Lost Blue
19 Capítulo 19 - A nave Margosha
Notas iniciais
Kayllon observou a volta de Jack. Ele estava sozinho.
Onde será que Trey tinha ido? Pelo semblante sombrio do antigo comandante da Imperatriz, tudo o que podia assumir era que ele estava muito chateado. Imaginava se uma briga não tinha acontecido entre eles. Mas… por que motivo?
Não se lembrava de tê-los visto brigar, não mais do que pequenas discussões que eram completamente normais para pai e filho.
Jack era um homem tão bonito. Não conseguia simplesmente parar de admirá-lo. Os cabelos escuros um pouco mais curtos que os de Trey, o semblante confiante que já tinha ganhado algumas marcas da idade. A barba bem aparada. Olhos dourados. O corpo forte e bem esculpido.
Kayllon não podia simplesmente frear seu coração dos sentimentos que tinha pelo ex-general da Federação dos Planetas. Ele o amava há bastante tempo, e por mais que tentasse esconder seus sentimentos ou enterrá-los, porque esquecer era impossível, apenas ver Jack os faziam retornar furiosamente para o peito.
Ele engoliu em seco quando sentiu seus olhos arderem, recompondo-se.
Pediu licença a Morgana quando deixou o acampamento, seguindo Jack. O viu sentar-se próximo da estrutura da nave, sobre uma pedra bastante achatada. Ele estava curvado para frente, as mãos sobre o rosto enquanto suspirava muito profundamente. Kayllon sentou-se ao lado dele. O general provavelmente sabia que era Kayllon por não ter se assustado com sua aproximação. Esfregou suas costas levemente.
— O que houve, Jack?
Ele demorou para responder, mas assim que o fez, Kayllon se arrependeu de ter perguntado.
— Trey descobriu sobre nós… sobre o bebê.
— Oh. — Kayllon olhou ao redor, não tendo certeza de como responder. — Ele não reagiu bem, não é?
— Ah… — Jack suspirou. — Pior do que eu esperava. Ele pensa que estou fazendo o mesmo que a mãe dele fez. Que simplesmente te engravidei e que irei abandoná-lo.
Kayllon se endireitou. — Mas você pretendia, não é?
Jack olhou para ele envergonhado.
— Nós não tínhamos um relacionamento, Kayllon. Vivi toda a minha vida sendo cauteloso, sempre para garantir que Trey estivesse seguro e que tivesse um bom futuro. Eu sempre tive meus encontros, não que eu me orgulhe disso, é claro, mas nunca aconteceu de eu engravidar alguém. Quando soube de você… eu fiquei assustado. Pode parecer ridículo para um adulto como eu, mas estou sendo sincero.
Kayllon assentiu e aceitou a mão que se estendeu para ele. Ele a pegou e apertou suavemente.
— Eu precisei de algum tempo para entender o que estava acontecendo. — Ele riu um pouco envergonhado. — Mas sabe… depois que conversamos e resolvemos o que iremos fazer, sinto que foi a coisa certa, que o que houve entre nós precisava acontecer.
Kayllon sorriu suavemente e trouxe a mão de Jack para beijá-la.
— Mais assustado do que eu, provavelmente não estava. — Ele riu. — Mas somos adultos, é algo que precisamos enfrentar. — Olhou-o, surpreendendo-se um pouco por ver os olhos de Jack se instalarem nele, quase arregalados, brilhando. Como se ele sentisse, de alguma forma, algo especial por ele. Embora Kayllon quisesse acreditar, sabia que Jack estava apenas tentando, ele só estava aceitando aquilo que tinham pelo bebê.
Não iria julgá-o, o sentimento era unilateral.
— O que está acontecendo aqui? — Austin estava em toda a sua estatura sobre eles, olhando intrigado para onde Kayllon segurava a mão de Jack em seu colo.
— Oh… isso… — Precisava explicar a ele o que estava acontecendo. O que havia entre ele e Jack. Sobre a criança. E agora sobre Trey. Não podia esperar nem mais um dia. Mas não era assim fácil, da mesma forma que Trey reagiu mal quando soube, se Austin soubesse…
Se ele se lembrasse de quando o viu chorando, de cama, não iria levar isso da melhor forma.
— Vocês dois por acaso…? — Austin franziu a testa, ainda olhando para suas mãos unidas. Kayllon queria soltar, mas Jack não.
— Estamos juntos, Austin. — Jack falou. — Ainda não tínhamos assumido nada, mas agora é oficial, não é Kayllon?
Ele assentiu rapidamente.
