Lost In Paradise

29 Inocência


Prenderam a Misa...

Por isso, definitivamente, Tsuki não esperava. Nunca pensou que Raito fosse cometer um erro envolvendo as provas relacionadas as fitas que Amane enviou. Como ele pôde simplesmente ignorar aquelas evidências? Aquilo não foi só um deslize, como sobrou para Misa aguentar todo o sofrimento em proteção à ele. Não...isso não pode estar acontecendo. A última coisa que pensou que poderia acontecer, era isso. Em momento algum cogitou a ideia de alertá-los sobre um detalhe tão limitado, mas pelo visto Raito se focou tanto em seu proposito inicial que até mesmo se esqueceu de se preparar para situações assim.

O silêncio se estendeu pelo local, a universidade antes movimentada, passou a se tornar deserta entre eles. Raito parecia se perder em seus pensamentos, evidentemente, preocupado. O vento balançava sua cabeleira castanha afastando as mexas de seu rosto. A expressão trêmula que tentara esconder entre a surpresa de saber que L já havia descoberto a respeito de Misa, o conhecimento de seus erros e, principalmente, a busca por uma solução. A risada baixa de Ryuuku era ouvida, o que não ajudara muito dada as circunstâncias.

Depois de um tempo ouvindo Ryuzaki explicar nos mínimos detalhes, Raito se despediu, e foi para as aulas restantes. Tsuki permaneceu no mesmo lugar, encarando o moreno de costas, com os longos e espetados cabelos tocando seus ombros enquanto a blusa branca balançava levemente com o vento que as poucos causava frio.

— Tsuki. — Se virou, a encarando.

— Sim?

— Há algo que preciso esclarecer com você. — Comentou no mesmo tom de sempre, apesar de ter soado mais sério e objetivo...

— Pode dizer.

— Com as provas físicas que consegui, pude levar Misa a interrogatório, mas não sei até que ponto ela é fiel a Kira, então se tem outro meio de obter respostas eu...

— Pare de rodeios, Ryuzaki. — O cortou, sem parecer rude.

Ele a encarou, inexpressivo, como sempre.

— O que quer dizer?

— Eu sei onde você quer chegar com essa conversa. Você ainda tem duvidas em relação à lealdade de Misa, mas não quer sair perdendo caso não consiga nada nesse interrogatório. Em outras palavras, tirando Amane, as únicas fontes de informações que você tem é o próprio Kira, ou alguém que sabe quem ele é...eu. Você pretende levar Raito, Misa, e agora eu, para interrogatório pelo tempo que for necessário, tentando retirar algo de um de nós. Estou certa? — Apertou seus olhos.

— Eu não tenho muitas opções no momento, e tive um grande progresso no caso até aqui para deixar que algo interrompa. Devo ser imparcial.

— Entendo...

— Eu ainda lhe proponho que me diga o que sabe, sem precisar se submeter à isso.

Balançou sua cabeça negativamente.

— Não.

— Alguns sacrifícios são desnecessários, Tsuki. — Comentou, áspero.

— Mas...

— Mas?

— Quando já se cometeu um sacrifício desnecessário, é supérfluo deixar de lado o que é excessivamente preciso.

— Explique-se. — Passou o dedo em seu lábio inferior, observando-a.

— Se cometeu um erro desnecessário, consequentemente, deverá pagar pelas punições necessárias. Você acha que estou me sacrificando, Ryuzaki, mas não estou.

— Não?

— Não. Eu já me sacrifiquei, agora, não mais. Estou buscando os resultados de tudo o que fiz até aqui. E claro, envolvendo o caso Kira. Eu não me importo em ter que passar meses sob interrogatório se isso for ao meu favor. Estou ajudando a investigação, então qualquer dificuldade enfrentada será lucro para você, e principalmente, para mim.

— Entendo. Você acha que isso poderá ir ao favor da investigação.

— Sim.

— Mas se você não dizer nada, terá sido inútil.

— Não, não terá. E isso você descobrirá por conta própria, eu faço questão de receber o mesmo tratamento que Misa e Raito a partir de hoje. — Levantou o olhar.

— Não me agrada ter que colocá-la nessa situação embaraçosa... — Manteve o dedo sobre a boca, virando seu rosto para o lado, encarando o céu limpo.

— Ryuzaki... — Murmurou entre um riso fraco. — Estou tomando essa decisão por conta própria, sei que é difícil, mas confie em mim. — Sorriu, colocando os braços em volta do corpo do rapaz em um abraço inesperado.

