Lost
6 5.

Os raios ainda cortavam o céu, Sansa sabia disso pela claridade com que a sua tenda era banhada boa parte da noite. O sol nasceria dali a algumas horas, e ela se perguntava se teriam que seguir viagem debaixo de chuva. Não que para ela isso fosse algo muito ruim – pois viajava em uma liteira –, mas sabia que a chuva sempre atrasava o passo dos cavalos e dos homens, e queria chegar rápido a Winterfell.
Na verdade, estava ansiosa por mais sol. Sabia que não o veria tão cedo, quando finalmente se instalasse no norte. Mesmo que o inverno ainda não tivesse chegado, o frio que banhava o castelo principal era frequente, e o sol cada dia mais raro.
O sono finalmente começava a aparecer em seu corpo, tomando sua mente e deixando-a naquele plano estranho, onde você está parcialmente inconsciente, mas ainda consegue escutar tudo ao seu redor. Ouviu facilmente o trovão ao longe, bem como os passos em sua barraca.
Sansa abriu os olhos no mesmo momento, seu coração batendo fortemente dentro do peito. Era a segunda vez que alguém invadia a sua tenda naquela noite. A primeira fora o rei, o qual dissera que a sua segurança era responsabilidade dele. Mas quem era naquele momento? Na certa não seria ele... O rei tinha muitas obrigações, e vários problemas a resolver...
Ela sentou-se na cama, seus olhos azuis correndo astutamente pelo local. Não conseguia ver nada, nem mesmo uma sombra. Seu braço se esticou e ela pegou um pequeno suporte de vela que estava ao lado da cama, pronta para arremessá-lo contra a pessoa, caso ela aparecesse ou se aproximasse.
E esta pessoa não só apareceu, como se aproximou, mas Sansa não teve tempo para reagir. Logo seu corpo foi lançado para a cama novamente, a pessoa deitando-se sobre ela, no mesmo momento em que o suporte era retirado brutalmente de sua mão. Tentou gritar, mas seus lábios foram cobertos por lábios finos. Lábios macios. Lábios que ela reconhecera perfeitamente, pois não conseguira tirar o toque deles da mente desde que ele saíra da tenda, horas atrás.
Ela amoleceu o corpo no mesmo segundo, sentindo os lábios pressionando os seus, abrindo para reiniciar o beijo que parara no momento mais delicioso. O incômodo entre suas pernas voltou, mas foi minimamente saciado quando ele pressionou ainda mais o corpo forte ao dela, e Sansa sentiu a excitação dele contra si. Estremeceu, não acreditando naquilo. Os lábios dele deixaram sua boca para correrem pelo pescoço alvo, sugando cada pedaço de pele que conseguia. Ela aproveitou-se disso para perguntar.
— O que você está fazendo aqui...? – Ela tentava ignorar os toques dele. — Você não pode...
— Eu não consegui tirar você da cabeça depois do que aconteceu... – Ele voltou a sugar o pescoço dela. — E sim, eu posso, Lady Sansa. – Mordiscou-a levemente.
Sansa não conseguia pará-lo e, mesmo se conseguisse, pararia? Ela estava apreciando demais os toques ousados dele, bem como seus lábios, que desciam por seu pescoço, agora rumando para o colo desnudo da garota. Estava apreciando também como ele subia discretamente, mas de forma determinada, sua camisola. Porém, não percebeu quando ele espaçou suas pernas e encaixou-se ali, como se pertencesse àquele lugar.
Mas percebeu facilmente a ausência de algo que a visitava sempre nos últimos anos: medo. Sansa não sentiu medo, nem por um segundo pensou que se aquele homem quisesse fazer algo com ela, faria, e ela teria que aguentar de forma calada e submissa. Ela confiava nele, o que era uma atitude no mínimo idiota de tomar, mas algo naquele homem lhe passava uma sensação de proteção, e Sansa sabia que o motivo não era por ele carregar a coroa. Já fora ameaçada por diversos reis de diversas casas.
— Mas... Não podemos fazer isso agora... – Tentou distrai-lo, sem causar irritação. — Eu ainda não aceitei o seu pedido de casamento, e... – Ele sugou novamente o pescoço dela, fazendo-a gemer. — Você não quer casar-se com uma mulher já tocada, não?
Aquela pergunta fez com que ele parasse. Loki fitou-a com atenção, seus olhos azuis em fogo. O moreno franziu levemente o cenho e Sansa permitiu-se sentir medo naquele momento. Não sabia do peso de suas palavras, mas aquilo que dissera poderia ter sido o principal motivo para ele tomá-la ali mesmo, à força, e depois dispensá-la, retirando o convite.
