Lost
16 15.

A porta do local abriu de súbito, mas Sansa nem ao menos levantou o rosto. Normalmente, quando a porta se abria, jogavam um prato de mingau frio e velho para dentro de sua prisão. Ela não conseguia comer aquilo, por mais que seu estômago estivesse roncando e ela sentisse as paredes de sua barriga quase se colarem, quando colocava o mingau na boca, sentia asco, e quando raramente conseguia engolir algumas colheradas, vomitava tudo depois, deixando o local com o cheiro ainda pior.
Então, desistira de comer, deixando o mingau sempre intacto, logo os ratos começavam a se amontoar na tigela, acabando com a comida que era destinada a ela. Os homens que iam até ali para deixar a tigela ou para lavar – muito raramente – o local e esvaziar o balde de dejetos, achavam que Sansa vomitava muito por causa da qualidade intragável da comida, mas ela deixava seu segredo oculto. Por mais que sentisse vontade de apelar para a pena dos seus captores, sabia que se qualquer um ali soubesse que estava grávida, não sentiria compaixão, apenas usaria aquela condição para ameaçá-la ainda mais.
No entanto, o homem que abrira a porta, naquele dia, não havia jogado nenhuma tigela no local, apenas esperava que a garota mexesse o rosto ou tentasse ver o que estava acontecendo. Como ela não se pronunciara de forma alguma, ele a cutucou com o pé e Sansa foi obrigada a levantar a cabeça e fitá-lo. Os olhos do homem não possuíam nenhum brilho, e ela se perguntou se havia alguma alma habitando aquele corpo.
— Os Lannisters a esperam.
Ela sentiu o estômago embrulhar. Finalmente iriam executá-la? Já rezava aos Sete por semanas para que isso acontecesse desde que a enfiaram ali. Sabia que Loki estaria a procurando como um louco, mas estaria marchando ao seu encontro? Mesmo carregando um filho dele, valeria a pena atravessar léguas de distância para encontrá-la? Correr o risco de perder praticamente todo o seu exército para entrar em terras inimigas através do inverno que se instalara por Westeros? Ele poderia se casar novamente, fazer um herdeiro em outra mulher, até mesmo mais nova e com menos probabilidades de perder a criança... Até porque, lembrava-se perfeitamente do sangramento anormal em sua primeira noite com ele.
Estremeceu, sentindo-se tonta quando finalmente ficou de pé e seguiu o homem. O corredor era escuro e frio, estava faminta e fraca, mas sentia sua barriga levemente inchada e lembrou-se da criança que carregava dentro de si, abraçando-se, menos por causa do frio e mais para protegê-la de algo que ela nem mesmo sabia. Teve que parar diversas vezes, apoiando-se nas paredes geladas do local e tentando recuperar o fôlego. O homem a incitava a andar depois de algum tempo parados, e logo eles começaram a subir as escadas em forma circular.
Sansa subiu cada degrau vagarosamente, chegando ao fim exausta e levemente enjoada. Percebeu que entrara em uma saleta mais clara que sua prisão e logo fechou os olhos, sentindo-os lacrimejarem quando voltou a abri-los e fitou o espaço circular. Havia janelas altas e largas ali, o vento entrava por elas sem achar nada que o impedisse, deixando a sala extremamente fria. Sansa começou a tremer, mas nenhuma capa ou até mesmo um novo vestido lhe foi oferecido. Contudo, estava grata pela renovação do ar, sentir o cheiro do vento invernal entrando por ali, enfiando-se em seus pulmões sem pedir permissão, fez com que conseguisse pensar melhor.
O homem continuou a andar, cortando a sala rapidamente. Ela tratou de segui-lo, e quando ele parou em frente à porta, ela percebeu que havia ali um espelho sujo e ensebado, mas foi o suficiente para conseguir enxergar seu reflexo. O que viu lhe deixou tensa e ao mesmo tempo triste. Emagrecera consideravelmente, as maçãs de seu rosto haviam murchado e os lábios estavam rachados. Os cabelos, antes em um tom vivo de laranja, pareciam opacos; o rosto estava sujo e a roupa imunda. Ela tinha certeza de que seu cheiro não era dos mais agradáveis, mas o que a incomodou não foi nada daquilo.
Essa é a mulher que carrega o herdeiro do Norte. – Pensou com amargura, não se importando com sua aparência, mas com a evidente falta de saúde.
Sansa fora designada para ser um receptáculo de uma criança, um corpo que iria abrigá-la até que estivesse pronta para vir ao mundo, e a garota tinha a obrigação de ajudar aquele pequeno ser de algum modo.
Não estava tendo sucesso em seu dever.
