Lost In Paradise
2 Descoberta

Aquilo era estranho, ainda achava que Misa estava delirante, mesmo não apresentando um sinal de delírio. Mas o susto dela desapareceu com a mesma velocidade em que surgiu, não estava conseguindo entender...
— Misa, você está bem? Fala alguma coisa — pediu, preocupada. Aquele silêncio todo até o quarto de Amane estava a incomodando, ela não era de fazer tanto mistério, do nada simplesmente pede para acompanhá-la? Era suspeito.
— Confia em mim. — entrou em seu quarto pouco iluminado, com uma cortina escura tampando a iluminação natural. Ajoelhou-se no chão ao lado de sua cama. Ela pareceu pegar algo debaixo da cama, mas escondeu cuidadosamente. — Feche os olhos e só abra quando eu pedir.
— O quê?
— Já disse, confia em mim.
Arqueou uma sobrancelha lançando um olhar confuso à loira, mas assim fez. Com os olhos fechados ouviu os passos de Misa se aproximando, sentindo encostar o que parecia ser um pedaço de papel em seu braço.
— Pode abrir. Mas por favor, fique calma...
Curiosa, abriu lentamente seus olhos, infelizmente vendo o que tanto assustou Amane. Levou um grande susto com a figura à sua frente. Tropeçou pra trás, quase gritando ao ver a criatura. Deparou-se com um ser esquelético, de braços longos, com marcas em seu rosto, que assim como seu cabelo, eram azuis. Estava bem longe de ser um humano.
— M-Misa... O que é isso? — indagou boquiaberta, não conseguiu evitar que por um momento tremesse, nunca viu nada parecido. Estavam correndo perigo? — Afaste-se disso, Misa! Eu...
— Calma, Uki... Me assustei tanto quanto você, mas consegui entender... Vou explicar.
— Explicar? Você sabe o que essa coisa quer?
O ser inexpressivo observara Tsuki encará-lo pasma, enquanto Misa tentava acalmá-la, mesmo ela não sendo a pessoa mais indicada a isso.
— Sou um shinigami — manifestou-se a criatura. — Não se preocupe, não estou aqui para machucá-las. Estou aqui por causa do caderno que Misa encontrou. — apontou seus finos e longos dedos para o caderno de capa preta que Misa agarrara entre seus braços.
Shinigami? É possível mesmo... Shinigamis existirem?
— Caderno...? — encarou Misa, tentando se aproximar sem dar um passo em falso, já que ainda se recuperava do susto pregado. — Misa, deixe-me ver isso, por favor.
Death Note... Um caderno da morte? Só pode ser brincadeira...
Não. Não pode ser brincadeira! Não teria motivos pra um shinigami mentir. Embora fosse inacreditável, não tinha outra explicação. Mas como isso foi parar com Misa?
(...) O humano cujo nome for escrito nesse caderno morrerá.
Esse caderno não surgirá efeito a menos que se tenha em mente o rosto daquele cujo nome está sendo escrito (...)
Isso tudo era muito forte para ser uma mera brincadeira.
— Misa, como e quando encontrou esse caderno?
— Foi bem recente... Uns cinco dias atrás eu estava voltando pra casa quando encontrei o caderno jogado na calçada de nossa casa. Pensei que era o presente de algum fã, e tive que pegar. Eu li sobre as regras do caderno e fiquei assustada mas... Por alguma razão não consegui me livrar dele. Eu só fui saber que ele é real quando vi esse shinigami, eu não fazia ideia que o caderno realmente tinha um poder, até porque nunca o usei...
— Por que não me contou?
— Não achei que fosse acreditar!
— É... Devo admitir, se não estivesse vendo um shinigami com meus próprios olhos, não acreditaria em uma história tão maluca quanto essa — passou a mão por seu rosto, mais calma. — Quanto ao shinigami, tem um nome?
— Me chamo Remu.
— Remu... — Misa sussurrou. — Remu, o que faz aqui? Quer seu caderno de volta? É por isso que veio aqui?
