Lost
18 17.

Estava deitada na escuridão, o cheiro fétido de palha suja e imundice humana invadia seu nariz sem pedir permissão, deixando-a nauseada. Os ratos começaram a subir em suas pernas, vez ou outra mordiscando-a e deixando-a em alerta. Sansa queria levantar, mas não conseguia mexer o corpo. Uma lágrima riscou seu rosto e ela pensou em seu filho sendo comido por aqueles animais nojentos. Abriu a boca para gritar, mas o som não saía.
Pranto silencioso... Desespero.
Alguém pegou seus ombros fortemente, mas ela continuava a se debater, tentando tirar os ratos de seu corpo, seus membros não se moviam, e os dentes afiados dos roedores começavam a machucar sua carne.
Levantou-se de súbito, abrindo os olhos. Sentiu a boca seca e com um gosto estranho, bem como o suor gelado banhar sua pele trêmula. As lágrimas ainda desciam livremente pelo seu rosto, mas os ratos não estavam mais ali, tampouco a escuridão e o cheiro horrível que o local possuía. Pelo contrário, o local era arejado, e mesmo um pouco escuro, possuía uma fonte de luz cálida, duas lareiras em cada lado da cama onde ela dormia. Sansa levou a mão à garganta, tentando dizer algo. Quando sua voz saiu trêmula, percebeu que havia sonhado, e que tais sensações foram um pesadelo que sua mente lhe pregou.
— Sansa? – A voz convidativa a chamou, e pela primeira vez ela percebeu a presença ao seu lado.
Sentado na cama, Loki olhava para a garota com visível preocupação. Os olhos azuis, sempre frios, possuíam um brilho quente de ternura, algo que ela nunca havia visto ali. Ela correu os olhos pelo local, percebendo que estava sentada em uma cama, em cima de um colchão de penas. A maciez era algo que não experimentava há tempos, cobertores grossos estavam sobre seu corpo. O local era uma tenda, e Sansa tentou lembrar-se da última vez em que estivera consciente.
Mas nada lhe veio à mente.
Ao ver a confusão no rosto da garota, Loki pousou a mão na perna dela sobre o cobertor, tentando acalmá-la.
— Você está desacordada por dois dias. Lembra-se da batalha? – ele perguntou, esperando uma reação dela. — Estamos voltando para casa, Sansa...
Os olhos de Sansa saíram de foco, como se estivesse entrando em um processo de volta ao passado. Cenas fortes correram por sua mente na rapidez de uma lança: Joffrey lhe pedindo desculpas, Cersei correndo em sua direção, a flecha enfiando-se entre seus seios com rapidez, mas não com eficiência. Sansa a matara... A sangue frio. E sentira prazer com isso, sentira-se inebriada ao ver a dor percorrer as feições daquela megera. Com isso, percebeu que, mesmo que antes abominasse tais sensações e as achasse dignas de guerreiros sem alma, agora dormiria mais tranquila ao saber que uma das mulheres que mais odiava já não estava mais naquele mundo, nem mesmo o garoto responsável pela morte de seu pai e de todos os acontecimentos que sucederam a isso. O término de sua família...
Ela os vingara.
— O que... – Respirou fundo. — O que aconteceu... depois que eles morreram? O que aconteceu com os Lannisters? Quero saber... tudo.
O sorriso de Loki foi tranquilizador, mas ele negou com a cabeça, estendendo a mão para ela.
— Contarei tudo, Sansa. Mas antes você precisa se lavar, alimentar-se, e descansar... Descansar muito.
Os olhos azuis dele correram pelo corpo dela e Sansa percebeu, pela primeira vez, que estava com a mesma roupa que quando fora capturada. A imundice em seus cabelos deixava os fios endurecidos e escuros, parecia sentir as duas paredes da barriga se colarem devido à falta de comida, e em um impulso, colocou as duas mãos no ventre, como se quisesse ter certeza de que ele ainda estava levemente inchado por causa do crescimento de seu filho. Olhou para Loki, que estava sério.
— Você não sangrou... – Ele sorriu, tentando acalmá-la. — Mas precisa se cuidar para vocês ficarem saudáveis, não?
Ele fechou e abriu a mão, um convite para que ela pousasse sua própria na dele. Ela o fez, e ele a ergueu da cama, puxando-a com delicadeza em direção ao centro da tenda, onde havia uma grande banheira a esperando. Sansa respirou fundo, sentindo o cheiro floral da água. Tocou-a com os dedos, percebendo a temperatura quente e olhando para o responsável por aquela magia. Ele nada disse, mas os olhos dela lacrimejaram quando ele retirou o vestido dela, despindo-a calmamente, e logo depois a pegando no colo e colocando-a na banheira com delicadeza.