Era a única missão realmente importante que os deuses haviam designado a ela, e Sansa não conseguira ser bem sucedida. Desistira de viver e de tentar colocar energia em seu corpo, deixou que a imundice e a tristeza a cobrissem e ao mesmo tempo a enjaulassem. Mas mesmo que estivesse disposta a reverter esse erro, o lugar para onde o homem estava a levando deixava claro que ela não teria nenhuma chance de fazê-lo.
Era uma sala onde líderes ficavam, Sansa reconheceu por causa do tamanho do cômodo e do tapete imenso que levava até um pequeno e singelo trono que estava dois patamares acima. No de baixo, havia duas cadeiras decoradas e menos suntuosas, mas de aparência elegante. Sansa reconheceu Cersei sentada em uma, os cabelos dourados e sedosos presos em uma longa trança e o vestido de seda de melhor qualidade cobrindo o seu corpo. Joias adornavam seus braços e pescoço, e o fantasma de um sorriso triunfante e debochado brincava em seus lábios. Sabia que Cersei havia se arrumado para aquela ocasião em especial.
A outra cadeira estava vazia, mas a garota sabia a quem era destinada – Jaime Lannister não estava presente, e ela se perguntou o motivo. Concordara com tudo aquilo ou fora enviado em uma missão complicada, a fim de não ser mais um obstáculo para o seu pai? Tyrion não tinha uma cadeira separada, Sansa percebeu de imediato, como se o anão nem ao mesmo tivesse existido. Ela se perguntou se os Lannisters sabiam que seu parente deformado estava vivo e ao lado de Loki, seu marido.
No patamar acima de todos, ocupando um trono mais adornado que as demais cadeiras, estava Joffrey. Ao olhá-lo, o enjoo triplicou, mas não moveu um músculo e nem demonstrou seu asco. Pensava naquela cabeça loira enfiada em uma estaca, exposta no Norte, exatamente como fora feito com seu pai, Ned Stark, na Fortaleza Vermelha. O garoto olhava-a com visível diversão, e ao contrário da mãe, não escondia isso. O sorriso estava estampado em seu rosto, mas logo morreu quando seu avô, Tywin Lannister, fez um gesto com a mão quando o garoto abriu a boca para falar, calando-o com isso.
O chefe dos Lannister estava ao lado do trono, e mesmo que fosse o garoto sentado ali, todos sabiam que o verdadeiro rei era o mais velho. Ele olhou para Sansa com sinceridade e seriedade, fitando-a como se não a reconhecesse.
— Sansa Stark. Ou devo chamá-la de Sansa Laufeyson?
Ao fazer essa pergunta, mostrou que a notícia do seu casamento já havia chegado por aquelas terras, o que era no mínimo óbvio. Tywin começou o discurso que todo rei ou pessoa de poder começava ao ditar a sentença para um prisioneiro importante ou um inimigo declarado, dizendo a Sansa o motivo de ter sido capturada como um rato e enfiada em uma prisão indigna até mesmo para um animal semimorto. Disse que ela seria executada em praça pública, para que todos vissem o que os Lannisters faziam com covardes e traidores. E tal execução aconteceria dentro de alguns dias. Ela sabia que eles esperavam o público ter conhecimento de tal sentença, para que se juntassem e vissem com os próprios olhos a garota perder a cabeça.
— Não perderemos tempo com política dessa vez. – disse de forma séria, afirmando por meio disso que ignoraria o título do marido de Sansa, e que ela era quem era: Rainha de Westeros e do Norte. Mas sabia que, na visão deles, seus títulos não eram nada, pois nunca a considerariam rainha nem mesmo de um jardim, quanto mais de todas as terras. A executariam para que todos vissem o poder que tinham. Mesmo acuados por Loki em terras pequenas e escondidos, conseguiam chegar aos seus objetivos, e Sansa sabia que estavam ávidos para demonstrar isso.
De certa forma, mesmo que já estivesse esperando sua sentença e até rezasse para que acontecesse rapidamente, sentiu seu corpo estremecer, e uma vontade de viver a invadiu. Não exatamente por ela, mas pela criança que carregava. No entanto, nada disse, não implorou perdão, nem mesmo pediu para que eles barganhassem com Loki. Não queria humilhar-se mais, e nem seu marido. Apenas abaixou o rosto e uma lágrima escorreu livremente por sua face, deixando um rastro limpo na pele extremamente suja.
E foi assim que foi levada de volta para sua pequena e imunda prisão.
[...]
Quando a garota finalmente saíra, Joffrey levantou do seu trono e espreguiçou-se em um degrau, satisfeito com tudo. Finalmente veria a cabeça daquela ruiva rolando e caindo aos seus pés da corja de pessoas pobres e comuns.
