Acordou, abrindo os olhos lentamente. O barulho da tv na sala chegava até seu quarto, se espalhando entre chiados. Olhou em volta, tentando se lembrar de como foi parar ali. Em momento algum foi até seu quarto, só se lembra de ter pegado no sono enquanto estava no sofá. Mas se era o caso...então L que a levou para seu quarto?!

Seu rosto logo corou, já era constrangedor o suficiente todas aquelas séries de eventos que os dois haviam participado juntos. Encará-lo estivera bem mais desafiador desde então, mas não era uma escolha deixar que isso atrapalhasse o caso.

O som da televisão sendo desligada chegou até seus ouvidos, se levantando. Divisou o relógio, vendo que era 03:50. Era estranho saber que L ainda estava acordado, mesmo com o pouco tempo que conviveu com ele, já pôde afirmar que nunca o viu dormindo ou sequer demonstrando cansaço. Era até impressionante como a mente dele trabalhava com tanta maestria depois de ser privado de horas valiosas de sono. Ela mesma não conseguiu acompanhar o ritmo dele quando tentou ajudá-lo com o caso. "Ele pede sua ajuda e você dorme...parabéns Tsuki" — pensava, bufando.

Abriu a porta, se retirando de seu quarto. No corredor até a sala conseguiu ver o detetive de costas em sua poltrona, concentrado na mesinha de centro. Ele ainda estava trabalhando em algum caso?

— L...? — se aproximou, sentando-se no mesmo sofá onde havia adormecido. — Quer dizer...Ryuzaki. — corrigiu.

— Quando estivermos a sós não vejo problemas em me chamar de L. — levantou o olhar. — Você está com algum problema?

— Não, nada disso. É que você ainda está acordado, não está cansado?

— Um pouco, talvez. Mas não se preocupe, meu árduo trabalho sempre exigiu de mim um pouco mais de dedicação do que o costumário, eu me adaptei, tenho meus próprios métodos. Além do mais... — colocou o dedo na boca, a encarando. — a noite eu consigo pensar com clareza em meio a esse silêncio.

— Oh, claro. Se é assim, voltarei pro meu quarto, nos vemos amanhã. — se afastou em passos lentos, sentindo a mão fria dele segurar seu pulso delicadamente.

— Não há necessidade.

— Eu não queria ter te atrapalhado...

— Não atrapalhou. Sente-se, por favor.

— Tudo bem... — obedeceu, colocando as mãos em suas pernas.

— Tsuki, olhe isso. — disse encarando um tabuleiro de xadrez, por qual ela levou sua atenção.

— Estou vendo...o que tem?

Ele retirou algumas peças, deixou no geral, apenas cinco. Duas estavam em cada ponta em um único lado, e do outro lado, apenas uma peça ocupava o canto esquerdo. As duas peças do time adversário estavam mais pro meio, ficando uma delas em uma posição em linha inclinada à outra.

— Me diz, se você estivesse jogando nessa posição, independente de qual lado estiver jogando, como definiria as ações seguintes do jogo? — colocou as mãos sobre seu joelho, olhando-a, aguardando sua resposta.

Ser encarada por ele causava certa tensão, mas prestou atenção no tabuleiro. Se fosse um jogo real, estaria equilibrado, mas por uma única peça um dos times perderia. Se ela partisse para uma jogada, um deles ganharia, e se partisse pra outra, o outro time que teria a vitória. Seria a peça decisiva, em outras palavras. Suspirou, o olhando.

— Bom...eu diria que um único movimento levaria um dos jogadores à vitória, e outro, obviamente à derrota. Não teria empate, o jogo nunca terminaria se eles tentassem mover outras peças, e além disso, um dos times está em vantagem, e se tentasse fazer outro tipo de estratégia uma das peças seria sacrificada, o que quer dizer que teria 90% de chances do jogo chegar ao fim levando-o ao fracasso.

— Isso mesmo. A peça decisiva pode ser sacrificada dependendo do lado que ficar, e mesmo se a sacrificarem para a outra peça ter a chance de se locomover o descarte dessa mesma peça daria vantagem ao meu time, o que também levaria o oponente ao fim do jogo.

— Está correto...

— Você não está entendendo onde quero chegar, está?

— Não exatamente.

— Quero dizer que alguns sacrifícios são desnecessários. Inúteis. Não importa pelo o quê, ou por quem fazer. Se isso levar ao fracasso, o sacrifício não terá valor algum, por isso é preciso ter um lado para jogar... — mexeu a peça de seu time, ganhando a partida. — Para não fracassar. — mantivera sua atenção nas peças caídas sobre à mesa.

— Entendo...