A água quente cobriu todo o seu corpo, e Sansa sentiu-se grata no mesmo momento pelo cuidado dele. Ficou ali parada, sentindo-se um pouco tímida por causa da sua condição. Emagrecera muito desde que ele a vira pela última vez, e estava tão cansada que parecia uma boneca mal feita. Mas ele não parecia se importar com isso, logo pegou uma pequena esponja e começou a passar nas costas dela calmamente, espalhando um óleo cremoso e de aroma delicioso em cada pedaço de sua pele.
Ela fechou os olhos.
— Cuidarei de você, Sansa... – Ela perdera as contas de quantas vezes ele dissera seu nome desde que acordara. — Como nunca cuidei antes...
— Loki... – Tentou falar, mas ele pousou o dedo longo em seus lábios. Sansa sentia necessidade de lhe dizer que nada daquilo que passara era culpa dele, e que ele fizera praticamente um milagre tirando-a daquele lugar inteira, mesmo que machucada. Se estava viva, o motivo era a persistência dele, ele não desistira dela, mesmo que muitos tivessem dito que era impossível recuperá-la com vida depois de tantas semanas. Respirou fundo, sentindo os dedos longos e calmos correndo pela sua pele, espalhando o óleo e retirando toda a sujeira de seu corpo.
Logo começou a jogar água no cabelo dela, pedindo que se inclinasse para que a espuma não caísse no rosto dela, o silêncio era reconfortante, mas ao mesmo tempo inquietante. Por mais que os dois estivessem calados, ambas as mentes estavam fervilhando de dúvidas e questões importantes.
— Contarei a você o que houve. Mas não me interrompa... Vou lhe contar tudo, desde o dia em que recebi a notícia de que você foi tirada de mim.
[...]
Logo depois que se lavara e fora vestida, os lençóis da cama foram trocados e ela estava sentada no colchão macio, com uma bandeja enorme de pães a sua frente. Não queria comer, por mais que sentisse fome, a náusea prevalecia, mas quando ele insistiu que ela empurrasse algum pedaço de pão com vinho, o enjoo foi passando aos poucos, e logo estava devorando tudo a sua frente.
Loki ficou satisfeito com isso, mas percebeu que ela estava calada demais. Perguntou-se o que estava pensando, e decidiu fazer a pergunta em voz alta para saciar sua curiosidade. Ela deu de ombros timidamente.
— Tenho medo da vida... de certa forma. – Ela engoliu o que estava mastigando. — Toda vez que me sinto feliz, acontece algo de ruim para anular isso... E a cada dia piora. Quando estava noiva e achava que teria um ótimo futuro, perdi toda a minha família e descobri que o mundo era um lugar horrível para viver...
Loki não sabia o que dizer, viu naquele momento como a jovialidade de Sansa a deixava vulnerável. Por mais que passasse a ideia de uma garota já crescida e amadurecida pelos acontecimentos desastrosos de sua vida, nunca seria realmente uma mulher confiante. Ela precisava dele para isso, e ele teria todo o cuidado de mostrá-la que seria o suficiente para que ela fosse uma mulher em todos os sentidos. Esposa, rainha e mãe. Corajosa e destemida.
— Quando percebi que estava grávida, rezei aos deuses para que o período fosse confortável e tranquilo. Dias depois fui sequestrada e humilhada... até... Até você me encontrar. – Ela o fitou com ansiedade, e ele percebeu nos olhos azuis certa vergonha. — Sempre serei uma garota feita de vidro, que pode quebrar a qualquer momento... Eu realmente queria ser diferente, Loki. – Ele estremeceu ao ouvir seu nome ser cantado pela voz dela. — Mas temo que sempre te decepcione sempre nesse quesito.
O desespero dele foi visível até mesmo para ela, que estava cansada. Sem saber o que dizer, Loki a abraçou, e pela primeira vez Sansa permitiu-se ser completamente fraca, chorando nos braços do marido e rei, sentindo as lágrimas descerem sem dificuldade e em abundância. Fora enganada, como uma tola, deixou que matassem Fenrir e a levassem carregando um filho dele. Ela disse aquilo tudo em voz alta em meio ao choro, sacudindo-se à medida que revelava seus desesperos e agarrava-se ao gibão negro que ele usava.
— Você não foi engada porque é tola... Todos fomos enganados. Até mesmo eu, que jurei te proteger, e deixei que fosse levada por meia dúzia de homens.
Lá estava, a angústia e a questão que estava enforcando-o aos poucos. Loki não era de assumir erros, mas sentia uma necessidade absurda de se desculpar pelo maior erro que cometeu em sua vida desde que a conhecera: deixar que a levassem. Não pediu desculpas diretamente, mas Sansa entendeu o que quis dizer, e agarrou-se ainda mais nele.
