Ambos concordaram em encontrá-la no hotel em que se hospedou, que não era longe do orfanato por sinal, imaginou que fosse bem mais isolado, mas mantinha mesmo uma fachada de um orfanato comum, mesmo servindo pra outros fins. Sinceramente, não achou que eles concordariam tão fácil em se encontrar com uma estranha, mas eles devem ter armado alguma armadilha caso sentissem que estavam em perigo. O loiro inclusive carregava uma arma que apontou para ela no momento em que bateu a porta, ameaça maior que essa? De qualquer jeito, ela conseguiu equilibrar as coisas com calma, só precisava conversar calmamente.
Mesmo assim, eram mais jovens do que ela pensou, não se sentia bem os envolvendo nisso, mas aqueles garotos eram mais inteligentes que boa parte dos membros atuais da força tarefa, com toda honestidade do mundo.
— Eu não sou de sair do orfanato, Mello normalmente é quem sai sem explicações, sou um aluno confiável, não se preocupe. É fácil lidar com Roger, tenho certeza que não sobrará pro nosso lado, pro meu, ao menos — Near respondeu por Mello, que continuava com a expressão tempestuosa no rosto. — Mas às três horas teremos uma prova de sociologia, então é bom sermos breves aqui, se possível.
A calma de Near era impressionante, ele parecia rude com as escolhas de palavras as vezes, mas nunca alterou a expressão serena. A lembrou um pouco Lawliet, fazendo-a sorrir com sua lembrança.
— Obrigada, Near. Serei breve sim — Tsuki sentiu suas mãos tremerem em seu colo por um momento, juntando-as para tomar coragem em começar o assunto. — Beyond, como vocês já suspeitavam, está vivo. Tanto é, que ele me ajudou a chegar até aqui.
— É, sabemos — Mello interrompeu. — É isso que não faz tanto sentido, por que você está indo contra seu “parceiro”? Ele deve ter te mandado aqui por outro motivo. Pois não insulte minha inteligência com seu papinho inocente.
— Não posso considerá-lo meu parceiro, Mello. Ele já foi, e ainda é, importante pra mim. Não como antes, ele... É inconstante. Ele têm milhões de personalidades na mente dele, jamais dá pra saber em qual confiar, em que momento ele foi sincero e em que momento ele foi falso — respondeu educadamente aos ataques do garoto, que pareceu dar de ombro e deixá-la prosseguir. — A questão, é que tem momentos que somos obrigados a aceitarmos que pessoas que gostamos precisam de ajuda, e também de um limite. Eu sei disso por experiência própria, não é a primeira vez que sou obrigada a fazer uma escolha como essa — admitiu sem detalhes, lembrando-se de Raito. Não foi nada fácil admitir para si mesma que, aquele garoto atualmente inocente trabalhando para encontrar Kira, era um assassino frio que assim que colocasse as mãos no caderno novamente, iria voltar a ser um idiota com um caderninho em mãos. Impedir Kira, independente de como fosse preciso, era salvar Raito de quem ele realmente é, pelo menos era melhor acreditar nisso do que no fato de que teria que sacrificar alguém que estudou com ela esse tempo todo e a ajudou em alguns momentos. — Beyond não é uma pessoa equilibrada, vocês sabem disso. L ainda não sabe que ele está vivo, Beyond de alguma forma tem um talento impressionante de fugir da morte, foram várias vezes que ele foi constado como morte, e outras vivo. Eu acredito que ele tenha que ir a cadeia, não ser punido com a morte. Ele precisa aprender o que é certo ou errado, morto jamais conseguiria. Não é para aplicar nele o método Kira, e nem fazer ele correr perigo tendo seu nome noticiado novamente. Por isso, vocês que estão longe, são pessoas bem indicadas para conseguirem detê-lo sem colocar suas vidas em risco. Óbvio que ele suspeitará, afinal ele me ajudou a chegar até aqui e me encontrar com vocês, mas a verdade é que Beyond está focado em derrotar L, o que não conseguiu antes, e ele não se importa em tirar sua própria vida pra isso. Mas dessa vez, sem interrupções. Mesmo assim, ao invés de se matar, ele pode querer matar ao L e ocupar seu lugar, vocês estão cientes que essa obsessão dele pode sim chegar a esse ponto.
