Notas iniciais
"Exatamente! Você não entenderia, você poderia até se atacar! Você não entende? A Profª McGonagall me contou as coisas horríveis que aconteceram quando bruxos mexeram com o tempo... Montes deles acabaram matando os eus passados ou futuros por engano!" Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban por J. K. Rowling


Lorena estava encolhida perto da cerca branca, próxima aos roseirais. Os reporteres e fotógrafos a botaram para escanteio sem maiores cerimônias. Eles não a queriam no meio do caminho, não queriam saber nada a respeito dela, afinal ela não era ninguém. A estrela era ele, seu padrinho e amigo, o mestre. Alguns se referiam a ele como o homem mais inteligente da Terra. Ela imaginava se tudo aquilo não era somente uma grande ignorância por parte das pessoas.


Entretanto, tinha que admitir que ele tinha carisma. E um bom coração. E talvez por causa desse bom coração é que ele se deixava fotografar e respondia àquelas perguntas bizarras feita por leigos. Ela o conhecia o suficiente para saber que ele deveria estar rindo irônico, intimamente. Se eles fossem seus alunos, ele dissecaria pergunta por pergunta, e provaria por A+B que eles, os repórteres, não sabiam patavina de nada.


Bem, isso é algo que ela faria, mas seu padrinho era um homem educado e um cavalheiro. Ele jamais humilharia estas pessoas, esfregando na cara delas sua falta de instrução. Decerto era isso que ela vinha recebendo do mestre: compaixão e simpatia, justo quando ela achava que havia compreendido os meandros da física quântica, ou que havia aprendido a raciocinar logicamente.


Que tola que ela fora. Ontem mesmo estiveram discutindo sobre problemas emocionais, como se ela fosse uma garotinha mimada e ele fosse um avô zeloso. Ela agradecia a bondade dele, mas gostaria de ser tratada como a intelectual que seria algum dia. Pretensiosa demais? Sem dúvida, mas se ela conseguisse fugir do destino de sua mãe, já seria uma vitória.


Sua mãe sempre fora uma aluna exemplar, e sempre impressionara por seu brilhantismo e fácil entendimento. E o que ela fizera de seu grande futuro e de todas as expectativas de seus mestres? Abandonara tudo isso para casar-se e gerar filhos. Em vez de equações matemáticas, aprendia receitas de rosbifes. Em vez de queimar a retina em experimentos de termodinâmica, gastava a visão cerzindo remendos em meias velhas. Em vez do Prêmio Nobel deu a luz a uma penca de filhos.


Uma vozinha interior lhe dizia que ser mãe de família não era menos digno do que ser uma matemática ou física brilhante, mesmo assim ela considerava tudo muito injusto. Quer dizer, uma mente genial deveria ser laureada e reverenciada como a de Einstein, e não relegada a um álbum acadêmico, e mesmo sendo cientista, a mulher deveria dedicar o resto de sua vida na criação dos filhos.


Lorena suspirou. Talvez estivesse perdendo a cabeça por pensar semelhantes tolices. Toda mocinha sabia que o futuro da mulher estava em dedicar-se a um marido e ter muitos filhos. Qualquer coisa fora disso a faria profundamente infeliz.


– Senhorita, por favor, poderia se afastar daí? Preciso colocar minha câmera fotográfica em um tripé. — Um fotógrafo barrigudo a tirou de seus devaneios.


– Ok! — Lorena falou baixinho e resignada.


Ela se dirigiu à cozinha da residência do mestre. Sentou-se à mesa e tentou relembrar a conversa que tivera no dia anterior com o velho cientista.


– Para que quer uma máquina do tempo, Lorena?


– Para voltar ao passado e consertar aquilo que uma vez deu errado. Imagine se alguém pudesse voltar no tempo e ... sei lá, matar Hitler, antes que ele pensasse em ser um ditador sanguinário. — Lorena respondeu com entusiasmo.


– Ou voltar no tempo e evitar que o Presidente Lincoln fosse assassinado por um simpatizante dos confederados. — O mestre pareceu encarar aquilo como um jogo de trívia.


