— Remu...há alguma possibilidade dele estar vivo?

— Eu gostaria de saber, e de ter ficado pra conferir. Mas...não posso responder. O âmbito específico da condição da morte não é conhecido nem mesmo pelos shinigamis, só na prática os humanos podem testar e descobrir. Isso vai além de nosso controle.

— Isso é um não?

— Tsuki, eu não sei se ele está vivo...pode ser que não, mas pode ser que sim. Ele já enganou a morte duas vezes, não sei se existiria uma terceira vez, pode até ser, mas não crie expectativas, é isso que destrói os humanos.

— Como assim ele enganou a morte?

— Na primeira vez, ele tentou se suicidar, mas foi interrompido a tempo. Na segunda, ele seria morto por Kira, mas com o intuito de te encontrar, ele fugiu da prisão e manteve seu nome no anonimato perante a imprensa. Ele enganou a morte, fugiu dela, a adiou. Só uma entre 10 pessoas conseguem agir assim, determinando a própria morte, por mais impossível que pareça.

Remu parecia preocupado, e por vez, dividido...não achou que alguém poderia separar Misa de Tsuki, mas aconteceu, e como qualquer imprevisto, causava um impacto destruidor nos indivíduos.

— Eu não quero que ele morra...

— Você o ama?

— Amo...

— Mas não da forma que ele te amava, por isso se culpa tanto pela possível morte do Beyond...

— Não sei do que está falando...

— O tempo que passei observando os humanos, descobri várias formas de amar, era o que mais me chamava atenção enquanto assistia vocês viverem suas vidas. Entre vocês existe o amor como o que Raito tem pela conservação de si mesmo, amando sua própria existência. O amor como o que você possui por Misa, querendo proteger alguém importante que foi capaz de diminuir a dor que tinha dentro de você. Existe também o amor que prende um homem a uma mulher, cada um de vocês tem um vazio que só pode ser preenchido por outra pessoa, um vazio que muitas vezes é preenchido pelo ódio, na falta de opção. Mas no caso que temos aqui, você ama o Beyond em um caso muito raro de amor. O amor ao próximo. Vocês sentiram e sofreram as mesmas emoções, por isso você o ama. Se ele for capaz de amar alguém, esse alguém seria você, mas ele não interpreta como amor, mas sim como obsessão, um apego excessivo de uma pessoa que fará qualquer coisa pra manter a outra viva. É por isso que os humanos se destroem, eles tem muitos sentimentos pra carregar.

— Nossa... — abismou-se — Você sabe tanto sobre sentimentos humanos, como consegue?

— Vocês estão vivendo uma época difícil. Nessa época, até os shinigamis são capazes de amar, e os humanos não. Vocês não valorizam o que tem aos seus alcances, e desde o aparecimento de Kira estão cada vez mais preocupados com suas existências.

— Eu sei...e confesso que não achei que Beyond pudesse fazer algo assim, mas ele fez...mesmo que todas as intenções dele sejam perversas e imaturas, ele se moveu por um sentimento maior. E esteja vivo ou não, eu nunca me esquecerei dele por nada nesse mundo.

— Sei disso.

— Remu...só mais uma coisa: proteja a Misa. Eu não posso fazer isso mais. Então faça você, por favor, me prometa isso.

— Eu prometo. — se retirou, passando pela parede e desaparecendo de vista.

Enxugou os vestígios de lágrimas que custavam estampar-se em seu rosto, respirando fundo. Um desânimo e tristeza profunda arriscavam aparecer, tomando conta de seu estado atual. Choramingar não traria resultados, não mudaria o que aconteceu. Mesmo sentindo que o chão sobre seus pés abertamente sumia, as lágrimas que antes desciam sobre seu rosto já não amorteceriam sua queda.

Estava em uma posição difícil, se ajudasse L na investigação, resultaria em um fim trágico para Misa. Se não ajudasse, resultaria em um fim trágico para si mesma. Pelo o que Raito fez por Misa, deveria ser grata, mesmo não achando correto seus métodos de punição. O alvo principal era fazer valer a pena o sacrifício que Beyond fez por ela. Não sabia se ele estava ou não vivo, mas de qualquer modo, ninguém nunca foi tão longe para salvá-la, e isso seria uma gratidão nunca compensada.

***

Depois de passar a noite lendo, tentando ignorar os últimos eventos, pegou no sono pesadamente. Já era manhã, e continuara entregue ao sono.

— Tsuki. — ouviu alguém lhe chamar, tentando despertá-la. — Tsuki.

A princípio até achou que estava sonhando, tentando se acomodar, virando-se para o lado.

— Nós temos que ir, Tsuki. Acorde. — a chacoalhou.

Abriu os olhos levando um susto exagerado com L praticamente em cima dela tentando despertá-la.

