Dias haviam se passado desde que Loki proporcionara o banquete na Fortaleza Vermelha, mas os humanos se apegavam àquele gesto como parasitas se apegam a corpos fracos. Muitos ainda conversavam sobre isso, e sua popularidade atrás das muralhas daquela cidade estava aumentando. Loki era visto como um rei sábio e até mesmo generoso, mas além da simpatia, as pessoas sentiam medo.

Compreendia perfeitamente o motivo. Ninguém ali dentro sabia realmente sua origem. Loki não tinha conhecimento de como havia caído naquele planeta, ou melhor, naquele lugar. Desconfiava que ali era Midgard, mas em uma época remota e antiga, e não na época que visitou, quando confrontou os Vingadores.

Havia roubado um artefato importante no reino de Asgard, que conseguia enviá-lo para outras dimensões. Loki teve muito tempo para estudá-lo, e sabia que tal objeto conseguia sentir o desejo das pessoas, antes de ser tocado, levando-as para lugares que o objeto sabia onde as pessoas se adaptariam. Ao saber disso, o moreno ficou fascinado pelo item, até mesmo obsessivo em consegui-lo para si. E finalmente, depois de anos, ele conseguira ficar perto da peça, e tocá-la.

O que Loki não esperava era uma possível viagem no tempo. Por que aquele artefato o mandara justamente para um local que não possuía muita cultura e tecnologia?

Felizmente, sabia que ninguém conseguiria achá-lo ali. Mesmo tendo consciência do roubo, caso tocasse o artefato, Thor, Odin ou qualquer asgardiano seria enviado para diversos mundos e épocas, mas nunca para aquela. Loki tinha plena confiança nisso, pois sabia que, desde criança, seus desejos, pensamentos e suas preferências eram completamente diferentes das de seu irmão e do homem que chamara de pai por muitos anos.

Então, as pessoas tinham medo, pois Loki chegara com o intuito de roubar o trono e soube facilmente como fazê-lo. Seu primeiro obstáculo fora a garota Targaryen, de nome Daenerys. Loki soubera que ela tinha intenções de obter o trono para si, mas era insegura demais para cortar o mar e tentar fazê-lo, mesmo que possuísse três dragões à sua disposição. Mas as bestas estavam fora de controle. Aquilo ficara claro quando Loki fora visitá-la. Sabia que dragões eram criaturas ferozes e fortes, mas também sabia como matá-las. Não com facilidade, mas eram mortais como qualquer criatura dali.

Loki fizera um acordo com Daenerys. Ela ficaria do outro lado do mar, reinando naqueles lugares banhados a sangue e ouro, enquanto ele a ajudaria no que pudesse, para acabar de uma vez com a escravidão daqueles povos. Estavam obtendo sucesso com isso.

Por mais que Loki não descobrisse o real motivo de Daenerys abrir mão do Trono de Ferro para ficar em um local que não era sua real casa, e lutar por uns mortais quaisquer, ele a ajudara por interesses pessoais. Mantendo-a longe de Westeros, seu caminho para o trono seria ainda mais fácil.

Sorriu. E tinha que admitir, não fora uma perda total de tempo ir até ela para firmar um acordo. Daenerys era uma bela mulher... E mostrara que tinha fogo dentro de si, fazendo jus ao lema de sua Casa.

Os pensamentos de Loki foram interrompidos quando escutou alguém bater na porta. Seus olhos azuis deixaram a paisagem que estavam fitando pela janela e rumaram para a entrada de seu aposento.

— Entre.

O rosto de Varys apareceu pelo vão da entrada e logo o homem entrou no cômodo, fechando a porta atrás de si, que rangeu como toda madeira velha rangia. Varys juntou as mãos, fazendo com que as duas mangas se juntassem em uma só, e fez uma reverência discreta para Loki.

— Mandou me chamar, Vossa Graça?

