Lost In Paradise
43 Sangue
Notas iniciais

Andava pela rua que no horário de almoço estava um tanto movimentada convidando os moradores locais a visitarem os restaurantes de luxo que pareciam chamá-los pelo aroma maravilhoso da comida que era feita dentro dos estabelecimentos. É, prestar atenção a esse detalhe, com certeza estava começando a deixá-la com fome. Mal notava que estava passando mais tempo do que devia sem comer; tanto seu horário de sono como de alimentação estavam completamente desregulados desde a investigação, e percebia isso pelas pequenas mudanças em seu corpo, é claro.
— Como já sabe, eu e Matt conseguimos hackear as câmeras na casa de Higuchi — Mello falara pelo celular, e Tsuki andando entre as pessoas mantinha seu semblante calmo, mesmo em meio a um assunto que a deixara tão ansiosa. — Demorou quase duas noites para desbloquearmos completamente. O sistema foi invadido por um profissional, deve ter sido a pedido do L, eu não consegui captar em momento algum o dono da casa conferindo essas câmeras, estão muito bem escondidas, tal como as escutas.
— Eu imaginei que L fosse colocar câmeras, pelo o que me lembro, ele começou esse projeto antes mesmo de eu abandonar o prédio.
— Não diga — ironizou levemente, mordendo sua barra de chocolate que já estava chegando ao fim. — Já faz alguns dias que estamos vigiando, e como era previsto, há alguém tentando aproximação e até mesmo invasão à casa, eu até consegui captar algumas imagens que....
— Conseguimos. Nós conseguimos — Matt corrigiu. Tinha feito parte do trabalho e estava ouvindo Mello, como sempre, se vangloriar.
— Tá. Conseguimos — corrigiu irritado com a interrupção. — Continuando: temos algumas imagens, demos zoom no rosto não revelou grande coisa, porém...
— Há fortes chances desse sujeito ser Beyond, é isso?
— Exato. Dos suspeitos que temos conhecimento, ele é o mais propenso. Irei mandar as imagens pra você por e-mail, faz tempo que não vejo Beyond, talvez você reconheça algum traço nele melhor que eu, já que como disse, eu não enxerguei grande coisa no que capturei da filmagem. Mas o próprio Higuchi parece mostrar desconforto em algumas das filmagens também, ele está se sentindo vigiado, definitivamente não é uma mera impressão. Há alguém agindo e buscando aproximação.
— Ou intimidação — Matt completou.
— Eu entendi. Mandem-me, irei analisar depois. Agora preciso ir...
— Tsuki... — Mello hesitou. — Você não deixou claro pra onde viajou desde que nos deixou, mas as maiores chances são de você estar no Japão agora. Está pensando em se encontrar com Birthday mesmo sabendo que corre riscos?
— Estou.
— MAS...
— Até logo, Mello — disse desligando assim que parou de andar, encarando o bar nada sofisticado, e cheio de más influências o freqüentando. Já sabia exatamente o tipo de pessoa que encontraria nele, principalmente aquela a quem estava procurando e que com muito esforço, soube informações valiosas para tentar chegar até ali.
Abriu a porta que rangeu pela madeira velha e deixou que ela batesse assim que se afastou, andando pelo estreito espaço que tinha entre o balcão e algumas mesas ocupadas. Recebeu vários olhares; alguns curiosos e outros que pareciam ter nojo de ver alguém como ela ali presente. Havia apenas que atravessar todos ali, vencendo seus olhares intimidadores e chegando até a área dos fundos, onde estava quem tanto procurara. Havia apenas uma cortina que, aparentemente, dividia o local em que estava para o que iria adentrar, e assim que estava a alcançando, um homem de aproximados trinta e oito anos com barba mal feita e jaqueta de couro fez questão de se colocar em sua frente esbanjando seu sorriso amarelo inconveniente e seu hálito nada refrescante.
Pensou que fosse algum dos guardas, e que estava esperando uma confirmação dela para poder passar por ele.
— "Extermínio." — Tsuki imediatamente pronunciou a senha para passar pelo sujeito.
— Do que está falando, garota? — o estranho se manifestou, parecendo não compreender.
— A senha para poder passar... Por acaso errei?
