Lost In Paradise
32 Promessa
Notas iniciais

Aquilo o deixou no mínimo sem jeito. Na maioria das vezes se sentia desconfortável com contato humano desnecessário, mas, aquilo surpreendente não o incomodou. O que realmente o deixou incomodado foi desviar o olhar depois do feito, envergonhado. Detestava o fato de deixar tão evidente seu nervosismo, mesmo que não fosse de modo exagerado.
— Por que fez isso? — Perguntou, coçando sua nuca com o olhar vagando por outro ponto no aposento.
Ela sorriu abertamente, um pouco tímida.
— Considere como um agradecimento. — Mentiu, tentando não tornar aquilo mais embaraçoso do que já estava.
L a olhou, corando levemente antes de mudar de assunto o quanto antes.
— Não sei se está ciente mas, a partir de hoje, vou estar investigando Raito bem de perto. Creio então que isso vá afetar a privacidade de ambos. — Se levantou, andando em direção à um armário pequeno no canto da sala, abrindo a terceira gaveta.— Dito isso, tem algo que eu desejo lhe entregar antes de me comprometer com todas as monitorações. — Pegou um envelope, o segurando meio desajeitado como sempre.
— O que é?
— Esse é um relatório de investigação a respeito da morte de seu pai. — A entregou. — Inicialmente, os arquivos de policia me informaram que havia sido um assassinato casual. Mas em uma investigação mais particular, tive um grande avanço e consegui prender os reais culpados. Mesmo que seu pai não seja completamente inocente, nessa acusação que o levou pra cadeia, ele não tinha nenhuma ligação com os criminosos. — Suspirou. — Bem, devo admitir que foi bem trabalhoso encontrar esses arquivos entre tantos casos que conclui. Aqui você encontrará tudo sobre o processo, as acusações e as penas que alguns presos ainda vivos estão enfrentando. Também tem uma carta de seu pai, e pela data foi enviada pouco tempo antes de ter sido preso, ele já parecia estar temendo alguém...mas não é a única coisa que me chamou atenção. — Fez uma pausa, deixando-a intrigada.
— O que é, L? — Cerrou o cenho.
— Pelo o que parece, Kiyo Iwamoto foi sua verdadeira filha. — Tentou dar a notícia calmamente, tinha muita informação pra dizer de uma vez.
— A verdadeira filha?
— É. Mas não me interprete mal, antes de perder sua mãe ele realmente se importou muito, e não duvido que tivesse se apegado a você como se fosse realmente sua filha. Mas no diagnóstico médico, o tumor que sua mãe teve foi durante a gravidez, é um acontecimento raro que leva ao risco a vida da mãe e do filho que carrega. A cirurgia deveria ter sido feita, mas você poderia não resistir, então ela seguiu tratamento até te dar a luz, mas o avanço da doença a levou a ter poucos anos de vida conforme foi se espalhando. Com o pouco lucro que ela tinha, não pôde pagar bons médicos para realizarem uma cirurgia de sucesso. E com sua morte, aquele homem passou a interpretar que você foi a culpada pela morte da mulher que amava, além de ter tido sérios problemas psicológicos por quais foi tratado até certo ponto, e por isso se envolveu em tantos problemas e descontou boa parte deles na criança que você era.
Sem expressão e completamente petrificada, levou alguns minutos até que começasse a folhear os arquivos, mantendo seu rosto baixo.
— Já que se aprofundou tanto nesse caso...sabe me dizer quem é meu verdadeiro pai? — Ergueu o olhar.
— Lamento, mas ele foi morto há uns cinco anos atrás em um incêndio na biblioteca da cidade onde morava. Entretanto, Makoto, seu pai, foi um advogado bem sucedido que tive o prazer de conhecer mesmo não sendo pessoalmente. Ele sempre mostrou interesse em encontrar sua filha, e tenho certeza que se orgulharia se soubesse quem é.
L gostaria de esperar até dar essa notícia para a menina, mas sabia que pouco tempo poderia restá-lo, e gostaria que ela soubesse da verdade de uma vez por todas. Obviamente, se sentia mal por ter que informá-la de algo assim tão recentemente. Mas, mesmo sendo um choque atrás do outro, seria mais fácil para ela se recompor. Sendo sincero, ele não sabia ao certo que reação isso tiraria dela, mesmo que tivesse uma ideia, ela havia o surpreendido positivamente de um tempo pra cá.
— L. — Respirou fundo, guardando os documentos no envelope, o fechando. — Obrigada. — Abriu um meio sorriso, abraçando em volta da cintura dele.
Ele ficou confuso a princípio, não achou que ela fosse reagir tão bem...
— Você está bem? — Perguntou curioso, mexendo levemente em seus cabelos.
Se afastou, encarando-o.