Os olhos de aro preto permaneceram imóveis tais como seu corpo gélido sentindo o calor do contato da menina que abria um sorriso com o rosto encostado em seu ombro. Os lábios dela estavam próximos à sua clavícula, e podia sentir a respiração quente dela por cima do pano de sua camisa. Aquela sensação estranha do toque humano o causava desconforto na maioria das vezes, mas, em exceção, estava sentindo constrangimento. Os ombros largos e seu tronco magro compartilhavam dos mesmos arrepios que rodeavam seu corpo, sem saber ao certo como definir tais sensações. Ele não protestou, ou sequer retribuiu o abraço, apenas, encalhado, tentou manter sua respiração no mesmo ritmo, olhando de perto a garota que aos poucos se afastava. Aquele abraço foi surpreso, e com certeza, só veio para confundi-lo ainda mais. Desde quando se confundia com algo? Os maiores mistérios do mundo passaram por suas mãos, por que o caso Kira continuara com essas questões particulares?

— Faça o que for preciso, está bem?

— Certo... — Respondeu, tentando amenizar o clima de constrangimento que havia formado. Pegou seu aparelho celular o segurando entre seus dedos, levando-o próximo ao seu ouvido. — Senhor Mogi, poderia vir até aqui? Ótimo, faça isso por favor. — Finalizou a ligação, guardando o celular em seu bolso.

— E então? — Perguntou Tsuki.

— Mogi virá para levá-la. Não usaremos nenhum método severo, mas precisarei mantê-la vendada até que chegue ao local de confinamento.

— É, eu imaginei...

— Ryuzaki. — Chamou, se aproximando com a venda em mãos.

— Já levaram Amane?

— Sim, ela foi levada em outro veículo, e a essa altura Watari já a mantem em confinamento.

— Certo. — Pegou a venda da mão do policial, que o encarou confuso. — Espero vê-la em breve, Tsuki. — Tampou seus olhos com a venda delicadamente.

— Eu também...L. — Sussurrou.

— Cuide dela, Mogi.

— Tudo bem, Ryuzaki. — Segurou no braço dela sem machucá-la, a guiando até o carro próximo.

Apesar de não gostar de assistir aquilo, teve que ser feito. O vidro escuro do carro logo subiu, o impedindo de vê-la. Com as mãos acolhidas em seus bolsos, assistiu o automóvel se distanciar, sabendo que a parte mais difícil estaria por vir.

***

Remu, assistindo Misa presa, incapacitada de se mover, logo sentiu-se agoniado. L deu ordens explicitas para que fizessem o que fosse preciso para fazer a loira falar. Mesmo sendo ela suspeita de ser o segundo Kira, parecia exagero mantê-la tão presa e sufocada de tal modo. Não só sua chegada até o local como as condições onde se encontrara eram preocupantes. Misa sempre foi uma garota delicada, isso estava sendo intenso demais para ela, e não sabia até que ponto conseguiria resistir. Ela chegou a um ponto em que implorou para ser morta, mas o shinigami era incapaz de efetuar essa ação, e assim fez por ela o que estivera ao seu alcance: a livrou das lembranças do caderno. Não conseguia entender o porquê dela entregar sua vida para o bem de Yagami, por qual não tinha simpatia alguma. Mas, de qualquer maneira, não a deixaria sofrer por tanto tempo, era sufocante. Depois disso, pensou em procurar Tsuki antes de falar com Raito, que para sua surpresa, também estava sob confinamento, embora estivesse em uma cela e diferente de Misa, seu corpo estava livre. Mas claro, isso não diminuía as dificuldades do isolamento.

Entrou na cela, olhando-a abraçada sobre seu corpo, sentada ao chão com seus ombros encostados sobre a parede à frente. Sabia que ela não iria poder respondê-lo, mas não demorou pra perceber sua presença, então arriscou a perguntar, fazendo-a com que bolasse uma forma de o responder.

— Tsuki, escute com atenção: Eu livrei Misa de suas lembranças do Death Note. E não sei o que Raito pretende fazer, mas acredito que em uma determinada hora, também terá que fazer o mesmo. Se tiver uma forma de me responder, diga se realmente quer continuar com suas lembranças, você sabe que sofrerá com isso...

Ela ficou em silêncio por um tempo, mas depois virou seu rosto, direcionado-o à câmera em um dos cantos da cela.

— L. — Chamou.

Um tanto surpreso, ele deixou de lado as guloseimas e foi até o microfone, aproveitando que estava sozinho no cômodo para se sentir a vontade em seu diálogo.

— Está pronta para contar o que sabe?

Ao ganhar a atenção dele, ela virou seu rosto pra frente, ignorando suas perguntas.

