Lost In Paradise
1 O começo

❝ Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar. ❞
— William Shakespeare
Voltava para casa depois de um longo e cansativo dia, seu desanimo já nem tentava esconder. O vento gélido e o silêncio desconcertante tomavam conta do ambiente, e naquele momento, tudo o que Tsuki desejava era chegar em casa o mais rápido possível. Seu dia havia sido todo estranho e contorcido, muitas matérias para absorver e provas que não havia se preparado, além de seus colegas estarem mais distantes que o comum da garota.
Durante seu caminho uma sensação estranha havia se formado em seu corpo, olhou para trás minuciosamente, e embora torcesse para não ser como pensou, realmente havia um homem caminhando naquela mesma rua solitária em que seguia um tanto perdida, cujos passos lentos foram ouvidos em alto e bom som. Era o medo de toda mulher se deparar sozinha em um local como aquele com um estranho, um estranho do sexo masculino, por melhor dizer. Talvez fosse só mais um cidadão, ou quem sabe um estudante como ela, voltando para a casa. Mesmo que algo a dissesse que as intenções dele não eram boas. Mas pensar o pior, não era o melhor a se fazer. Incomodada, tentou controlar sua respiração e então atravessou a rua na esperança de despistar seu perseguidor. Para sua insatisfação, lá estava o mesmo homem copiando seu trajeto. A garota já estava começando a se aborrecer com aquele comportamento, e com isso, resolveu quebrar o silêncio, mesmo sabendo que afrontar alguém cujas intenções não conhece, era um grande risco de vida. Mas realmente não teve um bom dia, seu humor já foi dos melhores e com certeza não havia pensado direito em como reagir aquilo. Não era a primeira vez que tinha a sensação de ser observada e seguida, estava cansada de fechar seus olhos e fingir que nada aconteceu.
— Com licença, mas você está me seguindo? — perguntou, tentando não demonstrar o ódio que estava sentindo, o que talvez não tenha dado tão certo, já que seu tom de voz não estava nada dócil.
— Sim. Mas faço isso pelo seu bem. Estou te protegendo... — o estranho retrucou com uma calma que ela não esperava encontrar, com seus cabelos negros cobrindo sua face ainda misteriosa.
Quem seria aquele homem? E por qual razão ele iria protegê-la? Existia a possibilidade de ele estar zoando com sua cara, uma possibilidade que a irritava muito, não tinha tempo para brincadeirinhas tão infantis com desconhecidos.
— Me proteger? Nem nos conhecemos. Por que iria querer me proteger? Você está é começando a me assustar. Deixe-me em paz.
Ao invés de responder, o rapaz foi em direção a garota em passos largos.
— Por favor... Não vá por esse caminho — estendeu as mãos, com o intuito de segurar os braços de Tsuki, que já estava, por mais que não quisesse deixar transparecer, assustada. Ela deu dois passos pra trás, atordoada. — Não vá de encontro à morte... Você não...
A voz dele estava séria, e sinceramente, não queria ficar mais um minuto ali o ouvindo, nem sabia porque em algum momento teve a ideia de parar pra conversar, que ideia mais idiota!
Não podia deixá-lo se aproximar, sem muitas opções, se virou e começou a correr. Quanto mais sentia a aproximação dele, que além de mais forte não estava tão esgotado quanto ela estava, mais tentava apressar seus passos. Corria tão rápido que mal sentia seus pés tocarem o chão, seu coração batia forte e descompassado, mas mesmo com o esforço não foi capaz de chegar tão longe, tropeçando em algo que sequer deu tempo de ver o que era. Rezava para encontrar uma alma caridosa que a tirasse dessa situação, mas na vida real raramente havia um herói capaz de nos tirar dos perigos do dia a dia, ainda mais em uma rua tão escura e deserta quanto aquela.
Tentou se levantar e voltar a correr, mas o mesmo homem, que ergueu seu rosto e deixou transparecer um brilho não-natural de seus olhos escarlates, segurou-a pelos braços a puxando até ele. Embora se debatesse e gritasse por socorro, tudo em sua volta parecia ter se voltado ao total e absoluto silêncio. Seu perseguidor agora aproximava a mão de seu rosto, lentamente tampando sua visão completamente e a proporcionando a terrível sensação da escuridão que agora a pertencera.
