Lost In Paradise
33 Abatimento

Em pouco tempo a construção que L planejou havia sido pronta. Eram exatos 23 andares superficiais e 2 de subsolo, como o mesmo esboçou. A arquitetura e o espaço foram muito bem divididos, mas o melhor de tudo era dar um fim ao esquema de troca de hotéis toda a hora, finalmente estariam estabilizados em um único local, e não havia do que se queixar nos quartos espaçosos e confortáveis.
Acordou em seu quarto com o corpo bem mais relaxado, e apesar de se sentir observada pelas câmeras que ainda a monitoravam, Tsuki por vez não tinha intenção alguma de sair de sua zona de conforto. Mexeu em seu cabelo bagunçado, levantando seu olhar fitando o relógio na mesinha ao lado da cama. Pelo cansaço nas noites anteriores, esperava ter dormido mais do aquilo, mas ao menos havia conseguido relaxar.
Em uma sala não tão distante de seu quarto, ouviu algumas vozes abafadas discutindo sem uma razão especifica. A voz de Misa foi a primeira que reconheceu, obviamente pelo tom exaltado, discutindo mais uma vez com Ryuzaki. Raito estava sendo até paciente demais com a loira, coisa que anteriormente, como Kira, não tinha interesse algum em fazer. Aquilo tirou dela uma revirada de olhos, tampando seus ouvidos com o travesseiro, algo que não ajudava muito, de qualquer jeito era melhor se levantar e se unir aos outros. Será que o tempo em que dormiu tiveram mais notícias do atual Kira? Era improvável ter tanto progresso assim, e com certeza L estaria bem desanimado com o rumo que a investigação estava tomando...
Em um pulo desengonçado levantou-se procurando equilíbrio apesar da sonolência. Caminhou sem pressa até o banheiro, franzindo o cenho ao ver as rodelas cinzentas em volta de seus olhos ao encarar o espelho. Seus olhos estavam bem inchados, parecia não ter dormido direito. Mas com certeza dormiu bem melhor do que os outros três, conhecendo Misa poderia dizer que ela ficaria no pé de L até que arrumasse um tempo sozinha com Yagami.
Ao terminar de se arrumar, diga-se de passagem, saiu até a sala após vestir-se adequadamente. Os policiais a cumprimentaram perto dos computadores, sem tirar o foco de suas pesquisas. Mas a causa do tumulto vinha do outro lado da sala, onde Misa sentada em um sofá pequeno conversava com Raito que no sofá à frente continuava ao lado de L, ainda algemados. Ao perceberem a presença dela pararam de discutir por um instante, e Misa abriu um sorriso indo abraçá-la.
— Uki. — Dizia Misa empolgada, abraçando-a quase a deixando sem ar.
— Calma Misa, eu preciso respirar... — Pediu, com dificuldade, em seguida sendo solta por Amane.
— Uki? — Perguntou o moreno ao ouvir o apelido...peculiar?
— É...Misa me chama assim desde que éramos pequenas.
— Eu imaginei que tivessem uma amizade de longo prazo. — Continuou L. — Imagino que vocês confiem plenamente uma na outra, estou certo? — Encarava Tsuki sem desviar sua atenção um único minuto. — Aposto que ambas sabem guardar os segredos da outra com muito equilíbrio mental.
L ainda não estava completamente satisfeito com as respostas que obteve de Tsuki. Não era questão de confiança, mas de fatos. Sem duvida ela iria longe para manter em segredo algo que prejudicaria sua amiga, principalmente se ela fosse suspeita de ser o segundo Kira, o que poderia levá-la à pena de morte. A maneira que a garota fosse lidar com esse tipo de ameaça o daria uma boa ideia do que Misa costumava fazer antes de perder suas lembranças como segundo Kira.
— Sim, Ryuzaki. — Fechou os olhos soltando um breve suspiro. — Nós preservamos nossos laços e confiamos uma na outra, mas como em toda a amizade, há limites que nem mesmo nós passaríamos.
Ele desviou seu olhar para os computadores onde Matsuda e Soichiro dividiam informações. Nenhum progresso...isso era agoniante para qualquer investigador.
— Preciso de doces. — Comentou se levantando e arrastando Raito sem qualquer aviso.
