Lost Blue

38 Capítulo 38 - Aliados


Notas iniciais
Olá meu amores! Aqui está o capítulo da semana ;D Desde já quero desejar a vocês um Feliz 2019! Muito obrigada por acompanharem minhas histórias. Se tudo der certo, em janeiro teremos novidades ♥ e mais de Lost Blue, que está se encaminhando para a reta final. Enfim, tomara que gostem! Boa leitura ♥

Uma voz surgiu no subconsciente de Gavrel.

— Ei… responda!

E esta mesma voz continuava a persuadi-lo a acordar.

— Eu sei que você está aí. Acorde, Gav, nós temos que sair!

Era como se aquela pessoa estivesse gritando e sussurrando ao mesmo tempo, com seu temperamento à borda. Conhecia apenas uma pessoa capaz disso quando estavam em uma situação perigosa da qual não podiam gritar.

Askell.

— O que… o que está… — Forçou a perguntar, mas estava tão grogue que era difícil formular palavras.

— Merda, você está mal. — Sentiu seus pulsos serem desamarrados das correntes que o prendiam ao teto e o inevitável baque ao chão. Que delicadeza, até para ser salvo.

— Por quê está aqui? — Perguntou depois de ter acordado com a queda. Askell estava agachado à sua frente, o verificando.— E como?

— Não se lembra que eu sou mestre de disfarces? — Ele imitou um sotaque diferente, exibindo suas roupas de cientista, com todas as tatuagens cobertas, até as do pescoço, óculos falsos, seu moicano verde estava repartido ao meio, criando um penteado muito horroroso. — Não é demais?

— Mas você ficou para trás… como chegou aqui?

— Eu fugi. Logo que vi vocês serem raptados, entrei aqui também.

— Mas e os…

— Os gêmeos? — Ele sorriu tristemente. — Eu sinto muito… Gav. Eles me enganaram e depois me ameaçaram. Mas eu vou me redimir, eu prometo. Farei isso, libertando todos vocês. — Ele olhou ao redor do laboratório vazio.

— Onde está Keesa? — Foi o primeiro em que podia pensar. Sua preocupação pelo humano de sangue puro ia além do que seria considerado normal. Keesa era muito sensível e frágil, ele precisava de sua proteção e segurança. Esperava que não o tivessem machucado, caso contrário, teria a certeza de arrancar a cabeça de cada integrante da Federação para exclamar seu ódio.

— Eu não sei. Fui até a sala em que ele estava sendo mantido, mas quando cheguei, não estava mais lá. Meu palpite é que fugiu e está tentando encontrá-lo.

— Ele não pode fazer isso sozinho. — Gavrel grunhiu quando Askell lhe aplicou uma injeção no pescoço. — O que foi isso?

— É cafeína, vai acordá-lo. Você parece uma geleia.

— Eles me sedaram, você queria o quê?

Askell sorriu. E embora a situação fosse péssima e ainda estivesse chateado com a traição de seu amigo, Gavrel estava agradecido pela presença dele naquele momento. Sem a Margosha, sem sua tripulação, sem Keesa e seus amigos, tinha perdido praticamente tudo o que tinha. E não queria admitir, mas estava tão assustado naquele lugar. Era bizarro e lhe dava todas as indicações possíveis de que queriam dissecá-lo, isso explicava as serras e bisturis na mesa cirúrgica.

Engoliu em seco.

Askell se levantou e correu para os armários enquanto Gavrel tentava se erguer e controlar suas pernas. Seu amigo tinha razão, a injeção de cafeína funcionava e estava começando a sentir sua pele formigar e sua energia retornar ao corpo.

— Use isto. — Askell jogou a ele uma roupa mais adequada, calças brancas, uma camiseta de mesma cor, um jaleco e sapatos combinando, que pareciam menores que seus pés. Era bem melhor do que o vestido de hospital que usava, com sua bunda de fora. — Nós precisamos sair logo, antes que as câmeras percebam que foram burladas.