— Sim, nós…
Kayllon esperava dizer o quanto estava feliz e que bela família pretendiam ter juntos, mesmo sem estar assim tão confiante, mas Austin jogou Jack para o chão quando lhe deu um soco na mandíbula.
— O quê… Filho?! — Kayllon gritou quando Jack se esquivou de um segundo soco. — Pare! Pare já com isso! Austin!
— Seu filho da puta! — Austin estava enfurecido. — Pouco me importa se é o pai de Trey, eu vou matá-lo pelo que fez ao meu pai! — Austin desferiu outro soco que encontrou o ar, mas Jack revidou batendo-lhe no estômago e o derrubando.
Mesmo que Austin fosse o maior e mais forte do grupo, ele caiu fácil para um dos ataques de Jack.
— Olhe, não sei o que está pensando, Austin, mas é melhor parar, vamos conversar como adultos.
Austin parecia completamente fora de si, ele se levantou para atacar Jack, quando Kayllon bloqueou o caminho e por pouco não recebendo um soco também.
— Pare já com isso!
— Saia! Eu vou mostrar a ele o que merece pela forma que te fez sentir, jamais o perdoarei!
— Austin! — Kayllon gritou, parando o filho. — Eu disse para parar!
Naquele instante, Morgana, Aquantis e Zack já tinham se aproximado, preocupados e curiosos, com exceção de Trey, Dominic e Sully.
— Ele não fez nada de mal… está tudo bem, entende? Tudo bem…
Os ombros de Austin caíram.
— Então o bebê… ele é mesmo o outro pai?
Kayllon assentiu, espanando as roupas de Jack, que tinha um corte sangrando no lábio inferior.
— Eu estou ciente de como fiz Kayllon se sentir no começo, sinto muito por isso, de verdade. Eu quero poder me redimir, superar os meus erros e cuidar dele e do bebê. Kayllon merece apenas o melhor e eu estou disposto a fazer isso por ele. Por favor, me dê uma chance.
Austin torceu a face em uma carranca, desviando o olhar.
— Eu não sei! Mas não sou eu quem deve decidir isso. — Ele olhou para Kayllon que pegou as mãos dele nas suas.
— Querido… está tudo bem. De algum jeito as coisas vão se resolver. Há só uma pequena coisa que não sabe sobre mim… nunca achei viável te contar já que nunca acreditei que fosse servir de alguma forma. — Respirou fundo e olhou de Jack para seu filho. — Eu sempre fui apaixonado por ele, então o que houve em parte foi culpa minha por desejá-lo.
Jack tinha os olhos arregalados, assim como Austin.
Kayllon não tinha noção do quanto estava rubro e depois de enfrentar aquela reunião muito vergonhosa, tudo o que fez foi deixá-los. Precisava de algum tempo para se recompor.
—*-*-
— Então você estava aqui!
Trey levou um susto quando alguém envolveu os braços em torno de seus ombros. Era Aquantis.
— Como me achou? — Ele perguntou com a voz um pouco rouca, então limpou a garganta.
— Como poderia não achá-lo? Viemos aqui mais cedo, se lembra? — E foi quando tiveram a primeira experiência sexual juntos. Foi inesquecível.
Trey sorriu.
— Sabe… Austin descobriu sobre seu pai, eles tiveram uma briga horrível. — Aqua comentou.
— O quê?! — Trey estava incrédulo.
— É o que estou dizendo. — Continuou Aqua. — Seu pai ficou com uma marca feia no rosto. Mas parece que se acertaram. Eu acho.
— Eu não sei por que demoraram tanto para nos contar isso. Como se esperassem que ninguém descobriria quando ambos estão vivendo na mesma nave que nós. — Trey suspirou. — Eu amo meu pai, mas o conheço. Não sei o que ele pretende fazer, mas espero que não faça como minha mãe fez comigo.
Aquantis tinha os olhos fixos nele, isso incentivou Trey a continuar.
— Eles namoraram por algum tempo. Acho que foi o namoro mais duradouro que meu pai já teve, durou poucos meses. Eles se casaram ainda quando ela já estava grávida de mim, mais como uma obrigação sabe? Então quando eu nasci, ela simplesmente foi embora e fingiu que eu nunca existi. — Era difícil para Trey falar sobre isso, mas Aquantis, pelo menos ele, precisava saber. — Meu pai ficou muito chateado. Ele não a amava, mas ser deixado sozinho com um bebê… sem ter qualquer ajuda já que eu não tenho avós ou tios. Ele precisou ser muito forte para poder cuidar de mim.
— E você achou que seu pai iria abandonar Kayllon? — Aquantis perguntou com um certo tom de indignação em sua voz. Ele se sentou ao seu lado, tão perto que suas pernas roçavam juntas. — Acho que deveria esperar mais dele.