Near estava quieto, assimilando. Mas Mello logo se manifestou:
— Se o que diz é verdade, estará correndo riscos quando voltar para o Japão. O que fará?
— Contanto que eu não o impeça de fazer o que quer, ele não vai me fazer nada por enquanto, até porque eu posso ser a isca para L chegar até ele, ou vice-versa, dependendo de como ver a situação, é o que ele quer no fim das contas. O ponto é que, ele só me deixou vir até aqui, porque planejava fazer algo em minha ausência que eu poderia muito bem impedir se estivesse por lá. Ele me conhece bem. Talvez a capacidade dele de analisar o comportamento dos outros, pelo menos o meu, é melhor até mesmo que a do L.
— Beyond só se manifestou depois que o caso Kira ganhou destaque mundial... — disse Near. — O interesse dele no assunto é cristalino. Pra você estar aqui agora, com o auxilio dele, ele só pode estar tentando se encontrar com Kira.
— Sim, Near. Mas não é tão simples, não é o Kira original. Imagino que não estejam tendo tantas noticias pelo L do caso.
— Nenhuma, por sinal — o loiro reclamou, nada satisfeito. — Não vejo L trabalhando tanto desde o caso BB, não foi fácil levar um antigo colega para prisão. Mas ele não concordou em nos colocar em risco ajudando na investigação, embora eu tenha sugerido viajar até lá com Matt.
— Tsuki, você teve contato com Kira, certo?
— Do que está falando Near?
— Simples, Mello. Você deve ter notado que ela disse “não é o Kira original”, a mídia em momento algum teria percebido a diferença de um Kira pro outro se considerassem a existência de um novo, mesmo que tivesse essa possibilidade, duvido muito que alguns telespectadores iriam prestar atenção, esse detalhe só quem participou diretamente da investigação poderia determinar com a certeza dela. Há outra pessoa dando continuidade ao que Kira começou, mas e o original... L estava o investigando? Ou não chegou a investigá-lo? Com certeza não teve sentença para Kira ainda. Duvido muito que se um assassino dessa proporção tivesse sido preso ou condenado a morte, já não teriam divulgado mundialmente para acalmar as famílias que estão tendo seus parentes mortos por um assassino qualquer.
— É mesmo — virou o rosto para a garota, encarando-a. — Mas como você conseguiu se envolver nessa bagunça toda, sua louca?
— Eu conhecia tanto Kira, quanto L. E por um tempo, eu sequer sabia.
— Mas se você sabe quem ele é, por que não admite de uma vez só? — Mello começava a se estressar. — Poderia ter colocado L em segurança há muito mais tempo, e não estar aqui falando esse monte de coisas sem cabimento.
— Não é tão simples. Eu colocaria a vida do L em risco, e de outra pessoa importante pra mim. Não é tão fácil quanto parece... — só de pensar que Raito poderia manipular Remu a matar quem se colocasse em seu caminho e pudesse prejudicar Misa, as coisas já mudavam seu rumo. E até mesmo o próprio Remu morreria. Fora que não queria condenar Raito antes dele voltar a ser Kira... Seria injusto. Na verdade, se pudesse, ele jamais iria voltar a tocar naquele caderno, mas ele com certeza já planejou tudo para encontrá-lo, e mais cedo ou mais tarde, ele voltaria. E estava a três passos disso acontecer. — E meu depoimento não seria tão forte, a arma do assassinato precisa estar em minhas mãos pra eu poder dar um fim nisso.
— Não parece ser uma arma qualquer — Near falou interessado, poderia jurar que o viu sorrir por um momento, seria a primeira vez durante aquele dia. — Você deixa muitas informações escapar. Não está preocupada com esses deslizes?
— Não. Eu não posso falar explicitamente sobre o caso, mas não estou preocupada com o que escapar nesse sentido, são pequenas peças, junte-as se quiser. E sobre o que diz respeito ao Beyond, eu iria ajudá-los a pegá-lo antes que ele tente algo ao L — Beyond... estou protegendo você de si mesmo... Espero que um dia você entenda.
