Passou um bom tempo discutindo com Remu. O shinigami queria convencê-la a se afastar de Raito, mas ela queria era se aproximar mais, mesmo com todos os riscos. Queria ter a certeza absoluta de que ele era ou não Kira, não conseguiria mais viver na agonia e na dúvida. Com o pai de Raito sendo policial, talvez fosse mais fácil ter notícias de L também... Mas não queria ficar pensando nisso, talvez sua obsessão com aquele detetive seja tão anormal quanto a que Misa criou com Kira. Porém, era melhor ter uma aproximação natural dele, do que ir até a polícia e contar suas idéias, levando em conta que se demonstrasse interesse tão repentinamente, as suspeitas cairiam sobre ela. Fora que se Raito fosse Kira ia ter notícias de seu depoimento através de seu pai, e não conseguia pensar em um jeito fácil de resolver as coisas. Não era tão inteligente quanto L... Ele era um gênio que se cruzasse seu caminho tiraria informações sem ao menos perceber. Estava fora de questão...

Entretanto, era óbvio que não era ela que preocupava o shinigami, e sim Misa. Dava pra notar como ele era cuidadoso com ela, e Amane era jovem e sonhadora, confiava nela, mas não queria vê-la envolvida naquelas mortes todas. Mas depois de todos aqueles anos, ela não iria fazer nada que pudesse magoar Tsuki, era o que acreditava.

— Voltei — Misa falou assim que abriu a porta de seu quarto, sorrindo. — Já guardei tudo exatamente como você me pediu, Uki.

— Que bom Misa, isso me deixa mais tranquila.

— Mas então... — se sentou ao lado de Maruyama na cama. — Você falou das coisas ruins que aconteceram ontem, mas não falou nada sobre o garoto que saiu com você... — a curiosidade dela estava transparente.

— Ele é da minha escola, só isso.

— Como só isso? Ele é bonito pelo menos? — sua voz saiu um tanto debochada e maliciosa.

— Ele é... Legal.

— Não seja boba, não foi isso que eu perguntei! Ele é bonito ou não é?

Ele era bonito, mas não sabia o que Misa esperava ouvir com tantas perguntas.

— Ele é um rapaz bonito. Satisfeita?

— Muito. — ela riu. — Vocês têm que marcar outro encontro. Já mandou uma mensagem pra ele?

— Não. E não é necessário.

— Mas como não? Deu tudo errado no último encontro de vocês. O mínimo é que tenham o próximo encontro e que saia tudo perfeito. Se quiser eu mesma posso mandar a mensagem pra você.

Amava a Misa de todo seu coração, mas quando ela era insistente daquele jeito, isso a deixava um pouco incomodada. Todo garoto que tinha interesse nela, Misa fazia questão de ajudar como se ela não fosse segurar homem nenhum nessa vida, o que pensando bem nunca foi um problema para Tsuki. Se acabasse uma solteirona morando com uns sete gatos, seria lucro.

— Já disse que não. Eu não estou tão desesperada assim, ok? — riu baixo, tentando não parecer mais incomodada do que já estava. — Garotos podem ser um grande problema. E no momento o que eu realmente preciso é de um banho quente, então me dá licença. — encarou a porta como sinal para que ela saísse.

— Está me expulsando? — fingiu estar ofendida.

— Você sabe que te amo, mas no momento, prefiro ficar sozinha. Estou com muita coisa na cabeça — piscou para a loira.

— Você as vezes é bem esquisita. — revirou os olhos, fazendo bico. — Vamos, Remu.

Esquisita... É, as vezes ela pensava o mesmo.

{ ••• }

O chefe Soichiro não conseguia esperar que mais dias se passassem para falar com sua equipe. Era uma difícil decisão, mas que mais cedo ou mais tarde, acabaria por tomar. Um aperto surgia em seu peito enquanto tentava tomar coragem para se pronunciar, depois de tanto tempo trabalhando com aqueles homens, bem antes do surgimento de Kira, havia se apegado a cada um deles que trabalhou tão honestamente até ali.

— Agora sabemos que Kira não usa somente criminosos, ele mata quem se opuser a ele. É bem possível que todos sejamos mortos por ele. — disse ele, desanimado. — Pensem em suas vidas, suas famílias e todos os outros que deixariam para trás... Se alguém quer deixar essa investigação, agora é a hora. Não serão rebaixados se escolherem não ficar, vocês têm minha palavra. Mas se não tiverem certeza absoluta, não precisamos de vocês. Tem que estar dispostos a lutar contra ele mesmo se isso significar um sacrifício maior... Só isso.

