Lost
4 3.

Duas horas depois o vinho forte já começava a fazer efeito na garota. Loki podia perceber com facilidade suas bochechas mais coradas, bem como o modo de conversar um pouco mais solto, mas nunca totalmente à vontade. Sansa era o tipo de pessoa que media palavras até quando estava sob o efeito de álcool, mas Loki agradecia esse fato nela.
Conhecera bem a garota naquele momento. Ela falara bastante de sua infância, de seus irmãos e da Casa Stark. Winterfell e o norte faziam parte daquela garota como a magia fazia parte dele. Mas não queria deixá-la completamente embriagada, ele queria apenas que ela relaxasse o suficiente para que conseguissem conversar normalmente. E isso havia acontecido.
Loki sorriu levemente, observando-a colocar a taça na mesa e juntar as mãos em frente ao corpo. Seus olhos azuis desviaram-se dos dele rapidamente, como se ela estivesse cometendo um crime.
— Acho que bebi demais, Vossa Graça. – Não se esquecia do tratamento adequado mesmo sob o efeito do álcool. — Minha cabeça dói um pouco.
— É normal quando não se está acostumada com o vinho. Principalmente esse. Devo dizer que escolhi o vinho mais forte, pois o aprecio assim. – Ele levantou-se da cadeira onde estava e caminhou em direção a ela. — Diga-me, Lady Sansa, o que aprecia como sobremesa?
Ela sorriu amavelmente, não se importando muito quando ele puxou uma cadeira ao lado dela e sentou-se ali, olhando-a com atenção.
— Eu adoro bolinhos de limão.
Ela desviou os olhos dos dele por um tempo, mas logo depois voltou a olhá-lo, atenta. Não era o tipo de pessoa que conseguia sustentar um olhar e, por algum motivo, aquilo era ainda mais difícil com o rei. Ele possuía olhos claros, mas o brilho que habitava as orbes tinha algo de incomum, algo que Sansa ainda não havia descoberto. Aquilo chamava sua atenção, atraindo-a de um modo que, mesmo que tentasse desviar do olhar dele, pegava-se o olhando diretamente logo depois.
Loki ergueu o braço e pegou uma bandeja prateada que estava ali, retirando dela algumas taças que não foram usadas. Sansa observava tudo com atenção, não entendendo direito o que ele pretendia. Ele passou a mão na bandeja como se estivesse limpando-a, e logo quando a retirou dali, pequenos bolinhos de limão a preenchiam. Sansa ofegou, colocando a mão na boca sem conseguir se conter.
— Co-como fez isso?
Loki sorriu sem responder. Colocou a bandeja na mesa, gesticulando para que ela se servisse. Com um pouco de receio, Sansa pegou um dos bolinhos, mordiscando-o de leve. Fechou os olhos quando experimentou o gosto da sua sobremesa preferida, lambendo os lábios no processo. Loki focou seus olhos azuis na boca da garota, tentando desviar o olhar, mas não conseguia. Sansa tinha lábios bonitos. Na verdade, aquela garota era inteiramente bonita.
Aquele pensamento o fez lembrar-se do propósito de convidá-la para aquele jantar.
— Sansa... – ele a chamou, conseguindo a atenção dela. — Sabe como conquistei esse lugar, não sabe?
Ele esperava que a resposta dela fosse positiva, pois nem mesmo o mais tolo dos humanos não saberia aquilo. Como o esperado, ela assentiu afirmativamente com a cabeça, mas pareceu culpada logo quando o fez, desviando os olhos dos dele e fitando a bandeja de bolinhos.
— Sim, Vossa Graça. Sei que conquistou o Trono de Ferro com recursos próprios... – Ela parecia refletir. — Há rumores de que usou magia.
— Você tem algum problema com magia, Lady Sansa? – ele perguntou diretamente, cansando-se um pouco da sutileza. — De onde acha que veio os bolinhos?