Gavrel olhou para as câmeras, notando que estavam desligadas.

— Você usou aquele truque? — Sorriu.

— Sim. Aprendi com o melhor.

Eram piratas, afinal de contas.

Antes de saírem, Askell se virou para ele franzindo o cenho.

— Você ainda parece muito suspeito. Tem que tirar o tapa-olho.

— Você sabe o que acontece se eu tirá-lo.

— Sei, mas todos saberão quem é você andando por aí com o tapa-olho.

Resmungando, tirou e o colocou no bolso. Imediatamente, vendo o sorriso de Askell, soube que ele estava sendo sincero quando dizia que queria se redimir de seus erros.

—*-*-

O coração de Keesa estava na garganta. Era a primeira vez que fugia daquele jeito. De várias outras formas tentou fugir de Exórdio, mas sempre foi pego e espancado por isso. E na Federação, a sensação não era muito diferente de saber que seria encontrado a qualquer momento.

Tremia e estava difícil conter sua respiração descompassada, lidar com o suor escorrendo da testa e embaçando sua visão. Tudo o que usava era um vestido de hospital branco e horrível, que já estava sujo com poeira, conforme deslizava pelos tubos de ventilação.

Era a primeira vez também que agradecia por ser um humano pequeno, pois estava ajudando naquele momento.

Precisava achar os outros, principalmente Gavrel. Tinha que salvá-los. Trey tinha confiado nele uma vez e fez um bom trabalho, Gavrel o amava e também confiava nele, por isso Keesa faria qualquer coisa para salvá-los, mesmo que isso lhe custasse a sua vida.

Não soube por quando tempo deslizou pelos tubos feitos com algum metal frio. Atravessou corredores e corredores naquilo, subiu e desceu, e agora sentia-se mais perdido do que tudo.

Exceto que um fraco pedido de socorro chamou sua atenção. Vinha de uma abertura para passar o ar. Quando olhou nas frestas, congelou com a visão de Dominic preso em uma jaula para pássaros. Ele estava caído e chorando enquanto um grupo de pesquisadores tomavam notas sobre ele.

— Foi bom encontrarmos mais um da espécie. O último morreu em menos de uma semana, este parece mais forte e propenso a se adaptar aos nossos exames. — Falou um homem com idade para ser seu pai.

— Sim, senhor. Creio que podemos estudar suas células de transformação de tamanho. — Explicou uma mulher loira. — E quem sabe poderemos usá-las para transportar armas maiores com mais facilidade.

— Exatamente. Podemos usar isso a favor do exército interestelar.

Keesa ficou preocupado, porque Dominic estava debruçado em uma poça de lágrimas. Não sabia se estava ferido ou somente sendo dramático como era esperado dele.

Assistiu os pesquisadores saírem e tomou aquilo como uma oportunidade. Puxou a janela de metal que prendia a abertura e se surpreendeu com a facilidade em que fez aquilo. Enfiou a cabeça para dentro e viu onde as câmeras estavam. Talvez conseguisse entrar sem ser visto. Mas havia vários metros até o chão. Por sorte, no teto haviam aparelhos desligados, o que Keesa não fazia ideia de para quê serviam. Lembravam muito aparelhos de raio-x.

Pendurou-se em um deles, não contendo um gritinho pela altura. Nunca tinha feito tal coisa antes, e temia que a queda poderia lhe provocar fraturas ou coisa pior.

Fechou os olhos com força e engoliu em seco, forçando seu corpo para um lado onde estava outra máquina, balançou e balançou até alcançar outro aparelho que se desprendeu do teto. Ele girou rapidamente, quase escorregando até conseguir pular para o chão.

— Keesa! — Dominic gritou emocionado em sua gaiola.

Keesa escondeu-se atrás das mesas e fez um sinal para ele ficar em silêncio.

— Eu vou te tirar daí.

— Eu vou morrer, Keesa! — Dominic voltou a chorar. Era incrível como uma criatura daquele tamanho produzia tantas lágrimas. Já havia uma poça se formando no chão abaixo de onde a gaiola estava pendurada. — Eles querem me dividir em pedaços.