— Você é o motivo de eu estar viva, Loki. – disse em um sussurro. — E um dos principais motivos de querer viver ainda. – acrescentou timidamente, escondendo o rosto no gibão dele.
Ao ouvir aquilo, o coração de Loki acelerou, mas não queria que aquilo tivesse acontecido naquele momento. Tinha a certeza de que ela escutara a reação do seu corpo, pois logo um fantasma de sorriso percorreu os lábios femininos.
Para tentar sair daquele embaraço, porque de certa forma para ele era, já que não estava acostumado com demonstrações abertas de afeto, remexeu-se, passando as mãos nas costas dela.
— Quer uma notícia boa? – perguntou.
— Por favor... É tudo o que preciso agora.
Loki sorriu e com um pequeno assovio dos lábios, um lobo gigante entrou na tenda. Estava vivo, e inteiro, parecia ainda mais belo e assustador que antes. O rosto de Sansa se iluminou e dessa vez um sorriso aberto percorreu seus lábios.
— Fenrir! –gritou, e ao ouvir a voz da garota, o lobo correu na direção deles, pulando na cama e indo ao encontro da ruiva, lambendo calmamente a mão dela enquanto pousava a cabeça enorme no colo da garota. Sansa começou a afagar o pelo dele, sentindo-se extremamente bem ao saber que ele estava vivo. O lobo ronronava como se um fosse um pequeno gato, e Loki achou aquilo tudo no mínimo cômico.
— Bom... Vou deixá-los a sós. Meus homens precisam de ordens e preciso ter uma conversa com Tyrion. Descanse um pouco, Sansa. – ele pigarreou. — Amanhã teremos que levantar o acampamento e voltar a viajar de volta para casa.
Ele lançou um olhar para Fenrir, que entendeu o recado e suspirou. O lobo ficaria ali de guarda, até que o rei voltasse. Sansa aconchegou-se na cama, sentindo-se bem depois de se alimentar e se banhar, os pelos de Fenrir aqueciam-na ainda mais, e ela não demorou muito a pegar no sono, subitamente percebendo o cansaço em seu corpo.
[...]
O rosto do anão ficava levemente pálido à medida que Loki lhe contava a história completa. De onde viera, como chegara ali, e quem realmente era. Westeros era carregada de superstições, criaturas fantásticas e que nunca foram vistas, histórias e boatos que nunca foram verídicos, mas aquele tipo de conteúdo sempre pesava na cultura de um povo, e mesmo que a maioria achasse que era impossível o mundo mágico estar vivo, alguns juravam que estava mais perto do que as pessoas imaginavam, convivendo entre eles sem que muitos percebessem. Loki era a prova daquilo tudo, e por mais que Tyrion estivesse achando tudo aquilo uma grande mentira, sabia que não era. Algo no fundo dele dizia que a origem daquele homem era verdadeira, mas temia afirmar para si o que realmente estava claro.
Loki era um deus nórdico.
Tyrion não sabia o que era o termo nórdico, ou Asgard, mas Loki prometera contar-lhe tudo, um ávido por conhecimento de outros locais e culturas.
— Fico realmente encantado com tudo, Vossa Graça, e honrado pela confiança em me contar sua história. Depois de me presentear com a cabeça de meu pai, achei que você não me surpreenderia mais. – Ao ver a atenção de Loki, acrescentou. — Mas por que está me contando isso tudo?
Aquela era uma pergunta delicada. Loki sabia que ao escutá-la, não poderia mais fugir, e teria que abrir-se de vez com o anão, dizendo-lhe o real motivo de estar contando sua história. Confiava em Tyrion por diversos motivos, mas sabia que não contaria realmente a verdade se não precisasse da ajuda dele.
— Preciso de sua ajuda. – O anão franziu o cenho. — Em um ritual.
— Não tenho magia, Vossa Graça, não sei como poderia te ajudar... Mas há lendas de feiticeiros em Westeros e…
— Não precisarei de magia, ela vai fluir do meu corpo, aos poucos. Eu preciso de alguém responsável e confiável para tirar o meu sangue, o suficiente para me deixar fraco e encher uma pequena jarra, mas o insuficiente para me matar.
Tyrion achou que Loki estava ficando louco. Não conhecia nada de magia e rituais, mas o termo sangue era importante em qualquer passagem, e tanto sangue como aquele deveria significar um ritual bastante poderoso, ou importante. Qual era o motivo daquilo tudo? Tinha que haver uma razão para que o rei ficasse fraco e retirasse seu sangue, ficando à mercê de alguém como o anão, e Tyrion, astucioso como era, sabia que essa razão não era simples, ou senão Loki não estaria contando sua história e pedindo sua ajuda.