Sansa parecia segurar a respiração para pensar no que dia ia dizer. Loki observava a garota franzir o cenho, mas de alguma forma, ela permaneceu ali, quieta, como se estivesse refletindo sobre tudo. E estava. Sansa pensava no modo como Loki usava a magia. Era uma arma perigosa, até mesmo proibida e vista por muitos com aversão. Contudo, a magia era diferente de uma espada de aço valiriano nas mãos de um cavaleiro com intenções ruins? A magia era diferente da coroa na cabeça de um rei como Joffrey?
Ela remexeu-se na cadeira.
— Acho que a magia, usada de forma correta e sábia, pode ser uma poderosa arma. – Olhou-o nos olhos, vendo um brilho que parecia... Satisfação. — Acredito que não teria problemas com magia, se ela viesse de suas mãos, Vossa Graça.
Perfeita. Ela era perfeita para ele. Submissa, contida, bela, de família nobre e com a mente esperta na medida correta. Loki sorriu de forma verdadeira, colocando a mão por cima da dela. Sentiu a pele sedosa que ela possuía, bem como a mão levemente trêmula.
— Sansa... – ele começou, chamando-a informalmente. — Convidei-a para esse jantar com um intuito, baseado em muitos pensamentos dedicados a esse assunto e muitas perguntas internas sobre tudo. – Sansa olhava para ele com certa expectativa, mesmo não tendo ideia do que ele pretendia fazer. — Eu realmente queria que você recuperasse o que é seu. Sei como é ser expulso da própria casa, como é perder a referência do lugar onde chamamos de lar...
— Vai me ajudar a recuperar Winterfell? – ela o interrompeu, e percebendo o que havia feito, abaixou o rosto. — Desculpe-me.
— Não se desculpe, Sansa. – ele sorriu. — Vou ajudá-la a recuperar o que é seu. Mas para isso preciso de sua ajuda também. Preciso que você facilite tudo para mim.
— Como posso fazer isso? Não tenho mais influência sobre o norte
— Para fazer isso, basta que aceite se casar comigo.
O pedido pegou-a completamente desprevenida. Sansa abriu a boca para dizer algo, mas fechou-a novamente, por falta de palavras. Ela permaneceu o olhando de forma abobada, tentando entender se ele realmente a pedira em casamento daquela maneira. Ele podia fazer aquilo? Provavelmente sim, Sansa não tinha mais família nem guardiões para que ele fizesse o pedido, e ele era nada menos que o rei, alguém que podia fazer o que quisesse, na visão de todos em Westeros.
Então, se o pedido fora feito diretamente, Sansa tinha o direito de negar? Ainda precisava pensar sobre tudo aquilo. Na certa a pedira em casamento apenas para comandar o norte, mas ele não poderia fazer aquilo mesmo sem ela como esposa ao lado?
Loki pareceu ler os pensamentos dela.
— Vejo que a peguei desprevenida. – ele disse. — Diga-me o que pensa, está muito quieta.
— Desculpe-me, Vossa Graça. Seu pedido é uma honra. Mas... Se quiser tomar o norte para si, eu sou a arma mais fraca que você poderia escolher. – O rosto dela corou. — Não tenho a força e a influência necessária para isso.
Loki ficou quieto por alguns segundos, tentando entender como alguém conseguia ser tão insegura em relação a si quanto aquela garota. Ele teria que trabalhar aquilo. Uma mulher que seria a rainha do norte, e sua esposa, não poderia ser assim.
As mãos deles ainda estavam juntas. Loki massageou levemente a palma da mão dela com os seus dedos. Um contato íntimo demais para duas pessoas que se conheciam há pouco tempo. Mas, de uma forma inteiramente proibida e estranha, Sansa gostou daquele contato, e percebeu sua pele arrepiar-se apenas com aquilo.
— Sansa, permita-me deixar algo bem claro aqui. Eu não pedi a sua mão apenas para usá-la como arma, caso eu queira. Disse que isso me ajudaria a chegar ao meu objetivo. Vou conquistar o norte, caso você se case comigo ou não. Caso as pessoas queiram ou não. Sou o tipo de pessoa que toma o que quer.
