Lost In Paradise
16 Afeição

— Estou curiosa pra saber porque você veio me buscar.
— Não posso?
— Não é isso...é que não é algo que você faça todo dia, entende?
— Sei, não precisa se acostumar.
— Claro. — disse rindo.
— Parece que teremos que nos aturar por hoje, Amane não estará em casa... — disse sorrindo maliciosamente.
— N-não me olhe assim B...me diz, Misa não falou pra onde iria?
— Não, ela não falou nem qual meio de transporte usou. Simplesmente me deu a chave de casa e falou que iria viajar mas que voltaria no dia seguinte. Estranho, não?
— Muito...
— Mas tem duas coisas que me incomodam em Amane, posso dizer quais são?
— Diga. — falou curiosa.
— Primeiro: o tempo de vida dela é maior do que a de um ser humano normal, pelo menos até hoje não vi ninguém com uma expectativa de vida tão alta, nem mesmo em minha época mais propaga como assassino. Tem uma explicação lógica pra isso?
— Não...
— Certeza? Não viu nada parecido no Death Note? Pense bem antes de responder...
Tentou lembrar-se de alguma regra do caderno que pudesse justificar, até que se lembrou automaticamente de uma de suas conversas com Remu.
— Gelus...só pode ser isso...
— Gelus?
— Sim, Gelus...B, a um tempo atrás antes de nos conhecermos eu tive uma conversa com Remu, ele me contou sobre Gelus. Gelus era um shinigami que havia se apaixonado por uma humana, ele a observava no mundo dos shinigamis mas ficou desesperado quando chegou seu último dia de vida. Um homem tentou atacar essa humana, era a forma que ela iria morrer, mas ele impediu...usou o Death Note pra matar o agressor e salvar a vida dela. Porém, shinigamis só existem para tirar vidas humanas, se interferir na morte de um humano então que morre é o shinigami, passando a desaparecer se tornando um tipo de areia. Ao morrer, o tempo de vida do shinigami passou para a da humana, então...
— A humana só pode ser Amane...
— Exato...eu...
— Gelus desapareceu mas o caderno ficou, certo?
— Sim...mas...
— Medusa pegou o caderno do shinigami já morto e entregou pra humana que ele amava, no caso Amane. As coisas fazem sentido agora...mas como um shinigami pode se apaixonar?
— O amor pode vir de qualquer pessoa ou criatura, B...
— Não entendo...eu não sinto isso.
— Talvez um dia você entenda...e sinta.
Beyond encarou a menina deixando-a constrangida, fazendo voltar ao assunto antes que ele percebe-se sua vergonha.
— M-mas...você disse que tinha duas coisas sobre Misa que lhe incomodavam...qual a segunda?
— Ah, isso. A segunda é que um tempo depois de eu me hospedar em sua casa, o tempo de vida de Amane foi cortado. Não que isso seja um caos total, seu tempo de vida ainda é longo, mas não encontrei nada que comprove o motivo disso acontecer.
— O tempo de vida dela foi cortado? Assim que você chegou?
— Não tenho nada com isso, se é o que quer saber. Mas isso me intrigou, eu teria entrado no assunto com você, mas estava sempre por perto de Amane ou do shinigami.
— Deveria ter me contado isso antes B...mas não entendo, o que ela poderia ter feito que cortaria seu tempo de vida?
— Não sei, mas ela perdeu metade de sua vida...tenho uma teoria em que exista um acordo entre o proprietário do caderno e o shinigami, sendo assim só eles sabem do que se trata.
— Um acordo? Também pensei nisso...mas se for, Remu será fiel à Misa e não me dirá nada. Isso é péssimo!
— Tem outra coisa que precisa saber...
— Mais? Eu não vou aguentar receber mais noticias ruins. — bufou a menina.
— Pois se aguente. Amane está matando usando o caderno.
Tsuki parou de andar ficando parada no meio da rua, aquilo a chocou completamente. Ela cresceu ao lado de Misa, a acompanhou em seus momentos bons e ruins, não era capaz de aceitar que sua melhor amiga faria algo tão cruel. A menina estava tão abalada com a notícia que nem percebeu um carro logo atrás onde estava.
Beyond a segurou pelo braço puxando-a pra calçada.
— Está querendo morrer? Já sofreu um acidente uma vez, quer passar por aquilo de novo? — disse irritado, mas logo mudando seu humor ao ver a garota com os olhos cheios d'água. — Tsuki...
— Por que está mentindo pra mim Beyond? A Misa não seria capaz de fazer isso, ela me prometeu, ela olhou nos meus olhos e...prometeu. Ela...não...se tornaria isso. Não!
— Escute, Amane irá longe demais se tratando de sua obsessão por Kira. Não tem como salva-la...
— Está errado!