Loki assentiu, gesticulando para que Varys o acompanhasse até a sacada da varanda, que compunha o quarto. O homem assim o fez, parando ao lado do moreno e fitando o pátio, que era facilmente visto de onde estavam. Ali, algumas pessoas andavam, mas uma garota se destacava, entre todos. Não por estar chorando em meio a uma multidão de desconhecidos, mas por estar chorando no meio de um jardim afastado de todos.

O cabelo vermelho contrastava de forma gritante com a paisagem extremamente verde do local. Loki conseguia ver as lágrimas caindo em seu vestido roxo escuro. Os olhos estavam fechados e ela permanecia com a cabeça baixa, os lábios rosados murmuravam algo incoerente, algo que ele identificou facilmente como uma prece desconhecida.

Apontou discretamente para a garota, não tirando os olhos dela até fazer a pergunta.

— Pode me falar um pouco sobre Sansa Stark?

Varys franziu levemente o cenho, mas logo sua voz melodiosa foi ouvida por Loki, e assim ele contou tudo o que sabia sobre a triste história da garota Stark. De como viera para a Fortaleza Vermelha a fim de se casar com Joffrey, o futuro rei.

Perdera o pai, Eddard Stark em circunstâncias terríveis. Fora deixada ali como isca e algo para barganhar. Não havia muitas notícias sobre o restante de sua família, salve Robb Stark, morto de forma cruel nas Gêmeas. Sansa agora era uma garota presa às regras da corte, e estava só naquele mundo.

— Foi-me dito que todo Stark possui um lobo gigante. Onde está o dela? – Loki perguntou a Varys, verdadeiramente curioso.

— A loba de Sansa foi morta a mando de Joffrey, quando vinham para a Fortaleza Vermelha. Seu pai não impediu a decisão de Cersei e Joffrey. Soube que Arya Stark soltou a loba que possuía logo depois, temendo que o animal tivesse o mesmo destino.

— Pelo visto Ned Stark não fez muito para proteger sua família. – Loki pautou, fazendo com que Varys se virasse para ele.

— Ned Stark não sabia que sua família precisava de tanta proteção. Mas foi um homem muito honrado, um dos poucos que pisaram nesse castelo.

— Mas um rei não vive apenas de honra, não é? – Loki perguntou, sorrindo jocosamente para Varys, que apenas deu de ombros e voltou a sua atenção para Sansa, agora andando de um lado para o outro no jardim.

— Ela adora aquele lugar, o Bosque Sagrado. Às vezes escapa pela parte da noite, para sentar-se no banco mais afastado e rezar aos seus familiares. – Varys disse em um sussurro e Loki perguntou-se como aquele homem sabia de tanta coisa sem se mexer muito ali dentro. Apreciava isso. Varys era um bom informante, e parecia ser um homem sábio, em certas questões. Loki finalmente tirou os olhos de Sansa e fitou diretamente o careca.

— Diga-me, Varys... Percebi que o povo de Westeros não é muito adepto à feitiçaria... – Ele começou, tocando assim em um assunto praticamente proibido e delicado ali dentro.

— Creio que pensa nisso pelo modo como o povo daqui o fita. O medo está gravado nas orbes de muitos... Devo dizer que você surpreendeu a todos ao usar a magia para obter o Trono de Ferro. Magia avançada, algo que nunca vimos.

O sorriso que Loki lhe dera fora maldoso e cheio de significados. Varys sabia que o moreno não iria dizer a origem de sua magia e nem mesmo como a carregava. O conselheiro tinha certeza de que Loki não era daquele mundo, e não se incomodava com isso. Se ele conseguisse reinar de forma brilhante ali, Varys não teria do que reclamar. Sempre serviria o Trono de Ferro e o rei que o ocupava, mas preferia que tal rei fosse sábio, e não uma criança mimada e tola, como Joffrey Baratheon fora em seu curto reinado.