— Não faço ideia do que esteja falando. — ele estava claramente bêbado e não tinha nenhuma intenção em perder tempo com ele, visto que ele não fazia ideia do que estava falando e deve ser só um freqüentador perdido naquele bar que talvez nem soubesse os outros fins que o local tinha. — O que uma pirralha como você faz em um lugar como esse?
— Com certeza não estou me embebedando e perdendo miolos como você — se afastou, sentindo seu braço ser pressionado pela palma da mão do homem.
— Mas olha que atrevida! Você não está no seu grupinho de amigas pra falar como bem entende, princesa... — apertou suas bochechas rudemente. — Se continuar com esse tom aqui dentro, pode ter certeza que coisas... Desagradáveis, ocorrerão.
— Solte-a — uma voz conhecida ordenou da porta, fazendo tanto os olhos inchados do bêbado quanto os atentos de Tsuki o encararem instantaneamente. — Ela é uma convidada minha, me aborrece saber que a importuna assim, Fernand.
— Oh... Eu não sabia, Ryuzaki.
Ryuzaki...
Mesmo sabendo que Beyond se apropriava daquele nome, ao ouvi-lo sempre associava ao L. E mesmo na aparência eles serem assustadoramente parecidos, ao conhecer ambos, podia ver uma diferença absurda em cada detalhe que eles possuíam.
— Pois agora sabe. Anda. Retire-se. Tenho que falar com ela — fez um sinal com a cabeça para ele se afastar. O mesmo fungou e encarou com um olhar confuso a garota que estava ao seu lado, voltando a levar à boca à garrafa de bebida que tinha em mãos. — Entre, não precisa de senha comigo, mesmo sabendo que você já a descobriu também — virou-se para a área dos fundos, convidando com o olhar. — Me perdoe por aquilo. Ele é um bêbado imundo.
Atravessou a cortina, dando de cara com a parede de um extenso corredor. Tanto o fim do lado esquerdo, quanto do direito, estava iluminado com luzes coloridas que se locomoviam a todo instante, poderia muito bem associar a uma balada, mas sabia que no local em questão aconteciam coisas mais explicitas como uso de drogas e lutas ilegais que levavam à morte e que muitos vinham assistir e apostar.
O que Beyond fazia em um lugar como aquele?
Conseguia dinheiro. Ele era um assassino de aluguel medíocre. Aquele lugar era bem conveniente pra ele. Apesar da fachada daquele bar já não ser muito agradável, não era nada perto do que ele realmente era. E apenas os que tinham uma senha podiam ir até os fundos dele, onde tudo acontecia. Ao julgar pela falta de cuidados dos responsáveis, não iria demorar pra polícia invadir e prender a maioria ali presente um dia desses.
— Parece que finalmente nos encontramos — permitiu suas costas encostarem-se à parede em frente a ele, sem deixar de encará-lo um minuto sequer.
— Correção: Você me encontrou — sorriu minimamente, porém mostrando satisfação. — Não achei que fosse se empenhar tanto em me ver novamente, Maruyama.
— Beyond, desista de encontrar Higuchi. Desista de tentar derrotar L. Seja racional. Você não conseguirá atingir esse objetivo. Ninguém conseguiria.
Nunca esteve tão ansiosa ao ponto de ver uma pessoa e falar de uma vez do que se trata, sem nenhum rodeio. Era como se sentisse que tinha pouco tempo e que tinha que fazer tudo o que pudesse a cada instante, sem mais tempo de deixar inseguranças e medos a impedirem.
— Veio aqui apenas para me dizer isso? Está me dizendo que... Está freqüentando um local tão perigoso como esse, apenas para tentar me impedir com meros diálogos? — riu asperamente, se aproximando em um passo largo que fez seus corpos se encontrarem e também pressioná-la aquela parede cinza escura. — Se fosse para tentar me convencer, ao menos deveria tentar ser mais criativa... — passou a mão direita pela curvatura do pescoço da jovem. Ela não estava recuando instantaneamente como antes, havia algo nela que havia mudado, um traço de autoconfiança que ela não havia demonstrado antes. — Eu não entendo... — colocou seu rosto no ombro de Tsuki, que encarou as pontas espetadas de seu cabelo antes de se pronunciar.
— O que não entende?
— Como isso sempre acontece...
