Lorena
7 Sincronicidade II
Notas iniciais
Lorena estava chorando.
Isso era tolice. Completo desperdício de lágrimas, mas como aliviava a dor que estava sentindo. Se ao menos ela pudesse sair dali. Se ao menos as férias acabassem e ela pudesse voltar para sua amada escola. Então ela não seria vítima da crueldade de Gláucia e Glauco. Se fossem gêmeos não seriam tão unidos. Eles pareciam ser uma entidade só ocupando dois corpos. Uma entidade maligna, ela tinha certeza.
Toc-toc!
Eles estavam batendo novamente na porta de seu quarto pra obrigá-la a sair de seu esconderijo. Não pretendia abrir. Não queria mais ser sua vítima preferida. Não queria mais ficar como uma pata, tentando se defender de seu sarcasmo e aspereza. Isso a angustiava e amargurava. Ela tinha medo deles, embora tivessem sua idade, e tinha raiva de si mesma por sentir medo.
Toc-toc!
– Saia daí, Lorena! Se não sair agora, contaremos a mamãe que você se comportou mal. E aí você sabe o que ela fará com você. — Falou o rapaz.
– Se não sair agora, por bem, nós vamos nos vingar. Vamos esperar você baixar a guarda e ficar distraída, daí então você irá nos pagar. — Falou a moça.
Lorena escutou calada. Sempre era castigada, sempre tinha que aguentar tudo que faziam com ela, para não ser devolvida para o orfanato, para não ter que ir para outra família e começar tudo novamente. Sempre tinha que ser castigada por sua mãe adotiva, sempre tinha que sofrer a vingança dos "super-gêmeos". Sempre tinha que pagar por tudo, mais caro, mais forte e além de sua capacidade de resistência.
Não mais.
Lorena levantou-se decidida. Se tinha que ser o bode expiatório, que fosse por uma boa razão. Se tinha que enfrentar a maldade humana, que fosse de pé, lutando, revidando e dando uns safanões na cara desses dois tratantes. Agora era a hora do troco. Afinal ninguém mais viria em seu socorro.
Enxugou as lágrimas e abriu a porta.
A sua frente havia um corredor branco vazio. Estranho, silencioso, desconhecido. E como estava frio. Ela instintivamente abraçou-se e deu um passo tímido para fora de seu quarto. Não havia ninguém no corredor.
– Glaúcia? Glauco? Essa brincadeira não tem graça. Saiam de onde estão se escondendo. Está bem? Podem aparecer. Já! Porque está tão frio aqui? Por que a casa está tão diferente?
A medida que ela ia andando, se afastando de seu quarto, mais o frio ia aumentando, a ponto de deixá-la tiritando e com os dentes batendo. Quando ela viu fumacinha saindo de sua boca e nariz, ela achou que aquilo já estava frio demais e resolveu voltar para seu quarto. Ao menos lá era ameno. Deu meia volta e tentou reconhecer a porta de seu quarto, mas todas eram iguais.
Estava começando a entrar em pânico.
– Gláucia? Glauco? Eu estou com frio. Parem com essa brincadeira, sim? Por favor!
Lorena começou a chorar novamente e passou a forçar a maçaneta de todas as portas que via. Até que uma delas cedeu e ela entrou. Estava de volta a seu quartinho humilde e despojado, mas quente e acolhedor. Ela se jogou em sua caminha, trêmula e assustada com todas as emoções divergentes que sentiu. Angústia, medo, revolta, raiva, estranheza e pânico. Afinal, o que fora aquilo?
No momento em que a adolescente Lorena abrira a porta de seu quartinho para confrontar seus irmãos adotivos, outra Lorena, a jovem adulta do continente gelado também abria a porta do seu kitenete, para enfrentar seu destino. Havia desistido de esperar ajuda, por isso resolvera encarar a neve e frio extremo, sob risco de morrer congelada, mas não queria morrer enjaulada e solitária.
O que a esperava do lado de fora, entretanto, era algo inteiramente inesperado e ilógico.
– O que... quem é você? — Perguntou uma adolescente robusta de grandes olhos castanhos.
– Lorena? É você? Por que está vestida com essas roupas de frio? — Perguntou um rapaz robusto com semelhantes olhos castanhos, enquanto tocava em suas roupas térmicas reforçadas.
Calor.