Cersei permanecia sentada, observando com cuidado o modo como seu pai olhava para o neto, com visível contragosto, afinal, por mais que quisesse a execução de Sansa e a retomada do poder, não concordava com as reações do loiro.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta abriu-se abruptamente. Esperaram, Cersei temendo que Sansa tivesse escapado, pois não seria a primeira vez que um prisioneiro teria ajuda para fugir naquele mundo. Joffrey olhou com tédio para os dois homens que entravam, mas logo sua atenção apareceu, e ele focou os olhos azuis bem abertos no que os homens carregavam, ou melhor, arrastavam.
Era um primo Lannister. Estava machucado e algumas partes do seu corpo não existiam mais, pareciam ter congelado e se desprendido do corpo. Estava de olhos fechados, mas quando os homens o colocaram em frente ao primeiro degrau, percebeu certa claridade e sentiu certo conforto vindo das chamas quentes das diversas velas acesas ali. Tywin olhou para o estado dele de forma severa, os lábios tão crispados que formavam uma linha fina.
Como se estivesse enfeitiçado, o homem, que antes não deixara ninguém encostar no saco que tombava em seu peito, sustentado pelo pescoço machucado devido à corda, retirou finalmente o seu fardo, lembrando-se de como sua pele esguichou sangue quando tentara fazer isso na estrada. Aquele maldito feiticeiro não mentira quando dissera que se ele tentasse se livrar daquele peso, morreria como o seu primo. Com relutância, mas certo alívio, abriu o saco e retirou dali uma cabeça semicongelada e decomposta. O cheiro de podridão da pele invadiu a sala e Cersei fez uma careta, mas estava atenta demais para não reconhecer na cabeça decepada um de seus primos.
O homem nada disse, apenas enfiou a mão suja no que antes era um olho, e retirou dali um pedaço imundo de pergaminho, estendendo o braço em direção ao líder dos Lannisters. Assim que Tywin pegou a carta, sentindo certo nojo quando os dedos encontraram o pergaminho sujo de líquidos duvidosos, o homem loiro que entrara na sala sentiu seu corpo ser percorrido por um frio incomum. Perguntara-se a todo o momento como conseguira atravessar aquela distância sem precisar de água e comida, mas pelo visto a magia daquele feiticeiro não se limitava apenas à corda que estava no seu pescoço. O frio não se dissipou, apenas piorou, ele sentiu que cada parte do seu corpo estava congelando, sua mente foi se desprendendo do corpo. O homem caiu, morto aos pés de Tywin Lannister.
O líder, que estava estático ao ver o parente se descompor à sua frente, limpou a garganta e decidiu que aquilo poderia esperar, pois era certo que estavam lidando com algum tipo de poder temido e de origem desconhecida. Ele abriu o pergaminho, ávido pelas letras que poderiam lhe dar alguma dica sobre com o que estava lidando, ou que finalmente iriam lhe dizer que teria um acordo para voltar ao poder. Mas não havia nada escrito.
Era apenas um pergaminho em branco, e esse emitiu um brilho azul estranho, antes de pegar fogo. Ele jogou o papel no chão, assustando-se momentaneamente com aquilo. O pergaminho teve o mesmo fim do homem que segundos atrás morrera, decompôs-se, virando rapidamente cinzas. Ele ficou parado ali, observando tudo com atenção e, mesmo que não quisesse admitir a si mesmo, com temor. Não conhecia nada daquilo. Foi a voz estridente do neto que lhe tirou de seus pensamentos internos.
— O que isso? Que tipo de bruxaria é essa? – Joffrey perguntou, indo de encontro à mãe, que o abraçara como se ele fosse uma criança de quatro anos. Os dois olharam para ele, esperando uma resposta.
— Pai, o que tinha na carta? – ela perguntou, assustada como o filho.
— Nada. – ele respondeu, ainda tentando achar a resposta para aquela encenação toda.
— E o que isso significa? – ela voltou a perguntar.
— Significa... – ele tentou colocar em palavras suas conclusões, virando-se para os dois. — Significa que estamos lidando com um feiticeiro.
[…]
Loki olhava para o exército, que estava pronto. Demorara cerca de dois dias para que todos se juntassem, mas agora, preparados para qualquer batalha, ele percebeu que os números estavam a seu favor. Além de sua imortalidade e magia, tinha habilidades com a luta, e Fenrir. E um número alto de homens disposto a dar a vida para salvar a rainha, mesmo que soubesse que passariam frio extremo até chegarem ao seu destino.
Virou-se para Fenrir, que cavava a neve com o focinho, na esperança de algum cheiro restante das provisões do exército tivesse caído ali. Loki fez uma careta divertida.
