Ao chegarem à suíte, analisou cada canto do aposento. Era realmente muito espaçoso para alguém que ficara ali sozinho, deve ser desconfortável para Ryuga...embora já parecesse se habituar à isso. Estava na porta, vendo Hideki entrar e se sentar ao sofá, daquele jeito que só ele conseguia. Fazia tempo que não o via ou ficara parada observando cada mania peculiar do rapaz. Ele era realmente único, todas suas características eram próprias.

L estava sentado, colocando café sobre a xícara. Levantou seu olhar, vendo a garota ainda parada na porta o olhando. Ele esqueceu de fazer alguma coisa? Nunca teve contato tão direto com alguma mulher desde que o caso Kira começou, não sabia como ser cortês ou que imagem passar, mas Tsuki não era muito formal nesses assuntos.

— Vai ficar aí parada? — perguntou, a encarando sutilmente.

— Eu...

— Entendo que esteja em uma situação embaraçosa, mas não há razões para deixar que a timidez nos impeça de conversar naturalmente, não acha?

— C-claro... — disse rindo nervosamente.

— Entre, por favor. — falou voltando a atenção à bebida quente, acrescentando cubos de açúcar.

— Obrigada. — entrou, fechando a porta.

— Sente-se. — pediu — Me diz, o que de fato ocorreu?

Suspirou pesadamente, sentando-se.

— Uma discussão feia, com minha amiga de infância, pela qual me expulsou de sua casa.

— Deve ter sido sério.

— Pra mim nem tanto, mas para ela...

— Questões amorosas?

— Pode se dizer que sim.

— Eu entendo.

Levou o conteúdo da xícara até a boca, bebericando-o. A encarou, por mais tempo que antes, vendo-a ficar levemente corada com a situação. Ao terminar de consumir a bebida, se levantou.

— Vou levá-la até seu quarto. Mas devo avisar que o hotel é provisório, estarei me mudando de modo diário, espero que possa acompanhar o ritmo.

— Tudo bem...

Era estranho essas mudanças frequentes, principalmente para alguém que morava sozinho.

Ele deve ter ótimas condições financeiras...— cismou, o seguindo.

Ryuga abriu a porta, dando passagem para que ela entrasse no local.

Sorriu, entrando em passos lentos. Era amplo...muito espaçoso, com poucos móveis ocupando, e alguns livros na estante. Era um quarto abundante, apesar de confortável.

Como a boa leitora que era, não conseguiu ver aquela estante tão completa de livros sem olhá-la bem de perto, mostrando encanto em seu olhar. Tocou as capas delicadamente, procurando por um título que a chamasse atenção. Retirou um dos livros, tendo-o em mãos.

"Em busca do tempo perdido" era uma das obras que ali reconhecera, e que mais a agradara a principio. Pensou em puxar assunto sobre o livro aventuroso, mas o clima entre ela e o garoto estava causando grande constrangimento.

Abriu o livro observando as primeiras páginas com atenção, se distraindo por alguns instantes. Quando estava começando a entrar na história, sentiu uma respiração pouco longe de sua nuca, arrepiando-se com o inesperado. A respiração abafada subiu na altura de sua orelha, mas não sentia o corpo tão próximo ao seu.

— Tsuki? — ouviu a voz remansada de Ryuga.

— Sim? — perguntou tentando mover seu corpo, falhando por completo em sua tentativa.

— Sei que você conhece Kira, que sabe quem ele é. Sei também que se envolveu com o Segundo Kira, que a essa altura deve trabalhar com o original. Sei que até hoje, estava convivendo com um serial killer, que se denomina Beyond Birthday. E sei, tão bem quanto os últimos fatos que citei, que você não está de acordo com o que Kira está fazendo, disposta a ajudar o detetive L se for necessário. Algumas coisas sobre você e seu passado não ficaram tão claras para mim, mas estou te informando que estarei disposto a descobri-las.

Deixou o livro escorregar de suas mãos, ouvindo o barulho ao chocar-se ao chão. Arregalou os olhos, virando seu rosto pouco o suficiente para seu olhar se encontrar ao dele.

— C-como sabe tanto sobre mim...?

Ele tirou o dedo de sua boca, sem expressar qualquer sentimento.

— Por que eu sou o L. — a observou bem de perto, esperando sua reação.

Falou com tanta calma e certeza, tudo o que ela pôde fazer é cair pra trás encostando sobre a estante, o que fez alguns livros irem parar no chão. Já tinha pensado em tal possibilidade, mas vê-lo falar com tanto impulso, com certeza foi uma surpresa. L pegou os livros que ela derrubou, segurando-os em mãos, e voltando sua atenção a morena.

— Você está bem?

— V-você...é mesmo o L?

— Sim, sou. Pra ser sincero, sua reação foi melhor do que imaginei. Já suspeitava?

— Mais ou menos... — disse se acalmando, olhando pro chão. — Você colocou câmeras em minha casa, não foi?

— Coloquei. Mas não imaginei que fosse sair de lá tão cedo, por sorte nos esbarramos, é de grande ajuda poder te observar durante a investigação.

— Eu entendo...mas como descobriu isso? Essa parte ainda está muito...muito confusa pra mim.

— Beyond me procurou.

— O quê?!

E está ficando mais confuso...