Ele sentiu-a estremecer ante as palavras dele, mas não deu espaço para que ela balbuciasse algo sem sentido, apenas continuou falando, sentindo uma necessidade anormal de colocar suas intenções e pensamentos em voz alta, deixando-os claro para a garota.
— Mas esse tipo de conduta tem um limite. Não vou tomá-la como esposa à força. Quero que você aceite de boa vontade o meu convite, me dando a liberdade de cortejá-la... Ao meu modo.
Sansa não queria nem mesmo pensar no modo como ele cortejava as mulheres. Loki era um enigma. Ela não sabia qual era sua origem, então não sabia sua cultura e seus costumes. Mas nada daquilo era realmente importante no momento, o que estava deixando-a inteiramente inquieta e incomodada, era o fato que não conseguia pensar em mais nada quando sentia o toque dos dedos dele sobre a palma de sua mão. Ela engoliu em seco.
— Terei tempo para pensar em seu pedido? – Ela corou.
Loki assentiu, pensando seriamente que aquele lugar não era Asgard. Em Asgard, qualquer mulher aceitaria seu convite por ele ser parte da corte. Ali, ele era rei, e poderia escolher qualquer mulher de Westeros. Mas infelizmente havia algo em Sansa que o atraía de forma incomum.
— Podemos partir para o norte essa semana. Mandarei uma parcela do exército à frente para se certificar de que o caminho estará livre e seguro quando você estiver por ele. Terá todo o tempo da viagem para pensar.
Ela assentiu, sentindo-o pegar a sua mão e levá-la até os lábios.
— Enquanto isso... – Ele beijou-a docemente ali, mas Sansa percebeu certa malícia no toque dos lábios dele. — A cortejarei como uma princesa merece.
[...]
Duas horas haviam se passado desde que Sansa saíra da sala em que os dois haviam jantado. Loki ainda estava por ali, sentado em uma das cadeiras, brincando com a faca afiada que fora usada para cortar um pedaço de coxa de javali. Passava a faca de dedo em dedo, colocando a ponta às vezes na madeira da mesa e apertando ali. Seus pensamentos estavam distantes de tudo o que estava fazendo.
Sansa despertara algo nele. Um desejo estranho de conquistar algo que julgara ser fácil, mas que se mostrara um desafio. Ao fazer o pedido, poderia jurar que a garota se atiraria aos seus pés, pedindo ajuda para conquistar Winterfell e para ter a honra de se casar com o rei de Westeros. Mas ficara satisfeito ao ver que a humildade de Sansa, e sua recém-descoberta de que o mundo não era belo, ajudaram-na a ficar mais contida em suas atitudes. Loki não estava decepcionado, apenas surpreso com a conduta dela.
Sansa pedira um tempo para pensar, mas concordara no mesmo momento em colocar um exército para marchar em direção ao norte, com o intuito de averiguar a real situação, ganhando tempo para que eles pudessem bolar um plano de uma possível guerra para reconquistar seu lugar de infância.
Os pensamentos dele foram quebrados quando um cavaleiro bateu na porta. Usava a capa branca característica do exército do rei, uma tradição que ele pensava em quebrar, mas sabia que seria um golpe em seu povo, acostumado à sua cultura.
— Vossa Graça, mandou me chamar? – Ele fez uma pequena reverência e postou-se em frente à mesa, olhando com timidez e discrição a quantidade enorme de comida que havia ali, bem como os dois únicos pratos na mesa. Loki gesticulou afirmativamente com a cabeça.
— Dentro de uma semana pretendo marchar para o norte. – ele disse com tranquilidade, recebendo um olhar questionador do homem. — Quero que você prepare um exército com seus melhores homens, que irão um pouco antes, para se certificarem que a estrada estará segura.