— Você me assustou L.

Normalmente iria rir da situação, mas o abalo foi tão grande que tudo o que conseguiu fazer após acordar era tentar esconder seu rosto com a vergonha extrema que aparecera.

— Desculpe. São 11:00, temos que ir pro próximo hotel nos encontrarmos com os policiais. Temos um conteúdo novo pra analisar.

— O que é?

— Um novo vídeo do segundo Kira. É a hora perfeita pra discutirmos sobre essa questão.

— ...Tudo bem.

— Pedi pra que buscassem suas roupas, sua mala está do lado da cama. Por favor, tente se apressar.

— Muito obrigada, L.

— Me chame de Ryuzaki.

— Certo, Ryuzaki. — sorriu.

— Vou te esperar na sala. — levantou se direcionando até a porta.

Despertou-se, levantando da cama. Tinha até perdido a noção da hora, L deve ter a esperado a manhã inteira, foi até educado ele ter dado tempo para que ela descansasse, mas ainda assim se sentia desconfortável sabendo que ele entraria e sairia de seu quarto quando bem entendesse.

Foi até o espelho, vendo seu cabelo desalinhado. "Ótimo, além dele vir me acordar ainda me viu em um estado desse" — reclamou de sua aparência desleixada.

Se arrumou, pronta pra trocar de roupa. Escolheu uma roupa qualquer, tentando apressar-se. Ryuzaki não era o único a estar ansioso para se reunir aos outros investigadores, mal sabia o que poderia esperar da reunião, mas estava aflita. Tirou sua blusa, logo em seguida procurando se vestir.

L entrou no quarto sem qualquer anúncio.

— Tsuki, eu... — cessou-se ao ver a garota apenas usando a peça íntima, antes de ter a oportunidade de trajar sua blusa.

— L. — gritou se assustando, cobrindo seu corpo o mais rápido possível.

— D-desculpe...eu... — tentou desviar o olhar.

Era uma das primeiras que se sentiu envergonhado, isso se não for de fato a primeira. Nunca esteve tão acanhado, muito menos em um momento crítico como aquele. Não sabia como agir, sua prática era com a lógica tradicional. Tropeçando em alguns móveis saiu do quarto imediatamente, fechando a porta e se encostando sobre a mesma.

— Eu sou...um tarado? — sussurrou para si, com os olhos mais esbugalhados que o normal.

Do lado de dentro do quarto, condizia Tsuki, com seu rosto queimando de vergonha, reclamando por ele ter entrado justamente quando se trocava. Na hora o desespero foi tão grande que só soube gritar o denomino do rapaz, sem nem se importar com sua falta de educação. Depois iria pedir desculpas ao garoto...se bem que ele que deveria se pronunciar sobre isso, mas não era um bom momento.

Terminou de se vestir pegando suas coisas e saindo com a cabeça baixa, sem manter contato visual.

— Vamos? — perguntou, pronto para sair.

— Claro...

Seguiu o detetive até o veículo, vendo um senhor de cabelos branco-acinzentados os esperando à frente.

— Esse é o Watari. Watari, essa é a Tsuki. — apresentou.

— É um prazer conhecê-la, senhorita.

— O prazer é meu. — sorriu.

Abriu a porta do carro de forma simpática, e ela entrou logo em seguida, vendo Ryuzaki se sentar ao seu lado. Estavam constrangidos demais pra puxar assunto, sendo assim mantiveram-se calados durante o percurso.

—

Estavam na sala esperando um dos investigadores chegar. Já tinha conhecido cada membro que atualmente trabalhava com L, incluindo Soichiro, pai de Raito. Até então, nenhuma noticia sobre Beyond surgira, muito pelo contrário, isso só trazia mais duvidas. Se o corpo dele fosse encontrado, já teria a resposta sobre ele estar ou não morto, mas aquela duvida a torturava, e mesmo perguntando para L, ele também não sabia o que dizer. O que restara é esperar.

— Oi. — disse Raito, entrando no local.

— Ah, entra. — respondeu o moreno, frente à tv — O momento não podia ser melhor, acabamos de receber um novo vídeo com a mensagem do segundo Kira.

Antes que Raito olhasse na direção do detetive, pareceu surpreso ao ver Tsuki ao lado dele. Quase como um susto, restringindo seu olhar para a garota, que retribuiu o mesmo gesto indelicado, com um sorriso cínico no rosto. Ficou se perguntando o que tinha dado errado, por que ela não morreu afinal? Tsuki era um nome falso? Não fazia sentido o Death Note ter errado...Não, não era possível o caderno ter cometido um erro!

— Quanto tempo hein, Raito? — o encarou, com um tom sarcástico em sua voz.

Continua...