— Não, não vim pegar o caderno de volta. Veja bem... O caderno se torna propriedade do mundo humano no momento em que ele toca a terra, e o primeiro humano que o encontra, passa a ser proprietário do Death Note. Portanto, o caderno agora pertence a você, Misa Amane. Só estou aqui para acompanhar o caderno, o humano que tem a posse do Death Note deve ser seguido por um shinigami até o dia de sua morte, ou do fim do caderno, se acontecer antes disso. Você é livre para entregá-lo a outra pessoa se quiser, mas se fizer isso, perderá suas lembranças do caderno.
— Ah, entendi.
Aquilo não era nada bom, a solução daquele problema não estava em seu alcance. Será que Misa usou o caderno? Era melhor acreditar que não fosse o caso, mas mesmo se sentindo culpada por isso, não estava totalmente convencida... Por que ela guardaria esse caderno se não fosse pra usá-lo? É um poder grandioso, mas que pode levar qualquer pessoa a loucura.
— Misa... Você matou alguém usando o Death Note?
Misa não pareceu gostar nem um pouco daquela pergunta, fechando o cenho.
— Como você pode pensar uma coisa dessas?
— Perdão, mas você escondeu isso de mim... Você não é disso. E por que está o guardando se não vai usá-lo?
— Não. Eu não cheguei a matar ninguém — retrucou, azeda. — Você mais do que ninguém deveria saber que eu não faria isso. Para de me julgar assim! Depois de tudo o que fiz por você, só quer saber de me acusar?
— Me... Desculpa. Você tem razão.
A loira suspirou. Não queria discutir por um motivo tão bobo com sua melhor amiga.
— Não tem problema. Mas não quero que fique me perguntando essas coisas...
— Tudo bem, me desculpa se te pressionei. Mas então... O que pretende fazer com o caderno?
— Não sei. A esperta aqui é você — brincou. — Acha que devo entregar o caderno pra alguém?
— Bom... — coçou a nuca, sem jeito. — É melhor mantermos o caderno em segurança por enquanto, se ele cair em mãos erradas pode resultar na morte de inocentes, e sabe-se lá o tipo de coisa que fariam com um poder desse em mãos.
— Uki você é incrível — Misa pulou em cima da amiga empolgadamente. Mas por que diabos ela se empolgou tanto na possibilidade de continuar com o caderno se nem faria uso dele? Não tinha como não ficar desconfiada...
— Calma, Misa. Eu falei que podemos ficar com o caderno por tempo determinado, mas não falei em momento nenhum que deixaria você sair por aí matando todo mundo — ironizou, revirando os olhos. — Entenda que são vidas humanas, não cabe a nós decidirmos quem deve viver ou morrer, está bem? — Misa assentiu sorridente. — Ótimo. Me prometa que não fará nada inconsequente.
— Deixa comigo, vou encontrar um lugar pra esconder o Death Note, tá bom?
— Ok, mas certifique-se que o esconderijo é seguro, até lá eu irei pensar no que fazer com o caderno. Agora vou pro meu quarto, preciso descansar um pouco pra depois me focar nos estudos. Até logo, Misa e... Remu. — disse terminando aquela conversa tão estranha.
Entrou em seu quarto se jogando na cama, a garota balançava a cabeça negativamente, as coisas não estavam saindo como ela planejava. Pensara que ao se mudar e entrar em uma nova escola poderia esquecer tudo o que passou e passar a viver uma vida menos agitada, mas em seus primeiros dias, já havia se metido nessa confusão.
Ela se lembrou do que viu caindo no colégio, seria aquele um Death Note? Não tinha visto tão bem pra ter certeza que era. Mas poderia ter mais de um caderno no mundo dos humanos? A mente da jovem não parava de formular perguntas, ela sabia que algo ruim estava por vir, mas não queria se envolver nisso, muito menos ver Misa com uma arma tão devastadora.
{ ••• }
No dia seguinte, acordou atrasada por ter passado quase a noite inteira pensando naquele caderno. Se arrumou o mais rápido que pôde para a escola, só pensando na bagunça que sua vida estava se tornando. Pesadelos, shinigamis, atrasos... O que mais poderia acontecer?
Quando desceu do ônibus pronta pra sua pequena caminhada até o portão da escola, avistou um rapaz de cabeleira castanha trajando uniforme escolar em boa postura. Sem dúvidas, era Raito. Seria errado tentar conversar com ele? Queria se distrair de todas aquelas ideias, mas não tinha certeza se Raito seria a melhor companhia. Mesmo assim...