— Isso...? — murmurou perdidamente.
— Isso... Eu sempre desejar algo que não me pertence. Eu quero você, sabendo que L também quer, e que por ele sempre vencer, você retribui esse desejo por ele e não a mim. Enfurece-me olhá-la nos olhos e perceber que o pouco brilho que eles ganham ao me ver, é por te lembrarem ele. Sempre ele.
Ele bebeu?
— Se você deseja alguém apenas por outra pessoa desejar, isso é inveja, e não desejo.
— Você sempre tem uma resposta pra tudo, não é?
Colocou a mão esquerda no ombro dele afastando-o, ele encarou com suas orbes vermelhas e odiosas de sempre, que carregavam tanto rancor e complexo de inferioridade por anos.
— Estou aqui porque quero deixar claro que se for preciso te ferir para tirá-lo do meu caminho, assim o farei.
— Isso é uma ameaça? Está mais confiante do que pensei se acha que irá me impor respeito assim.
— Não quero seu respeito. Não quero seu amor. Nem mesmo seu medo. Não quero nada de você, Beyond — ergueu o olhar. — Você me ensinou tudo o que precisei. Mas as coisas que sei, não posso te ensinar. No entanto, você já se torturou por longos anos, escapou da morte diversas vezes, tudo para tentar provar algo que você nem sabe o que é. Você não é inferior ao L, mas age como tal — deu as costas. — Está mais do que na hora de você parar. Talvez você veja isso como um castigo, mas será sua verdadeira liberdade. Lamento. Mas alguém precisa te parar...
— Você é incrível... — ele sussurrou contra sua nuca. — E seria um enorme prazer ser morto pelas mãos de uma bela mulher, tal como você — curvou um sorriso. — No entanto, não me arrependerei de matá-la se tiver a intenção de me atrapalhar. Sabe disso.
— Mate-me agora, se tiver coragem.
— Como pode me pedir algo assim? — seu semblante teve uma leve alteração de aborrecimento.
— Não tenho medo da morte, Beyond. Você sabe que farei o que for preciso por um certo alguém. Você está disposto a morrer para levá-lo ao fracasso, e eu estou disposta a morrer para mantê-lo a salvo. Não somos tão diferentes quanto pensa.
— Veremos qual objetivo é mais forte, nesse caso.
— Evidentemente. Mas se quer um conselho... — moveu o pescoço, encarando-o. — Nenhum objetivo jamais será alcançado, enquanto você não acreditar que é capaz de fazer isso. Seja por você, ou por outra pessoa. Você precisa saber a força que têm.
{ ••• }
Observava Amane dormir calmamente, e meio sem que ele se desse conta disso, um sorriso sempre brotava em seus lábios ao observá-la tão serena. Tatsuo a amava mais do que imaginou que conseguiria amá-la. Sabia que gostava dela, mas desde que sentiu que ela estava em perigo, que manteve segredo por Tsuki pensando no melhor para Misa, entendeu o significado de amar. Sabia que gostava da modelo, mas foi entender com o tempo o quão valiosa ela havia se tornado para ele. Misa podia ser vista como inocente e por vezes tola, mas ela tinha um potencial bem maior do que mostrava para Raito. Ela era bem mais que isso, conseguia enxergar agora.
— Durma bem, Misa — beijou sua testa, vendo-a já com os olhos fechados se mexer levemente contra a cama buscando maior conforto.
Afastou-se da cama retirando-se do quarto da garota. Ela estava tomando alguns medicamentos que a causavam sono; desde que se distanciou de Tsuki, entrou em uma depressão que nunca haviam visto antes, e depois de Tatsuo conversar muito com Ryuzaki e fazê-lo entender a situação, ele pagou um psicólogo particular para Misa, e aproveitou para fazer algumas consultas com Yagami para analisar seu estado emocional ligando-o novamente ao comportamento que Kira poderia ter em determinada situação.
— Ah, você está aí, Tatsuo — o rapaz que mais parecia um zumbi de tão pálido, se aproximou assim que se deparou com o loiro indo em direção ao elevador. — Vejo que está de saída, mas gostaria de entregá-lo algo.
— O que é? — fechou o cenho, ansioso. Não era comum ele puxar assunto, muito menos para entregá-lo algo.