— Não vou mentir que me sinto mal por saber que esse tempo todo fui maltratada por alguém que nem sequer tinha direitos sobre mim. Mas por outro lado...sei que ele foi meu pai, mesmo não sendo de sangue, ele amou minha mãe o suficiente para enlouquecer com sua morte, e a amando tanto daquele jeito, já me faz o perdoar apesar de tudo, pois também a amei desse jeito. E mesmo eu não podendo conhecer meu pai, conversar com ele, ou simplesmente perguntar as coisas que ele gosta de fazer...você me deu algo valioso: as lembranças dele. Está tudo aqui. — Mostrou o envelope. — Quanto mais eu ler sobre ele, mais descobrirei a pessoa que ele foi. E saber que você tirou boa parte do seu tempo para me presentear desse jeito, já me faz confiar em você mais do que muita gente que esteve ao meu lado a vida inteira.
— É uma resposta bem racional. — Comentou, com o dedão no canto de sua boca entreaberta. — A maioria das pessoas, particularmente mulheres, se sentiriam frágeis como uma notícia como essa. Seria um impacto grande, em outras palavras.
— E foi um impacto grande, mas me deu novas motivações... — Encarou o chão por um instante, pensativa.
Ele continuou quieto e imóvel, mantendo seu olhar parado na direção dela, como se esperasse alguma coisa. E como previu, ela não tinha terminado de falar, voltando a olhá-lo nos olhos, com o rosto erguido o suficiente para conseguir ver o rapaz alto à sua frente.
— L, eu sei que minha palavra não tem valor algum. — Deu dois passos não tão largos em sua direção. — Mas vou te garantir uma coisa... — Se aproximou ainda mais, chegando a pegá-lo de surpresa. Inicialmente ele recuou até encostar o corpo magro sobre a parede gelada, mantendo os ombros encolhidos um tanto tensos, sentindo mais peso sobre eles do que o normal. Nunca aproximou o bastante de uma mulher para saber reagir ou prever suas falas, e sempre que conseguiu fazer isso foi de modo lógico.— Eu prometo que você sairá vivo disso, e continuará ao lado da justiça mesmo quando o caso Kira chegar ao fim. — Falou, quebrando a distância entre eles.
— É uma promessa quase impossível de se cumprir. — Disse naturalmente, vendo-a olhando na região de seu pescoço, antes de erguer a cabeça e continuar a olhar fixamente em seus olhos.
— Mas cumprirei, não importa os meios que eu use pra isso.
— Você me preocupa desse jeito. — Curvou-se ainda mais na altura dela. — Do jeito que você fala parece já ter tudo planejado, e além disso, parece não se importar com o que aconteça a si mesma se isso garantir o meu bem.
— E sinceramente, não me importo mesmo L.
— Como pode dizer isso? — Aumentou seu tom de voz, mesmo ainda não tendo alcançado um timbre rude.
— Não há nada de errado em morrer, L. Mas sim em não ter feito nada enquanto esteve vivo. — Explicou. — Minha mãe e meu pai podem ter morrido jovens, mas morreram fazendo algo em que acreditavam de verdade. Pra mim isso basta, e não quero fazer o contrário.
— Entendo. Mesmo assim, não deve deixar de cuidar de sua proteção.
— Cuidarei até certo ponto. — Apoiou suas pequenas mãos sobre os ombros dele, tremendo levemente. — Mas se isso não acabar bem...quero ter certeza que enquanto durou valeu a pena ter feito tudo isso.
— O que você quer dize...
Antes que pudesse completar a frase, seus ombros tocaram a parede, e seu corpo ficou um tanto reto com o impacto, ganhando mais postura do que de costume. Sem entender, a fitou novamente, sendo surpreendido quando, na ponta dos pés, ela lançou-se em sua direção, alcançando sua boca que logo foi tocada. Suas mãos hesitantes seguravam a gola de sua camisa branca, em um beijo sem exigências, e pela leveza do toque ela parecia estar o conhecendo, passando várias emoções, que o fez entender o porquê de todas aqueles promessas e incertezas. O interesse que ela havia adquirido em si era mais do que interesse intelectual, e mesmo não sabendo se existia reciprocidade, retribuiu, sem saber exatamente o que fazer. Querendo ou não, entre uma pausa e outra, seus lábios começavam a se acostumar, e seu corpo mesmo nervoso relaxava aos poucos, sentindo a boca da menina abrir-se em um sorriso. Ela provavelmente estaria rindo mentalmente de sua inexperiência, embora na mente dela, ele estivesse se saindo melhor do que previra.
E quando a porta foi aberta, mal houve tempo de se separarem na chegada de Matsuda que mantinha sua boca aberta tal como seus olhos arregalados que mal se fechavam diante daquela cena. Imediatamente eles se afastaram, e mesmo L estando envergonhado, não se comparava as bochechas extremamente vermelhas de Tsuki.
— Er...foi mal pessoal, eu já estou de saída. — Disse Matsuda, soltando uma risada alta e forçada.
— Não! — Protestaram os dois ao mesmo tempo.
— Mas vocês estavam...
— Não estávamos fazendo nada. — Interrompeu L.
— É...você interpretou as coisas de maneira...errada. — Tentou desfaçar.
— Tá...já vi que vocês não querem que isso se espalhe. — Falou, levando o silêncio deles como um sim. — Não se preocupem. — Sorriu, se perguntando porque uma garota tão bonita foi se interessar logo pelo...Ryuzaki?!