As palavras dele refletiam sobre os pensamentos de L. Era o que precisava: homens comprometidos com a investigação, lutando pela justiça mesmo sabendo dos riscos e das perdas que podem sofrer. Muita coisa estava em jogo, quem não estivesse pronto para bater de frente e ir adiante, não deveria estar naquela sala. A maioria tinha medo por suas vidas e seus familiares, desejavam um fim mas não tinham como combater um inimigo desse nível. Não demorou muito até que formasse uma demissão em massa por parte dos investigadores, reduzindo a equipe imediatamente em menos de duas horas, o que causara grande desvantagem a equipe da força tarefa.

— Cinco homens, é? — Soichiro olhou para os que sobraram na sala, com cenho fechado e expressão triste. — Bom, seis contando comigo... — aspirou pesado. — Fico contente de ver que há cinco colegas prontos para arriscar suas vidas para enfrentar o mal. Eu agradeço por vocês terem ficado.

— O fato de terem escolhido ficar, significa que vocês tem forte senso de justiça. — manifestou-se L, que até então tinha deixado Soichiro guiar a reunião sozinho. — Confio em vocês.

— Mas espera um pouco. L acabou de dizer que decidiu confiar em nós agora, mas que motivos temos para confiar nele? — Shuichi Aizawa, como sempre temperamental, retrucou imediatamente. É, L já estava esperando que ele fizesse isso.

— Olha L, todos aqui concordam em colocar suas vidas em risco para levar Kira à justiça. — Soichiro falou. — Então espero que entenda o que isso significa. Estamos nos expondo aqui, colocando nossas vidas em risco...

— Mas você nunca mostra seu rosto, não é? — Aizawa o interrompeu, impaciente. — Você só dá as ordens! Não sei como espera que trabalhemos nessas condições.

O senhor Yagami olhou para Aizawa soltando um suspiro cansado, encarando a tela do computador que Watari segurava.

— L, se nós vamos trabalhar juntos nessa investigação, e se você realmente falou sério em confiar em nós seis, pode vir aqui pra nos conhecermos pessoalmente? — tentou amenizar a situação, uma discussão entre sua equipe não ajudaria em nada naquele momento.

— A idéia já me passou pela cabeça, afinal, eu disse que confio em vocês. — respondeu sinceramente.

Watari aproximou a tela do notebook para que os policiais pudessem ler a mensagem que estava sendo digitada em tempo real para eles. Surpresos, leram imediatamente:

“(...) Por favor, mantenham em segredo, só para nós oito, o que acontecerá agora. Eu gostaria de encontrar os seis agora... Como disse, confio em vocês.

Então, por favor, saiam do prédio da Agência Nacional de Polícia, confiando em mim ou não (...) “

Demorou um tempo para que eles realmente se retirassem, não estavam muito confiantes em sua palavra, como já esperava. Mas logo teve a oportunidade de mandar sua seguinte mensagem.

“(...) Estou em um quarto no Hotel Imperial. Mas vou mudar de hotel sempre de agora em diante. Quero que pensem nesses quartos de hotel como o Quartel-general dessa investigação. Se esse arranjo for aceitável pra todos vocês, dividam-se em 2 grupos e marquem suas chegadas para que venham com 30 minutos de diferença. Por favor, arranjem para que todos estejam aqui à 00h00min.”

L se encontrara perto da janela ampla do quarto de hotel luxuoso, aguardando a chegada dos policiais. Não gostava da idéia de mostrar seu rosto, mas isso estava apenas começando, não faria com que mostrar seu rosto, fosse sua derrota definitiva. Estava se aproximando de Kira em passos iguais, e era questão de tempo até que colidissem. Que seja, estava pronto para mostrar seu rosto. Faria sua primeira aparição pública como L. E se Kira conseguisse descobrir sobre essas reuniões secretas... É certeza que iria querer vir até ali. É com isso que estava contando.

{ ••• }

A garota fitava as nuvens cinzas que predominavam no céu pela janela de seu quarto. A chuva iria começar em breve, e aquela tarde tão entediante só parecia mais longa para ela. Incontáveis gotas d'água começaram a descer do céu, e o som da chuva batendo contra as janelas e o telhado da casa ecoava incansavelmente. Tinha acordado há poucos minutos, não estava acostumada a dormir quando voltava da escola, mas assim que chegou, desabou na cama e perdeu a noção do horário em que acordara. Naquela tarde, o mesmo sonho de perseguição estava presente em seu subconsciente, mas se tornou tão comum e previsível, que não a incomodava tanto quanto antes, embora ainda a tirasse de si sempre que despertava daqueles pesadelos.