Ao ver o questionamento nos olhos do anão, o outro tratou de tirar todas as suas dúvidas. Naquele momento, não havia volta, e teria que confiar suas razões àquele pequeno homem.
— Farei o ritual para dar a Sansa o poder que eu tenho. – ele começou. — Ela terá mais força do que o normal, mas principalmente, ela será imortal.
— Mas... Vossa Graça... É um passo grande... e perigoso. Você já conversou com ela?
— Não conversarei. O possível ritual e minha fraqueza poderão assustá-la. A imortalidade é desejada por qualquer humano que tenha bom senso, Sansa se encaixa nesse grupo.
— Mas... Ela é apenas uma garota!
— Ela é minha rainha e minha esposa.
— Ela é humana!
— Eu a amo! – A voz de Loki saiu estridente e sufocada, como se finalmente tivesse revelado o seu segredo mais importante. — Não consigo sequer pensar em perdê-la. Ela é a mãe do meu filho.
Ele abaixou o rosto, envergonhado pela confissão. Tyrion não achou aquilo absurdo. Sabia que o rei nutria sentimentos por Sansa, do contrário não teria feito o que fez – ido atrás dela de forma corajosa e raivosa. Mesmo que ela estivesse carregando uma criança, muitos reis tomariam decisões mais sensatas de deixá-la morrer nas mãos do inimigo e procurar uma mulher mais nova e fértil para substitui-la no posto de rainha.
O anão nada disse sobre aquilo tudo. Não perguntou desde quando o rei amava aquela garota, e os motivos. Ele não tinha o direito disso, mas queria saber sobre o ritual em que faria parte, afinal, não era todo dia que ajudaria a praticar magia e arrancaria o sangue real.
— Então... Quando vamos fazer tudo?
[...]
Três dias tinham se passado desde que Sansa acordara. A neve caía agora de forma alarmante, tampando boa parte da estrada e colocando dificuldade a cada passo que os cavalos davam. De alguma forma, Loki havia conseguido uma liteira para ela em algum vilarejo próximo. Não era a mais confortável que já viajara, mas a aquecia o suficiente para que intercalasse cochilos com horas de pensamentos. De qualquer maneira, já não sentia mais aquela necessidade de viajar em liteiras, e se pudesse escolher, teria colocado uma calça e andaria ao lado do rei, em um cavalo.
Ele não concordara com isso, alegando que ela ainda estava cansada por causa das semanas em cativeiro. Sobre isso, estava errado, Sansa ganhara peso facilmente e agora não se sentia mais fatigada, apenas um sono mais profundo denunciava que um dia estivera enferma por semanas, não havia sentido mais cólicas, indicando que a criança estava bem, o ventre estava levemente inchado, um pouco mais do que semanas antes.
Ela sorriu, passando a mão pela barriga. Logo depois abriu a cortina branca da liteira e observou lá fora: os cavalos andavam com calma e cautela, como se a qualquer momento fossem escorregar ou pisar em falso em algum buraco disfarçado pela neve. Loki estava ao seu lado, ele sempre estava agora. Na viagem que fizeram para Winterfell antes de se casarem, era praticamente impossível vê-lo, pois sempre estava no comando do exército, mas agora bastava que Sansa abrisse a cortina que conseguia avistar o cavalo dele ao lado da liteira, e sabia perfeitamente que Fenrir estava do outro lado.
Ele a fitou com cuidado, como se estivesse planejando algo para ela sem que ela soubesse. Depois de observá-la, sorriu.
— Sente-se cansada? Ainda teremos alguns dias de viagem e…
Como ironia do destino, no momento em que disse aquilo, um homem aproximou-se dele, estava a pé e seu rosto estava vermelho pelo frio. Quando abriu a boca, uma fumaça saiu de seus lábios.
— Está impossível passar pela estrada agora, Vossa Graça. A neve e o gelo tomaram conta de tudo, temo que tenhamos de parar por essa noite para limpar tudo.
Loki bufou um pouco impaciente. Sabia que não tinha como lutar com a força da natureza. Mesmo que pudesse usar a magia para derreter de vez toda aquela neve, não o faria. Precisava de toda a sua magia e força para realizar o ritual que pretendia.
Ele acenou para o homem, que correu até o começo da fileira, já começando a dar ordens para levantar um acampamento. Logo fitou Sansa, que olhava para ele como se estivesse o vendo pela primeira vez.
— Acho que Winterfell ficará sem o seu rei e rainha por mais alguns dias. – Ao dizer isso, piscou para ela. — Só nos resta passarmos a noite juntos, até que a tempestade de neve alivie.
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