O rapaz simplesmente ergueu um envelope entregando-lhe. Hesitou por um momento abrir e ver o que tinha, mas calmamente o fez, levando um tempo para compreender do que se tratara.
— Ryuzaki! Isso é...
— Sim. Essa é a recompensa por ter me dado informações valiosas sobre Tsuki. Aparentemente, localizamos sua mãe, todas as informações que você achar necessárias estarão nesses papéis, desde os endereços antigos ao atual, número de telefone, histórico escolar... Enfim. Espero ser útil.
Percebeu que suas mãos ficaram trêmulas por um momento, apertando o envelope e erguendo seu olhar para o Ryuzaki.
— Serei eternamente grato! — disse o abraçando rapidamente e mais apertado do que ele gostaria.
— Tudo bem... Mas não fique me apertando desse jeito.
— Desculpe — afastou-se imediatamente com um sorriso no rosto. — Eu... Irei imediatamente checar esses dados! Preciso ir... — caminhou ansiosamente até o elevador, um tanto atrapalhado. — Fale para Misa me ligar quando acordar!
— Tá bem.
— Obrigado Ryuzaki! — acenou antes das portas metálicas do elevador se fecharem.
Abraçou aquele envelope tão valioso contra seu corpo, sabia da importância que aquilo tinha e do quanto esperou por aquilo. Obviamente estava muito grato pelo esforço milagroso de Ryuzaki em tê-lo concedido essa oportunidade de reencontrar sua família. Mas estava ainda mais grato pela pessoa que tornou aquilo possível arriscando seu próprio plano para isso.
Tsuki.
Ela podia não fazer o certo o tempo todo, mas sem dúvidas alguma lutava por algo bom. Algo que nem mesmo ele teria forças para lutar contra. E era por isso que colocaria toda a sua confiança nela e faria o que ela precisasse dali em diante.
Lawliet desviou o olhar do elevador e se guiou até a sala de reunião, onde os policiais estavam espalhadamente trabalhando. Que rotina mais chata estava levando, resolver casos aleatórios estava sendo mais produtivo que aquela investigação que havia colocado tanta expectativa.
Do lado esquerdo perto dos painéis estava Raito e Matsuda, aparentemente, discutindo. Com uma expressão de tédio por odiar esse tipo de hábito em seu QG, se aproximou sem postura parando ao lado da cadeira de Yagami.
— O que foi agora?
Raito imediatamente o encarou explicando-se:
— A policia local recebeu alguns quebra-cabeça que diz ser um desafio de Kira. Obviamente, não somos tão tolos ao ponto de crer que Kira mandaria isso. Pelo menos eu não sou... — encarou com um olhar reprovador Matsuda ao seu lado, que se encolheu envergonhado. — No entanto, não conseguimos nenhuma amostra que pudéssemos usar como pista, e ninguém na policia conseguiu resolver o enigma. De primeira vista, nem mesmo eu fui capaz de resolver o quebra-cabeça, é mais elaborado do que parece. Queria dar uma olhada e resolver, no entanto, parece que alguém se diz capaz de resolver e já está quase a uma hora com esse papel em mãos!
L suspirou entediadamente revirando seus olhos.
— Seria bem mais simples se tivessem me entregado de uma vez — pegou o papel das mãos de Matsuda.
— Sim, mas... — o policial atrapalhado tentava recuperar o papel das mãos do alto detetive. — Chegou há pouco tempo, e queríamos ver se conseguíamos resolver antes de levar até você, Ryuzaki!
— Curioso... Essa letra não me é estranha. Mas não. Impossível ser de quem estou pensando — riu sem humor. — Impossível não... Apenas bem improvável.
Raito ergueu as sobrancelhas.
— Se for de quem você está pensando, o que pode dizer sobre isso?
L encarou ambos com um divertimento passageiro em seu rosto.
— Eu diria que vocês estão se matando para resolver um enigma feito por um garoto de doze anos.
— Hã? — Matsuda se espantou.
— Como assim, Ryuzaki?
— Deixem isso pra lá. Eu mesmo irei dar uma olhada nisso e tirar minhas conclusões próprias...
