L esperava pacientemente que uma entre tantas reuniões com a policia japonesas começasse. Até agora, só tinham falado o que ele já sabia, o que realmente queria era ver o resultado das investigações que ele pediu. Como sempre, Watari estava presente no local em seu lugar, tudo o que via e escutava era graças a tela do computador que seu ajudante segurava. Isso aborrecia boa parte das pessoas que trabalhavam com ele, mas não estava preocupado, os assassinatos sim eram motivos de preocupação, aquelas pessoas desesperadas para verem seu rosto não passavam nenhuma segurança.

— Bom, vamos começar com os últimos relatórios. — Soichiro falou.

— Sim, senhor. — pronunciou-se um dos policiais, levantando-se da cadeira. — Até agora recebemos 3.029 respostas por telefone e e-mail sobre assassinatos, a maioria deles de cidadães curiosos e trotes. Mas há 14 pessoas que dizem conhecer ou já ter visto Kira, todas elas foram rastreadas e cuidadosamente documentadas. Ninguém deu nenhuma informação que já não tenha sido divulgada publicamente... E por fim, essa semana tivemos mais 21 pessoas que ligaram dizendo ser Kira. Não queríamos excluir nada, então seguimos um procedimento padrão e criamos arquivos para todas as pessoas...

— Muito bem... — olhou para outro no centro da sala de reunião, que se levantou imediatamente pronto para se pronunciar. L já havia investigado a maioria dos homens presentes, mas nenhum deles parecia ser culpado, então não se deu ao trabalho de decorar todos os nomes. — E os relatórios das vítimas?

— Em mais investigações, confirmamos que houve informação sobre as vítimas de parada cardíaca divulgadas publicamente no Japão pouco antes de suas mortes. — fez uma pausa, dirigindo o olhar a tela do laptop, a qual L visualizava a expressão desconfiada do japonês. — Quanto ao pedido de investigação do L sobre a hora de morte de cada vítima, descobrimos que todas elas ocorreram entre às 16:00 da tarde e às 02:00 da manhã, em hora local nos dias de semana, com 68% delas ocorrendo entre 20:00 e 00:00. Fins de semana e feriados parecem ser a exceção, já que as horas das mortes variam muito mais do que nos dias de semana.

— Essa informação é muito relevante para nós. — disse L, notando pistas importantes antes de todos, como de costume. — Eu imagino que pelas horas das mortes... Nosso suspeito pode ser muito bem um estudante — bastou dizer aquilo para criar uma confusão nos outros detetives, ganhando a atenção de todos da equipe. — Baseado no fato de que Kira mata somente criminosos, acho seguro dizer que ele é levado por uma noção idealizada de justiça, é bastante possível que aspire ser como um deus. Estamos lidando com um individuo que tem um conceito muito infantil de certo e errado. Claro que isso é mera especulação a essa altura... Mas eu recomendo que reexamine qualquer conclusão que tenham tirado quanto ao fato de nosso suspeito ser ou não estudante, devemos considerar todas as possibilidades — pediu. — Acredito que é a rota mais curta para encontrar e prender Kira... Mas por favor, continuem com os relatórios.

— Hã... Tá. — Soichiro um tanto deslocado (e nada acostumado com o método de trabalho de L), voltou a atenção ao resto dos policiais. — Mais alguém tem alguma coisa a acrescentar?

— Senhor, por favor — Matsuda levantou a mão.

— O que foi, Matsuda?

O rapaz se levantou.

— Eu não digo isso para apoiar Kira, nem pra condenar os assassinos mas... Nos últimos dias, no mundo todo, e principalmente no Japão... Houve uma diminuição dramática nos crimes violentos cometidos.

Muitos bufaram com a informação óbvia, deixando o pobre rapaz sem graça.

— Bom, acho que faz sentido. Suspeitamos que algo assim aconteceria... Mais alguma coisa?

— Não... — respondeu desanimadamente, voltando-se a se sentar um tanto desapontado por ter sido o último ali a notar algo tão transparente.

— Então terminamos nossos relatórios de investigação por hoje, não é, L?