{ ••• }
A jovem acordou ofegante, teve novamente um pesadelo incomodativo. Como de costume, ela não conseguia nem ao menos ver o rosto de quem a perseguia no sonho, sempre se torturou tentando entender o porquê de tudo aquilo, mas não chegava a nenhuma resposta satisfatória, e talvez fosse melhor assim, pensar muito nas coisas, principalmente nas que lhe incomodam, pode trazer muitos malefícios. Respirando fundo e tentando ignorar seus palpites, sentou-se na cama amarrotada e despertou seu corpo o suficiente para sair do quarto, descendo as escadas diretamente à cozinha. Abriu a geladeira pegando uma garrafa com água gelada, enchendo o copo que retirou rapidamente do armário. Enquanto o liquido passava por sua garganta, só conseguia sentir um arrependimento por ter acordado, tanto por saber que não conseguiria voltar a dormir tão facilmente, quanto por, mesmo não gostando da ideia, tivesse curiosidade em ver como o sonho acabava. Era meio mórbido, e se algo muito ruim acontecia até o fim do sonho, era melhor acordar antes mesmo, mas a teimosia dela não a permitia enxergar por esse lado.
Lavou rapidamente o copo deixando-o na pia, e caminhou quietamente até a sala. Acomodou-se no sofá, mantendo sua atenção na tv que Misa sempre se esquecia de desligar antes de ir dormir. Naquele horário o máximo que encontraria em canais abertos eram programas religiosos ou jornalísticos, que era o que estava passando naquele exato momento. Eram as mesmas notícias ruins de sempre; roubos, estupros, assassinatos. Passar muito tempo vendo notícias poderia estressar qualquer um. O que deveria ser feito diante de tudo aquilo? Nunca foi boa se ajoelhando para orar, na esperança de que o mundo se tornasse um lugar melhor. E mesmo se conseguisse fazer isso, muitas vezes se sentia inútil e sem nenhuma capacidade de mudar até mesmo sua própria vida, quem dera o mundo em que vivia. Talvez ninguém fosse verdadeiramente capaz de salvar aquele mundo.
— O que faz aqui? — os pensamentos da jovem sobre tudo aquilo foram rapidamente fragmentados no momento em que ouviu a voz de sua amiga. Nem a ouviu chegando, talvez estivesse viajando mesmo. — São três da manhã... O que faz acordada? Teve outro pesadelo? — Misa abriu um sorriso meio desanimado, sentando-se ao seu lado no sofá.
— Desculpe se te acordei... Eu... Tive sim outro daqueles sonhos estranhos — não gostava de falar sobre, mas Amane a conhecia desde pequena, sabia o que a incomodava, e embora tivessem vivido um tempo longe uma da outra, a confiança que tinham entre elas ainda era forte.
Amane mais do que ninguém sabia que Tsuki não se abria com ninguém de verdade, mesmo tentando fazer com que ela falasse um pouco sobre o que sente, ela era bem reservada com todos à sua volta. Sem contar que ela já havia passado por muita coisa, e depois que seu pai faleceu, ela ficou desamparada. Aquele homem nunca de fato a deu o amor que precisava, mesmo sendo criada sozinha por ele desde que sua mãe faleceu, duvidava muito que ela tivesse grande apego por um homem tão mesquinho quanto lembrava que ele era. Mas a morte dele veio inesperadamente... E conseguiu fazê-la se sentir mais só do que já se sentia. Foi difícil convencê-la a vir morar ali, mas insistente como Misa era, acabou conseguindo. Não ia deixá-la sofrer mais do que já sofreu, aquilo era pra ser um recomeço.
— Foi o mesmo pesadelo de sempre?
— Foi. Apesar de que as vezes o cenário muda muito, mas algumas cenas que consigo me lembrar estão presentes em boa parte dos meus sonhos — suspirou.
— Você já foi ao médico? Ou a um psicólogo, sei lá. Eu poderia marcar uma consulta pra você.
— Já fui sim. Meu terapeuta disse que deve ser minha ansiedade, ou algum trauma que eu não me lembre. Desde meus últimos exames, minha condição física e mental parecia saudável, não entendo porque isso vive acontecendo.
Misa afastou levemente a franja da testa da amiga, pousando sua mão sobre ela.
— Você parece um pouco febril. Vou buscar um remédio, está bem?
— Misa, não precisa.
— É claro que precisa — insistiu, olhando-a nos olhos. — Eu prometi que ia ficar de olho em você quando viesse pra cá.
— Está me tratando como criança — levantou levemente a sobrancelha.
— Pode até ser, mas não pense que vai deixar de cuidar da sua saúde como costumava fazer! — com seu ar entusiasmado mesmo em situações sérias, ela se virou até a cozinha indo buscar água e alguns remédios. Tsuki soltou uma risada fraca, queria ser como Misa as vezes, ela tem tanta facilidade em lidar com as pessoas e agir despreocupada daquele jeito. — Aqui. — disse com o copo e a pílula em mãos, ela havia voltando mais rápido do que esperava. Revirou levemente os olhos, não precisava de tudo aquilo, embora não se cuidasse tanto, sabia como o fazer. Mas não iria ser ingrata com o esforço de Amane, levando o remédio à boca sem reclamações.