— Eles não farão isso. Não vou deixar. — Aproximou-se sorrateiramente. — Como faço para abrir isso? — Referia-se a gaiola eletrônica.

— Eu não sei.

Olhou ao redor, encontrando várias ferramentas sobre uma mesa. Mais da metade do que estava ali não sabia para o que servia, mas uma em especial não enganava, uma serra elétrica.

— Não, você não pode usar isso! — Gritou Dominic com horror.

— Por quê não? — Aproximou-se carregando a coisa. Dominic se encolheu.

— É… É perigoso, Keesa! Você pode se machucar, ou pior, me machucar!

— Vai ficar tudo bem, verá! Fique abaixado aí, vai ser rápido. Eu espero.

Posicionou-se com a serra elétrica e ligou-a, percebendo que não era muito diferente da que usavam na sua colônia na Via Láctea. O barulho não era tão alto, mas era irritante. Esperava que aquilo funcionasse, senão não saberia o que fazer e nem como voltar as tubulações de ar.

A porta se abriu no mesmo momento e Keesa apontou a serra em direção a ela. Alívio substituiu o susto por ver que eram Gavrel e Askell. Askell? Por quê ele?

— Desligue isso, vai acionar os alarmes. — Disse o Margosha.

Keesa assentiu, tentando desligar a coisa, mas sem saber como. Foi fácil ligar, mas o mesmo botão não funcionou para fazer o efeito contrário. Perdeu o controle da serra e ela bateu contra a gaiola, abrindo um vão entre as barras de metal e em seguida batendo contra a mesa cheia de outras ferramentas, derrubando tudo e destruindo todo o metal que havia lá.

— Keesa! — Gavrel correu para socorrê-lo, mas como? Keesa não conseguia controlar sua arma, até que finalmente ela desligou. Foi porque Askell tinha tirado a maldita coisa da tomada.

— Obrigado. — Falou com alívio, colocando a coisa monstruosa para baixo. Naquele momento, Gavrel já tinha tirado Dominic da gaiola e o colocado no bolso.

— Ele está bem?

— Sim, mas e você?

Ver o olhar preocupado de Gavrel o aqueceu, mas também lhe deu medo. Temia pela vida deles.

— Estou bem.

— Nós temos que ir! — Askell falou jogando algumas ferramentas que podiam ser usadas como armas para Gavrel e Keesa. — Usem se necessário. Tivemos sorte que a gaiola não tinha alarme acoplado, ou estaríamos ferrados.

No entanto, a boca de Askell devia estar muito suja, pois as luzes se apagaram, permanecendo apenas as de emergência, e o alarme mais ensurdecedor começou a tocar.

— Merda. — Gavrel xingou.

Eles correram para porta, vendo soldados correrem em sentidos opostos pelos corredores. Não entendiam o que estava acontecendo, mas perceberam que a causa não foi culpa eles.

—*-*-

Minutos antes.

Zack e seu grupo entraram no necrotério. Não fazia ideia de que um lugar assim existiria dentro da nave-mãe da Federação, mas já era de se esperar, que com todas as pesquisas e experimentos mal sucedidos que faziam, haveria uma sala assim escondida.

Diferente de como se lembrava de um necrotério, ali havia uma série de cápsulas em forma de cilindros em pé, feitas de vidro, em vez de gavetas refrigeradas. Estava frio, muito frio, e podia ver até uma fina camada de névoa permear o chão antiderrapante.

— Isso é bizarro! — A voz de Austin saiu mais fina do que o normal e todos estavam tremendo.

— Olha só! Tem pedaços mutilados aqui! — Kimm falou do outro lado da sala, olhando em uma enorme banheira e sorrindo. Ela achava algo assim interessante? Era horrível!