— Pera aí Ryuzaki! — Reclamou o garoto, confuso. — Como consegue consumir tanto açúcar? Isso não faz bem, sabia? — Perguntava educadamente.
— Açúcar faz bem para o cérebro, e para manter minhas energias é essencial.
— Se quiser posso ir comprar alguma coisa, Ryuzaki. — Interrompeu Tsuki. — Tem uma padaria por perto e deve vender algum bolo que você goste. Acho que Watari deve estar ocupado agora fazendo as pesquisas que você pediu sobre o caso Kira.
Virou seu rosto para o lado colocando o dedo indicador em seu lábio inferior enquanto encarava o teto, pensando no assunto.
— Você pode ir, mas devo pedir que Mogi a acompanhe pois ainda está sob monitoração.
Ela assentiu, e Mogi se afastou de sua cadeira pegando as chaves e a acompanhando até o elevador do edifício.
— Mogi, desculpe por isso. Eu sei que você estava fazendo suas pesquisas, não queria interrompê-lo.
Mogi abriu meio sorriso, simpático.
— Não se preocupe com isso, eu não estava encontrando nada relevante mesmo. E além do mais, eu acho que teria problemas se Ryuzaki me pedisse pra cuidar de você e eu me opusesse à isso. — Riu.
— C-como? — Arregalou os olhos, com o rosto ardendo de vergonha.
— Nada não. — Fugiu do assunto, sorridente.
Ao saírem foram direto ao carro, e enquanto dirigia Mogi puxava assunto com ela a fazendo rir. Ele era legal e parecia confiável, mas assim como os outros policiais, achava Ryuzaki um tanto implicante. Bem, não tirava razão deles...ele conseguia ser completamente insuportável quando queria, mas de alguma forma gostava disso. Muito contraditório, de fato.
— Mogi, se importa em parar aqui?
— Claro...algum problema?
— Acho que ouvi uma coisa então darei uma olhada pelo local, poderia comprar o bolo enquanto vejo isso?
— Sim, já até sei o tipo de bolo que agrada Ryuzaki. — Soltou uma risada fraca. — Fique por perto.
— Ok. — Saiu do carro no mesmo tempo que Mogi, indo para uma direção diferente. Procurava por perto, tentando ignorar o frio que nem imaginava ser tão impiedoso do lado de fora daquele edifício. Conforme se aproximava, voltou a ouvir um barulho, indo perto de algumas caixas jogadas perto do lixo. Se agachou tirando algumas da frente quando viu um gatinho miando, com a pata esquerda ferida. — Ei amiguinho, você está bem? — Acariciava o filhote, sentindo-o tremer. Não sabia se L implicaria com isso, mas não deixaria o animal morrer de frio e fome ali. Tirou o cachecol do redor do pescoço, enrolando no gatinho e cuidadosamente o pegando no colo tentando aquecê-lo.
— Pronto, Tsuki. — Se aproximou Mogi, vendo o que ela carregava em seus braços. — Um gato?
— Sim...eu acho que ele foi atropelado, a pata parece quebrada.
— Vai cuidar dele?
— Sim, eu me responsabilizo por ele. — Olhou o gatinho de pelo alaranjado e branco, com olhos azuis e focinho rosa.
O policial concordou com a cabeça entrando no carro, e assim ela fez o mesmo até chegarem em "casa", que não ficara tão longe do local. Adentraram o edifício sentindo seus corpos se aquecerem em comparação ao lado de fora. Mogi seguiu um caminho diferente, provavelmente indo pra cozinha ou algo assim, ela ainda não conhecia muito bem o lugar. Encontrou L e Raito no corredor do quarto de Misa, e o ruivo mais curioso logo vasculhou com o olhar o que ela carregava enrolado ao seu cachecol, ouvindo um miado.
— Onde você o encontrou? — Perguntou, abrindo um pequeno sorriso.
— Perto da padaria. Acho que ele quebrou a pata.
— É melhor enfaixá-la e dar um pouco de leite pro filhote.
— Sim... — Encarou o L, tentando arrancar uma reação de si.
Entendendo o recado, ele permitiu:
— Tudo bem, pode cuidar dele até se recuperar. Mas não deixe-o sair do quarto, ele pode se perder aqui dentro.
— Obrigada, Ryuzaki.