Trey o olhou com surpresa, mas assentiu.
— Eu sei que tem razão. Eu meio que agi irracionalmente na hora que soube. Vi como Kayllon estava mal no início, sem ninguém para cuidar dele, naquele apartamento tão sozinho… se na época eu soubesse que o outro pai da criança era o meu próprio pai, certamente teríamos uma briga horrível.
Aquantis assentiu.
— É certo que não podemos assumir que ele agirá da forma certa. Mas é a vida dele, ele sabe o que faz. Infelizmente não há como ajudar.
Trey concordou, mesmo que relutante. Ele também não poderia julgar seu pai se eles nem tiveram a chance de conversar direito, expor todos os fatos, ou mesmo descobrir como ele se sentia a respeito da situação.
Aquantis tocou seu rosto e beijou seus lábios lentamente.
— Vamos voltar? — Perguntou.
Não queria voltar. Queria passar a noite ali com Aquantis, fazendo todo o tipo de coisas que amantes faziam, mas sabia que era perigoso. Não confiava nas informações que o sistema tinha lhe dito sobre este planeta, pelo menos não tudo. Ele seguiu Aquantis, sentindo-se mais calmo e seguro agora que estavam juntos.
No meio do caminho eles se beijaram mais e riram. Aquantis era diferente dos outros rapazes que já tinha conhecido em sua vida. Ele era carinhoso, amava beijar, pegar em suas mãos e olhar em seus olhos. Ele não fazia isso apenas porque queria sexo, como a maioria fazia, ele parecia não poder evitar estar perto ou tocá-lo. As vezes ele sorria sem motivo ou dizia coisas como “amo a sua voz” ou “gosto do seu cheiro”.
Trey o puxou para perto antes de chegarem, abraçando-o por quanto tempo fosse possível abraçar, então, mais animado, seguiu para o acampamento. Ele procurou seu pai com o olhar e o encontrou conversando baixinho com Morgana.
Aquantis o puxou para se sentar com ele à beira da fogueira. Jack os viu, mas parecia relutante em se aproximar. Morgana ainda conversava com ele.
Trey pegou algo para comer, alguns espetinhos que estavam mornos. Estava faminto, portanto devorou todos muito rápido.
Pretendia se levantar e chamar seu pai para uma conversa adequada, quando um som de algo se aproximando nos céus os alertou.
Antes que pudesse pensar, uma nave um pouco menor do que a Imperatriz, apareceu sobre suas cabeças. Ela tinha um sistema de camuflagem noturna? Sem os detectores da Imperatriz para ajudá-los, era impossível rastrear qualquer coisa mesmo em um raio de um quilômetro.
Trey empurrou Aquantis para trás dele, adquirindo a arma mais próxima dele, um laser pequeno, mas potente. Poderia fazer bons estragos em seu inimigo.
Ele viu Jack e Morgana se equiparem com as armas disponíveis, e logo Austin e Zack apareceram. Provavelmente Kayllon estava protegido na nave, assim como Dominic.
A nave brilhou acima deles e então se estendeu para o lado oposto da Imperatriz, onde havia menos árvores e vegetação alta. Trey caminhou na frente deles e esperaram para ver quem era o ilustre comandante que viera saudá-los. Se fossem os malditos piratas… mas isso não parecia provável. Se fossem eles, viriam em maior número e não hesitariam em atacá-los. A não ser que talvez estivessem sendo espertos para terem a chance de capturar Aquantis… nunca se sabe.
Uma porta se abriu e uma escada flutuante foi construída em segundos. Cada degrau brilhava no escuro.
A mandíbula de Trey quase caiu aberta quando o comandante da nave Margosha desceu, seguido por um homem de moicano verde e outros três andróides que se pareciam com humanos.
Trey abaixou sua arma, assim como os demais, já que os integrantes da Margosha não estavam apontando nada para eles. Estranhava vê-los em uma nave como aquela ao invés da impetuosa nave-mãe, porém entendia que ela era grande demais para adentrar a atmosfera do planeta, sendo mais fácil se locomover com um veículo menor.
— Comandante Scarlet. É bom vê-lo outra vez e seus tripulantes. — Gavrel se aproximou a passos pesados, ele era mais forte do que Trey e alguns centímetros mais alto, mas não chegando a estatura e o físico de Austin. Tinha os cabelos um pouco selvagens, um tapa-olho e vestia uma capa cor de vinho grossa que descia sobre suas roupas de couro cheirando a enxofre. Ele era quente, com certeza, mas não o tipo de Trey.