— Obrigada, Misa.
— Mas então... Não está animada, Uki?
Uki... Como sempre, ela adorava citar aquele apelido chato e repetitivo. A Misa realmente não mudou nada.
— Animada com o quê exatamente? — perguntou enquanto encarava o copo.
— Ora, não se faça de boba. Hoje é seu primeiro dia de aula na escola nova, né?
Não estava tão entusiasmada assim, não era tão fácil para ela se habituar a uma escola nova e outra rotina. Misa estava bem mais animada que ela, talvez fosse um pouco contagiante até.
— É sim. Apesar de que você parece mais animada que eu, talvez devesse ir no meu lugar — ironizou.
— Me deixa! Estou pensando positivo — rebateu, sorrindo. E pela primeira vez viu sua amiga a olhar e retribuir um sorriso. Um sorriso espontâneo, e não forçado.
— Obrigada Misa. Mas acho melhor você ir se deitar, você tem que acordar cedo também.
— É verdade, tenho uma entrevista de emprego... — disse emburrada, não gostava nem um pouco de sair de sua cama tão cedo. — Você vai ficar bem?
— Vou sim, não se preocupe. Vá descansar — pediu gentilmente.
Misa colocou a mão no ombro da garota a puxando pra um abraço.
— Boa noite, Uki. Tente descansar também.
— Boa noite, Misa.
Amane sorriu simpaticamente como sempre, voltando para seu quarto e deixando Tsuki novamente encarando a tv. Agora sozinha, não queria voltar a pensar nos últimos noticiários que viu, acredita que quando mais apontamos defeitos a nossa volta, mais nossa revolta cresce, e nenhuma boa ação nasce do ódio assim, não é o jeito correto de resolver as coisas. Ficou fuçando vários canais, procurando algo para assistir. Por fim, se deu por vencida decidindo ir ler algum livro em seu quarto até seu sono aparecer de novo, isso se o remédio ajudar mesmo a deixá-la com sono.
Chegou ao aposento, pegando um de seus livros preferidos; Um Estudo em Vermelho. Deitou-se de bruços na confortável e bagunçada cama. Passou um bom tempo lendo, mas não estava tão focada quanto o normal, querendo ou não ainda se sentia cansada pelas poucas horas de sono, e o remédio que Misa a deu parecia começar a fazer efeito. Depois de um tempo devorando cada página daquele livro, pegou no sono ali mesmo.
{ ••• }
Os ponteiros marcavam 06h00min em ponto, quando o despertador incansavelmente gritava acordando a jovem completamente largada naquele colchão. Sua animação era zero, e seu corpo estava bem torto por ter dormido de qualquer jeito, mas era a hora de se levantar, infelizmente não dava para adiar aquele momento.
Levantou-se pegando sua roupa e indo diretamente para o banheiro. A manhã estava fresca, nem muito calor e nem frio. A primeira coisa que precisava era de um bom banho quente pra tentar tirar aquela aparência tão desmazelada que estava e despertá-la de verdade. Olhou pro espelho já com um suspiro de desanimo. Não era uma pessoa de autoestima muito alta, e nem tentava agradar os outros, mas já que iria começar uma vida acadêmica em uma escola diferente, não queria causar uma má impressão. Já que era seu último ano, preferia tentar aproveitar diferente do que fez nos anos passados.
Passou bons minutos debaixo do chuveiro, com as pálpebras fechadas sentindo seus nervos relaxarem a cada gota quente que se espalhava por seu corpo... Era isso que precisava, relaxar para que os problemas não interferissem em seus estudos.
Ao terminar de se arrumar pegou seu material perfeitamente arrumado, descendo as escadas para tomar seu café da manhã sozinha, já que provavelmente Misa já tinha saído pra sua entrevista. Tsuki e Misa sempre foram muito diferentes. Misa era sempre muito animada e inocentemente doce, qualquer um com más intenções poderia tirar proveito de sua pureza. Já Tsuki, era reservada e bem desconfiada com aproximações aleatórias, depois do que havia passado, já não confiava tanto nas pessoas como sua amiga fazia, por isso, sentia-se no dever de proteger Misa, que pra ela era como uma irmã — apesar de todas suas manias importunas; não era fácil se acostumar com o jeito infantil dela sempre, mas não via isso como defeito.