— Eu não quero ver! Eu não preciso ver! — Morgana tinha as mãos sobre os olhos, tropeçando a cada passo. — Vamos sair daqui, não posso nem respirar nesse lugar. — Isso parecia mais apropriado para Zack dizer… mas como falavam, tal mãe, tal filho.

Ele já tinha visto coisas piores na vida.

— Oh meu Deus… — Austin apontou trêmulo para uma das cápsulas mais ao longe e Zachary quase perdeu o movimento das pernas quando percebeu que era Jack Scarlet, o pai de Trey. — E-Ele está… morto.

Sem saber o que dizer e ouvindo o suspiro coletivo de seus amigos, além do choro estridente de Morgana, Zack se aproximou cuidadosamente da cápsula, olhando bem para o vidro.

Jack estava com escoriações pelo rosto e pelo corpo nu. Pálido, exatamente como um homem morto, e congelado. Olhou o painel da cápsula que tinha uma tela indicando os padrões de congelamento e do corpo que estava dentro. Tocou os botões, procurando um meio de libertá-lo. Estava escrito em vettoreano, por isso não foi fácil traduzir cada palavra.

Em um último momento, conseguiu destravar a porta e abri-la. Ar gélido, com cheiro horrível de formol e mais uma gama de produtos químicos, fez suas narinas arderem e seu estômago embrulhar.

— Austin, ajude-me aqui.

— Mas ele está…

— Venha logo!

Seu amigo posicionou-se com ele e juntos retiraram Jack da cápsula.

— Kimm, encontre roupas! Qualquer coisa que possa esquentá-lo!

— Okay! — Ela correu, deixando Morgana às lágrimas.

— E-Ele morreu? — Os olhos de Austin estavam inundados. — E-Ele não pode estar morto… Trey vai ficar…

— Escute, Austin. Ele não está morto, olhe ali. — Zack apontou para o painel da cápsula, que considerava estado de congelamento para um ser vivo. — Eu não sei porque queriam congelá-lo aqui junto com os mortos, mas tudo o que precisamos fazer é salvá-lo agora, antes que ele morra de frio.

— O quê você disse? — Morgana gritou, correndo para se ajoelhar ao lado deles. — Ele não está morto? Graças a Deus! — Ela puxou o corpo inerte de Jack para os seus braços, apertando-o com força.

— Calma, mamãe, vai matá-lo esmagado!

— Oh, desculpe… é muita emoção para uma mulher só. — Ela entregou Jack de volta.

Kimm retornou com uma pilha de trapos. — Achei uma sauna!

— O quê? — Eles gritaram em uníssono. — Por que há uma sauna em um lugar como este? — Indagou Austin.

— Não é uma sauna como a que temos na Imperatriz. — Zack explicou. — É uma pequena câmara capaz de descongelar um corpo. Podemos tentar usá-la. Espero que não seja prejudicial a ele. Vamos!

A câmara era uma pequena sala minúscula com uma mesa de metal onde Jack foi colocado em cima. Eles recolheram os trapos e deixaram a sala. Zachary tomou a responsabilidade e verificou os painéis, aprendeu seus comandos e fez o teste. Não um teste qualquer, mas o definitivo. A temperatura se elevaria aos 20 graus, esperava que fosse suficiente para fazer Jack voltar ao normal sem matá-lo.

Em questão de um minuto, o painel apitou e finalmente foi capaz de entrar. Jack parecia normal, não mais gelado, apenas na temperatura ideal. Zack começou a verificar os sinais vitais quando o homem mais velho abriu os olhos arregalados e sentou-se tão rápido que bateram as cabeças juntas. Zack caiu, agarrando suas têmporas.

— Ai!

— Ouch! — Resmungou Jack. — Zack, o que faz aqui?

— Hã? Te salvando?

— Jack, você acordou! — Morgana gritou, mas foi segurada por Austin, antes que esbarrasse na porta. Ela não caberia naquela sala minúscula, iria esmagá-los.

— Nós precisamos ir. Jack só precisa de roupas. Temos que buscar os outros. — Alertou Kimm, entregando de volta os trapos.

