Lost In Paradise
7 Perseguição

O corpo ensanguentado do assaltante estava no meio da rua, alguns passageiros assustados já tinham fugido de relance, outros ainda não conseguiam sair do ônibus e encarar o acidente. O agente estava parado perto da porta do ônibus olhando desacreditado os resquícios que a batida havia causado. Raito envolveu seu braço em volta do pescoço de Maruyama, guiando-a até fora do ônibus com o intuito de acalmá-la. Embora não quisesse, sua curiosidade e espanto estavam levando-a a olhar o cadáver de Kiichiro Osoreda, o que a afligia ainda mais.
— Vocês dois, escutem com atenção. — o agente do FBI sussurrou discretamente antes que atravessassem a rua. — Eu estou no Japão como parte de uma investigação secreta, então a polícia não pode descobrir que eu...Bem...
Do que ele estava falando? Como se ela tivesse algum motivo pra contar sobre aquilo a alguém. A não ser que Raito tenha.
— Entendi. Eu prometo que não conto a ninguém que o conheci — Raito respondeu. — Isso inclui meu pai também.
— Certo. Então, me dêem licença... — se afastou desaparecendo entre os carros da rua.
Raito observou o homem se afastar por alguns minutos, e logo voltou o olhar para sua acompanhante, que parecia tremer levemente.
— Desculpe, as coisas não saíram como esperávamos... — colocou a mão no ombro dela, esperando-a erguer seu olhar ao dele. — Você está se sentindo bem?
— E-Estou... — não, não estava. Sua cabeça estava doendo insuportavelmente. Fechou os olhos apertando-os bem, não queria ver aquilo mais. Não queria ter presenciado aquela cena. Suas mãos vagamente tremiam, sua garganta estava seca, seus pensamentos totalmente desalinhados... E as chances de ter uma crise de ansiedade eram bem altas naquelas circunstâncias.
— Você está tremendo... — segurou a mão gélida dela. — Fique calma, vamos sair daqui — com as mãos em suas costas a guiou a um caminho qualquer que pudesse ficar longe de todo o alarde que o acidente havia causado. Afastaram-se do grupo de curiosos que foram ver o que tinha acontecido, quando ela parou a caminhada respirando profundamente como se finalmente o ar tivesse voltado por completo aos seus pulmões. — Se sente melhor?
— Mais ou menos... Mas obrigada, Raito.
— Tsuki, você não falou nada, então queria pedir... Poderia manter sigilo sobre o agente? Você sabe, ele está em uma investigação secreta...
— Eu não irei contar nada... — olhou em seus olhos. Seria possível aquele rapaz ser mesmo o Kira? Ele entre todos os que estavam no ônibus eram suspeitos, mesmo não tendo provas fortes para afirmar qualquer coisa. Mas... Logo o Raito ser suspeito?
Yagami suspirou, fechando seus olhos e abrindo-os assim que sua mão foi parar na bochecha da garota.
— Não gosto de te ver assim... Está tão aflita. Você precisa descansar um pouco e esquecer o que aconteceu aqui. Quer que eu te acompanhe até sua casa?
Queria na verdade ficar um pouco sozinha e longe daquilo tudo... E se ele fosse Kira, era melhor evitar a colisão dele com Misa.
— Não é necessário... Já estou me recuperando.
— Tem certeza?
Será que ele se preocupava de verdade? Ou talvez ela fosse só uma garota que ele convidou por falta de opção em última hora. Se ele fosse o Kira... Por que a usaria assim? Não havia feito nada além de aceitar sua amizade... Isso estava começando a deixá-la enraivecida com Yagami.
— Tenho sim... Mas agradeço sua... Preocupação comigo.
Aproximou-se ainda mais dela, tão rápido que não deu tempo de tirar dela nenhuma reação ou intervenção, selando seus lábios rapidamente. Os olhos dela se arregalaram levemente, se antes se sentia usada nas mãos de Raito, agora mais ainda...
— Se cuida, hein? — afastou seu rosto. — Te vejo amanhã... Tsuki. — caminhou em sua direção oposta após abrir um sorriso leve. Ele realmente a subestimava demais...
{ ••• }
No dia anterior, quando chegou em casa e teve que explicar sem detalhes que presenciou um assalto, as coisas foram bem corridas. Misa havia ficado bem preocupada, mas desde que considerou Raito ser um suspeito de ser Kira, sua preocupação era que, se um dia ele acabasse vindo até sua casa, encontrasse não só Misa como o Death Note que ela escondia. Misa por alguma razão não queria se livrar de modo algum do caderno, e não iria pressioná-la por enquanto, então o melhor a fazer... Era mantê-lo mais seguro, já que ele estava debaixo da cama de Amane esse tempo todo.
Atualmente, estava terminando alguns ajustes em uma caixa e madeira artesanal que Misa guardava suas jóias, a loira encarava curiosamente ao seu lado, quando ela parou de mexer para encará-la e explicar a situação.