Terminou seu café bem rápido, nem havia parado para comer muito, querendo ou não ainda estava meio indisposta, mas não queria se atrasar logo em seu primeiro dia. Saiu e pegou seu ônibus pontualmente, sentando-se nos bancos do fundo encostando sua cabeça no vidro enquanto uma música clássica suavemente a acalmara nos fones de ouvido.
Quando chegou a sala de aula suspirou aliviada, havia sido uma dos primeiros alunos a chegar, analisando as fileiras de mesas e escolhendo um acento perto da janela, sempre gostou de observar o movimento de fora por ela, mesmo a desvantagem sendo que o sol sempre batia em seu rosto naquele local. Sentou-se silenciosamente, algumas estudantes a encararam e pareceram sussurrar algo entre si, o que a incomodou mas preferiu ignorar. Foi quando percebeu um garoto sentado à sua frente naquela mesma fileira perto da janela, apenas a uma mesa desocupada de distância. Seus cabelos lisos e castanhos beirados ao ruivo chegavam a brilhar, seu uniforme era mais alinhado do que o da maioria dos outros garotos que havia passado por ela no corredor, mesmo não vendo seu rosto, parecia um rapaz bonito, e no momento muito concentrado em sua leitura.
Após as apresentações, a primeira aula finalmente começou, e era de física. O professor já havia passado algumas coisas para copiarem nos cadernos e uma leitura rápida do livro, agora estava fazendo perguntas aos alunos, não era tão normal os professores saírem fazendo perguntas logo no primeiro dia, mas se tiverem prestado tanta atenção quanto ela nos textos, irão tirar de letra. O garoto que havia despertado sua curiosidade tinha acabado de responder seu professor, apesar de ele ter dado uma das melhores respostas até agora, ela só reparou no nome que o professor havia pronunciado quando olhou para ele. Raito Yagami. Com certeza ele era um estudante modelo, mas não estava atraída por ele como a maioria das garotas de sua turma, que a cada resposta dele, pareciam suspirar apaixonadamente. Aquilo era meio patético, mas ainda tinha uma curiosidade sobre ele, ele parecia ser "bom demais pra ser verdade". Sentia que ainda teria muito o que conversar com ele, ou quem sabe essas idéias bobas estivessem passando em sua mente em desespero pra fazer algum amigo ali.
— Tsuki Maruyama — chamou o professor pela segunda vez, segurando seu livro e a encarando curiosamente.
— Sim?
— Você é uma aluna nova, se não souber a definição, não precisa responder. — avisou. — Poderia dar uma definição sobre Entropia?
Respirou fundo, nem havia percebido que já era sua vez de responder, e não gostava que os outros alunos a encarassem fixamente esperando sua resposta, mas assim a fez:
— Entropia é uma variação de estado. Melhor dizendo... Variações entre dois estados, quando são dados pela integral do inverso na temperatura em relação ao calor trocado. — respondeu, sorrindo sem graça pelos olhares curiosos de seus colegas. Ela falava de um jeito parecido com o do Raito; com palavras exatas e complicadas, mas que saiam com uma naturalidade impressionante.
— Muito bem, Maruyama. — elogiou o professor, com um sorriso satisfatório, arrumando seus óculos e voltando seu olhar para o restante da turma.
Raito a encarou de soslaio, sem dizer nada. Assim que percebeu, pareceu incomodada, talvez fosse impressão sua, mas algo nele ainda a incomodava muito, talvez por ele ter um ar superior... Parecia julgar cada um a sua volta com um simples piscar de olhos.
{ ••• }
As aulas passaram consideravelmente rápidas, Tsuki não tinha conversado com muitos alunos, não sabia exatamente como chegar neles e puxar assunto, e talvez não conseguisse ter tantos amigos por ali, mas tinha gostado do ambiente pelo menos, era bem melhor que sua última escola. Levantou-se apanhando seu material e de forma estabanada acabou deixando um livro de geometria cair no chão, mas Raito, por sua vez, havia pegado assim que se colocou de pé com o intuito de ir embora.
— Prazer, sou Raito Yagami. — se apresentou sem mais nem menos. De modo calmo, entregando o livro.
— Obrigada. Sou Tsuki Maruyama — respondeu na mesma calma que ele.
— Sim, eu sei.
Ela desviou o olhar pro chão.
— Notei que é uma boa aluna, vai ser bom ter alguém do mesmo nível por aqui.
— Mesmo nível?
Era um elogio? Embora estivesse feliz em recebê-lo, jamais pensou em níveis de inteligência, não era mais ou menos inteligente que ninguém naquela sala. Mas ele deve ter muita confiança pra se sentir daquele jeito; em um nível superior aos seus outros colegas.