— Comandante Margosha. Agradeço por ter vindo. — Já que foram eles quem os contactaram para pedir socorro, porque não podiam fazer isso legalmente.
— Mesmo à noite posso ver o belo estrago. — Ele comentou enquanto observava a Imperatriz. — Spencer me contactou, vejo que realmente precisa da minha ajuda. — Ele tinha um sorriso de lado bastante medonho e se referiu ao sobrenome de Zachary.
Trey cruzou os braços sobre o peito, sério.
— Espero que possamos negociar sua “ajuda”.
Eles se olharam seriamente por algum tempo, quase que desafiando um ao outro para ver quem conseguia ser mais intimidante, quando Zachary se intrometeu.
— Comandante Margosha! — Ele estendeu a mão. — Realmente veio em boa hora, espero que possa nos ajudar! Sou Zachary Spencer, o hacker da nave Imperatriz.
Gavrel apertou sua mão, as próprias mãos dele envolvidas com luvas negras.
— Disse que há um doente.
— Na verdade dois, senhor. — Zack respondeu rapidamente. — Dominic, que é de uma rara espécie de saturniano, foi contaminado por um chip de identificação infectado. E Sully que se feriu na queda da nave, ele precisa de uma restauração de ossos nas duas pernas.
— Há o problema da nave também e… — Continuou Trey. — Não podemos ficar muito mais tempo neste lugar.
— Deixe-me adivinhar, estão sendo caçados? — O cara com o moicano verde debochou. — Isso já nos aconteceu tantas vezes, não é Gav?
Gavrel respirou fundo, mesmo no escuro foi possível ver uma veia saltar em sua testa.
— Cale-se Askell. Eu resolvo isso.
O punk se afastou praguejando.
— O que ele disse é verdade. — Trey suspirou. — Fomos atacados, e de repente nossa nave foi engolida por uma tempestade de eletromagnetismo que surgiu muito de repente.
— Tempestades assim são muito comuns naquela região. Spencer me passou as coordenadas de onde foram atacados e de onde estão agora. Por isso foi possível analisar. — Gavrel olhou para os outros tripulantes da nave Imperatriz. Então pareceu ponderar por um momento. — Vou levar a nave Imperatriz para ser consertada dentro de nossa nave-mãe, tenho mecânicos experientes e capazes de deixá-la como era antes. Vocês terão um lugar para ficar por quanto tempo for preciso e não precisarão se preocupar com perseguições, nossa nave é muito bem protegida. Mas há algo que eu quero em troca.
Trey se preparou para ouvir “quero o garoto Blue”, no entanto, por mais que a oferta fosse tão tentadora, não podia simplesmente arriscar dar Aquantis a ele, quando seu objetivo principal era encontrar Lost Blue para que pudessem viver lá em segurança. Ele e toda a sua família.
E havia um motivo ainda mais forte para não ter que fazer isso: Amava-o com todo o coração.
— Diga.
Gavrel tinha os braços cruzados sobre o peito e olhou novamente para seus tripulantes.
— Em primeiro lugar, considerei levar o garoto Blue de você. — Trey quase rosnou, suas mãos se fechando em punhos apertados. — Mas há duas razões pelas quais não farei isso. Primeiro, em consideração a você, porque não hesitou no momento em que precisou salvar a minha vida, mesmo que eu não estivesse do seu lado. E segundo, porque não quero forçá-lo. Não seria uma boa ideia considerando o que seus poderes podem fazer.
Trey compreendia. Ele não sabia se Gavrel realmente o considerava por ter salvo sua pele uma vez, mas entendia que Aquantis não era brincadeira. Seus poderes destruíram uma parte significativa de Exórdio, e também quase um andar inteiro da Federação dos Planetas. Gavrel não seria um tolo de esperar que acontecesse o mesmo com sua amada nave movida a matéria escura, que nada mais era do que um composto do universo que ainda era desconhecido pelos cientistas.
— Então? — Trey ergueu uma sobrancelha. Aquantis surgiu ao seu lado e pegou sua mão. Gostaria que ele se escondesse e se protegesse em algum lugar, mas a coragem que emanava dele como se fizesse parte de sua personalidade, era visível em sua face.
— Precisa de mim? — Aquantis perguntou semicerrando os olhos para o comandante da nave Margosha.
— Sim, preciso. — Gavrel lhe deu um aceno de reconhecimento. — Quero que trabalhe para mim enquanto Trey e seus homens estiverem em minha nave.
— Trabalhar? — Trey perguntou incrédulo, assim como a máscara de Aquantis caiu por um momento, mas ele voltou a colocá-la.