O sorriso provocante que Loki lhe dera fez com que um nó se formasse em sua cabeça.
— Sansa, querida... – Os dedos dele tocaram levemente o colo desnudo dela. — Deixe de ser pessimista... Irei tomá-la, sim. Mas nunca a tomaria à força... – Ele parecia ter lido seus pensamentos. — Farei com você se regozije com sua decisão... E você ainda se casará comigo... – Mordiscou um de seus seios. — E na nossa primeira noite, ainda se lembrará do motivo de ter se casado...
Ele tomou a boca dela novamente, reiniciando o beijo interrompido por palavras vazias. Sansa fechou os olhos, rezando mentalmente para que os deuses abdicassem o pecado que cometeria naquele momento. Mas não tinha como negar, nunca teria...
Não com as mãos fortes dele correndo pelo corpo dela, subindo a camisola que usava. Não com os olhos azuis carregados de malícia olhando-a como se fosse um cálice de vinho depois de um dia cansativo. Não com o modo como ele retirava sua própria roupa, se desfazendo do gibão escuro e das peças mais íntimas.
O rosto de Sansa pegou fogo, mas ela não conseguia pará-lo, parte porque estava fascinada pelo modo como aquele homem conduzira seu corpo até deixá-lo em fogo, parte porque não queria contrariá-lo. Não ousou parar as mãos esguias, como também não ousou afastar seu corpo quando Loki a cobriu com o torso nu. E simplesmente não disse nada quando ele espaçou as pernas dela, pressionando o seu membro excitado no centro de Sansa, olhando-a para pedir permissão.
— Isso vai doer... – ele avisou-a.
— Eu... Eu sei. Deve doer... Eu acho. – Ela não sabia como dizer.
— Farei com que seja rápido.
Com um empurrão no quadril, Loki a penetrou, e Sansa achou que seu corpo estava se partindo ao meio, tamanha dor que sentira. Ela fechou os olhos, gemendo de agonia. Mas ao tornar a abri-los, o que descobriu foi nada.
Nada. Não havia nada.
A dor sumira como se nunca tivesse existido, e pelo modo como Sansa se encontrou, ela realmente nem havia começado. A sua tenda era banhada por uma luz diferente da dos trovões. A luz do dia a encarava, brincando com sua mente, dizendo a ela que tudo não passara de um sonho. Não havia desejo, nem pecado, e principalmente, não havia Loki.
A única coisa que restara fora a excitação ardente entre suas pernas, tão forte que chegava a incomodá-la. Sansa sentiu uma necessidade absurda de chorar, sentiu-se incomodada com tamanha vontade de tê-lo ali, como o sonho mostrara. Tão perto dela e tão... Possessivo. Mas ao mesmo tempo a vergonha e a humilhação tomavam a sua mente, deixando-a em um estado de torpor aflitivo.
Como uma donzela como ela conseguira ter um sonho como aquele? Sansa sempre sonhara com beijos doces e lábios macios, mas nunca em um nível sexual igual ao beijo que havia compartilhado com ele. Teria sido esse o motivo de sua mente ter brincado consigo, a ponto de fazê-la desejar algo que ainda não tinha acontecido?
Não importava o motivo, mas precisava sair da tenda. Escutava levemente os cavaleiros se mexerem, alguns ainda pareciam estar dormindo. Sansa sentia-se cansada, e percebera isso facilmente ao levantar-se da sua cama. Vestiu-se vagarosamente, sentindo seu corpo sensível ao toque, tentando esquecer o sonho, sabendo que precisava fazê-lo para que seu dia se tornasse ao menos suportável.
Deixou os cabelos soltos, já que não havia amas ali para trançá-los. Achou que sofreria ao sentir falta das mãos de outras mulheres vestindo-a e deixando tudo mais fácil. Mas estava apreciando a solidão de ter um quarto só para si, de ter seus pensamentos livres, sem serem cortados por fofoqueiras. Ela calçou suas botas e foi em direção à entrada da tenda.
Assustou-se de imediato quando um homem veio em sua direção rapidamente, carregando uma bandeja enorme nas mãos fortes. Sansa esperou-o se aproximar.
— Lady Sansa... – Ele fez uma pequena reverência. — O rei pediu para que eu colocasse a bandeja em sua tenda no momento em que acordasse. E pediu para que eu transmitisse suas reais desculpas, pois não poderá acompanhá-la no desjejum.