— Eu acho que por enquanto está bom... É meio perigoso, mas dá pra deixar aqui por enquanto. — suspirou, limpando a testa de suor. — O caderno já está dentro da caixa.
— Hum... Não parece ter nada diferente nela.
— Mas tem, por isso peço que preste atenção — Misa assentiu curiosamente. — Sempre que for pegar o caderno, pegue-o pela abertura que fiz na parte de trás da caixa. Eu abri um espaço que se iguala a largura exata do caderno, assim permitindo que você o puxe sem muitos esforços. Porém, a madeira que eu tirei pra fazer esse buraco ainda será utilizada, eu fiz um jeito que dá pra usá-la como fundo falso, tampando a abertura que fiz como... Uma camuflagem, entende? — explicava, demonstrando como fazer. Misa apenas respondeu com um "ok" e deixou-a continuar. — Eu prendi um isqueiro na abertura da caixa, assim quando a abrir irá pressionar o isqueiro criando uma chama que irá entrar em contato com um algodão que eu coloquei colado no fundo do porta jóias.
— Algodão? — questionou confusa.
— Ah, sim. Já ia me esquecer de explicar... Por sorte não matei as aulas de química e pude fazer um experimento... Coloquei ácido nítrico, ácido sulfúrico, água e...
— Fala logo. Odeio essas conversas sobre química.
— O-Ok. — disse sem graça. — Depois de unir os elementos ao algodão, o colei na caixa para que assim que alguém puxar a abertura da caixa, o isqueiro entre em contato com o algodão, provocando uma... Explosão. Não seria algo tão sério ao ponto de causar um incêndio, mas destruiria o caderno, e qualquer pista ligada a ele, instantaneamente. Não acho que vão suspeitar da gente, mas estará seguro, quando alguém vier aqui em casa, use esse método. Mas lembre-se de nunca deixar o Death Note em um único lugar por muito tempo, as vezes você pode colocá-lo atrás de um quadro, ou algo do tipo... Só o mantenha em segurança.
— Parece um pouco perigoso, não vou mesmo poder poder abrir normalmente?
— Pegue o caderno da forma que especifiquei, não tem erro. E deixe a caixa no fundo do armário como estava antes, ninguém iria vasculhar seu quarto assim ao ponto de encontrá-lo... Eu acho. Você entendeu?
— Hã... Eu acho que sim.
— Não se preocupe, na prática é muito mais fácil do que na teoria — esticou seus braços. Isso a lembrou que suas aulas de química eram sempre em dupla com Raito... Mas não queria pensar muito naquilo. — Não se esqueça, Misa.
— Tudo bem, vou mantê-lo em segurança, prometo.
— Que bom — levantou-se, encarando o shinigami perto da porta. — Agora... Se não se importar, preciso conversar com Remu de novo.
— Eu não gosto que vocês fiquem escondendo coisas de mim...
— Se fosse algo importante eu lhe contaria... Não vale a pena ocupar sua cabecinha linda com essas coisas — arqueou a sobrancelha.
— Não seja sem graça, Uki!
— Confia em mim.
Misa odiava quando não conseguia dizer não a sua amiga, resmungando sozinha.
— Tá. Mas só enquanto eu termino de arrumar meu quarto!
— Obrigada Misa, você é a melhor.
Amane continuou resmungando umas coisas que ela não conseguiu ouvir direito, enquanto caminhava até seu quarto sendo seguida por Remu. O shinigami parecia estranhar toda vez que ela o chamava para conversar, como se soubesse que sempre que iam conversar sozinhos, eram pra debater problemas. Tsuki tirou seus sapatos entrando no quarto, sentou-se na beira da cama com os músculos tensos e sem postura, enquanto o shinigami parava na sua frente curioso.
— Remu... Acho que Kira estava no ônibus que peguei ontem. — foi tudo que conseguiu dizer rapidamente.
— Como assim? — normalmente ele não mudava de expressões, mas Remu pareceu realmente surpreso por um instante.
— Foi suspeito... O assaltante que eu tinha falado, eu o reconheci no noticiário, ele tinha aparecido há poucos dias, e estranhei ele não ter morrido tão rápido quanto os outros que tiveram o nome divulgado e Kira acabou matando. Mas aconteceu algo também... O homem que estava sentado atrás da gente, se revelou um agente do FBI. O que um agente do FBI e um assaltante de banco que Kira ainda não executou fariam no mesmo ônibus? — balançou a cabeça negativamente. — Foi quando percebi outra coisa... O assaltante só começou a ter alucinações quando tocou em um papel. E eu me lembrei que quando Misa me fez te enxergar, ela passou um pedaço de papel do Death Note no meu braço. Minha teoria é que o Kira começou a manipular suas vítimas e estava naquele ônibus para observar seus comportamentos antes de morrer... Mas eu não sei, Remu, será que isso não seria muita coincidência? Me sinto muito paranóica. Devo estar maluca mesmo...
— Eu entendo seu ponto de vista... Mas se for o caso, também suspeita do garoto que saiu com você?
