Lost In Paradise
3 Justiça

Era difícil acreditar que, logo quando Misa descobre o poder do caderno, o culpado pela morte de seus pais seja assassinado em tão pouco tempo. Era quase surreal. E Misa estava muito feliz com aquela notícia, apesar de ter sido um impacto muito grande pra ela, já que se lembrou de tudo o que aconteceu e consequentemente se sentiu mal com seus fantasmas a assombrando novamente. Mesmo assim, ela estava... Feliz.
— Misa, você fez alguma coisa? Você usou o caderno?
— Eu não fiz nada, está bem? Mesmo tendo motivos de sobra, eu não matei aquele homem, agora para de voltar nesse assunto! Nem o nome dele eu sabia, só reconheci pela foto divulgada — se defendia, aborrecida. — Poderia pelo menos fingir que está feliz por mim?
— Não posso fingir estar feliz por você se alegrar tanto com a morte de alguém... Mas levando em conta o que essa pessoa te fez, é completamente compreensível... Desculpa por ser desconfiada. Presto muita atenção em detalhes e raramente acredito em coincidências, principalmente quando resultam em morte. Mas prometi que não tocaria no assunto por enquanto, então não irei falar sobre...
— Obrigada.
— Mas sobre esse homem, tem certeza que morreu? Quando aconteceu?
— Acabou de ser noticiado — sorriu ignorando completamente a discussão anterior. — Pra ter uma ideia, já tem uma lista com todos os criminosos que morreram nos últimos dias. Veja isso! — virou o laptop para Uki, que o segurou enquanto seus olhos passavam rapidamente pela lista sem se dar ao trabalho de decorar os nomes citados.
(...) Sucessões de mortes inexplicáveis dos maiores criminosos do mundo.
— Quando essas mortes começaram? — perguntou em tom preocupado, lendo o artigo. — Pensando bem hoje cedo tinha muitas notícias de criminosos mortos... Mas não achei que fosse assassinatos em série desse jeito.
— Começaram a publicar as notícias ontem, a internet só fala disso. Mas não dá pra ter certeza que são assassinatos, Uki.
— Sei... Mas está claro que são assassinatos, se não fossem, cidadãos comuns estariam sendo mortos também, mas o assassino está escolhendo as vítimas. Sem falar que não teria outra explicação, tantas criminosos de diferentes países não iriam morrer do nada tão misteriosamente assim — comentou. — Mas não estou vendo sobre a causa das mortes, não divulgaram isso?
— Até agora tem sido parada cardíaca — respondeu animada, como se fosse a melhor notícia do mundo.
Então é isso... O Death Note é claro sobre a regra que, se não colocar a causa da morte, a pessoa morrerá de parada cardíaca. Não tem outra arma capaz de matar a distância tão facilmente... Se tinha 1% de chances do caderno não causar a morte, essas mesmas chances foram pelo ralo.
— Remu — Tsuki o encarou com os olhos restritos.
O shinigami a fitou um pouco perdido, não estava acostumada a vê-la puxar assunto com ele, Misa era quem conversava bastante.
— Sim?
— Tem mais de um caderno no mundo humano, não tem? Você deve ter percebido isso também lendo esse artigo.
— Não sei dizer, mesmo se tiver, não tem como ter certeza. Não é tão comum encontrar esses cadernos.
— Uki, olha isso. Na internet já criaram várias páginas sobre Kira! Isso é tão incrível...
— Kira?
— É o nome que deram para o homem que está punindo os malfeitores por aí — encarava a tela um tanto orgulhosa. — Em tão pouco tempo ele já conquistou todas essas pessoas que estão acessando o site... Ele deve ser muito bom mesmo. Pelo menos a minha gratidão ele já tem.
A lenda de Kira o salvador
Patético. Essas pessoas estão tratando um assassino como um... deus? Ele deve estar bastante satisfeito.
— Não gosto nem um pouco da ideia. E sinceramente, sua empolgação me preocupa, Misa.
— Não seja chata — mostrou a língua. Como sempre, muito madura.
Isso tudo era tão estranho. Era quase um evento histórico dois shinigamis no mundo humano no mesmo ano. Haviam duas armas terríveis no mundo humano. E um dos proprietários desse caderno, estava matando por diversão, se orgulhando de ser chamado de "Kira", feliz por limpar o mundo de todas as pessoas que ele desprezava... Esse alguém é uma pessoa bem infantil e iludida por acreditar que apenas ele é capaz de mudar o progresso da humanidade. Chegava a dar pena.
Pegou seu casaco e virou-se para a porta, sem aviso nenhum.
— O quê? Vai sair de novo? — Misa encarou confusa.
— Preciso dar uma volta. Quero me distrair um pouco.
— Mas você acabou de chegar!