No mesmo instante se perguntou o que Ryuzaki estivera pretendendo fazer. Ele não era uma pessoa que fazia suposições despesáveis...todas as suas metáforas tinham, por assim dizer, um propósito. Mas o que realmente a afligia era: qual seria? E porquê contar à ela a essa altura? A incomodava o fato dele manter os mesmos mistérios que Beyond mantinha...

— Aliás, quanto ao seu pedido relacionado à Beyond Birthday, está tudo feito. Se ele estiver vivo, não terá perigo em ser morto. A imprensa já espalhou a notícia de sua lamentável "morte".

— Obrigada L...mesmo tendo suas diferenças com Beyond, você fez questão de fazer isso por ele. — sorriu.

— Ele era um rapaz inteligente, mas sempre usou o sarcasmo pra se defender, e sua raiva em relação à mim sempre esteve presente. Mas não me arrependo, até porque, não fiz isso apenas por ele.

— E por quem fez?

— Você.

— E-eu?

— Sim. Embora eu lamente o fato de você ter se apegado à um assassino, sei que já perdeu muitas pessoas que amava, não deve ser fácil.

Respirou fundo, concordando com a cabeça.

— É...

— Você parece ter lembranças tristes... — olhou fixamente em seus olhos, sem fazer movimentos corporais.

— É... — riu baixo. — Mas você também.

— Por que diz isso?

— Bom...se não tivesse lembranças tristes, não seria tão solitário agora.

Apesar de gostar da companhia da jovem, ele não aprovava qualquer olhar que demonstrasse pena. Sua vida estava de acordo com o que planejou, o que mais precisaria?

— Eu estou bem desse jeito. — levantou-se, indo até a janela com as mãos no bolso de seu jeans gasto. — Tenho tudo o que preciso ao meu alcance, sem me preocupar com os perigos desse mundo.

— Perigos? — virou seu rosto, o ouvindo.

— Sim. Quando se é detetive, você é obrigado a ter experiências não tão agradáveis para encontrar os assassinos. Muitas vezes, quem você menos espera, é o culpado. Não se pode confiar em ninguém. Ladrões, assassinos, contrabandistas. Você nunca saberá o que esperar de quem está à sua volta, é por isso que minha zona de cortesia costuma não se estender tanto quanto a de outras pessoas.

— Eu entendo...não deve ser fácil ser um detetive tão requisitado quanto você, deve ter muitos inimigos à sua procura...

— Não me olhe desse jeito.

— Que jeito? — perguntou confusa.

— Com pena. — restringiu o olhar. — Não preciso da compaixão de ninguém.

— Muitas vezes a compaixão é a chave para o que busca.

— E o que eu precisaria buscar?

— Isso você que tem que saber... — deu de ombros.

Analisou o rosto dela, que ao seu ver não encontrara nenhum defeito que pudesse questionar. As maçãs do rosto coradas em seu ar juvenil, os lábios macios que pareciam tão acessíveis...seu cérebro pela primeira vez parecia falhar com a proximidade que chegava à garota. Ousou perguntar-se o que tinha de errado com si mesmo para ter deixado a lógica de lado e buscar por seus instintos. Seus dedos tocaram a franja que caía em seu rosto, deslizando-a para o lado. Os olhos dela logo estavam focados nos seus, com as pupilas dilatando conforme a distancia ia diminuindo entre eles. Um choque percorreu seu corpo, sentindo a sensação gélida em sua coluna curvada no momento em que seus lábios ficaram à centímetros de distância. Aquela ansiedade era agoniante, e o cheiro suave da pele delicada que ela tinha o atingia, enquanto seu corpo se inclinava para frente igualando à altura de Tsuki.

Estava quase fechando os olhos, deixando-o continuar, quando Remu atravessou a janela, a assustando. Se afastou um tanto envergonhada, tentando não olhar na direção do shinigami.

— Er...eu vou...p-pro meu quarto.

— Vai...? — a fitou confuso, achando que deveria ter feito algo errado, até porque nunca se envolveu dessa maneira.

— S-sim...a gente se vê amanhã...q-quer dizer...hoje. — foi até seu quarto em passos desajeitados. Sempre que Remu aparecia era pra dar alguma notícia importante, não poderia ignorar esse fato, embora quisesse tanto quanto o rapaz dar continuidade...

Entrou no aposento fechando a porta, vendo Remu a encarar.

—Tsuki, vocês...

— Não! Não é nada disso que você está pensando, Remu.

— Tudo bem então...

— O que veio me avisar hoje?

— Ah, sobre isso...

Sua expressão tornou-se preocupada.

— Diga, Remu.

— É o Raito...ele pretende matar L hoje.

Continua...