— Você não acha que já comeu demais? – perguntou ao lobo. — Dei-lhe uma mulher até mesmo suculenta, e depois você se fartou com um grupo de traiçoeiros...
Tyrion, que estava ali perto, estremeceu diante do aparente diálogo dos dois. Loki falava como se fosse comum dar humanos para que o animal comesse. Mesmo que fossem traidores e tivessem feito mal a Sansa, eram humanos. Mas nada disse.
— Prometo lhe dar mais comida quando chegarmos ao nosso destino. – Loki disse ao lobo, gesticulando com a mão para que o esperasse ali na porta. Logo depois se virou para Tyrion, chamando-o com um movimento na cabeça.
— Vamos.
O anão seguiu o rei rapidamente, saindo do pátio e entrando novamente no castelo. A sala que antecedia os corredores estava abarrotada de homens andando, cada um com seu respectivo afazer: um carregava um saco de mantimentos, o outro parecia procurar a sua armadura jogada ali, as mulheres preparavam os maridos e aproveitavam a chance de se despedir, dizendo palavras doces e dando-lhes objetos que trariam sorte e os ajudariam a voltarem vivos.
Tyrion bamboleava atrás de Loki, seguindo-o e observando tudo com atenção. Logo depois de um tempo, Loki parou, entrando em uma sala escura que o anão nunca havia entrado. Aparentemente não havia nada ali, mas quando seus olhos se acostumaram com a escuridão, conseguiu ver uma mesa de madeira e alguns livros puídos e estranhos, bem como potes. Eram livros peculiares, algo dizia que não eram achados em qualquer lugar, em bibliotecas comuns. Tyrion desconfiava que não acharia, nem mesmo em Westeros, livros como aqueles.
Loki trancou a porta, caminhando calmamente em direção à mesa e pegando um deles, o de capa vermelha escura, abrindo-o rapidamente em uma página em específico e passando o longo dedo pelas letras, como se estivesse acariciando o texto.
— Sabe por que o trouxe aqui? – o rei perguntou, e o outro negou com a cabeça com sinceridade. Loki respirou fundo, estalando a língua.
— Quero que você veja como a magia pode ser útil, se usada de forma correta e sábia. – Ele gesticulou para que o anão se aproximasse. — Nesse instante, seu pai já recebeu a carta que enviei. Sinto isso... A magia me conecta com o homem que a levou. Era seu primo, não era?
Tyrion assentiu afirmativamente, mas não parecia se importar muito com o parentesco.
— O que a carta continha? – ele perguntou.
— Nada.
O anão franziu o cenho, não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo. Normalmente, por ser mais inteligente que a maioria dos estúpidos que estavam à sua volta, conseguia acompanhar facilmente o raciocínio de reis e pessoas importantes. Mas com Loki era diferente.
— A carta era apenas um meio para saber onde seu pai se encontra. Entende? No momento em que Tywin Lannister tocou o pergaminho, o feitiço foi selado. – Ele sorriu. — Nesse momento, o fogo a engoliu.
— E isso importa?
— De jeito nenhum... A magia ultrapassa os meios físicos.
Com isso, Loki tocou levemente as palavras do livro, e Tyrion percebeu que o conteúdo era um feitiço. Engoliu em seco, esperando. O rei fechou os olhos, as mãos planando em um pote vazio e de madeira. Logo depois de murmurar palavras desconhecidas, um brilho peculiar emanou do pote, e Loki pegou uma adaga em seu bolso interno, cortando sua própria mão e fechando-a em punho, para que a gota de sangue caísse. Quando o vermelho tocou a madeira, o brilho do pote aumentou, emanando uma cor azulada, e logo depois morreu, deixando a sala escura como estava quando entraram.
Tyrion achou que tinha acabado, mas depois percebeu o sangue virar uma pequena esfera, endurecendo e tomando uma cor escura, até parecer uma joia negra. Loki a pegou, enfiando-a dentro de um bolso no gibão que o anão não conseguiu ver. Logo a cor azulada voltou, fluindo através do tecido do rei e indo em direção ao chão: uma fina linha transparente e com um brilho incomum foi desenhando ali, como se estivesse mostrando algo.
— Para onde a linha leva?
— Para onde meu inimigo está. Com esse feitiço, Tywin Lannister não poderá escapar, pois estaremos ligados até que eu arranque a vida de seu corpo.
Tyrion engoliu em seco. Ao ver que o anão continuava calado, esperou pacientemente. Logo ele assentiu.
— Chegou a hora da magia me guiar diretamente ao seu pai, Tyrion. – o rei disse. — Finalmente terá sua vingança, colocarei a cabeça do leão em um espigão, e darei o coração a Fenrir, que o devorará satisfeito até sentir a carne terminar.
Fale com o autor