Sansa assentiu, dando espaço para que ele entrasse. O cavaleiro depositou a bandeja em uma mesa de madeira dobrável que havia ali, olhando-a logo em seguida.
— Peço desculpas, mas não podemos oferecer um desjejum adequado para alguém como você...
— Está perfeito.
Sansa sorriu, fazendo com que o homem ficasse menos aflito. Ele se retirou da tenda logo em seguida, deixando-a sozinha. Ela respirou fundo. Solidão. Algo que precisava depois da noite que havia tido.
Sentia quase uma obrigação em retirar aquele sonho da mente.
[...]
O acampamento estava quase desmontado. A liteira de Sansa já estava por lá, com os cavalos esperando a garota entrar para iniciar a viagem. Ela parou ali perto, tocando com certa relutância e medo o focinho de um deles. O cavalo resfolegou, mas seus olhos pareciam agradecer o carinho. Sansa sorriu, mas logo seus olhos azuis rumaram pela fileira grande de cavaleiros que estava se formando ali.
Ela não queria admitir a si mesma, mas procurava a todo custo uma presença que não vira desde a noite anterior. Mas sabia que ele nunca estaria ali. O rei não era o tipo de pessoa que era procurada. Sua presença era forte, notada no mesmo momento, se ele estivesse presente.
Desistiu de encontrá-lo, sabendo que o mais provável seria vê-lo apenas quando chegassem ao norte. Afinal, o rei era ocupado e já a visitara em sua tenda na noite anterior, seria praticamente impossível uma segunda visita.
Embora Sansa temesse que ele continuasse a visitá-la nos sonhos.
Imagens borradas e rápidas do sonho que tivera passaram por sua mente sem que conseguisse barrá-las, mas logo alguém a chamou, e Sansa percebeu um homem pedindo gentilmente para que ela entrasse na liteira, que já começariam a caminhar. Aquilo fez com que ela praticamente fosse obrigada a sair de seus pensamentos e rumasse para o local, entrando na liteira. Depois de algum tempo, ela sentiu um pequeno solavanco, e estavam andando.
Os cascos dos cavalos faziam seu barulho costumeiro ao encontrar a terra molhada pela noite anterior, o vento batia levemente em seu rosto, pois fizeram questão de deixar as cortinas abertas, para que um pouco de sol da manhã entrasse e encontrasse sua pele. Conversas baixas e animadas eram trocadas pelos cavaleiros, que marchavam ao lado da liteira. Sansa percebera que o exército de Loki não parecia tão temeroso com o que provavelmente encontraria pela frente. Seus companheiros fizeram o belíssimo trabalho de limpar a área, para que eles rumassem para o norte em paz.
Ela se aquietou, observando o céu azul acima de si. A proposta de uma noite estrelada a deixava animada. Não que não gostasse de chuva, mas preferia ter um teto de pedras sobre sua cabeça – e não uma tenda – quando isso acontecia. Sansa estava tão imersa em pensamentos, que não percebeu que um cavaleiro havia se afastado da liteira, dando espaço para outro.
— Apreciando a estrada, Lady Sansa?
A voz era conhecida demais para que ela não notasse. Sansa saiu de seu estado pensativo no mesmo momento e olhou surpresa para o lado. O garanhão negro do rei estava perto da liteira, trotando suavemente e acompanhando o passo dos cavalos que puxavam o pequeno carro.
Ela observou-o rapidamente. Usava aquela roupa estranha de couro que ele costumava usar quando aparecia em público. Mas o que lhe chamou mais a atenção foi o elmo. Havia chifres na peça, que faziam um arco suave e imitavam os de algum animal, um que lhe lembrava do que ilustrava a casa Baratheon. Sansa nunca vira Loki com aquele artefato, e por mais estranho que parecesse à primeira vista, achou que aquilo combinara perfeitamente com ele. O rei não usava o cinto costumeiro, que carregava a espada. Na verdade, não usava armas visíveis.
Quem ia criar coragem para tentar machucar ou atacar um feiticeiro?
— Vossa Graça... – Ela saiu de seu fascínio momentâneo. — Não o vi se aproximar.
Loki sorriu de forma jocosa e desviou os olhos azuis para a estrada à sua frente, observando-a com cuidado.
— A marcha irá diminuir um pouco. Provavelmente descansaremos mais cedo hoje... – ele disse em um sussurro. — A estrada está em condições péssimas por causa da chuva, mas meus homens estão trabalhando nisso.