— Sim. Podemos revisar as matérias a qualquer hora, se quiser.
— Claro... Eu iria adorar.
Depois de cumprimentá-la, Raito se afastou saindo da sala. Foi uma conversa extremamente rápida. Queria falar mais com o garoto, mas achou melhor não incomodar, afinal, era seu primeiro dia, ainda teria muito tempo pra se informar sobre ele, não gostava de pressionar as pessoas com perguntas, ainda mais sem conhecê-las bem.
Antes de se retirar, olhou pra fora e viu algo caindo, se aproximou com curiosidade da janela e viu o que parecia ser um caderno, mas não conseguiu ter certeza porque passou muito rápido. Deu de ombros, talvez fosse uma brincadeira entre os alunos que estudavam no outro andar. Quando estava atravessando o pátio passou pelo local em que viu algo caindo, e não havia nada por perto, não achou que fosse algo importante mesmo, então seguiu seu caminho até em casa.
Quando chegou a residência bateu suavemente a porta, já encontrando a figura de Misa bem arrumada a encarando empolgada. Suas roupas eram sempre cheias de babados e acessórios que chamavam a atenção, se fosse para compará-las, as roupas de Tsuki eram sempre relaxadas e largas, enquanto Misa era a modelo bonita que chamava a atenção por onde passasse.
— Ah, você chegou! — agarrou no braço da menina, a acompanhando pela sala. — Conta tudo. Como foi seu primeiro dia?
Riu da forma animada que Misa falou, agindo normalmente.
— Foi bom, apesar de ser o primeiro dia já fiz algumas amizades — na verdade só havia conversado pra valer com Raito, no intervalo ficou praticamente sozinha... Mas não queria quebrar a empolgação da loirinha. — Como foi a entrevista?
— Foi cansativa, mas consegui um novo ensaio. E advinha? As fotos ficaram ótimas — disse com a mão na cintura.
— Isso é bom. Sabia que você ia conseguir.
— E então? Já conheceu algum garoto?
Ela já ia falar de garotos?
— Bom... Só falei diretamente com um.
— Ai, não acreditou! — soltou praticamente um grito eufórico. Droga Misa... Por que você tinha que agir assim sempre?
— Não grita, os vizinhos vão reclamar de você de novo — alertou. — Você não me deixou terminar de falar...
— Mas você deve ter gostado dele, só de falar nele seu rosto já ficou vermelho!
Era incrível como todo garoto que ela tinha algum contato visual na rua, Misa acreditava que era sua alma gêmea...
— Ele é só um colega. E, além disso, conheci ele hoje, não invente coisas. — bufou levemente.
— Uki, nunca ouviu falar em amor a primeira vista?
— Já ouvi falar, e não tenho interesse. Essas coisas não acontecem assim, já falamos disso.
— Ah, não me venha com esse papo. Você parece um robô falando desse jeito — cruzou os braços, como se não fosse aceitar nenhum argumento sobre aquilo. — Amor a primeira vista é ver alguém e sentir uma esperança vinda daquela pessoa! É... — as falas de Misa começaram a pausar do nada. — É você... — os olhos dela estavam fixos em um ponto da sala, mais precisamente, atrás de Tsuki. A menina de cabelos negros olhou para trás esperando encontrar algo, mas não havia nada além dos móveis velhos daquela casa.
— Misa, qual o problema?
— QUEM É VOCÊ? — sua voz havia se alterado de vez, não era um grito empolgado como de antes, era a mais pura surpresa e espanto. — Você... Não parece nada humano — as pupilas dela dilatavam-se cada vez mais, recuando alguns passos pra trás.
Nunca a viu daquele jeito, será que estava delirando?
— O que você quer comigo?! — continuava a berrar em choque.
— Misa, o que você tem? Tente se acalmar... Não tem nada aqui.
A modelo respirou fundo e crispou os lábios, olhando nos olhos negros com relances violetas de sua amiga. Sabia que ela não estava mentindo, aqueles olhos não a trairiam.
— Você... Não o vê mesmo? — segurou a mão da outra.
As mãos de Misa estavam geladas, ela havia mesmo se assustado com algo.
— Não, não vejo nada aqui. Você vê? — perguntou calmamente.
— Eu...
Misa entrou em um silêncio quase raro, ela era sempre elétrica, não se calava sem motivo algum. A respiração dela pareceu voltar ao normal, agora parecia mais calma, e também tinha finalmente entendido o que estava acontecendo...
— Tsuki, eu tenho uma coisa pra te mostrar.
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