– Exato! Poderíamos voltar mais ainda e evitar que Maria Antonieta fosse guilhotinada.


– Ou voltar ao tempo de Jesus Cristo e livrá-lo da cruz.


Lorena parou de andar, algo pasma. Parecia considerar algum argumento. O velho cientista também parou de andar e ficou esperando bonachão que ela concluísse o raciocínio da réplica.


– Mestre... se Cristo não morresse na cruz, então não existiria cristianismo, pelo menos não do modo como o conhecemos.


– Ou seja, nós alteraríamos nosso futuro. As coisas seriam diferentes do que são atualmente. Já pensou querida, que ao voltar ao passado, você acidentalmente matasse seu próprio avô? Você simplesmente acabaria com sua própria existência, e por conseguinte nunca faria uma viagem de volta no tempo.


– Certo! O Senhor tem razão. Ainda assim, eu voltaria no tempo para matar Hitler.


– Então, Hitler morreria, e estaríamos aqui discutindo acerca de outro genocida, talvez não alemão, talvez uma mulher, ou quem sabe, ainda em gestação, planejando sua ação para um futuro próximo.


– Onde quer chegar?


– Que não podemos mudar o passado. Ao tentar fazer isso, apenas criamos variações do futuro.


Lorena o encarou resoluta.


– Ainda assim valeria a pena.


– Lorena querida, qual é o verdadeiro motivo por baixo dessa sua obsessão com viagens no tempo?


Um barulho de coisa se quebrando chamou sua atenção. Algum jornalista afoito acabou quebrando uma das janelas da residência dos Einstein. Os empregados da casa correram para ver o estrago, enquanto Frau Einstein dirigiu-se para fora, com certeza para encerrar aquele encontro com a imprensa.


Lorena não saiu do lugar onde estava. Olhou para as próprias mãos. Elas lhe pareceram normais, macias, pálidas, sem nenhuma mancha ou sujeiras sob as unhas. Não sabia por que as mãos lhe chamaram a atenção. Talvez porque lembrasse das mãos de alguém, mas não conseguia dizer de quem seria. Resolveu voltar às suas lembranças do dia anterior.


– Eu apenas acho que seria genial se...


– Por favor, diga-me a verdade. — O mestre falou grave.


– Mestre, eu ... eu apenas sinto uma angústia me consumir. Eu sinto que preciso agir, que preciso mudar o passado. Consertar algo muito errado que aconteceu. Se ao menos as viagens no tempo existissem, isso resolveria todos os meus problemas.


Ela não sabia por que, mas começara a soluçar. O mestre a abraçou e acariciou seus cabelos.


– Já passou querida, já passou. Você é muito jovem, ainda não viveu nada. Você verá que aquilo que lhe parece ser terrível hoje, daqui a dez anos lhe arrancará risadas. Não existe nenhum problema sem solução, e todos os problemas podem ser resolvidos.


Lorena chorou mais ainda, sem saber exatamente o motivo.


– A verdadeira chave da sabedoria é aceitarmos a nós mesmos, como realmente somos. Todos os nossos erros nos fazem ser o que somos. Não é a perfeição que forma o caráter dos homens, mas o conjunto de tudo: erros e acertos, o errado e o correto, o inconcebível e o sublime. Deveria aprender a perdoar, Lorena.


Ao ouvir aquilo, Lorena empurrou seu mestre e o olhou transtornada.


– Nunca! — Lorena gritou e fugiu dali o mais rápido que pôde, deixando o velho homem preocupado e triste.


Lorena afastou-se de suas lembranças e recordou o motivo que a fizera voltar hoje à casa de seu padrinho. Precisava se desculpar por seu péssimo comportamento, senão o mestre acharia que estava louca. Olhou para as próprias mãos novamente. Elas estavam diferentes. Manchadas, encarquilhadas, com os nós dos dedos volumosos, e as unhas encardidas de amarelo. Pareciam mãos de uma idosa. Lorena escondeu as mãos rapidamente nos bolsos do cardigã que vestia. Tentou se acalmar. Ela era jovem demais para estar perdendo a razão.