Aquela letra lembrava muito a de um de seus pupilos. Não o via e nem mesmo o dava aulas há um bom tempo, portanto poderia estar sendo enganado por sua própria memória associando aquela caligrafia à dele. No entanto, mesmo com as menores probabilidades, ele nunca deixou de averiguar até ter certeza se a possibilidade existe ou não definitivamente. Mas que sentido faria Near estar envolvido? Por que ele iria atrapalhar a missão de seu superior? Ainda mais considerando que nem estavam no mesmo país. Quem poderia estar envolvendo pessoas próximas a ele em algo tão sério como o caso Kira?
Não. Era bem difícil de verdade Near estar envolvido. Chegaria a ser espantoso alguém estar descobrindo tanto sobre L, o que fazia ele pensar que estava sendo mais paranóico que o normal.
O celular de Soichiro vibrou, chamando a atenção dos presentes. Ele pareceu incomodado por estarem o ligando na hora de trabalho, mas para sua mulher fazer isso, deve ser importante.
— Alô? Sachiko... Não é uma boa hora para conversarmos — ele falava ao telefone tentando não demonstrar seu cansaço. — O quê?! Como assim Tsuki está aí? — os investigadores imediatamente se levantaram, espantados com a notícia. Até mesmo L não disfarçou a surpresa. — Sachiko... Escute...! Estou indo até aí agora mesmo, ok? Eu... Já estou indo! — desligou o celular preocupadamente. — Ryuzaki! O que ela quer com minha família agora?! Tenho que ir até lá!
— Não tenho essa resposta ainda... Acalme-se, senhor Yagami. Eu irei...
— Ryuzaki! — Mogi chamou imediatamente, olhando alguma das câmeras. — Os alarmes na casa de Higuchi parecem ter sido acionados. Parece que a mansão foi invadida...
O detetive se apressou em olhar o tumulto pela câmera implantada na casa do atual Kira. Que droga... Essas duas situações ocorrerem em tempo real não são mera coincidência. Teria que se apressar!
— Mogi, providencie uma equipe para ir imediatamente até a casa de Higuchi. Não o deixem fugir e dependendo do que ouvirem, invadam a casa com os rostos tampados e tomem todo cuidado para não se exporem, ainda não sabemos a arma de Kira, mas ele pode matar apenas vendo seus rostos. Há uma boa chance disso ser apenas uma distração, mais precisamente, uma armadilha. No entanto, é melhor agirmos rápido. Senhor Yagami! Watari irá acompanhá-lo com Raito até sua casa e garantir a segurança de sua mulher e filha — encarou Raito, que se sentiu aliviado por Ryuzaki já ter previsto que ele gostaria de acompanhar seu pai para saber a situação em sua casa. Apesar de estar bem desconfiado, já que L jamais deixaria ele sair desse jeito... — Irei ficar aqui e analisar ambas as situações enquanto vou os guiando por ligação. Não ajam imprudentemente, por favor.
— Entendido! — o chefe falou, sendo acompanhado para fora de seu filho e Watari, que imediatamente pegou sua arma preparando-se para o que fosse preciso.
{ ••• }
Soichiro chutou a porta da casa sem nenhuma sutileza, sua preocupação estava chegando ao limite, Tsuki por mais boa menina que parecesse um dia, havia tocado no que havia de mais importante para ele; sua família.
— Sachiko! Você está bem? — se aproximou de sua mulher suando frio.
— Estou sim... Qual o problema querido? Você e Raito não estavam em um trabalho importante?
— A Sayu... Onde está a Sayu?!
— Ela foi buscar umas coisinhas pro jantar com Tsuki...
— Onde?!
— Ah, eu não sei querido... Não deve ser muito longe, elas falaram que voltam logo.
Soichiro se virou para falar com Raito, mas quando viu, ele já não estava mais aqui.
— Watari! Onde Raito foi?!
O senhor desceu as escadas após algumas inspeções nos quartos no segundo andar.
— Não se preocupe, policial Yagami. Ryuzaki tomou liberdade para colocar rastreadores escondidos nas roupas de seu filho, assim que entrarmos em contato, ele nos especificará a localização de Raito.
— Vou ligar para Ryuzaki... — suspirou tentando voltar ao normal.
— Soichiro! O que está acontecendo...? — sua mulher insistia a perguntar, mesmo sabendo que pelo olhar dele, ele nada iria falar sobre o que estava acontecendo, e isso só a deixava mais aflita, e agora preocupada com sua filha na rua sendo procurada.