— Beyond me deu muitas informações valiosas, em troca é claro, que eu não permitisse que sua identidade viesse à público. Ele não entrou em detalhes em nenhum momento, apenas me contou que você tinha envolvimento com esse caso, algo que eu já suspeitava desde que a vi na universidade. Por algum motivo, ele que pediu para que eu colocasse as câmeras e escutas em sua casa e de Amane, algo que ainda estou tentando compreender...Beyond realmente gosta de criar um clima de mistério em seus depoimentos, mas eu saberia se ele estivesse mentindo a respeito. Conforme ele foi revelando o que sabia, me pediu que colocasse as câmeras no dia de hoje, que segundo ele, seria o dia de sua possível morte.

— M-morte?

— Sim. Até então ele não voltou a entrar em contato.

Que droga o Beyond está fazendo?— sentia seu corpo gelar, enquanto a palavra "Morte" ecoava por sua mente.

— Tsuki, creio que não será tão fácil fazer você me dizer o que sabe sobre Kira, mas a partir de hoje você terá que fazer parte da investigação, morando comigo para que eu possa evitar seu contato com Kira, embora eu já tenha um suspeito em mente, isso é crucial para o caso. As mudanças de hotéis são uma medida preservativa, eu me encontro com todos que atualmente trabalham no caso Kira, esses quartos são o que consideramos como um QG, então se quiser ajudar todas as informações estarão ao seu alcance.

[...]

— Eu não tenho muita escolha, não é?

— Lamento, estou realmente empenhado em resolver esse caso, é uma pena você estar envolvida, mas em momento algum eu desconfie de você. — se virou, indo até a porta — Mas há um lado bom nisso.

— Não consigo vê-lo...

— Mas eu sim.

— E qual seria?

— Poderei descobrir mais sobre você. — a olhou, saindo do quarto.

Apesar do esclarecimento ter a aliviado em uma parte, na outra estava em completo desespero, tudo estava indo de mal à pior. Sentou-se no chão, com um sentimento tão ruim que não podia ao menos permitir que as lágrimas rolassem por sua face. Era grata por L ter a ajudado, e principalmente revelado algo tão forte pra si. Mas o ódio que sentiu ao Misa acreditar em Raito e não nela ou o medo ao pensar que Beyond poderia estar morto, eram bem mais fortes no momento, eram consumidores.

Olhou para a janela quando viu algo a atravessando, logo reconhecendo a criatura, que por mais estranho que parecesse, não a assustou dessa vez. Era Remu. O porquê dele estar ali...já não tinha ideia.

— Remu? — perguntou, baixo o suficiente para que o detetive não pudesse ouvir do lado de fora. — O que faz aqui?

— Vim te avisar sobre algo.

Sem muito entusiasmo, o perguntou:

— O que é?

— Sua vida foi prolongada.

— Então parece que Beyond conseguiu... — sorriu.

— Sim...porém...

Seu breve sorriso se desfez.

— O que é?

— Quando Beyond te procurou, pedindo para ficar em sua casa, ele já sabia que você morreria hoje. Ele passou um tempo descobrindo sobre você e seu envolvimento com Raito e Misa, e depois que viu que o caso estava piorando temeu que você fosse morta antes do tempo determinado, que ele não poderia impedir. Ele me procurou uma noite, pedindo que eu não interferisse, que não evitasse sua morte. Eu estranhei...mas sabia que de alguma forma, ele se preocupava com você, então não questionei. Beyond procurou o L, quando contou sobre tudo o que sabia sobre o caso Kira, e por isso até hoje seu nome não foi noticiado. Dois dias atrás, ele me procurou novamente. Falou que já sabia onde você e Misa escondiam o Death Note, e até mesmo como tirá-lo de lá, mas que você perceberia se ele tentasse pegar. Com isso, ele pediu para que eu trouxesse um pedaço do Death Note para ele hoje, no horário em que você e Misa estivessem em casa, e Raito tentasse te matar. Eu não confiava nele, só concordei pois também sabia que você iria morrer, e quis ajudar. E foi aí que aconteceu...

— O que...aconteceu? — ficou aflita.

— Ele utilizou o método de duas regras do caderno, envolvendo o escritor e a vítima. A vítima fica imune aos efeitos do caderno se o nome for escrito incorretamente quatro vezes de forma não intencional. Mas se o escritor errar o nome de sua vitima quatro vezes intencionalmente, ele que morrerá e a vítima ficará vulnerável ao caderno.

— Então... — arregalou os olhos.

— Sim. Ele fez uma de suas vítimas escrever o seu nome quatro vezes, de forma errada, alongando sua vida, e após fazer isso, ele mesmo escreveu seu nome no caderno, escrevendo errado quatro vezes de proposito, diferente da vez anterior. Segundo o plano que ele não revelou a mim, era importante que você fosse salva, mas que não ficasse imune, pois precisaria disso futuramente no caso Kira. Eu não entendi muito bem, mas ele não quis me ouvir...

— ...está me dizendo que ele morreu por mim?!

— Possivelmente...eu saí antes de ver o que aconteceria com ele, não sei se está vivo ou não. Mas considerando que o Death Note não comete erros, o que me ocorre é que ele está realmente morto.

— I-isso...isso não pode acontecer...ele...não pode estar morto. — gaguejava.

E mais uma vez, seus olhos encheram de lágrimas, e a dor quase insuportável parecia voltar...

— Eu quero entender isso...quero saber porque ele foi tão longe...

Continua...