Lorena
9 A Aluna II
Notas iniciais
Um garoto de boina de brim bateu palmas no portão da cerca branca. A mãe de Lorena foi atender. Estava um dia ensolarado, mas mesmo assim, um tanto frio. Estaria fazendo o que? 15 graus centígrados? Isso não seria incomum, mesmo nessa época do ano. As flores sofriam, mas ao menos o clima era suportável. Ainda bem que ela vestira o casaquinho de flanela por sobre o avental.
– Trago uma mensagem da casa dos Einstein. É para a Senhorita Lorena. — O garoto entregou um envelope.
– Obrigada! Está entregue. Pode ir. — A mãe de Lorena despachou o garoto com um aceno de mão.
O garoto montou em sua bicicleta e se foi embora pedalando.
A jovem senhora ficou curiosa. Ela se sentia orgulhosa por ter o maior cientista do mundo em seu círculo de amizades, e incentivava o envolvimento da filha com aquela família, mas achou um tanto esquisito mandarem cartas para ela, quando eles moravam a algumas quadras de distância, e a filha ia vê-los quase que diariamente. Gostaria de ler aquela carta, mas achou melhor respeitar a correspondência alheia.
Ao entrar em casa chamou por sua filha. Como ela não respondesse, subiu ao segundo andar e foi até seu quarto. Bateu a porta de leve e a chamou novamente. Nenhuma resposta. Ao forçar a maçaneta, descobriu a porta aberta. O quarto de menina, com cortinas na janela envidraçada, papel de parede floral, uma cama de solteira, um guarda-roupas, uma cômoda e mesinha de estudos, estavam arrumados e limpos. Tudo na mais perfeita ordem. E Lorena não estava lá.
"Que estranho!" Pensou. Vencida pela curiosidade abriu o envelope e leu a carta. Ela dizia o seguinte:
"Querida Lorena,
Perdoe-me por não ter lhe dado atenção no dia de ontem. Deus sabe que renego esta fama e assédio que me acompanha. Infelizmente são os ossos do ofício. Sempre fui um trabalhador dedicado e pensador espartano. Não necessito de toda essa atenção que as pessoas me dedicam, como não necessito que me reverenciem ou me idolatrem. Não sou um deus, sou só um homem velho, com artrite e estômago fraco. Digo-lhe que às vezes até me esqueço o que estou falando, se não tiver um discurso preparado para ler.
Sinto muito que nossa última conversa tenha sido tão tulmutuada. Não pretendi irritá-la ou transtorná-la. Você é muito querida de minha família. Minha senhora e eu ficamos verdadeiramente gratos e lisongeados com sua amizade e carinho. Se ainda estiver chateada comigo, peço-lhe que me perdoe. Se a zanga já passou, então nos visite novamente. Elsa até preparou uma torta de chocolate para lhe presentear, se for do seu agrado. Quanto a mim, estou totalmente aberto a discutir viagens no tempo. Se H. G. Wells pode, por que eu não?
Com carinho
Albert"
A mãe de Lorena não gostou daquela carta. Não havia nada demais ali, mas algumas vírgulas e pontos parágrafos deixavam entrever intimidade e conflito. Talvez ela fosse uma mãe zelosa demais, ou talvez estivesse procurando cabelo em ovos, mas um sexto sentido não a deixava sossegar. Ela dobrou a carta meticulosamente e guardou o envelope no bolso do seu avental.
Resolveu encontrar sua filha. Foi até a janela e olhou para fora. Ela não estava no quintal. Foi até o sótão sem esperanças de encontrá-la. Provavelmente já deveria estar metida na casa do cientista, pois não saía de lá, ultimamente. Encontrou-a ajoelhada no canto mais iluminado do sótão, embaixo de uma clarabóia, com um álbum de família aberto no chão, e algumas fotos amareladas e esfumaçadas pela ação do tempo, espalhadas em volta.
– Lorena, preciso lhe falar.
– Huh! Poxa, mãe! Me assustou! Eu não vi você chegando. — Lorena falou colocando as mãos no peito, como se para segurar o coração.
– Filha, o Doutor Einstein lhe enviou uma carta.
– Uma carta? Cadê? — Lorena falou levantando-se de sopetão.
A mãe lhe entregou a carta que ela leu imediatamente com mãos sôfregas, ansiosa. Um sorriso iluminou seu rosto. Sua mãe a observava atentamente com um vinco entre as sobrancelhas.
– Oh, ele pede desculpas por ontem, mas não foi culpa dele. Foram aqueles malditos fotógrafos e repórteres. — Lorena falou excitada.
– Lorena! Olhe o linguajar!
– Desculpa, mãe, é que eu fiquei feliz. Os fotógrafos, repórteres e jornalistas praticamente me empurraram para longe e não me deixaram chegar perto do meu padrinho, e eu queria tanto falar com ele. Nem Frau Einstein pôde ficar perto dele. Ficaram o tempo todo tirando fotos e fazendo perguntas ridículas, como se entendessem de ciências, mas não entendem.
– Lorena, não acho que seja apropriado que você monopolize este senhor e sua esposa.
– O que disse? — Lorena perguntou espantada.
– Não gostei do modo como ele lhe tratou nessa carta. Achei um excesso de gentileza e intimidade. Afinal você ainda é de menor e uma donzela, e ele é um homem casado.
Lorena olhava pasma para a mãe, com a boca aberta, como se quisesse falar algo, mas o choque daquelas palavras que ouvira não a deixassem.
– De hoje em diante quero que limite sua ida à casa dos Einsteins. Você só irá até lá nos fins de semana, e acompanhada do seu irmão, pelo bem da sua reputação. Estamos entendidas?
– Ah... eu... ah...
– Responda corretamente, Lorena. Eu não crio retardados, nem macacos amestrados. Fale como gente.
– Eu estou indignada! — Lorena falou com lágrimas nos olhos.
– Lorena!
– Dia virá em que este homem será reverenciado como uma lenda. E todos aqueles que compartilharam de sua existência se sentirão agraciados com a centelha da genialidade.
– Não se refira a ele como se fosse Deus. — A mãe gritou.
– Não me refiro. Apenas queria que a senhora entendesse que é um privilégio poder dialogar com ele. Cada minuto que eu passo andando, conversando, ou apenas escutando aquele homem falar, dá sentido a minha existência. Eu me sinto importante, mãe, por apenas desfrutar da companhia dele.
– Cale-se, ou eu a proibirei de voltar àquela casa.
Lorena se calou e baixou a cabeça. Abraçou-se a si mesma e se deixou cair de joelhos contrita. Tinha lágrimas nos olhos, mas se obrigou a ficar em silêncio. Sua mãe estava tão alterada quanto ela. Ficou andando em círculos, até que finalmente se resolveu por arrancar a carta de Einstein das mãos da filha, que não ofereceu resistência. A seguir se retirou do sótão e se dirigiu ao próprio quarto.
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