— L, você sabe como perdi meu pai?

— Já li algo a respeito, mas em detalhes só você poderia dizer.

— Bom...foi uma fase complicada. — Suspirou, começando a explicação. — Minha mãe teve um tumor cerebral, e ao fazer uma cirurgia que não foi tão bem sucedida, causou uma lesão que resultou em sua morte. Meu pai tinha um amor...além do natural por ela, mas na época eu ainda era pequena então não me lembro de muitas coisas sobre o tempo em que foram casados. Ele se desesperou com a morte dela, começou a beber, arrumar brigas e chegar em casa tarde. Conforme fui crescendo, isso atrapalhou meus estudos, e era perigoso quando ele saia e me deixava sozinha, nossa vizinhança não era muito segura. Mesmo os anos se passando, ele não conseguiu esquecer do que aconteceu, e já estava completamente entregue às drogas quando se envolveu em uma rede de tráfico. Ele era uma pessoa mentalmente fraca, e muitas vezes descontava em mim sua fúria. Certo dia, ele tinha chegado em casa com uma garrafa de bebida em mãos, a jogando na parede simplesmente por diversão. Nesse mesmo dia, a polícia invadiu minha casa, o jogando no chão enquanto o algemavam. O levaram pra cadeia e eu nem sabia o porquê, só depois fui entendendo tudo de errado que ele havia feito. Quando eu comecei a visitá-lo na cadeia, foi em uma época em que conheci A, e também o Beyond, que só fui me lembrar com o tempo. Eu conversava muito com eles, não era muito de sair mas quando os conheci, passei a me divertir e ignorar os problemas. Eu fiquei na casa da minha tia, mas por ser menor de idade não sabia até quando me deixariam sobre a custódia dela. Dois meses depois de ser preso, meu pai foi morto na cadeia por outros presos que o atacaram durante a refeição, e depois disso, ao analisar a investigação, descobriram que ele não tinha envolvimento, que não era culpado. Com essa revelação, eu também soube o detetive responsável pelo caso...e sabe quem era?

Mesmo sabendo a resposta, atento, ele perguntou:

— Quem?

— Você, L. Eu passei tanto tempo te odiando, colocando a culpa da morte do meu pai sobre você mas...não, não sei o que fazer agora que te conheço. Eu era jovem, e ensaiava a cada dia o que diria a você quando o conhecesse, tentando fazê-lo sentir a mesma dor que eu. Mas, não...não fiz isso. Hoje, não o culpo, porque não foi sua culpa, de fato. Eu sei que armaram pro meu pai, e ele não tinha uma boa reputação, então já era de se esperar que fosse parar na cadeia. Quando Beyond apareceu, me ajudou a me lembrar de muita coisa que perdi depois que sofri um acidente, e agora que recuperei minhas lembranças...não quero perdê-las, independente da situação.

— Eu entendo... — Disse, com um certo sentimento de culpa, apesar que, como ela mesma colocou, ele não teve culpa de nada que aconteceu em relação ao pai da menina. Quando teve conhecimento do caso, ele já estava praticamente sendo concluído segundo os investigadores responsáveis, mas após a morte de um dos presos, que agora sabia que era pai de Tsuki, ele fez uma investigação particular, prendendo o real culpado. Mas ainda assim, o homem foi preso quando ele assumiu o caso, isso dava a entender que a ordem de prisão foi vinda dele, então não conseguia compreender como a garota poderia não odiá-lo depois disso...

Remu entendeu a jogada. Ela aproveitou a situação para atrair a atenção de L com uma história do passado enquanto respondia subliminalmente para ele dizendo para não tirar suas lembranças do caderno. A história de seu pai só serviu para tirar o foco de seu confinamento, e mesmo se L soubesse desse proposito, ainda se perguntaria se ela havia mesmo retirado qualquer acusação ao seu respeito, e se a resposta fosse não, isso o faria pensar se ela não estaria, oficialmente, colaborando com Kira.

Tsuki olhara pro teto, entediada ao terminar de falar. Não, ela não o culpava por nada...mas foi preciso dizer, da mesma forma que ele precisou a monitorar, era só uma jogada. Mas antes que deixasse Remu se retirar, novamente falou algo a L, mandando uma indireta para o shinigami:

— L, não quero que os outros policiais saibam sobre isso.

— Por que não? — Mordeu seu dedo entre os dentes.

— Quero que minhas memórias fiquem entre nós dois.

— Entendido.

"Então você quer que Raito ache que você também perdeu suas lembranças do Death Note? O que está planejando, Tsuki...?" — Pensava o shinigami, tentando confiar no que ela fizera.

Continua...