Raito corria pela rua. Sabia uma das lojas que Sayu sempre freqüentou. Antes de fazer as compras que sua mãe pedia, ela passava em uma loja de CDs, que estava prestes a se fechar julgando pelo horário, mas que iria arriscar procurar ela lá primeiro. O celular que tinha no bolso interno de sua camisa estava começando a tocar, sabia que seria Ryuzaki, mas tinha que encontrar sua irmã primeiro.
Chegando em frente a loja, sentiu uma onda de alivio tomar seu corpo assim que viu ela pelos vidros do estabelecimento, correndo para dentro e se aproximando da mais nova que o encarou completamente surpresa.
— Raito?! É você mesmo? — ela abriu um sorriso, abraçando o corpo do irmão. — Quanto tempo! Você emagreceu... O que faz aqui?
— Sayu... Mamãe disse que você veio fazer algumas compras acompanhada, certo?
— Ah sim. A Tsuki me acompanhou, mas ela já saiu.
— Quando ela saiu?
— Sei lá. Não faz nem alguns segundos se bobiar. Ela... — olhou em volta e quando virou seu rosto para Raito, ele já estava correndo para fora. — Ei Raito! Onde você vai...?
Ela não podia estar muito longe.
Tomaria cuidado, mas iria alcançá-la!
Não havia considerado a teoria dela ser o Kira, mesmo depois dela ter fugido. Mas se ela chegou ao ponto de aparecer em sua casa mesmo sendo procurada pelos investigadores do caso Kira, era porque ela realmente queria provocá-los e mostrar as garras. Pois não deixaria isso acontecer, e com esse pensamento borbulhante em mente invadiu um dos becos mais próximos, vendo uma silhueta pouco iluminada pelos postes na noite. Havia também um corpo bem ao seu lado, caído no chão. A pessoa ergueu o que parecia ser uma arma em direção ao corpo que já parecia ferido, fazendo Yagami arregalar os olhos.
— Espera! Você... — ele tentou chamar a atenção, e de fato conseguiu, aproximando-se cuidadosamente. Conforme chegava mais perto, notava que era mesmo uma mulher, julgando pela cintura fina marcada. Mas o rosto estava coberto por um capuz e a luz fraquíssima não ajudava muito em sua análise. Porém, ela estava com uma arma apontando a um indefeso, isso já dizia muito sobre ela. — Abaixe a arma... Você não quer fazer isso... O que ganha o matando?
— Raito Yagami... Você já foi mais inteligente. Correr atrás do suposto assassino sem cuidado algum e tentar impedi-lo de matar um inocente? Isso não é algo que Kira faria. Não é lógico, está agindo pela emoção.
— Do que está falando?
— Você realmente é um rapaz puro nessa sua versão... Infelizmente, você não pode ser assim pra sempre. Você planejou que o caderno e as lembranças voltassem a você, se quer saber, as lembranças você receberá de volta, se faz tanta questão. Espero que faça bom uso delas, pois se arrependerá muito de tê-las recebido.
— Eu não sei do que está falando! Mas jogue essa arma no chão agora — estava começando a alterar a voz em raiva. — O que fez com ele? — disse encarando a vítima.
— Eu? Não fiz nada... Eu jamais o mataria. Não o feri gravemente justamente por isso. Quero que cuide dele. Ele ficará bem agora... Diga para Ryuzaki cuidar bem de Beyond por mim.
Ryuzaki. Ela conhece Ryuzaki!
Só pode ser ela...
— Tsuki! O que está fazendo não é... — foi interrompido quando ela bateu a palma de sua mão contra o rosto dele, esfregando um papel sobre sua face e pegando o celular que tinha no bolso. — E-Espera... — antes que pudesse tentar recuperar o aparelho de volta, um choque tomou conta de seu corpo ao ponto de fraquejá-lo e levá-lo ao chão. Todas as memórias que um dia se esqueceu estavam voltando na velocidade de um raio em sua mente, paralisando completamente seu corpo antes que qualquer reação pudesse sair de si.
O celular que tanto tocava, finalmente foi atendido quanto a mulher com um sorriso no rosto se afastava rapidamente do local, se camuflando o melhor possível.