— Há forasteiros nas estradas? – ela perguntou, sentindo-se preocupada.
— Provavelmente, mas não há forasteiros o suficiente para nos incomodar. De qualquer maneira, nossa maior preocupação é o número de árvores que caiu pela estrada...
Ela tentava ver algo além, mas não conseguia enxergar nada. O vento estava forte, por causa da chuva da noite anterior, e queimava seus olhos. Loki percebeu isso.
— Sugiro que descanse, Lady Sansa. Quero-a na minha tenda ao crepúsculo.
Aquilo a pegou desprevenida. Encontrá-lo em sua tenda particular? Sansa sentiu um frio estranho na barriga. Umedeceu os lábios antes de responder.
— Estarei lá, Vossa Graça.
Loki sorriu. O nervosismo da garota era quase palpável, mas ele decidiu não colocar isso em voz alta.
— Farei uma proposta a você quando chegar. – Ele piscou para ela. — Espero que goste.
Com um leve aceno, ele cutucou o cavalo com as botas negras, trotando de forma mais rápida, rumo ao começo da fileira de cavaleiros. A ansiedade de Sansa aumentou gradativamente ao ouvir a última frase do rei. Que tipo de proposta ele faria a ela? Pior – como Sansa conseguiria permanecer no mesmo local que ele, a sós, depois do sonho que tivera?
Sem conseguir se conter, imagens do sonho acabaram tomando novamente seus pensamentos. Ela fechou os olhos, encostando sua cabeça em uma almofada que estava ali perto, tentando esvaziar a mente.
Tarefa quase impossível.
[...]
Loki se instalara em sua tenda, não acreditando de fato que haviam parado novamente em menos de dois dias. Ele sabia que a marcha para o norte demoraria, mas se a cada pequena distância um obstáculo surgisse, a viagem duraria o dobro.
E ainda tinha Sansa. A liteira atrasava tudo. Não que ele reclamasse da presença dela, afinal, precisava da garota para apoiá-lo no momento oportuno, quando ele ocupasse o trono de Winterfell. Adorava sua companhia, pois ela era tão inocente, que o divertia. Também gostava do modo como ela encarava tudo com receio, Loki tinha a impressão de que Sansa era um bicho em uma jaula, pronto para ser solto e alcançar a tão sonhada liberdade.
E ele estava disposto a dar tal liberdade a ela.
Mas para isso, precisaria mexer com a essência da garota. Não que ele não gostasse disso também. Escolheu-a justamente por sua inocência e pelo modo puro como via tudo. Precisava de uma esposa inteligente e submissa. Sansa era os dois, mas sua inteligência estava presa com grades de ferro, e ele precisaria retirar tais grades. Precisaria se abdicar de um pouco da doçura dela...
Mas para fazer isso, precisaria conversar com a garota antes. Esperaria até o crepúsculo. E faria a proposta.
[...]
Sansa entrou na tenda de Loki horas depois, os olhos buscando o rei e, com um pouco de medo, o lobo dele, que não parecia estar por perto. Provavelmente Loki o soltara para caçar? Estava escuro e ela estava atrasada. O sol já havia se escondido há algum tempo, mas demorara a encontrar a tenda dele. Não queria pedir a alguém uma informação, temendo que maus comentários surgissem entre os cavaleiros. Sentiu seu rosto arder com o pensamento.
Deixou o pedaço de pele cair para o lado, tampando a entrada da tenda. Ela percebeu que o local onde Loki passava suas horas de descanso era um pouco afastado dos lugares onde os cavaleiros estavam, mas não imaginava o motivo. Talvez privacidade? De qualquer maneira, aquilo era atípico, um rei sempre estava bem seguro entre várias tendas e vários cavaleiros em sua porta. Mas Loki era um rei completamente diferente dos que ela já havia visto.
— Boa noite, Lady Sansa.
A voz arrastada chegou aos ouvidos dela, o timbre único fazendo-a se arrepiar. Procurou-o pelo local, e percebeu pela primeira vez que ele estava em pé de costas para ela, perguntou-se como ele sabia que era ela que estava ali.
— Estou esperando por você. Ninguém do meu exército está autorizado a entrar na minha tenda sem permissão. – ele falou como se estivesse lendo os pensamentos dela. Sansa sentiu-se inquieta.
— Desculpe-me, Vossa Graça. A abertura da tenda estava visível e...
— Eu deixei-a aberta para você. – Ele se virou. — Mas agora que estamos a sós, creio que ela ficará fechada por um tempo significante.