— Mas como pretende fazer com que o derrotemos em países diferentes? — Mello indagou, já tinha pensado em alguns meios de fazer isso, mas queria que ela deixasse escapar mais detalhes da investigação.
— Então finalmente vai admitir seu interesse na investigação, Mello? — arqueou a sobrancelha. O garoto se moveu incomodado, fechando a cara e desviando abruptamente seu olhar, o que a fez rir baixo. Ele era orgulhoso demais. — Chegamos a um ponto, Mello. Vocês não precisam sair daqui. Eu estarei lá, eu os passarei todas as informações possíveis por e-mail, vocês obviamente terão que limpar o histórico de seus computadores se forem usar o do orfanato para me responderem...
— Não precisa nos dizer o óbvio.
— Ótimo. Continuando, vocês já devem saber que ele ainda comete crimes a sangue frio, caso contrário eu não teria um tostão pra ter vindo até aqui, infelizmente a parte mais difícil de conviver com ele é saber que não há nada o que fazer pra impedi-lo de matar inocentes. Me sinto suja sempre que penso que o que tenho de lucro aqui é algo roubado que pertence a outra pessoa, mas se estou precisando recorrer a isso, é por não ter escolhas de verdade — suspirou. — Pois então Near, você terá que ligar os noticiários do Japão com as possíveis mortes feitas por ele até chegar em uma pista, entrando em contato com a polícia anonimamente. Você deve ter uma noção dos métodos dele de matar, mas te passarei o histórico dele e você estudará o trabalho do Beyond.
— Certo, usarei o codinome “N” quando me comunicar com a polícia japonesa. Não é a primeira vez que uso o computador para fins parecidos.
— Tudo bem. Mello, você é bom em tecnologia?
— Sou. E tenho contatos de hackers ainda mais experientes, embora prefira tratar de algumas coisas sozinho.
— Ótimo. Há um homem com casa monitorada, o sistema tecnológico é muito difícil de ser invadido, até porque, L cuidou disso pessoalmente quando passou por toda a segurança da residência. Mas, acho que embora leve dias para conseguir invadir, é possível que você seja capaz disso, eu vi seu histórico escolar, você e Matt são os mais indicados. Vocês, embora sejam tão novinhos... São alunos do L. Não duvido de suas capacidades.
— E qual o nome do sujeito?
— Higuchi Kyosuke.
— Quem é esse?
— Um empresário, muito polêmico por sinal, será fácil achar informações sobre ele na internet, ele tem orgulho de ser uma fútil figura publica.
— E ele é...? — Near começou.
— Sim, Near. Ele é o atual Kira, e também pode ser um alvo do Beyond, embora não pareça, Beyond consegue saber quem atualmente tem o “poder” do Kira de matar — até porque ele consegue ver shinigamis... — Portanto, devemos impedir a sua morte.
— Impedir a morte do assassino em massa... Isso é bem peculiar, eu realmente gostaria de saber suas motivações.
— Você saberá, na hora certa. Os dois saberão. Mas o que posso dizer, é que quanto mais cedo que esse homem morrer, mais perto L estará da morte também, e principalmente, o Kira original de voltar ao controle.
— É, isso confirma completamente minha teoria anterior do Kira estar atualmente na força tarefa — Near afirmou.
— É... Não tenho certeza se o que ela falou quer dizer que ao morrer, o poder desse atual Kira irá passar para o original instantaneamente, ou se essa arma mortífera chegará até ele por meio das investigações do possível assassinato.
— Eu acho que temos muito o que conversar ainda, sinceramente — ela se acomodou no sofá, se permitindo um pequeno descanso. — Eu irei embora em dois dias, dará tempo pra terminarmos de debater, e começarmos a nos organizar, porque até agora temos idéias, mas a prática é diferente e exaustiva. Mas se me aceitarem como líder, eu darei o meu melhor para ajudá-los e os treinarei como puder. Não sou tão inteligente como L, mas não farei as aulas que vocês estão perdendo serem em vão.
Mello riu entre os dentes, guardando sua barra de chocolate.