— Infelizmente, sim. Faria sentido o Kira estar naquele ônibus, Remu... E eu ainda descobri há pouco tempo que o pai dele é policial. Aquele agente não queria que o pai do garoto ou qualquer outra pessoa soubesse de sua investigação... Mas eu não posso afirmar nada. Não conheço os outros passageiros, e não sei se teria a possibilidade deles serem o Kira ou não. Só sei que se o meu acompanhante for o Kira... Ele estava sendo seguido por aquele agente. Se aquele homem acabar morto, não terei dúvidas que ele é o principal suspeito. Mas... São só idéias da minha cabeça.
— Bom... Não posso negar que você está pensando muito adiante. Mas acho melhor não comentar isso com a Misa...
— Não pretendo...
Era melhor assim, que Misa não soubesse que tinha a possibilidade de Kira estar mais perto do que pensava. Tsuki também não deveria tentar se aproximar de Kira, mas depois da aproximação de Raito, não podia cortar laços com ele do nada só porque estava desconfiada dele e das outras pessoas que pegaram o ônibus. Ele dizia não aprovar o que Kira fazia... Seria possível ele ser mesmo? Preferia que não... Seria uma dor enorme saber que dois amigos próximos dela, tinham um caderno mortífero em mãos e péssimas intenções sobre eles.
{ ••• }
Já estava se retirando do cômodo quando Watari voltou a entrar em contato. Estava acontecendo mais rápido do que ele previu, pelo visto teria mais trabalho do que pensou.
— L, outra vítima. Essa também deixou o que parece ser um bilhete de suicida.
— Envie pra mim, por favor. — pediu, se aproximando do computador novamente. Desde que percebeu que o primeiro bilhete deixado por Kira era uma espécie de mensagem que ao se ler as primeiras palavras de cada linha formavam "Você sabia L", passou a manter atenção dobrada em qualquer comportamento incomum que os presos passassem a ter nos próximos dias.
Deuses, levem-me desta ilusão
Da porta desta prisão
Morte ser-me-à redenção.
Deuses da morte...
L você sabia, deuses da morte...
Ele está tentando nos dizer que deuses da morte existem?
— Watari, diga a polícia para monitorar a população nas prisões de perto nos próximos dias. Kira pode usar bilhetes suicidas para se comunicar com a gente.
— Entendido.
Haviam se passado cerca de seis dias quando as coisas pareciam já ter perdido o controle entre os policiais. Nem todos aceitavam o jeito que ele trabalhava, mesmo com os resultados que conseguia, aquelas pessoas preferiam fazer várias acusações e não confiar em suas capacidades, só por manter sua identidade em anonimato. Isso já tinha criado inúmeros conflitos, e agora com a morte dos agentes do FBI, as coisas só piorariam.
— L, uma chamada do diretor da FBI. — chamou Watari novamente, seu timbre parecia mais preocupado que o normal, fazendo-o se virar para a tela que já tinha uma ligação aberta.
— Tenho um relatório em minha frente agora que diz que todos nossos agentes no Japão estão mortos. — o diretor reclamava completamente incrédulo. — Todos os doze morreram de ataque cardíaco. Agora só posso imaginar que Kira está por trás disso! Olha, desculpa, mas está decidido, estamos parando nossa investigação. — desligou rudemente.
Quando estava pronto para sair do quarto, foi surpreendido por Watari novamente avisando-o de mais uma ligação.
— Tenho o chefe Yagami na linha... — Watari avisou, incapaz de impedir que homem chegasse em frente a câmera para falar com o detetive.
— L! Eu acabei de falar com o diretor da FBI — o homem inchava de raiva. — Baseado no que ele disse... Parece que você chamou o FBI pro Japão pra investigar todos aqui relacionados a força tarefa!
— Sim, eu chamei — respondeu com a mesma despreocupação de sempre.
— Mas como é que você explica isso? — perguntava indignado, disparando palavras sem ao menos tentar ver o seu lado. — Somos agora suspeitos em nossa própria investigação?
— Senti que era necessário descobrir a identidade de Kira... — tentou se explicar.
— Eu não posso aceitar isso! Acho inacreditável que nos espione. Espionar as pessoas que trabalham pra você nesse caso?
— Sabia o tempo todo que não dava pra confiar nele — um dos policiais dizia, tão incomodado quanto os outros. — Mais importante: Kira matou aqueles agentes do FBI, não foi? É óbvio que ele vai matar qualquer um que entre em seu caminho, sendo criminoso ou não!
— Que grande senso de justiça, ele é um assassino... — outro se manifestava.
L ouvia entediadamente as reclamações dos policias quando Watari o informou sobre uma nova vítima, mandando mais um bilhete em seu e-mail que não demorou para chegar.
Só, espero minha hora.
Comem, aqueles que estão lá fora
Maças do pecado sob a aurora.
Você sabia L...
Deus da morte
Só comem maçãs.
Vai se danar Kira!
Fale com o autor