— Mas por que toca nesse assunto, Vossa Graça? – Varys perguntou, fazendo com que Loki desviasse sua atenção para os passantes no terraço lá embaixo.

— Sei que um bom rei é conhecido por várias características. O medo, dosado e distribuído de forma correta, pode ser um grande aliado… Mas pode ser uma fraqueza. Um rei também precisa ser respeitado... – Loki parecia pensar de forma alta, mas Varys acompanhava tudo com atenção. — Sei que muitos me temem, boa parte disso é por causa de Fenrir. – Ele apontou para o lobo imenso que estava deitado no canto do quarto, fazendo com que Varys fitasse aquela besta anormal com certo medo. — E boa parte disso é a minha magia...

— Entendo... Teme que o medo de seus súditos atrapalhe seu reinado? – Varys foi direto, algo que não estava acostumado a fazer, mas sabia que Loki não tinha muita paciência com cortesias em excesso e conversas indiretas. O moreno olhou para ele com atenção e encostou-se ao parapeito de pedra da sacada, sentindo-a levemente morna por causa do sol da tarde.

— Quero ser respeitado. Não apenas temido.

Naquele momento, ficou bem claro que Loki gostava de ser temido, mas procurava algo mais. Varys ficou em silêncio, procurando respostas naquela afirmação do moreno, até que ele voltasse a fazê-lo pensar com apenas uma pergunta.

— Tem alguma sugestão para que isso ocorra?

Varys remexeu-se um pouco, levantando as sobrancelhas e respondendo com o tom de voz calmo e educado de sempre.

— Um casamento sempre é bem visto aos olhos das pessoas. – Ele opinou. — A noiva poderá ser escolhida de acordo com suas preferências. E o senhor terá ainda mais respeito e ajuda da casa que ela pertencer.

Ao terminar de dizer, Varys percebeu os olhos azuis de Loki desviarem-se novamente para a garota Stark, que arrancava com calma algumas folhas mais amareladas de plantas dali.

— Conte-me um pouco mais sobre a casa Stark. – Ele fitou Varys com visível diversão. — Tenho algumas características em comum com aquele lugar.

[...]

No dia seguinte, Loki tivera algumas dificuldades com os bordéis de Mindinho. Não que ele frequentasse tais lugares, mas alguns cavaleiros sempre reclamavam de roubos naquele lugar. Ele tivera que chamar Mindinho imediatamente, que entrara na sala e olhara para ele de forma indiferente. De todos ali na Fortaleza Vermelha, Mindinho era o que Loki menos gostava.

— Mandou me chamar, Vossa Graça? – O homem perguntou, o sorriso de lado sempre presente no rosto de fisionomia esperta. Loki estava sério, e sério ele ficou, não entrando muito na área da conversa tranquila que Mindinho queria ter.

— Fiquei sabendo de roubos em seus bordéis. O que tem a me falar sobre isso?

— As garotas têm a liberdade de fazer o que quiserem nos bordéis, mas nunca as vi roubando. De qualquer maneira, homens e cavaleiros poderosos viram escravos naquele lugar. Estão tão bêbados que não sabem discernir nem uma espada de um cavalo.

Loki olhou com atenção para Mindinho, gesticulando com as mãos.

— Então de onde vêm as histórias?

— Eu não sei, Vossa Graça. É mais provável que eles tenham perdido algo que minhas garotas terem roubado deles.

Loki ficou calado por alguns segundos. Depois colocou os dedos longos na ponte do nariz, apertando-o em um gesto claro de falta de paciência.

— Que isso não se repita. Se você não pode controlar suas próprias putas, como poderá lidar com o dinheiro desse lugar?

Mindinho não gostou da observação de Loki, mas nada disse. Sabia que aquele homem que agora estava no trono não precisava de ouro. Na verdade, o interesse de Loki ainda era um mistério para todos. Mindinho passou os olhos por Fenrir, o lobo gigante que sempre se deitava aos pés do Trono de Ferro, quando Loki estava sentado ali, mas logo seus olhos astutos fitaram o rei.