O homem titubeou, mas nada disse, apenas fez uma reverência. Ao dar meia volta para sair do local, Loki voltou a chamá-lo. O homem o olhou.
— Farei uma reunião para conversarmos sobre isso e nos prepararmos melhor. Eu não estou marchando para o norte, eu quero tomar o norte... – disse rapidamente, gesticulando com as mãos. — Pegue o que quiser, sobrou bastante comida.
Ele apontou para a mesa e o homem sorriu de forma tímida, agradecendo-o e pegando um pouco de carne e pão, colocando a comida em um guardanapo de pano e fechando-o com um nó. Ao fazer a reverência novamente e caminhar para a saída, esbarrou em Varys, que entrava na sala de jantar como uma sombra.
O careca fechou a porta atrás de si, ao ver o cavaleiro sair comendo um pedaço de fruta. Olhou para Loki com olhos questionadores.
— Um homem do exército branco. Devo presumir que planeja algo?
Loki sorriu, pegando um grande osso de javali e jogando-o para um canto da sala onde Fenrir estava deitado. O lobo gigante o pegou com os dentes afiados e começou a mastigá-lo avidamente, esquecendo-se da presença dos outros ali. Varys desviou os olhos do animal, não conseguindo entender como uma besta daquelas conseguia andar pelo castelo sem atacar ninguém. Provavelmente porque era controlado pelo rei.
— Você é bem perceptivo, Varys. – Loki brincou de forma irônica. — Sim... – respondeu facilmente. — Planejo algo. Quero marchar para o norte.
Varys foi pego desprevenido com aquela informação, esperava que o rei dissesse algo sobre o jantar com Lady Sansa, mas não recebera nada parecido com aquilo. De qualquer maneira, se Loki pedira ou não a mão da garota Stark, aquilo poderia facilmente esperar, uma possível guerra era mais importante do que qualquer assunto que seus passarinhos pudessem descobrir depois.
Loki gesticulou com as mãos para que ele se sentasse à mesa
— Sente-se, Varys. Irei compartilhar meu plano com você, e falarei também o que se passou aqui dentro no jantar.
[...]
Ela estava na janela, algo que quebrava inteiramente a rotina de quando ia dormir. Sansa sempre esperava a aia sair para se enfiar debaixo do cobertor e fechar os olhos, rezando aos deuses para que eles lhe dessem uma noite de paz. Mas os pesadelos sempre a assombravam, lembrando-a da desgraça em que o nome de sua casa caiu, e do modo infeliz como vivia.
Não agora. Pela primeira vez em quatro anos em que estava trancafiada dentro dos muros da Fortaleza Vermelha, Sansa sentia uma pontada de esperança, mesmo que ínfima, brotar em seu peito. Não que criasse muita expectativa, pois sabia que muitas histórias não tomavam o rumo desejado e culminavam em finais surpreendentes. Mas finalmente, depois de todo aquele tempo, o rei de Westeros queria tomar o norte.
Não se importava muito também se Loki ficaria com o norte para ele, ou se daria o controle de Winterfell para ela. Ver sua casa e a terra que chamara de lar fora das mãos de inimigos já seria um grande presente, um bálsamo por tudo o que havia passado.
E havia o pedido de casamento.
Sansa sentiu-se corar no momento em que pensou no modo como o rei Loki a pedira em casamento. Por sorte, uma brisa fresca batia em seu rosto, acordando-a de um possível sonho em pensamentos, caso ela começasse a fazer aquilo novamente.
Loki era diferente dos outros homens. Era diferente até mesmo de Jaime Lannister ou Sor Loras, dois dos maiores e mais bonitos cavaleiros que ela já conhecera. A confiança de Loki ultrapassava facilmente a confiança de qualquer um ali. E tal confiança poderia passar proteção para a mulher que um dia se tornaria sua rainha.