— Yagami... — chamou assim que conseguiu alcançá-lo, mas sua voz tinha saído tão baixa que não pensou que ele realmente tivesse a escutado. Mas não só escutou como virou seu rosto reconhecendo sua voz. — Bom dia.
— Ah, oi Tsuki — sua voz estava entediada como sempre. — Como vai? — abriu um meio sorriso, tentando parecer mais simpático.
— Estou bem. Apesar de ter me atrasado um pouco...
— Não se preocupe, as aulas sempre demoram alguns minutos pra começar mesmo, ficar esperando tanto tempo é bobagem, é ficar ainda mais tempo naquela sala de aula. Sempre planejo chegar minutos depois, odeio esperar.
— Realmente, mas não gosto de me atrasar — riu forçado, estava um pouco sem graça, se arrependendo de ter o chamado. Ele sempre tinha uma postura superior, isso a fazia se sentir... pequena. E ele percebia que ela estava incomodada, mesmo assim não mudava seu jeito. — Posso... Te fazer companhia até chegarmos na escola? — tentou disfarçar.
— Claro.
— Obrigada então...
Raito não estava sendo tão espontâneo como foi no dia anterior, era estranha essa mudança repentina de humor, mas talvez fosse um traço da sua personalidade ainda misteriosa para ela. Fizeram o resto do percurso praticamente em silêncio, um comentário ou outro sobre as últimas notícias eram feitas, mas nada muito atrativo. Durante as aulas, não conseguia parar de observar cada movimento dele, mesmo tendo pouco tempo de convivência podia notar que ele estava incomodado com algo, havia uma pequena mudança naqueles julgadores olhos castanhos. No intervalo ele ficou anotando algumas coisas em seu caderno boa parte do tempo, comeu muito pouco e não quis se sentar à mesa com seus colegas, logo ele que era tão popular.
Se preocupava com as outras pessoas, e mesmo o conhecendo pouco, se ele estivesse enfrentando algum problema queria poder ajudá-lo, já que queria a amizade dele, apesar dele ainda a incomodar em vários sentidos. Até tentou falar com ele sobre e dar apoio, mas ele agradeceu um tanto seco, não parecia se importar com isso, era uma pessoa que assim como ela gostava de resolver as coisas sozinho. Era melhor assim então... Já tinha problemas demais pra se preocupar mesmo. Um deles encontraria todos os dias ao voltar da escola.
{ ••• }
Caminhou pela rua sem prestar atenção nos detalhes a sua volta. Pensava em tudo o que estava acontecendo, aquele caderno tinha mesmo se fixado em sua mente, não queria que ele fosse um problema para elas, mas se não o protegesse, outra pessoa que iria causar problemas com ele. Era meio sem escapatória. Embora fosse um caderno inútil pra ela que nunca iria matar, a quantidade de pessoas que gostariam de ter essa arma em mãos era assustadora.
Chegando em frente ao seu novo lar, viu Remu pela janela aberta da sala, o que a fez se arrepiar abruptamente. Outras pessoas não podiam vê-lo, mas chegar em casa e encontrar aquela figura logo de cara a deixava um pouco tensa, precisaria de mais convivência pra se sentir confortável com o shinigami, que era até mais simpático do que esperaria de um deus da morte. Era estranho Misa ter aceitado aquela situação com tanta facilidade, ela não se preocupava com absolutamente em nada... Pelo menos era melhor do que ela tentar alguma coisa.
Girando a maçaneta, adentrou na casa ouvindo o barulho da tv ligada. Estava em um volume muito alto para sua insatisfação.
— Olá Misa — cumprimentou jogando sua mochila no sofá.
— Que bom... Que você chegou. Eu preciso... Te contar uma coisa muito séria — Misa estava aflita, não como da primeira vez que viu Remu, dessa vez, ela estava espantosamente surpresa. E parecia conter uma felicidade desconhecida em seus olhos.
— O que aconteceu? — encarou.
— O assassino dos meus pais... Está morto.
— Morto? Misa, você tem ideia do que está falando?
— Sim... Ele está morto.... Aconteceu... Um milagre.
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