Ele deu aquele sorriso estranho, como se tal gesto estivesse escondendo segredos. Sansa sentiu que ele lhe dirigia um sorriso de escárnio, mas ao mesmo tempo sedutor. Aquilo a confundia.
Loki observava a garota imersa em pensamentos. Ao dizer como soubera que fora ela a entrar na tenda, havia omitido que sentira o perfume da garota no momento em que ela passara pela abertura da lona, o vento fez o restante do trabalho, levando o aroma diretamente a ele, que captou o cheiro facilmente com o olfato poderoso.
Ele gesticulou para que ela se sentasse. Sansa caminhou até a cadeira e se sentou, percebendo que era a mesma em que havia se sentado quando estivera ali. Mas em vez do cavaleiro da guarda real que estivera presente, dizendo-lhe motivos para se casar com o rei, era o homem moreno de olhos azuis profundos que estava sentado agora, olhando-a como se ela fosse um pedaço estranho de um quebra cabeça sem sentido.
— Sabe por que lhe chamei aqui, Sansa?
Ela não deixou de notar a intimidade como ele a tratava.
— Disse-me que tinha uma proposta a fazer.
Ele gesticulou afirmativamente, abrindo uma gaveta da grande mesa onde estavam, tirando dali uma adaga prateada. A arma era bonita. Seu cabo, mesmo curto, era bem desenhado e possuía pedras negras incrustadas em diversos níveis. Sansa ficou fascinada pelo artefato, mas antes que pudesse dizer algo sobre isso, viu o braço de Loki descendo, a ponta da adaga enfiou-se em um pedaço do manto fino que ela usava por cima do vestido, um mínimo tecido que ficara por cima da mesa, quando havia se sentado. Assustou-se, puxando o braço para trás, mas a adaga havia transpassado o tecido e enfiado fortemente na madeira dura da mesa.
Ela o olhou de forma insegura, não entendendo o que ele queria com aquilo. Sentia seu corpo estremecer, tal como sempre estremecia quando ela era vítima de violência. Se o rei estava brincando com ela, aquilo era uma brincadeira de extremo bom gosto.
— Vossa Graça... – ela balbuciou, mas Loki tratou de interrompê-la antes mesmo de ela continuar o que queria falar.
— Sabe por que se sente tão ameaçada quando vê uma arma à sua frente, Sansa? Porque cresceu achando que mulheres servem apenas para vestir vestidos bonitos e enfeitar salões de festas.
O rei retirou a adaga com apenas um puxão, libertando o braço de Sansa, que o recolheu sem pestanejar, ainda não entendendo de fato o que ele queria.
— Sinto-me ameaçada por armas porque sei o poder de tirar uma vida que elas possuem. – ela falou, mesmo sabendo que ele não pedira uma resposta por sua parte. — Cresci vendo meus irmãos treinando com todo tipo de arma que existe nesse mundo... E não gosto do que elas fazem.
Loki finalmente via naquele momento algo que ele buscava na garota desde que a conhecera e começara a provocá-la. As orbes azuis brilhavam por causa da ousadia, como se os olhos dela estivessem lhe deixando a mensagem clara para que ele se afastasse ou não ousasse dizer mais nada sobre aquilo. Mas é claro que ele ousaria provocá-la. Aquele era um dos motivos de tê-la chamado ali.
— Você não precisa gostar do que armas fazem... – ele começou a proposta. — Mas se você será minha esposa, e digo isso na esperança de que você aceite meu convite até o final dessa jornada, precisará saber manejar alguma.
Sansa demorou a entender a proposta que Loki estava lhe fazendo. Manejar uma arma? Como ela faria isso? Nunca pegara em uma faca mais afiada, muito menos em uma espada.
— Sei o que está pensando. – o rei interrompeu os pensamentos dela. — Você foi criada para ser dada praticamente de presente para um homem que seria considerado um bom casamento. – Ele se levantou, dando a volta na mesa e indo em direção a ela. — Mas vejo em você uma pequena vontade de vingar-se de todos que fizeram mal à sua família... – Ele se agachou, ficando de frente para ela, próximo. — Esse pode ser um começo.
— Você vingará minha família. – Ela virou-se para ele sem conseguir se conter, ficando de frente para o rei. — Você me prometeu isso...
De repente se sentiu insegura. Loki estava querendo se esquivar de suas promessas? O rei parecia lê-la com os olhos, pois no momento em que Sansa pensara sobre isso, as mãos dele pousaram com delicadeza sobre seus joelhos, um gesto muito íntimo, mas que passava mais calma que insulto aos olhos dela.