— Sim. Obrigado a todos, acho que estamos a um passo de encontrar Kira. — o misterioso investigador agradeceu. — Antes de ir, tenho um pedido a mais a fazer. Ele é direcionado as equipes que investigam as vítimas, noticiários de tv e internet. Eu queria que voltassem a dar uma olhada na maneira exata que as identidades das vítimas se tornaram públicas. Sejam o mais atenciosos possível, em particular quero saber se fotos das vítimas foram divulgadas no Japão. Deixo com vocês.

O ritmo das coisas parecia ir bem, mesmo tendo uma insegurança quanto ao trabalho dos policiais em geral naquela equipe. Talvez se a equipe se reduzisse apenas aos que fossem se comprometer com o trabalho... Mas iria pensar melhor nisso depois. Era melhor se focar em visualizar o tipo de estudante que Kira seria... Um assassino com fama mundial seria mesmo um estudante como estava cogitando?

{ ••• }

Havia lido muito sobre o Death Note e debatido com Remu, isso até a tirou de seu estudo inicial e teve que passar quase a noite inteira estudando a matéria que perdeu. O shinigami a deu informações bem úteis, inclusive ressaltou que o Death Note de Misa e Kira eram possivelmente os únicos atualmente no mundo humano. Citou até o exemplo de que, caso acontecesse de existir seis death note's no mundo humano, se mais um surgisse, esse mesmo caderno perderia o poder, se tornando um caderno comum. Mas a ideia de ter mais de três cadernos no mundo humano já era insana, cada shinigami possuía um único Death Note, para deixar o caderno cair no mundo humano, o shinigami precisaria possuir dois. O shinigami que seguia Kira provavelmente seria Ryuuku, segundo Remu, ele convenceu o Rei Shinigami a lhe dar outro caderno uma vez, embora afirmasse que esse mesmo rei não era facilmente enganado.

Era bem sombrio pensar na existência de um mundo só de shinigamis... A existência deles é apenas para tirar a nossa. Embora nunca tivesse considerado a existência de shinigamis, se existissem, nunca pensaria que fossem... Criaturas boas, em alguns casos, como o shinigami de Misa.

Remu contou uma história bem desagradável também... Revelando como matar um shinigami.

Houve um shinigami chamado Gelus, ele passou todos os dias no mundo dos shinigamis observando uma humana. Ele só queria observá-la vivendo sua vida no mundo humano, até que chegou seu último dia de vida. Remu o procurou por curiosidade, também queria saber se a humana morreria no dia em questão. Era noite... E ela estava andando sozinha, não havia ninguém por perto. E então aconteceu... Um homem saiu de um beco e impediu sua passagem, ele estava apaixonado pela menina. Ela nunca o tinha visto, e então obviamente o dispensou. O homem desequilibrado, foi pra cima dela com uma faca. Gelus que observava tudo no mundo dos shinigamis, fez algo que um shinigami jamais poderia fazer... Ele usou o Death Note para matar o homem e salvar a vida da garota. Foi uma péssima ideia... E naquele momento Gelus se tornou uma espécie de areiam desaparecendo para sempre.

Gelus se apaixonou... E isso o levou a morte. Desapareceu deixando apenas seu caderno para trás... Que foi pego por Remu.

Nunca iria considerar a ideia de que para matar um shinigami precisava fazê-lo salvar intencionalmente a vida de um humano. E pelo o que deu pra entender nessa história de Remu... A humana era Misa. Isso explicava porque Remu a deu o caderno, ele queria a protegê-la continuando o que Gelus começou. O suicídio de um shinigami era simplesmente o ato de amar.

Chegou a se perguntar se Ryuuku, shinigami que segue Kira, corria esse risco. Mas Remu definia ele como um shinigami nada amoroso. Vai saber porquê ele resolveu deixar seu caderno cair no mundo humano.

— Bom saber disso tudo. Obrigada Remu, você me ajudou muito — estava um pouco aliviada por ter estudado melhor o caderno, talvez por um tempo pudesse simplesmente deixá-lo de lado, mas era bom estar informada. — Você pode inventar alguma coisa pra dizer a Misa? Não quero que fale sobre tudo o que conversamos, isso vai atiçá-la.

— Certo. Vou pensar em alguma coisa.

— Faça isso, por favor.