— Não vou demorar. Fique de olho nela, Remu.
— Tá bem. — o shinigami se limitou a responder.
Atravessou a porta saindo da casa. Pensou em passar na biblioteca e pegar alguns livros para estudo... Qualquer coisa cairia bem se ocupasse sua mente com algum conteúdo, e não com preocupações bobas. Misa ficaria bem, sabia disso. Esperava que uma hora ou outra ela esquecesse a existência do tal Kira. Mas outras pessoas estavam sendo afetadas com o surgimento daquele assassino. Ele estava matando criminosos que nem passaram por julgamentos ainda, poderiam muito bem ser inocentes. Isso se chama querer atenção mostrando que apenas seu julgamento sobre as pessoas é o correto.
Passou um tempo caminhando com seus livros já em mãos, após voltar da biblioteca. As ruas centrais da cidade estavam com a mesma agitação de sempre, carros indo e voltando, vários painéis e telões passando jornais locais, ou novelas clichês. Foi quando percebeu muitas pessoas prestando atenção e comentando o que estava passando naquele instante. Tirou seus fones de ouvido olhando para o telão, onde o jornalista rapidamente interrompeu a programação:
— Nós interrompemos a programação para transmitir ao vivo o pronunciamento urgente da Interpol.
A Interpol estava ao vivo em rede mundial?
O cenário imediatamente mudou, e um homem pálido com cabelos pretos até o pescoço, vestindo um terno e gravata, apareceu se pronunciando na mesma hora.
— Eu comando uma força tarefa internacional da policia que inclui membros de todas as nações. Sou Lind L. Tailor, também conhecido como L.
Várias pessoas assistindo a transmissão começaram a sussurrar, muitos diziam não saber quem L seria, mas uma ou outra pessoa se perguntava porque ele estava finalmente mostrando seu rosto. E foi a mesma pergunta que Tsuki se fez; por que ele estava se expondo depois de tanto tempo? L jamais revelaria seu nome publicamente, principalmente se ele já tiver noção dos últimos assassinatos e da fama de Kira.
L...
Não era a primeira vez que ouvia aquele cognome. Ele tinha feito parte da investigação do caso de seu pai anos atrás; quando ele se meteu em problemas e foi preso. Aquele homem que todos os policiais admiravam, jamais iria aparecer assim.
— Criminosos pelo mundo todo estão sendo mortos por um serial killer — Lind L. Tailor continuou. — E não vou descansar enquanto a pessoa, ou as pessoas responsáveis, não forem levadas a justiça — havia determinação em sua voz, mas ainda era difícil crer que aquele rosto era o de L... — Kira, eu vou caçar você... E vou encontrar.
Não conseguia tirar os olhos daquela tela, e até o mísero piscar de olhos parecia revelar algo sobre aquele que dizia ser L, e que falava pela Interpol. O vento batia com força em seu rosto e arremessava seus cabelos pra trás. Mas o frio interno que estava contendo era bem maior do que aquele que tocava sua pele. Estava aflita, era como assistir a um emocionante filme onde os eventos finais dependiam daquele momento.
— Kira, tenho uma ideia de qual seja sua motivação e posso imaginar o que você espera alcançar. No entanto... O que você está fazendo agora é do mal. — ressaltou a palavra "mal" friamente. Aquele homem realmente não tinha medo de morrer.
"Esse cara ficou louco"
"O que deu nele? Está provocando o Kira?"
Os desconhecidos que assistiam a transmissão naquela mesma rua não paravam de falar. A jovem estava quase paralisada diante daquela situação, a ansiedade falava alto naquele momento. O que estava acontecendo? A única certeza é que L garantiu que eram assassinatos, caso contrário não diria a Kira que ele estava fazendo algo mal, mas ainda tinha muita gente crendo que não eram assassinatos, e criando várias explicações pro ocorrido. Estavam completamente cegos, o medo de serem mortos os cegou.
Foi questão de tempo para que o homem arregalasse os olhos colocando sua mão ao peito e imediatamente caindo morto.
Parada cardíaca...
— Ele está... Morto — sussurrou com a boca entreaberta, um tanto surpresa.
Antes que fosse capaz de fazer outro comentário consigo mesma, a letra L com a fonte old london tomou conta da tela fazendo por alguma razão ela abrir um sorriso satisfeito de imediato.