— Sansa, vingarei sua família na primeira oportunidade. Só não consigo idealizá-la como a garota indefesa que você está vivendo nesse momento. – Ele apertou levemente o joelho dela. — Você não conseguiria fugir dez metros em uma emboscada, ou se desfazer de braços fortes de algum inimigo, se alguém tentasse agarrá-la.
Aquilo a fez estremecer, e Loki percebeu isso facilmente.
— Se desejar, você será a garota mais bela a manejar uma espada corretamente. – Ele lhe fez a proposta. — Cuidarei pessoalmente para que isso aconteça. Se aceitar minha proposta, passará as noites comigo para que eu lhe ensine a arte da luta.
Sansa ponderou se era viável. Loki faria escárnio dela ao perceber que sua habilidade com espadas era nula. Mas seria algo interessante, saber se defender. Se soubesse mexer em uma adaga parecida com a que ele havia prendido seu vestido, teria enfiado a arma nos olhos de Joffrey em um minuto. Aquele pensamento fez um pequeno calor nascer nela. Conteve o sorriso ao imaginar a cena daquele garoto loiro e mimado urrando de dor.
— Seria interessante. – ela finalmente concordou.
Loki deu um sorriso mínimo.
— Começamos amanhã na parte da noite. Provavelmente, iremos parar toda noite para os cavalos descansarem e retirar árvores do caminho por causa da chuva. – Ele voltou a apertar os joelhos dela. — Até lá faremos coisas úteis.
Ela assentiu, pensando se seria prudente se levantar ou se teria que ficar ali. O rei não havia a dispensado. Depois de algum tempo, percebeu que ele ainda a fitava, e sentiu-se inquieta com isso. De repente ele deu um sorriso mínimo, mas ela conseguiu captar a malícia por trás daquele gesto facilmente.
— Você será perfeita. Bela como uma flor em uma manhã de primavera, e forte como o aço achado nas profundezas de lugares inóspitos. – Ele percebeu-a corar. — Devo dizer que será difícil, controlar-me com tamanha beleza diante de mim... Todas as noites.
As mãos dele subiram levemente pelas coxas dela, fazendo-a estremecer minimamente. Loki aproximou-se, falando tão perto que Sansa sentia a respiração dele bater em seu rosto.
— Podemos achar vários motivos para que fique um pouco aqui depois das aulas... – Ele fez o convite sem deixá-la se sentir como uma prostituta daqueles prostíbulos de Mindinho. — Creio que continuarei tentando fazê-la aceitar meu convite... Sabe que meu modo de cortejar uma mulher é bem diferente dos modos desse mundo...
Daquele mundo. Sim, Sansa sabia que ele não era daquele mundo, mesmo que aquilo contrariasse todas as suas crenças e derrubasse todas as ideias racionais que um dia sua vida fora preenchida. Mas algo dentro dela lhe dizia que ele não era daquele mundo, um homem daquele nunca poderia pertencer àquele lugar. Ela fechou os olhos automaticamente, sentindo uma leve ânsia e vontade de beijá-lo. Loki parecia ter adivinhado o pensamento dela, pois logo quando ela fechara os olhos, os lábios dele estavam sobre os seus.
Lábios finos e frios, perfeitos para ela. Daquela vez, Sansa sabia o que fazer – ela abriu a boca para deixá-lo encontrá-la. As mãos longas subiram para as coxas dela, apertando-as sem pedir permissão, no mesmo momento em que a língua dele massageava a dela, os dentes roçando levemente no lábio inferior e mordiscando ali, quando ele se afastara. Sansa estava sem fôlego, e ele se afastou, permitindo-a respirar melhor. Ela ficou parada ali por um tempo, tentando entender o poder que aquele homem tinha sobre si e sobre seus atos, mas não achou a resposta.
Desistindo, Sansa levantou-se, olhando-o com certa vergonha e perguntando-se internamente se teria outro sonho com o rei. Loki fez uma pequena reverência, mas logo se aproximou e pegou uma mecha do cabelo dela, colocando-a para trás do ombro de pele pálida.
— Vejo você amanhã? – ele perguntou.
Sansa respirou fundo e assentiu, saindo da tenda logo em seguida. Ao ver a pele voltar a fechar a abertura, caminhou pela grama do local, com uma pergunta inundando sua mente assim que seu corpo voltou à sua normalidade.
Teria noites a sós com o rei, o que aconteceria dentro daquela tenda além das aulas de luta que ele proporcionaria a ela?
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