— Você está alterada, não irá ouvir nada que eu digo pois sua decepção foi muito grande. Eu entendo. Só te falei tudo agora, pois você tem que se preparar, eu não suportaria ver seu estado ao ouvir as mesmas palavras saindo pela boca de Amane. Respira fundo Tsuki...
Ela obedeceu, se acalmando aos poucos. O garoto sorriu.
— Com o tempo você irá perceber que Amane não é a única pessoa em sua vida, muito menos a que se preocupa mais com seu bem estar.
— B...por que está me dizendo isso tudo ultimamente?
— Estou prestes a fazer algo, não poderei mudar mais nada desde então, será definitivo. Penso que, preciso esclarecer as coisas agora pois pouco tempo me resta.
— Está falando do que?
Ele não a respondeu, deixando claro que não falaria nada sobre o assunto.
— B o que você...
Ele a cortou, selando seus lábios. Seu beijo tinha uma intensidade tremenda, chegando a assustar com a surpresa. Tsuki não imaginou que o garoto fosse fazer algo parecido no meio da rua, mas como qualquer mulher em seu lugar, não pode deixar de retribuir. Beyond parecia ter certa experiência com essas coisas, a causava arrepios com um simples beijo enquanto segurava sua cintura. Sentiu ele sorrir entre o beijo, tendo a visualização de seu sorriso cínico que tanto exibia. Depois que a menina já estava ficando sem ar, ele a soltou se afastando.
— Tsuki. — a chamou.
— S-s-sim?
— Você tem que comprar geleia.
— Ahn? Ah, tá bem...
Ela riu ao pensar em como o garoto ignorava totalmente o que acabara de fazer iniciando um novo assunto por cima com tanta facilidade. Era praticamente impossível imaginar o que ele poderia estar pensando, mas seja o que for, ele estava demonstrando mais confiança do que Misa. Mas era estranho pensar que o temido Beyond Birthday poderia possuir uma forte afeição por outra pessoa, principalmente em relação a ela.
—
Eles já estavam frente à casa quando Tsuki recebeu uma mensagem.
Tsuki, eu e Ryuga saímos mais cedo da universidade. Meu pai está hospitalizado devido a um ataque cardíaco e eu vou o visitar no hospital mais tarde. Não poderei entrar em contato até lá, e não sei se irei aparecer na universidade amanhã. Espero que entenda! — Raito.
O pai de Raito sofreu um ataque cardíaco? Ele não seria capaz de fazer algo assim com o próprio pai...então deve ter sido causado por estresse já que ele comanda o caso Kira, será que L o contou que suspeita de Raito? O que será que está acontecendo na polícia...? As coisas não devem estar nada boas...coitado do senhor Yagami!— pensava atordoada.
— Algum problema? — perguntou Beyond.
— É o pai de Raito...ele está no hospital, teve uma parada cardíaca.
— Deve ter descoberto que seu filhinho querido é o Kira.
— Pode até ser, mas tenho certeza que Raito não fez nada ao pai.
— Por enquanto até que pode ser, mas não se engane. Kira não se importa com sua família e amigos...ele só se importa consigo mesmo, e com o poder do Death Note. Na pior das hipóteses, ele mataria o próprio pai se fosse necessário.
— Credo B...
— Desculpe, mas sei que no fundo você pensa o mesmo.
***
Era de noite quando o hospital autorizou visitas ao chefe Yagami, Raito e L se sentaram nas cadeiras ao lado de onde o homem se deitara.
— Os médicos acham que a única causa foi estresse? — perguntou Raito.
— É...pra ser sincero achei que fosse Kira quando começou, mas eu vou ficar bem. Eu tenho exagerado ultimamente...
— É mesmo, deve ter aumentado seu estresse saber que Raito é o suspeito na investigação.
— Você disse isso ao meu pai? — perguntou zangado.
— Disse, na verdade eu contei tudo a ele. Verdade...ele sabe até que eu sou o L.
Raito ficou surpreso.
— É isso mesmo, esse homem é o L! — disse Soichiro — Pra proteger sua identidade nós da força tarefa chamamos ele de Ryuzaki, mas não se engane, é ele. Então, Ryuzaki, agora que teve a chance de conversar com meu filho ele não é mais suspeito?
— Quando digo que suspeito dele você devia saber que é bem pouco. Já falamos disso, mas eu explico de novo. A pouco tempo, Kira matou doze agentes do FBI que tinham vindo ao Japão nos ajudar. Eles foram instruídos a seguir pessoas ligadas a polícia japonesa...um desses agentes, Raye Penber, mostrou comportamento incomum antes de morrer...
— Eu entendo, e eu fui uma das pessoas que Raye Penber estava investigando antes de morrer...faz sentido eu ser suspeito. Não! Pra ser mais exato, não há mais ninguém pra se suspeitar.
— Os poderes de dedução do Raito são impressionantes, ele é sempre rápido e exato.