E foi exatamente o que fizeram, apenas um pouco mais aliviados de que Jack estava bem, porém temendo pela vida dos demais.

—*-*-

Stella mostrou ser uma mulher ruiva de óculos, que tinha mesmo cara de secretária. Era eufórica e falava muito. E ouvindo dela a intenção de seu grupo de tirar Wenda do poder trouxe a Trey mais confiabilidade.

Ela liderava um grupo de soldados, cientistas e outros colaboradores que sabiam das verdadeiras intenções de Wenda.

— Infelizmente, a maioria dos outros soldados e cientistas não acreditaram quando foram informados. Alguns nós nem arriscamos o contato, pois são devotos a rainha. — Explicou Stella. — Escute, Senhor Scarlet, as nossas vantagens são resumidas em estarmos fora do Universo Conhecido, sem o risco de outras tropas do exército interestelar vir prestar socorro, temos integrantes operando as salas de segurança e androides hiper inteligentes trabalhando para nós, além de agora termos você e sua equipe que podem nos ajudar.

Trey estava de pé a frente dela em uma das salas de segurança, vendo as imagens das câmeras. Vários outros vettoreanos estavam ao redor e pareciam intimidantes, porém não estavam atacando.

— Mas as desvantagens ainda são um desafio para nós… — Continuou ela. — Os membros do nosso grupo ainda são considerados poucos em comparação com o que Wenda tem. Se os enfrentasse só nós, seríamos massacrados, é por isso que acreditamos que vocês possam ser úteis. Dividimos o mesmo interesse, que é tirar Wenda do poder, não estamos contentes com seus métodos cruéis de lidar com pacientes, escravizando-os e pouco se importando com suas vidas. Ela destrói planetas, nações, e o que nós queremos é trazer paz ao universo.

Trey ficou surpreso com o discurso de Stella. Ela parecia mais inteligente e bondosa do que aparentava. Ela levava uma prancheta nas mãos, ajeitou seus óculos e... não parou de falar:

— Você e seus tripulantes estão acostumados a missões perigosas e já fugiram da Federação antes. Aquantis tem um poder incrível e junto com seu irmão Sully, podem fazer coisas ainda maiores! Vocês tem uma espécie raríssima de saturniano que pode tomar o tamanho que quiser, e tem soldados fortes como Austin e Morgana, um hacker que já foi capaz de acessar por diversas vezes os arquivos secretos da Federação, e a parceria com piratas intergaláticos, sem falar que um deles é um Balmor, uma espécie muito rara e perigosa.

Como essa mulher respirava?

Trey assentiu, até ficando um pouco zonzo ao ouvi-la.

— Eu não tenho escolha, senão participar disso com vocês. Então, diga-me o que devo fazer. — Pediu e em seguida viu nas telas em uma enorme parede, seus amigos fugindo, procurando-o. Trey sorriu enorme, aliviado de poder vê-los bem.

—*-*-

Vai ficar tudo bem…

Tudo bem…

Paciência…

Vai dar tudo certo, Aqua…

Sim… tudo certo.

Não vai dar certo!

Aquantis abriu os olhos, saindo de seu mantra absurdo e olhando para Sully que permanecia inconsciente na mesa, desta vez com seus olhos fechados, como se só estivesse dormindo. Wenda e um grupo de cientistas estavam mais ao longe estudando alguma coisa que não tinha ideia do que era, provavelmente mais algum método de tortura para eles.

Aquantis tinha sido levado para diversas cabines nas últimas horas, sentiu dor, levou choques, sentiu frio até quase congelar, calor até quase derreter, e por último foi preso em uma cápsula aquática, submergido em algum produto químico. Não respirava, o que era incômodo, pois estava acostumado com oxigênio. Não podia falar ou ouvir, só ver através do vidro esverdeado.

Sentia uma falta imensa de seus dias na Imperatriz. Queria ter tido a chance de falar mais com Sully, descobrir mais sobre ele e sobre sua família.