— HA! — a voz artificial surgiu, zombando da falha de seu rival. — Eu tinha que testar, mas eu nunca pensei que pudesse acontecer. Kira, parece que você pode matar as pessoas sem estar diante delas... Eu não teria acreditado se não tivesse testemunhado. Escuta Kira, se você matou Lind L. Tailor, o homem que você viu morrer na televisão... Eu vou dizer que ele era um preso, cuja execução estava marcada para hoje. Não era eu — os olhos da garota pareciam brilhar assistindo tudo aquilo, não imaginou que aquele homem fosse conseguir uma proeza como aquela. Ele fez Kira dar um deslize em rede nacional... Em alguns minutos L conseguiu mais pistas sobre Kira do que a polícia geral do Japão. — A policia prendeu ele em total segredo para que você não ouvisse falar dele nem na tv e nem pela internet. Parece que nem você tem acesso a informação sobre esse tipos de criminosos. Mas eu asseguro que L é real, eu existo. Agora, tenta me matar. Vai, anda, me mata agora. O que houve? Tá esperando o quê? É melhor fazer logo. Anda, tenta me matar. Qual é o problema? Não consegue? Pois é Kira, parece que você não pode me matar. Então tem gente que você não pode matar... Você me deu um palpite útil... Deixa eu retribuir o favor! Vou dizer uma coisa que acho que você vai gostar: Apesar de ser anunciado como transmissão mundial, a verdade é que só transmitimos na região Kanto do Japão. Eu planejei transmitir essa mensagem pelo mundo até encontrarmos você, mas parece que não vai ser necessário, eu sei onde você está. A polícia tratou seu primeiro assassinato como um mero incidente, mas na verdade, sua primeira vítima foi um suspeito em Shinjuku. De todas as suas vítimas que recentemente morreram de parada cardíaca esse crime foi o menos grave, e mais, o crime só foi noticiado dentro do Japão. Eu usei essa informação para deduzir isso. Você está no Japão, e sua primeira vítima foi apenas um teste, o que significa que você não mata há muito tempo. Decidimos transmitir em Kanto primeiro por causa de sua grande população, e por sorte, achamos você. Pra ser bem sincero, eu não esperava que as coisas fossem correr tão bem, mas não vai demorar até que eu possa condenar você a morte. Naturalmente, estou muito interessado em saber como você pode cometer esses crimes sem estar presente... Mas eu não me importo em esperar um pouco mais, pode responder todas as minhas perguntas quando eu pegar você. — audaciosamente, o discurso de L chegou ao fim, despedindo-se: — Nos encontraremos em breve, Kira. — ao terminar, a letra L desapareceu instantaneamente da tela, e o jornalista anterior voltou a falar dando continuidade ao programa.
Aquilo... Foi incrível. Nunca ficou tão fascinada com a inteligência de alguém antes. Conhecia a reputação de L, ma vê-lo colocar seu plano em ação daquele jeito, ao vivo, diante de seus olhos... Era uma adrenalina que nunca pensou sentir por algo assim.
É, Kira terá sérios problemas. Talvez quando começou com essa onda de assassinatos, ele tivesse boas motivações, mesmo não sendo o certo condenar vidas humanas como se você determinasse quem deve ou não viver. A justiça é algo individual, cada um terá um conceito sobre ela. Se todas as pessoas tivessem o poder de punir quem consideram culpadas, não restaria ninguém no mundo. Mas Kira estava tentando mudar o mundo do jeito errado, buscando ganhar algo em troca do medo das pessoas... No caso, o poder.
Mas o que não parava de cogitar era a ideia de que, se o que viu caindo dias atrás no colégio for um Death Note, talvez um estudante assim com ela fosse o Kira... Ou tivesse ligação com ele, caso a pessoa que o encontrou tivesse abrido mão do caderno passando-o para outro humano. Não tinha certeza de nenhuma dessas teorias, talvez nem tenha sido um caderno o que viu caindo, mas estava tentando se lembrar de todos os detalhes dos últimos dias. E mais importante, se tivesse a possibilidade de Kira estar tão perto, não podia deixar Misa saber daquilo de jeito nenhum. Ela iria querer se aproximar dele por gratidão...
Será que o certo era entrar em contato com a polícia? Ou melhor... com L? Não... É arriscado se envolver na investigação. Ela era apenas uma estudante, querendo ou não. O melhor a se fazer era descobrir se Kira era alguém próximo, o que não era tão impossível, eles viviam na mesma área, o mundo é cheio de coincidências (mesmo não acreditando nelas), não iria riscar essa possibilidade.
De qualquer modo... Iria estudar a fundo as regras do Death Note de Misa, se estiver ciente delas, saberá como Kira age nas execuções.
Colocou a mão no bolso e sorriu de lado, voltando a caminhar para casa. Não tinha dúvidas que mais cedo ou mais tarde, seu caminho se cruzaria com o de Kira. E pelo incrível que pareça, não estava temendo sua vida. A única pessoa que considerava capaz de a destruir era a si mesma, mas não importa o que aconteça, não deixará que por causa de um assassino estúpido com um caderno, o mundo que conhece deixe de existir.
Fale com o autor