— Vou pedir que Watari cuide da pata ferida, enquanto isso poderia ir ao quarto de Amane conosco?
— Certo.
Apesar do detetive parecer simpático, ele estava muito entendiado. Parece que descobrir que Raito não é o Kira era praticamente impossível para ele aceitar, e não estava errado com isso. Não gostava de vê-lo tão desmotivado, mas não podia fazer nada para ajudar sem prejudicar seu plano em particular...
"Não se preocupe L, você ainda provará que estava certo." — Pensava.
{...}
Tempo depois e a morena entrava no quarto de Misa, que parecia não gostar nenhum pouco da presença de Ryuzaki, ou até mesmo da própria Tsuki, sendo sua intenção ficar sozinha com Raito. L terminava de comer seu pedaço de bolo, já Misa e Raito pareciam não ter tanto interesse quanto ele.
— Cara, eu acho que esse é o pior encontro que eu já tive na minha vida. — Reclamou Misa, emburrada.
— Não, não, não, não! Por favor, finge que não estou aqui. — Dizia L com o garfo na boca. — Aliás, você vai comer esse pedaço de bolo?
— Eu não vou comer, bolo engorda!
— Na verdade eu descobri que você não ganha peso sem queimar calorias usando o cérebro. — Rebateu, apontando para a própria cabeça.
— Pera aí, tá me chamando de burra agora é?! Tá legal, eu te dou um pedaço de bolo se me deixar sozinha com o Raito.
— Mesmo deixando vocês dois sozinhos eu ainda vou assistir pelas câmeras, então não faz diferença.
— Seu tarado! Dá pra parar com esse hobby sinistro?
— Pode me xingar do que quiser. — Se levantou pisando na mesa e alcançando o prato com o bolo de Misa. — Vai querer o bolo ou não vai?
— Tá bom então, eu vou fechar as cortinas e apagar as luzes.
— Nós temos câmeras infravermelhas também.
— O que houve com você? — Perguntou Raito. — Pensei que se mudar pra cá iria nos ajudar a pegar o Kira, mas desde que chegamos você não me parece muito motivado.
— Não estou motivado? Tem razão. — Concordava com a mesma falta de expressão e entusiasmo. — Na verdade, eu estou deprimido.
— Deprimido? Por quê?
— Bom... — Levou um pedaço do bolo até a boca, começando sua explicação. — Eu achei esse tempo todo que você fosse o Kira e meu caso todo dependia disso. Acho que eu não consigo aceitar o fato de que a minha dedução estava errada. Apesar de que eu ainda suspeito de você, por isso usamos isso. — Ergueu seu pulso mostrando as algemas. — E também sabemos que o Kira pode controlar os atos das pessoas, o que significa que é possível que o Kira controla-se os seus atos para que eu suspeitasse de você. Se eu admitir que você e Misa foram controlados por ele, tudo o que investigamos até aqui faz muito mais sentido pra mim.
— Se é isso que você pensa, então Misa e eu fomos o Kira no tempo em que fomos controlados, não é?
— É, eu acho que não me enganei com isso. Vocês dois são o Kira. Se o que eu acho está correto, no início da sua prisão você era o Kira. Eu não acredito que seja coincidência que assim que foi preso todas as mortes pararam. Até aí tudo apontava à você como o Kira. Mas depois de duas semanas os criminosos começaram a morrer de novo...baseado nessa evidência eu só posso concluir que, o poder de Kira passa de pessoa à pessoa.
— É uma ideia interessante, mas se isso for verdade vai ser quase impossível a gente pegar o Kira.
— É...é por isso que eu estou chateado. Mesmo pegando alguém sob o controle dele, essa pessoa vai perder os poderes e todas as lembranças do crime. No final, a perseguição é inútil.
— Mas a essa altura não temos como saber se o caso é esse, não é? Se anima aí.
— Me animar? Lamento, eu não posso. Deve ser melhor eu parar de tentar. — Colocou o dedo na boca.— Caçando o Kira tão desesperadamente só estamos expondo nossas vidas em risco por nada. É, é uma perda de tempo.
Raito, já sem paciência pra continuar ouvindo as reclamações do rapaz, se levantou respirando fundo.