Queria ter chegado a Lost Blue, conhecido seu planeta e seus pais.

Teve tantas esperanças.

“Nós vamos para Lost Blue.” Disse Trey uma vez enquanto se abraçavam na cama, depois de fazerem amor. “E lá vamos ter uma casa enorme e poderemos morar todos juntos, como uma grande família. Ou talvez poderemos montar uma pequena colônia com uma casa para casa casal.” Trey tinha dito tudo com tamanha esperança em sua voz, que doía ter que lembrar. Seu sorriso, seu cheiro, seu calor. O brilho de felicidade em seus olhos, com a crença de que realmente estavam viajando em direção ao novo lar deles… tudo isso fez Aquantis furioso...

Pois graças a maldita rainha, tinha perdido a chance.

Sully estava naquela maca, como um animal pronto para ser dissecado. E ele? Ele estava preso a um aquário.

Como estavam seus amigos? Como estava Trey?

Aquelas pessoas se tornaram sua família, amava cada uma delas com todo o seu coração. Graças a elas, aprendeu o significado de várias coisas. Aprendeu o que gostava, sabia rir sem culpa, sorrir genuinamente, tinha participado de várias aventuras, conhecido diversos lugares e… descoberto o amor.

Aqua olhou para baixo, suas lágrimas se misturando ao líquido esverdeado em torno dele, e sentiu uma estranha sensação no ventre. Engoliu em seco, esperando que não fosse resultado das experiências com ele, mas sim seu sistema digestivo reclamando.

Mais tarde, quando quase tinha adormecido no cilindro, os cientistas o retiraram de lá, esguicharam água gelada em seu corpo, fazendo-o tremer e se encolher, e depois o enxugaram. Ele foi preso a uma maca ao lado de Sully. Cintos contornavam seus pulsos, tornozelos e pescoço, tornando-o completamente imóvel, ainda pior do que Sully.

Sua boca estava tapada com uma mordaça e Wenda sorriu entre todos aqueles cientistas com olhares loucos em seus rostos.

— Você está com medo… — Ela alisou seu braço, fazendo-o se arrepiar. — Vai ficar tudo bem, querido. Os doutores suspeitam que o bebê possa atrapalhar seu desempenho de gerar energia para aquela quantidade enorme de cristais lá em cima.

Ela disse bebê? Que bebê?

— Oh… você não sabia? — Ela riu de uma forma doce, mas que não era nada adorável, e sim repugnante para ele. — Tem um bebê bem aqui. — Ela alisou suavemente seu ventre. — Você vai ser papai, Aqua… ou diria, mamãe? — Riu suavemente. — Acho que isso não importa, nós vamos tirar o embrião e congelá-lo para pesquisas futuras. Mas por enquanto, vamos usar apenas você. Sabemos do que é capaz, então é suficiente para concretizar nossos planos.

Aquantis tentou gritar, tentou se espernear, ainda mais quando um enfermeiro se aproximou com uma injeção de agulha imensa, expelindo um líquido roxo na ponta.

Não! Não! Não!

Estava grávido!

Tentou de tudo para se mover, mas não conseguia, as amarras eram muito fortes.

— Ele só vai aplicar o sedativo. Não queremos que veja, não é mesmo? — Explicou Wenda, como se fosse uma doce mulher gentil. — Quando acordar, será apenas um garoto de novo e o bebê deixará de sugar sua energia. Lembre-se de Sully, não tente nada, ou ele pode não sobreviver… você que sabe.

Suas ameaças já não importavam. Ninguém mais importava.

A necessidade… não, a obrigação de proteger seu filho veio acima de tudo. Aquantis nunca sentiu um teor de superproteção como naquele instante. Seus dentes cerraram com tanta força que destruiu a mordaça. Seu grito assustou os cientistas e as amarras em seus braços explodiram.

O enfermeiro caiu em seu traseiro, com medo. E assim que eles tentaram prendê-lo novamente, foi quando o inferno eclodiu.

Continua...

Notas finais
Obrigada por ler ♥