Lorena estava tão acostumada ao frio, que a sensação de calor ameaçava sufocá-la. Ela rapidamente começou a desabotoar a jaqueta térmica, a retirar o espesso casaco de lã, e a se desfazer das calças térmicas, ficando apenas com sua calça jeans e o pulover, mas ela desconfiava que esses ítens também deveriam vir abaixo. Afinal de contas o que havia acontecido com o clima?
Ela sentiu a temperatura de seu corpo subir alguns graus acima do aceitável. Sentia-se com febre. Suor formou-se em sua fronte e no seu couro cabeludo. Suas axilas já estavam empapadas, assim como seu dorso e seu abdomem. Logo, logo precisaria de um banho para desfazer-se de todo esse suor, senão começaria a cheirar mal.
Afinal, que lugar era aquele em que estava? Lorena começou a retirar o pulôver e ficou somente com a camiseta de algodão por sobre sua lingerie. Queria desfazer-se da calça jeans, mas não queria ficar semi-nua na frente daqueles estranhos. E que língua desconhecida era aquela? Parecia espanhol, mas a inflexão, e algumas palavras estavam sendo ditas erradas. Sem dúvida era uma língua latina, talvez português, que era tão parecida com espanhol.
O rapaz robusto passou a tocá-la enquanto a avaliava apreciativamente. Ele era um cafajeste. Ela sentiu um empurrão nas costas. A garota a estava inquirindo enquanto a empurrava em direção a outro cômodo. Parecia ser uma jovem de má índole, odiosa.
"Eles são apenas crianças. Não é certo agredi-los, pois sou mais forte e mais velha que eles. Mas talvez possa corrigi-los com um pouquinho mais de força física, para o próprio bem deles." Lorena pensou.
No instante seguinte, quando Glauco tentou tocar-lhe o seio, ela lhe deu uma chave de braço que o atirou ao chão, subjugando-o; ao mesmo tempo em que Lorena desviou-se de um golpe de Gláucia, que veio em socorro do irmão. Lorena aproveitou o impulso de Gláucia para atirá-la com força contra a uma parede próxima. A garota desmaiou.
Lorena ainda esperou alguns minutos para ver se a garota iria recobrar os sentidos para atacá-la novamente. Após ter certeza de que isso não aconteceria tão cedo, ela se voltou para o rapaz, todo contorcido, com o braço preso em suas mãos, e o pescoço sob sua bota. Resolveu alertá-lo.
– De novo me atacas, te rompo el brazo. Entiende? — Lorena falou na língua que ela achou fosse português.
– Entendi! Agora me solta! — Falou um choroso Glauco.
Ela o soltou, mas continuou encarando o rapaz como se fosse uma pantera, esperando para dar o bote. Glauco se levantou amparando o próprio braço, ainda envergonhado porque estava chorando e porque havia apanhado de uma mulher. foi até a cozinha e encheu um copo de água da torneira. Ele o despejou na cara de Gláucia, que despertou de seu torpor. Ambos se evadiram para a cozinha, para tratarem de seus machucados.
Lorena ainda ficou encarando-os de longe, mas resolveu cuidar de si mesma. Estava banhada em suor. Precisava urgentemente de um banho, por isso apanhou suas roupas pelo chão e voltou para sua kitenete. Em sua pressa não percebeu que uma moedinha havia caído de seu bolso, e que agora jazia escondida atrás da porta. Ela ficou para trás.
E quando Lorena voltou para seu quarto, ela tomou um choque térmico, pois, por mais quente e aquecido que fosse seu lar, não era nem de longe tão sufocante e úmido quanto o ambiente em que estivera há pouco. Ela voltou a sentir frio, mas resolveu tomar o banho que prentendera. Por curtos cinco minutos, que foi o quanto pôde aguentar naquele frio de 10 graus centígrados, que era a temperatura de sua kitenete, com aquecedor e tudo.
Ela imaginava o que fora tudo aquilo. Afinal de contas, porque o clima tinha dado uma volta de 360 graus ao sair de casa? E mais importante, porque aqueles portuguesesinhos de maus bofes a estavam hostilizando? Ela imaginava mil e uma explicações para tudo aquilo, enquanto se envolvia em seu cobertor elétrico. A resposta que lhe pareceu mais sensata era que estava enlouquecendo de tanto frio.
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