— Líder... Você realmente tem muito atrevimento — caminhou até a porta. — Mas, eu aceitarei... Pela minha admiração por L, e para vingar o mal que Beyond causou a todos nós do orfanato. Mas não espere que eu trabalhe com Near, tenho meus próprios métodos, entendeu? Eu não sairei ilegalmente do país, a menos que seja realmente preciso, porque ainda tenho consciência que colocaria o plano em risco. Mas eu farei isso, em honra ao meu futuro cargo como L, e não por uma desconhecida como você.
— Eu aceitarei também — Near disse se levantando e parando de mexer em seus cabelos brancos. Ambos estavam determinados, mesmo com ideais diferentes, isso era empolgante, mesmo que um pouco. — Será bom me arriscar em uma investigação, mesmo não sendo a favor de fazer as coisas em segredo. Será pelo L, e por essas pessoas que insistem em aceitar Kira como salvador apenas por medo de serem mortas — o albino saiu na frente do mais velho, que pareceu se irritar com a autoridade do garoto, resmungando algo que Tsuki não compreendeu.
— Certo. Estarei aqui os esperando — sorriu fechando a porta assim que os viu desaparecerem no corredor com pressa. Respirou fundo mordendo seu lábio inferior e encostando-se na madeira da porta assim que ficou sozinha. Será que estava esquecendo-se de alguma coisa? Ainda teria tempo pra pensar em tudo, mas aquilo estava sendo exaustivo, e talvez um misero erro os levasse ao desequilíbrio.
Sentia-se mal por envolver dois garotos tão novos em algo tão bruto, três... Se Matt acabar prestando favores ao Mello. Mas L, mesmo não concordando, era capaz de fazer o mesmo em uma situação desesperadora. Claro que ele era inteligente o suficiente sozinho, mas não há ninguém nesse mundo capaz de controlar absolutamente tudo a sua volta, inclusive seus próprios pensamentos, sozinho o tempo inteiro... Talvez por isso ele se sentia tão incompleto antes de conhecê-la, algo que ela sentia na mesma intensidade.
Uma angustia que segurou durante toda aquela tarde começou a se fragmentar por toda sua estrutura, fazendo seu corpo enfraquecer e seus olhos lacrimejarem. Toda aquela situação a deixava ansiosa, estava absolutamente sozinha, mesmo contando com a ajuda dos garotos, tudo o que sabia sobre aquelas mortes causadas por Beyond e Kira era algo que estava em suas mãos... Uma peça de tabuleiro que daria continuidade aquele jogo, ou o levaria ao fim.
Tudo o que vinha em sua mente eram filmes, memórias passando como relâmpago sobre tudo aquilo. Sobre Misa, sobre Raito, sobre Beyond, sobre os policiais, sobre a faculdade que não poderia terminar, sobre... Lawliet.
Lamentava, por todos eles. Por todos os erros que estava cometendo. Tudo parecia errado o tempo todo... Talvez eles jamais pudessem entender, e nem mesmo ela, isso tudo que estava se submetendo. Mas quando o mundo vira um caos, não é matando como Kira que irá colocar as coisas em seus devidos lugares. Isso se chama senso e esforço. Há diferentes formas de mudar o mundo, quem diria que ela poderia fazer parte disso, logo ela que sempre se viu como uma adolescente comum, mesmo com as notas boas, já que ninguém nos colegiais costuma se importar com isso. A faltava tanto para ser considerada um gênio como L, mas a determinação que tinha era talvez o ponto mais forte que poderia se apegar pra continuar aquilo até o fim. No fim, cabia a ela destruir o Death Note com as próprias mãos e tudo o que ele causou em sua geração.
Lawliet, era o maior investigador desse caso, mas poderia também ser a maior vítima. Misa era a maior cúmplice... mas acabaria como um objeto nas mãos de Raito assim que ele conquistasse o que tanto queria. Tsuki? Nunca foi para ser algo no meio disso... e continuaria não sendo ao seu ver. O importante, era começar isso tudo, nem que o próprio L, vivo, terminasse por ela e por Misa. Enquanto um reinado fútil como o de Kira insistisse em tentar ganhar espaço, a paz não seria conquistada.
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