— Uki? Você acordou? — Misa batia empolgadamente contra a porta de madeira do seu quarto. Encarou aquela mesma porta fechada, estranhando.

— Sim. — e mesmo se não estivesse acordada, a agitação da menina logo o faria. — O que foi?

Ela abriu a porta. Seu jeito empolgado e quase saltitante estava estampado em seu rosto e em seu sorriso largo.

— Você tá bem, Misa? O que aconteceu?

— Tem um garoto lá em baixo perguntando sobre você. Ele já tá há um bom tempo te esperando, mas você estava dormindo e não quis te acordar.

Um arrepio desceu por sua espinha. Será que... Raito estava ali? O tanto que queria evitar que aquilo acontecesse. Não... Não podia ser. Ele não tinha dito que tinha um compromisso para hoje? Por que iria visitá-la sem avisar?

— Ele... Falou o nome? — engoliu seco.

— Não. Mas ele disse que é um velho amigo seu, então deixei entrar.

— Misa, como assim você deixou um cara que nunca viu na vida entrar em sua casa? — entoou preocupada. — Onde ele está? — podia ser um bandido, um assassino, a pior das hipóteses... E ainda assim ela foi louca de deixá-lo entrar. Será possível que Misa não via maldade em ninguém?

— Ele tá lá na sala te esperando — sussurrou. Não estava entendendo porque sua colega se preocupava tanto, ele não parecia um mal rapaz.

— C-Certo... Remu, fique aqui de olho em Misa. Eu vou lá ver o que ele quer.

Remu assentiu, e Misa o encarou confusa.

— Ok, vou ficar aqui só pra você pode conversar melhor com ele. Mas não demore, nunca é bom deixar um cara esperando.

— Esse é o menor dos nossos problemas agora, Misa — bufou leve. — Só fique aqui...

Atravessou a porta de seu quarto a encostando. Estava tão mal vestida que se fosse alguém que ela realmente conhecesse, poderia até se assustar vendo-a com o pijama velho que usava, mas também estava longe de ser a maior preocupação. Desceu as escadas com um nó na garganta, preferia olhar seus pés pisando em cada degrau do que erguer seu rosto e ver diretamente o que a esperava. Era uma sensação estranha.

— Quanto tempo, não? — o timbre rudemente grosso ecoou prendendo sua atenção imediatamente. — Você mudou muito. — Tsuki levantou seu rosto e olhou aqueles olhos avermelhados que já estavam fixos nela antes mesmo que pudesse perceber. Suas roupas eram pretas e largas; uma camisa branca um tanto desabotoada estava por baixo de uma blusa preta com uma touca que cobria parte de seus cabelos negros levemente molhados. Uma xícara de café que Misa provavelmente havia o oferecido estava sendo equilibrada entre seus dedos, mas logo a repousou sobre a mesinha de centro da sala. Levantando-se de maneira elegantemente peculiar, ele voltou a encará-la.

— Posso... Ajudar? — parou de frente a ele, alguns passos atrás, é claro. Havia uma barreira entre eles que preferia não quebrar, algo não a passava confiança, e aquele rosto, embora não fosse totalmente desconhecido, ainda não parecia ter boas intenções. Ele ficou em silêncio, sem a menor intenção de respondê-la, isso a deixou ainda mais incomodada. — V-Você...

— Sim?

— Antes de tudo: Não vai me dizer seu nome?

— Beyond. Beyond Birthday.

— Beyond... Birthday — repetiu fraco. — Eu não... Me lembro de ninguém com esse nome.

— Que decepção — comentou com leve ironia. — Vai me dizer que não ouviu falar no caso de assassinatos em Los Angeles? Pensei que admirasse o grande detetive L...

Quem era aquele homem? Por que estava dizendo essas coisas?

— Eu ouvi falar nesse caso... Aconteceu há alguns anos atrás antes de minha mudança pro Japão. O assassino dos bonecos de palha... BB — balançou a cabeça, confusa. — O que está querendo dizer? Que você é ele? O assassino? — soltou uma risada baixa porém sarcástica, mas isso não tirou o sorriso debochado que ele tinha no rosto. Na verdade foi uma péssima ideia provocá-lo, mas ao contrário do que imaginou, ele não revidou em nenhum momento. Ele não apresentava nenhum perigo... Julgando pelas aparências. Mas ainda era muito estranho acreditar na versão dele, e percebeu que Remu estava por perto os observando atentamente, até mesmo o shinigami não tinha ido com a cara dele e queria ver o que ele pretendia fazer.