O shinigami assentiu desaparecendo pela parede do quarto, deixando-a sozinha. Deixou um suspiro escapar, fitando a parede roxa enquanto se lembrara de tudo o que ouviu L dizer pela televisão. Se perguntava como estaria indo a investigação sobre Kira, tentando imaginar o que o imprevisível detetive estaria tramando. Um sorriso torto formou-se em seus lábios, ficar imaginando todas essas possibilidades a motivava. Desejava se aproximar do detetive um dia, mas sabia que isso não aconteceria tão cedo. Contudo, ela sabia que não deveria tentar se comunicar diretamente nem com L e nem com Kira, seria um perigo, pelo menos por enquanto...

— Tomara que não seja errado estar escondendo tudo isso...

Não era uma sensação boa. A sensação de poder evitar algo... Mas não ser capaz de fazer isso. Viu diferentes fisionomias, diferentes famílias e vidas afetadas pelo surgimento de Kira. Ela tinha boas provas para ajudar a policia a prendê-lo, mas ao mesmo tempo, se sentia grata por ele ter vingado a morte dos pais de Amane. Querendo ou não, isso deixou aquela garota leve e a livrou de qualquer rancor que ainda guardava desde aquela tragédia. Misa e Tsuki eram o que sobraram de suas famílias, os parentes de Misa moravam em outros países, e os de Tsuki eram tão reservados quanto ela e pareciam ter esquecido que ela estava viva há muito tempo. Não podia fazer Misa sofrer mais... E além disso, quem iria acreditar se dissesse que há um caderno por aí que está matando toda essa gente?

{ ••• }

Seu corpo estremeceu-se levando um susto, aborrecidamente, sentou-se na cama olhando para o celular que não parava de vibrar na mesinha. Quem estaria ligando aquela hora? Já era um milagre alguém saber seu número, ligá-la tão cedo, mais ainda. Estava tão cansada que esperava ser algo muito sério para ligar de última hora daquele jeito. Pegando o aparelho, atendeu a ligação que se demorasse mais um pouco iria acabar caindo.

— Pois não?

— Bom dia, Tsuki. Como vai? — a voz masculina perguntou gentilmente, pelo timbre não era um homem formado, e sim um adolescente como ela. Era alguém da escola?

— Ahn... Estou bem — esfregou os olhos. — Quem é?

— Sou eu, Raito.

Era mesmo a última pessoa que imaginaria receber uma ligação daquele horário... Mesmo com a aproximação que conseguiu ter com ele, ele não parecia gostar da ideia de fazer ligações ou trocar e-mails.

— Raito... Não estava esperando sua ligação. Tudo bem?

— Estou ótimo, obrigado. Você está ocupada? — perguntou direto ao ponto.

— Eu acabei de acordar na verdade...

— Tem planos pra essa manhã?

— Na verdade não... Por quê?

— Queria saber se não está afim de ir ao Spaceland comigo.

Ele estava a convidando pra sair? Tudo bem que tinha se aproximado, mas não era tanto assim, ele a ignorava em várias ocasiões, e agora a chamava pra um... Encontro? Não. Não era exatamente um encontro... Era?

— Agora?

— Sim. Algum problema?

— Não... Eu acho que posso ir — talvez devesse dar uma chance a ele... Queria se aproximar mesmo, só não achou que isso viria dele. Na verdade, aquele convite repentino a incomodou, sentia um tom de deboche, ou talvez fosse sua velha paranóia falando alto de novo. Mas era melhor ir.

— Ok. Te vejo no ponto de ônibus, hein? — despediu-se animado, desligando.

Pressionou os dedos no celular, um pouco ansiosa. Odiava como qualquer saída simples a deixava nervosa, seu convívio social era tão fraco ao ponto de sua ansiedade disparar com um simples passeio como aquele? Não queria nem pensar naquilo. Porém, não podia negar que talvez a fizesse bem se distrair um pouco... Iria pra esse passeio, e iria descobrir o que Raito queria com ela tão repentinamente, teve inúmeras oportunidades de convidá-la pra sair, não faria isso sem razão nenhuma. Talvez ele tivesse algo para contá-la, vai saber...

Yagami era realmente um rapaz soberbo.