— Quanto tempo, Ryuzaki...
— Tsuki...? É você! — sua voz conseguiu tremer em surpresa quando finalmente o celular de Raito atendeu sua incansável ligação. — Fique parada aí! Watari e Soichiro já estão por perto, se entregue e conte sua versão. Estou muito curioso para saber o que te motivou a cometer tamanhas atrocidades — sua voz agora, estava em um tom rígido e confiante. — Você não escapará, sabe disso, não?
— Beyond está ferido. Ajude-o. Prenda-o, se quiser. Só o deixe vivo, bem longe daqui, ele terá um recomeço e um longo tratamento pela frente.
Ela estava falando coisas aleatórias e completamente distantes do assunto... Ela não estava nem um pouco disposta a se justificar, muito menos a se entregar! Isso conseguiu deixá-lo ainda mais nervoso, mordendo sua própria mão ao ponto de quase fazê-la sangrar.
Mas a conversa estava sendo guiada rápido demais... Como ela conseguia pensar em respostas tão rápido em uma situação em que deveria estar desesperada por ser quase pega?
— Me responda, Maruyama.
— Outra coisa... Posso ter tido a ajuda de seus pupilos. Não os culpe, eles queriam o melhor pra você — as coisas estavam começando a fazer sentido... — Talvez através deles você consiga saber meu paradeiro.
— Por que está dizendo coisas tão desconectas? É só para me provocar? — estava recebendo mais chamadas, voltadas ao que estava acontecendo na moradia de Higuchi. Nunca foi tão difícil se focar em duas coisas ao mesmo tempo.
— Nada do que falo faz sentido mesmo... Mas pensei que seria bom ouvir sua voz... Provavelmente, uma das últimas vezes que tenho a oportunidade de ouvi-la. Não ligo pro que estamos falando, ouvir sua voz é bom, Lawliet.
— Estou tentando ter uma ideia de suas motivações... Mas honestamente não posso mais defendê-la. Sou um investigador sério, não ache que meu lado emocional irá me dominar. Ao capturá-la, não poderei ter piedade alguma de você — gostaria de incluir um “por que me faz sofrer tanto com essa dúvida?”, mas só ia deixar mais evidente seu lado emocional que agora estava tendo que deixar de lado. — Por que está me fazendo passar por isso?
— Por que eu realmente amo você.
— Espere Tsuki, não desligue — e mesmo o ouvindo pedir, ela o fez, jogando o aparelho no chão e o pisoteando.
É... Estava realmente quase no fim. Raito recuperar suas memórias, L saber que ela obteve a ajuda de Mello e Near, não faria diferença. Devia as mais sinceras desculpas aos dois alunos de L por ter os usado para prender Beyond em uma armadilha, como fora realizado. Além de, graças a Mello, realizar um problema técnico nas programações da mansão de Higuchi servir como a divisão da equipe de L na hora de procurá-la.
Daqui a alguns minutos, vários reforços de L estarão à sua procura, talvez até mesmo anunciem algo pela TV. Mas não faria diferença. Ela pegará o caderno antes de Raito sequer terminar de recobrar suas memórias, e o fará simplesmente cair. Junto com toda sua expectativa em se formar e trabalhar ao lado de L... Visto que agora era uma mera criminosa que L procurava.
O importante seria... Ele estar vivo. Misa estar viva. Até mesmo Beyond, que era uma praga, continuar por aí sendo tratado e longe de qualquer perigo que apresente à sociedade e a si mesmo, em um hospital psiquiátrico de qualidade que tinha certeza que Lawliet o internaria.
Os danos que estava causando em si mesma eram gigantescos, mas saber que quando tudo aquilo acabasse, seu sacrifício seria irreversível e para um bem maior, todos os erros que cometeu não seriam nada. Os dias de vida que estavam perdendo, não eram nada comparados aos que Lawliet ganharia. De alguma forma, teria que recompensar em seus últimos momentos o sofrimento que estava o fazendo passar agora...
E era apenas nele que novamente pensava, enquanto encarava o sangue de Beyond em suas mãos, a purificando e ao mesmo tempo a condenando.
Porque seu maior pecado estava sendo simplesmente por amar o maior detetive do mundo...
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