Não ficara exatamente claro se Loki daria o norte para que ela o governasse, ela aceitando ou não o pedido de casamento. De qualquer maneira, o rei deixara claro que o pedido fora feito por pura vontade dele, e não por um compromisso político ou uma estratégia de poder. Mas Sansa já não acreditava mais em palavras bonitas vindo de bocas da corte. O tempo fê-la mudar um pouco naquele quesito.
Seus pensamentos tomaram rumos diferentes e ela se lembrou, sem conseguir se conter, do modo como Loki pousara a mão sobre a dela. O toque dele era razoavelmente frio, mas não tão frio a ponto de incomodá-la. E era... Diferente. Um toque de um homem que sabe o que quer e que não pensa muito para alcançar seu objetivo. Ela corou ante esses pensamentos, passando o dedo indicador no lugar onde o rei a beijara minutos atrás, com seus lábios finos. Era difícil achar um homem cavalheiro o suficiente para beijar a mão de uma moça como ela, normalmente faziam uma mesura e permaneciam onde estavam, como se a proximidade com uma donzela fosse proibido.
Loki não era de se incomodar com isso. Não se sentia desconfortável em aproximar-se dela, olhando-a nos olhos e beijando o pequeno vale onde seus dedos se juntavam.
Respirou fundo, pensando seriamente no fato de que faria uma grande e longa viagem para o norte com o rei e sua comitiva, no intuito de tomar Winterfell e as cidades vizinhas. Mas Sansa teria um trabalho particular, um trabalho mais difícil aos olhos dela.
Tentar não se ludibriar com Loki quando ele começasse a cortejá-la.
[...]
Sansa estava em frente à janela de seu quarto, com os atentos olhos azuis observando os cavaleiros rumarem para o portão principal da Fortaleza Vermelha. Mantinham o costume de usar os mantos brancos, mas ela conseguia ver com facilidade os detalhes verde-escuros nas armaduras. Conteve um sorriso, pois sabia para onde aqueles homens iam. Pensara que o rei não iria cumprir com sua palavra tão rapidamente, mas apenas uma semana havia se passado desde que ele fizera o pedido. E lá estava... A concretização de sua promessa.
— Lady Sansa?
A voz fina de sua aia a tirou de seus pensamentos e Sansa a olhou. A aia percebeu certo brilho nos olhos azuis da garota Stark, algo que não via desde que a ruiva pisara dentro dos muros daquele lugar. Como uma boa criada, não colocou a observação em voz alta, mas gostou de vê-la mais alegre, mesmo que tal alegria fosse suave e contida.
— Quer que eu trance seus cabelos? – a aia perguntou.
Sansa assentiu com a cabeça, dando uma última olhada nos cavaleiros, que agora cruzavam a ponte. Voltou em direção à penteadeira e sentou-se ali, observando as mãos delicadas de sua aia pegando as mechas ruivas e trançando-as com uma facilidade absurda.
— Você parece estar mais corada essa manhã, minha senhora. – a criada observou. — Dormiu melhor?
Sansa olhou-se no espelho, procurando a mudança em seu rosto, mas não conseguia ver nada de diferente em sua fisionomia. Achava sua pele pálida demais e seus olhos tristes do mesmo modo que eram. As orbes azuis voltaram-se para a aia pelo reflexo do espelho.
— Minha noite foi tranquila, graças aos Sete.
A criada sorriu, voltando a trançar os cabelos de Sansa. Demorou apenas vinte minutos para que ela estivesse vestida e pronta para descer para o café da manhã. Normalmente, tomava o seu café na cama, mas ela sentia uma necessidade absurda de caminhar pelo castelo a fim de descobrir algo.
Não via o rei desde o jantar em que ele fizera o pedido.
— Tomarei o café da manhã no pátio central. Pode pedir para levarem até lá, por favor? – Sansa pediu gentilmente e a aia apenas assentiu, saindo do quarto.
A garota ficou sozinha e respirou fundo, antes de passar as mãos no vestido roxo que usava, saindo do quarto e rumando para o pátio.
[...]