— Sim, eu sou ele — confessou despreocupadamente. Mesmo se fosse verdade, por que ele iria contar algo assim pra ela? Até parece que um assassino iria até sua casa se confessar assim, a menos que quisesse... Sei lá. Matá-la? — Eu gostaria de falar com você... A sós.

— Pelo o que eu saiba, só tem nós dois aqui.

— Não, minha querida — sorriu virando seu rosto em direção ao shinigami. — Primeiro, faça o favor de colocar seu bichinho de estimação pra fora.

O quê? Ele podia ver Remu? Mas... Como? Ele por acaso teve contato com o Death Note de Misa? Aquilo era loucura. Não tinha como isso ter acontecido, Misa não iria ser tão descuidada.

— Não sei do que está falando — se fez de desentendida.

— Você sabe muito bem do que estou falando — ergueu as sobrancelhas, voltando a olhar Remu. A boca dela estava entreaberta, pronta para questioná-lo, quando ele foi mais rápido: — Sim, eu consigo vê-lo. Esses belos olhos vermelhos que você está vendo, são naturais. Nasci com eles, e eles sempre me mostraram mais do que os olhos humanos podem ver.

— Você... Conseguiu vê-lo desde o começo e ainda assim não demonstrou nenhuma emoção...

— Acha que um shinigami me assustaria? Conheci humanos bem piores, Maruyama — sorriu com suavidade. — Mas então... Vai pedir para que a Medusa se retire para podermos conversar melhor — encarou o shinigami.

— Não chame Remu assim — rebateu a garota. Por que estava defendendo um shinigami mesmo? Ah, vai saber. Pior era ele que... Chamou Remu de Medusa. — Remu... Pode ir... Se eu precisar irei chamar. — o shinigami calado se virou atravessando as paredes, ele estava incomodado, dava pra ver, mas fez o que ela pediu. Assim que ele saiu, olhou na mesma hora para Beyond. — Como você me conhece? O que quer de mim?

— Não se lembra de mim? Que pena... Éramos quase amantes até uns anos atrás.

Aquele tom cheio de cinismo dele estava começando a enchê-la, ele sabia como irritar alguém.

— Não, eu não me lembro de você. E se não começar a me responder direito, vai sair da minha casa nem que eu tenha que chamar a polícia.

— Ok, querida — respondeu normalmente, jogando-se no sofá mais perto folgadamente. Seu sorriso no canto dos lábios não havia se desmanchado até agora, e isso a assustava um pouco. — Antes de você sofrer o acidente... Nós éramos próximos. Você não se lembra, eu sei. Eu consegui os diagnósticos das clínicas que você passou desde que sofreu perda de memória, estou ciente dos remédios que você toma, dos pesadelos constantes, da ansiedade, de todos os seus demônios internos...

Estava incrédula. Como podia ser? Seu corpo estremeceu só de pensar que ele havia ido tão longe para saber sobre ela. Ele era um maníaco! Como era possível ele saber tanto? A angústia e o medo pareciam ter controlado cada parte de seu corpo magro e frágil. Aquele homem... Não era normal. E como sabia até mesmo do acidente que sofreu?

— Eu... O conhecia? — indagou enquanto sua respiração tornava-se acelerada.

— Mais do que isso, tínhamos uma relação... Digamos, muito próxima. — ela arregalou os olhos, fazendo-o rir. — Calma, estou apenas brincando. Não chegamos a ter nada. Éramos apenas amigos... E você também chegou a conhecer A.

— A?

Todos de onde ele vêm usam pseudônimos?

— Você também não se lembra dele? — perguntou um pouco surpreso, sentando-se no sofá um pouco mais sério que antes. — Pelo visto, terei que começar a história desde a Wammy's House...

— Wammy's House... Esse nome eu já ouvi.

Notas finais
Vocês devem estar estranhando a aparição de Beyond pelo fato de eu estar seguindo bem o anime (e assim continuará), mas posso dizer que sua breve passagem será bem significativa pra Tsuki e até mesmo pros planos de Raito, mas é melhor não entrar em detalhes não é mesmo? hahaha.