Tentando afastar o assunto, L perguntou:
— Raito e Misa já chegaram?
— Ah, sim. Eles já devem estar subindo. — Respondeu Matsuda.
Ao ouvir isso, se sentiu muito grata. Obviamente, era embaraço Matsuda ter chegado, mas se Amane e Yagami tivessem entrado, seria mil vezes pior.
{...}
Depois que L e Raito conversaram, e Misa ficou reclamando com ela o tempo inteiro sobre ter que ser vigiada, o detetive finalmente realizou o que desejava e o viu algemar Raito à ele. Achou um tanto bizarro aquela escolha...mas vindo dele o que esperar, não é mesmo?
— Tem certeza de que isso é necessário, Ryuzaki? — Reclamou Yagami, desconfortável com seus pulsos envolvidos por aquela argola de ferro.
— Olha, isso é tão difícil pra mim quanto pra você. — Rebateu o rapaz.
— Então estar junto 24 horas por dia era isso? — Perguntou Misa, surpresa. — Olhando pra você eu nunca imaginaria. Você gosta mesmo disso? — Apontou pra Raito, buscando uma explicação de Ryuzaki.
— Eu já disse que não faço isso porque eu quero, tá bem?
— Mas o Raito me pertence, eu não quero dividi-lo com você. Se estar com ele 24 horas por dia é isso então como vamos ter nossos encontros?!
— Vocês ainda podem ter encontrados, mas terá que ser nós três.
— Nem pensar! Está dizendo que temos que nos beijar na sua frente?
— Eu não estou mandando você fazer nada, mas acho que vou ficar olhando sim. — Responde, fazendo Tsuki controlar o riso no canto da sala.
— Isso é nojento, você é mesmo um pervertido.
— Raito por favor, faça a Misa parar de falar.
— Escuta Misa: Para, já chega. Ele estabeleceu que você enviou as fitas então tem sorte de estar aqui agora, ele tinha todo o direito de manter você na cadeia. — Disse Raito.
— Como pode dizer isso Raito? — Ergueu as sobrancelhas, com um olhar triste. — Caso já tenha esquecido eu sou sua namorada. Você não confia na sua alma gêmea?
Ele arregalou os olhos, assustado.
— Hã? Como assim "alma gêmea"? Você que disse que se apaixonou por mim à primeira vista!
— Então por que você me beijou se não tinha sentimentos por mim? — Choramingou. — Você se aproveitou de mim! Idiota! Idiota! Idiota! — Batia nele, mesmo sem parecer afetá-lo.
L, sem deixar de prestar atenção na conversa por mais fútil que fosse, voltou a questioná-la:
— Esse amor a primeira vista aconteceu em Aoyama no dia 22 de maio, não foi?
— Idaí? — A loira parou de bater em Raito.
— Por que escolheu aquele dia pra ir à Aoyama? E lembra do que estava vestindo?
— Escuta aqui, eu já falei isso pra você. Eu fui lá, e eu não sei o que eu estava vestindo, eu não sei o que estava sentindo, eu não me lembro de nada. Enfim, desde quando eu preciso de um motivo pra ir até lá hein?
— De algum modo quando você voltou de Aoyama sabia que estava apaixonada por um cara e que o nome dele era Raito.
— É.
— E mesmo assim você não tem ideia de como soube o nome dele?
— É, idaí? — Se aproximou, irritada.
— Se o Raito fosse o Kira como você se sentiria?
— Ahn? Como eu me sentiria se o Raito fosse o Kira?
— Isso mesmo.
— Seria maravilhoso! — Foi até Raito, abraçando seu braço. — Eu sempre fui grata ao Kira por ter punido o homem que matou os meus pais, então se eu descobrisse que o Raito é o Kira seria bônus pra mim. Eu iria amá-lo ainda mais, mesmo que seja impossível amá-lo mais do que amo. — Falou empolgada.
— Mas é o Kira. Você o amaria ainda mais por isso? Não sentiria medo? E se ele tentasse te matar?
— Se Raito fosse Kira não seria nada assustador. Eu sou fã do Kira então se eu descobrisse que meu Raito é ele eu iria querer ser útil.
L estreitou seu olhar.
— Muita generosidade a sua, mas tenho certeza que Kira não precisa de sua ajuda. Bom Misa, baseado no que me disse não há duvidas de que você é o segundo Kira, mas deixou isso tão óbvio que eu não quero acreditar.
Sem querer ver o rumo que essa conversa tomaria, Tsuki saiu da sala com um livro em mãos. O que ela queria fazer no momento era falar com Raito a sós, mas não teve essa oportunidade. E algemado à L, seria ainda mais complicado. Teria que tentar fazer perguntas indiretas, mesmo que ele sem a memória do caderno não saiba exatamente como responder, talvez fosse útil, e poderia conhecer melhor a personalidade dele antes de se tornar Kira. Mas uma pergunta não saía de sua mente: Por que Remu não voltou a procurá-la? Ele está seguindo outro humano?
Continua...
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