— Ryuga, eu quero ajudar na investigação. Meu pai apagou qualquer duvida que eu pudesse ter quanto a sua verdadeira identidade. Eu quero pegar Kira mais que tudo pra poder provar de uma vez por todas que eu não sou ele.
— Não, Raito! Esse é o momento da vida que você tem que estudar pra se tornar policial...não vai ser tarde demais quando se juntar a nós quando terminar.
— Pai, do que o senhor está falando? Quem sabe quantos anos mais isso irá levar? Além do mais, você não lembra da minha promessa que se alguma coisa acontecesse ao senhor eu encontraria Kira e faria ele ser preso?
Isso não me parece encenação, mas se for, está exagerada.— pensava o moreno.
— Raito, me escuta...esse Kira é do mal, todos concordamos nisso. Mas recentemente comecei a pensar nessa situação de maneira diferente, o que é realmente maligno é poder de matar as pessoas. Não interessa como se usa, nenhuma verdadeira felicidade pode ser obtida assim, nem matando outras pessoas...
— Acho que tem toda razão! Se Kira é uma pessoa normal que obteve esse poder terrível, eu diria que ele é amaldiçoado.
— Ryuzaki eu lamento toda confusão mas eu volto a trabalhar assim que os médicos me deixarem sair...
— Com licença. — disse a enfermeira — O horário de visita acabou já faz dez minutos.
L saiu acompanhado de Raito que parecia estar pensando em tudo o que seu pai dissera. Caminhava até o carro quando ouviu Raito o chamando.
— Ryuga, o que eu preciso fazer pra você acreditar que eu não sou o Kira? Por favor, não tem alguma coisa?
— Se você não é o Kira, não será necessário. Deixe as coisas seguirem seu curso e a verdade será revelada.
— Eu não aguento mais isso! Coloque-se no meu lugar, como acha que é ser acusado de ser o Kira?
— Eu imagino que deve ser terrível.
— Eu sei. E se me trancasse por um mês em um lugar sem tv nem nenhum outro tipo de acesso ao mundo externo e mantivesse vigilância constante em cima de mim?
Uma pessoa normal estaria disposta a medidas tão extremas pra limpar seu nome?— pensava o detetive.
— Isso não é bom! Eu não posso fazer nada que prive você de seus direitos humanos, e além do mais, é uma loucura total um investigar aceitar sugestões de seu suspeito.
— Já entendi...
Watari abriu a porta e L entrou no veículo.
— Não se preocupe tanto, seja paciência...vai ficar aparente pra nós se você não for Kira. E ouvindo essa conversa entre você e seu pai, quase me convenci de que você não é. Raito, por favor, cuide do senhor Yagami.
— Ah sim, mais uma coisa. Eu sei que concordei em ajudar a investigação mas acho que não vou poder fazer muito até que meu pai esteja bem de novo.
— Sim, é claro.
E com isso se despediram.
Sentado dentro do carro o detetive pensava: Raito Yagami...você não é o Kira?
***
Beyond estava sentado no sofá quando percebeu alguém entrando em casa. Era Misa. Ele estranhou o fato da garota ter chegado no meio da noite daquele jeito, entrando praticamente escondida no meio da escuridão que a sala se encontrara.
— Chegando escondida, Amane?
— B? — perguntou assustada — O que faz aqui acordado?
— Eu que pergunto, não iria chegar pela manhã?
— Oh, eu acabei chegando mais cedo... — riu demonstrando nervosismo. — Cadê a Uki?
— Está deitada, como qualquer pessoa normal nesse horário.
— Ah, eu vou pro meu quarto...
Beyond a segurou pelo braço impedindo-a de subir pelas escadas, o que deixou Remu irritado.
— Solta ela!
— Calma aí Medusa, tenho que ter uma conversinha com Amane.
— B você ta me machucando. — disse tentando se soltar.
Ele a encostou na parede fazendo olhar em seus olhos que demonstravam claramente sua fúria.
— Escute bem, Amane. Você pode enganar Tsuki, mas a mim não. Eu sei que você está planejando se encontrar com Kira, mas não seja idiota, ele irá te matar na primeira oportunidade, e a Tsuki também. Vai mesmo colocar sua amiga em perigo? Vai continuar escondendo isso dela? Vai conviver com esse sentimento de culpa? Toda vez que você olhar nos olhos de sua adorada Uki se sentirá culpada por esconder dela toda essa corrução, vai conseguir conviver com isso? Acha legal ver que ela tenta te proteger enquanto você se uni ao lado de Kira? Conte pra ela o que está fazendo, ou eu juro que mesmo que esse shinigami me mate depois, eu lhe mato antes.
Misa sentiu o peso daquelas palavras, estava se sentindo mais culpada do que antes, não podia mais esconder nada de sua amiga. Embora ela quisesse que Tsuki nunca descobrisse, era melhor esclarecer as coisas agora. Perguntou a si mesma se quando chegasse a hora ficaria ao lado de Tsuki ou...de Kira.
Continua...
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