— Não sei se este é o termo correto. — Gavrel passou uma mão pelos cabelos revoltos. — Conheço alguém que pode ensiná-lo a usar seus poderes. Você aprende a dominá-los e eu aproveito a oportunidade para testá-lo.
— Por que precisa testá-lo? — Trey indagou, mas Aquantis olhou para ele, como se pedisse pelo olhar para ter calma.
— Vou fazer. Espero que me testar não seja me abrir ou fazer experiências horríveis como fizeram comigo na Federação.
— Não. Os testes não serão feitos dessa maneira. — Ele ia se virando para falar algo a seus homens, quando se lembrou. — Uma última coisa. Nós não somos inimigos, não somos os melhores amigos também, mas estamos juntos pelo mesmo propósito.
— Destruir a Federação e sua maldita rainha. — Disse Zack com o cenho franzido.
Gavrel assentiu.
—*-*-
Sully não imaginava que a nave Margosha fosse daquela forma. Ele ainda não a tinha visto.
Tão grande como uma nave-mãe seria, tinha uma grande imagem forjada de aço puro e enferrujado de uma grandiosa caveira com dentes horríveis pontiagudos, como alguma besta do inferno. A nave tinha como suas principais cores o prata e preto.
Viu quando a nave de reboque trouxe a Imperatriz.
Ele ficou assistindo da janela da nave-cápsula que seguia lentamente para a Margosha.
Estava em uma cadeira de rodas, tentando ignorar a dor em seus ossos que não passava. Zack tinha lhe injetado um bom remédio, mas ainda assim não era suficiente. Sua cabeça pendeu para o lado contra a janela enquanto a nave esperava uma das portas automáticas da Margosha se abrir.
Eles flutuaram para dentro e então aterrissaram em uma sala de pressurização, onde podiam respirar normalmente o oxigênio.
Ele olhou para onde Austin estava, se surpreendendo por pegá-lo lhe olhando fixamente. O grandalhão se levantou e foi até ele. Pensou que diria algo, talvez discutisse, porém não, ele simplesmente empurrou sua cadeira e o levou para fora da nave cápsula.
Se por fora da grande nave-mãe já era assustador, por dentro era ainda mais medonho. Era como corredores de um navio pirata muito antigo.
Austin não disse uma palavra, assim como Sully preferiu o silêncio. Gavrel acompanhou todos eles até um elevador, então para mais um corredor, bem mais composto com portas de metal e alavancas.
— Desculpe perguntar, mas não há uma enfermaria ou algo assim? — Indagou Zachary ao anfitrião.
— Sim, existe, mas o nosso médico pode tratá-los em seus quartos. Ele tem uma equipe pronta para isso. E todos os nossos aparelhos são móveis. Não se deixem enganar pela aparência desta nave, ela é muito antiga e valiosa, mas nosso sistema é da melhor tecnologia.
Zachary assobiou.
— Há apenas cinco quartos disponíveis neste corredor, vocês terão que dividi-los. Eles são confortáveis se querem saber. Podem usá-los pelo tempo que for preciso. — Gavrel era muito estranho com aquele tapa-olho. — Agora se me dão licença. — Ele saiu sem mais cerimônias.
Sully olhou para os demais, então Trey começou a ditar:
— Aquantis fica comigo, vocês escolham os quartos que querem dividir. Um vai ter a sorte de ter um quarto só para si. — Ele sorriu e então escolheu o quarto mais próximo, entrando com o Blue.
Sully queria estender os braços e dizer que não. Ele ainda precisava falar com Aquantis, lhe contar a verdade sobre ele e sobre suas origens, mas a coragem não era sua amiga. Para falar a verdade, a coragem não era o sentimento que ele estava com dificuldades de desenvolver, mas estava com medo de que a reação do Blue fosse tão pior quanto a reação de Austin ao descobrir sobre o relacionamento de seu pai com o general Jack Scarlet.
Sully suspirou e então teve um impulso. Ele sabia exatamente o que queria fazer agora.
— Austin?
— Sim? — Austin estava prestes a chamar seu pai, pelo que parecia.
— Você vai dividir o quarto comigo. — Sully decretou. — Entendeu?
Austin o olhou atordoado, olhos piscando mais de uma vez.
— Desculpe?
— É o que ouviu. Você e eu no mesmo quarto, agora. — Ele apontou para a porta ao lado do quarto de seu irmão.
— Po-Por que isso?
— Você não quer me pagar pelo que fez? Não deseja se desculpar? — Sully virou a cadeira, enfrentando-o. Austin assentiu, ainda com seu semblante idiota. — Precisamos ter uma bela conversa e vamos tê-la agora.
Continua...
Fale com o autor