— Posso oferecer algum serviço, Vossa Graça? – Ele olhou para Loki com diversão. — Acaba de chegar virgens em meus bordéis. São as mais procuradas, e caras... Mas o rei pode ter todas, se quiser.

Loki fitou Mindinho por alguns segundos, e depois finalmente sorriu. Um sorriso jocoso, mas que significava algo mais.

— Eu dispenso. Pode voltar aos seus negócios.

Mindinho fez uma reverência e sentiu-se extremamente grato por sair dali. A presença daquele lobo lhe dava arrepios.

[...]

Quando o crepúsculo começou a se aproximar, Loki saíra do castelo para andar um pouco pelo pátio interno e observar as pessoas. Não era do seu feitio se preocupar com simples humanos, mas precisava sair um pouco para descansar sua mente de todos os problemas dali.

Caminhou por um bom tempo, percebendo que, ao ser observado pelas pessoas, o medo não estava tão presente nos olhares distribuídos. Parte disso era porque Fenrir ficara dentro do castelo. O lobo precisava se alimentar, e Loki não queria que ninguém presenciasse seu animal comendo meia dúzia de porcos.

Suas pernas o levaram para longe, seu subconsciente sabendo que ele não apreciava o contato direto com as pessoas, e preferia sua própria companhia a de humanos obtusos. Ao andar por alguns minutos, Loki percebera que havia caminhado direto para o lugar que Varys lhe disse chamar Bosque Sagrado.

A conversa que tivera com o homem no dia anterior lhe veio à mente, e ele se perguntou se a garota Stark estaria ali. Andou por alguns corredores preenchidos de flores e plantas de diversos tipos, olhou-as com atenção, perguntando-se se conseguiria fazer algum veneno com elas. Mas nada ali lhe serviria.

Depois de algum tempo perambulando por ali, escutou alguém fungar. Andou até a origem do som, percebendo pela primeira vez a presença de uma garota naquele bosque. Ela estava sentada no último banco, o que ficava isolado de todos os outros. À frente do banco, não havia nada, mas apenas o mar. O porto era visto facilmente dali, mas ninguém conseguiria vê-la de onde estava, nem mesmo se estivesse em alguma varanda no castelo.

Aquele era o lugar preferido dela, Varys havia lhe dito.

— Sansa. Sansa Stark?

Ele perguntou, fazendo com que ela se assustasse, virando-se. Sansa não havia percebido que já não estava mais só no bosque. Ao ver quem lhe fazia companhia, levantou-se do banco e parou por alguns segundos, fitando o novo rei que ela tanto vira de forma distante, sentado naquele Trono de Ferro, mas que agora estava tão perto dela que se perguntava a todo o momento se a presença dele era real ou alguma brincadeira de mau gosto.

Loki observou-a atentamente. Seus olhos azuis estavam brilhando por causa de lágrimas interrompidas. Havia um leve inchaço em seu rosto de alguém que esteve chorando por horas. Seu cabelo contrastava de forma bela com as plantas do lugar e com o vestido azul que usava. Os lábios estavam entreabertos, como se a garota os tivesse aberto para dizer algo, mas esquecera-se das palavras.

Ela era muito bela.

Ao perceber que Loki estava calado, Sansa lembrou-se da cortesia obrigatória e pegou uma parte do vestido, curvando-se ligeiramente para o rei. Com isso, Loki conseguiu observar rapidamente o contorno dos seios pequenos. Ela olhou para ele com visível ansiedade.

— Vossa Graça.

Loki adorava mulheres que sabiam se curvar de forma correta diante de um rei. Aquilo o deixou extremamente satisfeito, fazendo-o sorrir de forma maliciosa, mas tal malícia não fora percebida por ela.

— Boa tarde, Sansa.