Ela já havia terminado o desjejum há bastante tempo, mas ainda estava sentada na mesa do pátio, observando com um interesse genuíno os pássaros que se banhavam em uma fonte próxima. Aquela manhã estava particularmente fria. O inverno estava chegando, e alcançava até mesmo a Fortaleza Vermelha. Sansa levou a xícara de porcelana à boca, tomando um gole do chá que haviam preparado para ela. O líquido desceu pela sua garganta, mas não estava quente como no começo da manhã. Ela quase não percebera isso, se não fosse por uma voz a avisando de que sua bebida havia se modificado.
— Caso queira esquentar novamente o seu chá, posso ajudá-la com isso, Lady Sansa.
A voz que ouviu deixou-a ligeiramente arrepiada, e não gostou muito daquilo. Por mais que quisesse ignorar, arrepios lembravam Joffrey, ela sempre tinha essa reação quando via o Lannister. Colocou a xícara novamente no pires e virou-se para trás, fitando o homem a quem estava ávida por ver desde que saíra daquela sala de jantar, dias atrás.
— Vossa Graça.
Sansa fez menção de se levantar, mas Loki pediu gentilmente com as mãos para que ela permanecesse sentada. Ele contornou a mesa recheada com frutas, sentando-se na cadeira que estava ao lado dela. A garota ficou surpresa, o rei não parecia se incomodar muito com a proximidade entre os dois, pelo contrário, parecia apreciar cada segundo.
— Como está se sentindo? – Loki perguntou. — Não a vejo desde que eu pedi a sua mão em casamento... – Ele correu seus longos dedos pela mão dela, que estava pousada sobre a mesa. — Mão essa que não desisti...
O modo como ele acariciava as costas da mão dela, e como os olhos azuis intensos a fitaram, deixaram-na sem reação. Ele a olhava como se ela fosse uma pedra preciosa, mas ela conseguia encontrar com facilidade a malícia naquelas orbes azuis, e o divertimento. Mas tal malícia e tal divertimento eram bem vindos naquele momento, e ela se surpreendeu por pensar dessa maneira. Sansa estremeceu.
— Eu vi os cavaleiros cruzando a ponte principal... – Ela mudou de assunto estrategicamente. — Posso perguntar o motivo de mandar boa parte do seu exército para fora dos muros, Vossa Graça?
— Ora, Lady Sansa, eu sou um homem de palavras. – Ele sorriu enigmaticamente. — Se eu lhe prometi que mandaria meus homens para o norte, a fim de retomar o que é de direito seu, eu vou fazer isso.
Os olhos azuis dele deixaram momentaneamente os dela e rumaram para a xícara que continha o chá. O longo dedo indicador encostou levemente na porcelana, e logo o líquido voltava a soltar nuvens de vapor quente, como se o chá estivesse acabado de ser feito. Ela olhou aquilo tudo com medo e fascínio. Não entendia muito a mágica, e às vezes temia o que não compreendia.
— Espero que pense com carinho nisso.
Sansa sorriu de forma doce, fazendo com que os olhos azuis de Loki desviassem da xícara para os lábios vermelhos dela. Ela levou a xícara à boca, tomando um gole do chá quente e apreciando bastante a mágica dele naquele momento.
— Eu pensarei com carinho.
Ele assentiu e se levantou, ficando de frente para ela. Loki era alto, Sansa observou isso com facilidade, mais alto que Jaime ou até mesmo que Sandor. Ele fez um gesto estranho com a mão direita e uma flor vermelha apareceu em seus longos dedos. Entregou-a para Sansa, fazendo uma pequena mesura.
— Partiremos ao amanhecer do sétimo dia contando o dia de hoje. Esteja pronta.
Ela pegou a flor, sentindo seu rosto enrubescer. As pétalas exalavam um cheiro diferente, um cheiro familiar para ela, mas que não conseguia identificar no momento. Voltou a olhar para o rei, que esperava sua resposta.
— Estarei pronta, Vossa Graça.
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