— Ryuzaki... — Falou, atraindo a atenção dele e em seguida atingindo seu rosto com um soco forte que o derrubou no chão quebrando um vaso de plantas onde L foi lançado.
— Caramba, isso dói mesmo. — Comentou se sentando e passando a mão pelo local atingido, sentindo seu rosto dolorido.
— Para com isso! Não quer fazer nada sabe por quê? Por que as suas deduções geniais estavam erradas e eu não sou o Kira!
— Talvez eu tenha dito de maneira errada, eu disse que seria inútil agir então não devemos nos preocupar.
— Se não caçarmos o Kira ele nunca será pego, é isso que você quer?! Se era pra desistir então por que envolveu todas essas pessoas inocentes? E mais importante: por que eu, Misa e a Tsuki fomos parar na cadeia?! — Gritava, segurando L pela camisa branca.
Tsuki ficou surpresa, não só pelas coisas que Raito estava jogando na cara dele, como pelas ações seguintes de Ryuzaki...
— Eu entendo. Mas...seja qual for o motivo... — Se afastou, chutando a cara de Raito com a mesma força e intensidade do soco que havia recebido em seu rosto. — Olho por olho, meu amigo.
Raito tropeçava pra trás puxando Ryuzaki junto com si, caindo no sofá que despencou pra trás com o impacto.
— Não que a minha dedução estivesse errada, o fato é que eu posso dizer que Raito Yagami é o Kira, e Misa Amane é o segundo Kira. Mas isso não é o suficiente pra resolver o caso, por isso estou meio deprimido, isso é tão sem razão assim?!
— É, é sim. E além do mais, você devia se ouvir. Você não vai ficar satisfeito se eu não for o Kira!
— Eu não vou ficar satisfeito se você não fosse o Kira? Deve haver alguma verdade nisso... Quer saber? Já que você disse, tem razão. Eu acho que eu queria que você fosse o Kira. — Completou, recebendo novamente um soco no meio de sua cara. — Como eu havia dito, olho por olho. Eu sou bem mais forte do que pareço, sabia? — Voltou a chutar o rosto de Raito.
— Já chega vocês dois. — Disse a morena que não precisou fazer muito, logo o telefone estava tocando e L o tirou do gancho atendendo.
— Alô?
— Ryuzaki eu tenho boas notícias! Misa Misa é a número um na pesquisa de popularidade na Revista 18! — Falou Matsuda empolgado.
— Ah, sei.
— E olha, ela vai fazer o papel principal no próximo filme do Ishinaka... — Antes que terminasse de falar, o detetive desligou o telefone no mesmo instante, desinteressado.
— O que foi? — Perguntou Tsuki.
— Matsuda está bancando o bobo de novo.
— Essa é a especialidade dele. — Comentou Raito, mais calmo.
Eles estavam voltando para seus lugares, mas depois de assistir a tudo, a garota preferiu sair e voltar para seu quarto.
Depois de falar com Watari, viu que o gatinho ficaria bem, daqui há poucos dias já estaria andando normalmente e quem sabe encontrasse alguém para adotá-lo.
Em seu quarto seus olhos moviam-se acompanhando cada trecho do livro em que tinha em mãos. Em sua cama, bem ao lado, o filhote cujo nome ainda não havia sido dado brincava com uma bola de lã indo de lá pra cá. A porta que se mantinha intacta finalmente foi aberta, fazendo-a soltar o ar profundamente vendo quem adentrava o local. Surpreendentemente, era L. E não estava com Raito...o que estava acontecendo, afinal?
— O que aconteceu? Já libertou Raito?
— Não. Ele foi ao banheiro e aproveitei pra vir falar com você. Não que isso signifique que ele não continuará sendo monitorado. — Respondeu em um leve tom sarcástico, se aproximando da cama.
— Você coloca câmeras até no banheiro? É tão invasivo...
— É um mal necessário. — Pegou o gato em mãos, o encarando de frente. Ela não pôde deixar de soltar uma risada fraca, chegava a ser meigo aquilo, mas a forma séria que ele encarava o animal era cômica.
— O que veio fazer aqui, Ryuzaki?
— Lawliet.
— O quê?
— Meu nome é Lawliet. — A olhou friamente.
L está me contando seu nome verdadeiro? O que ele está tentando fazer...?
Continua...
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