Lorena
6 Sincronicidade
Notas iniciais
Ela morava no terceiro andar de um prédio em estilo Art Noveau, mas seu quarto tinha todas as comodidades que uma pessoa do século vinte e um poderia querer. Não bastasse isso, sua governanta, babás e um tutor garantiam que nada lhe faltasse. O fato de ser uma herdeira órfã, multimilionária tinha suas vantagens. O problema mesmo era o tédio de ver todos os seus desejos serem atendidos. Ela estava precisando de um desafio.
Lorena havia chegado há pouco da escola. Suas notas não eram as melhores, e ela cultivava uma intolerância e atitude desafiadora para com suas professoras. Se ela pudesse simplesmente deixar de estudar, seria muito bom. Infelizmente quem desiste de estudar não desenvolve a mente. E aí é que seu mundinho entediante ia ficar mesmo asfixiante.
Ela foi até a grande janela envidraçada de seu quarto. Admirou a paisagem lá fora. O maldito rio continuava plácido e verde musgo como sempre. Ao longe os monumentos arquitetônicos da cidade eram visíveis. Afinal quem tivera a ideia brega de fazê-la morar em um maldito cartão postal? Até isso a irritava. O simples fato de ser uma menininha mimada e petulante, que mora no topo do mundo onde todos queriam estar, já a tornava automaticamente uma chata de galocha.
Lorena virou-se aborrecida, dando as costas para a paisagem da Cidade-Luz. Foi então que algo estranho aconteceu. A imagem a sua frente não era a de seu quarto, mas um outro lugar, um outro quarto. Menor, mais simples, e cheio de brinquedos de crianças pequenas. Ela ficou estática por um momento, sem saber o que fazer.
Não sentiu medo, apenas curiosidade. O fato de sua realidade ter se transformado abrupta e tão drasticamente, tornava tudo mágico e especial. Ela deu alguns passos em direção àquele novo ambiente. Olhava tudo encantada e respeitosamente. Sua mente começou a conjeturar explicações. Será que ela havia atravessado um portal para Nárnia? Será que ela fora magicamente teletransportada para outro universo? Outro apartamento?
Haviam Barbies sentadas em cadeirinhas, em volta de uma mesinha de plástico. Eram belíssimas. Fora isso, uma cama pequena e uma antiga TV de válvula, com antenas de orelha de coelho, compunham o pouco mobiliário do quarto infantil. Lorena teve curiosidade em ver o resto daquela casa, por isso não hesitou em abrir a porta daquele quartinho de menina.
Infelizmente ao abrir a porta, Lorena deparou-se com o corredor de seu apartamento, e ao se voltar para trás, estava novamente em seu quarto. Ficou decepcionada. Por um momento pensara ter sido transportada para uma outra dimensão, para viver uma fantástica aventura, mas agora...
Lorena balançou a cabeça negativamente. Devia ser sua depressão ou os malditos remédios que fora obrigada a tomar. Eles a estavam deixando meio enlouquecida, vendo e imaginando coisas que não existiam. Riu sarcástica. Ela era jovem demais para ficar demente, mas até mesmo isso seria mil vezes mais atraente do que a rotina em que vivia.
Atirou-se em sua confortável cama, chutando os tênis Nike dos pés e alcançando o iPhone no criado mudo. Seu grupo no whatsapp teria um prato cheio para zoar dela, mas tudo bem, precisava extravasar suas bobagens e insanidades. E depois, sempre poderia desconectar-se do aplicativo na hora que quisesse, sem se importar com o que falassem dela.
O que Lorena não percebera foi que no momento em que ela estava em outro quarto, outra pessoa estivera no seu. Uma garotinha de nove anos, que atendia pelo mesmo nome, e que ficara deslumbrada e assustada com a repentina mudança. A menininha a princípio começara a chorar, se encolhendo em um canto, mas depois a curiosidade a vencera e ela começara a mexer nos objetos daquele quarto fabuloso.
Até mesmo tocara na televisão fina e negra que era muito maior que a sua. Um outro objeto chamara sua atenção. Uma prancha de metal que se iluminava ao passarmos o dedo sobre ela, refletindo sua imagem como um espelho. Ao encostar o dedo em uma mancha vermelha na superfície, alguns números apareceram e iniciaram uma contagem. Ela tocou neles e os apertou, mas nada se modificou.
Deixou aquele brinquedo de lado e teve vontade de dormir naquela cama enorme e tão macia. Subiu na cama e repousou a cabecinha no maior travesseiro que já vira. Fechou os olhos e raciocinou que nunca dormira em cama mais maravilhosa em sua vida inteira. Então adormeceu. Quando acordou, duas horas depois, estava em sua caminha dura de menina, e chegou à conclusão de que havia sonhado com tudo aquilo.
Após enjoar do whatsapp, Lorena resolveu gravar algo para o you tube. Assustou-se ao ver que o gravador estava ligado. Resolveu descartar o vídeo, mas uma curiosdade mórbida a fez conferir o que havia sido gravado. Diante dela surgiu uma menininha muito parecida com ela mesma, que passava o dedo na tela do tablet, até largá-lo para fazer outra coisa. Foi apenas um minuto, mas coincidiu com o momento em que ela fora transportada para o quarto infantil. Lorena ficou emocionada e nervosa, sem saber o que tudo aquilo significava.
Várias possibilidades lhe passaram pela mente. Fantasmas? Seres extraterrenos? Portal interdimensional? Ou simplesmente loucura? Talvez até mesmo a filha de alguém que entrou sem ser vista no seu quarto. Essa era a resposta mais lógica, mas era muita coincidência que ela tivesse vivenciado uma experiência de estar em outro lugar, ao mesmo tempo em que aquela criança estivera em seu quarto, como em uma sincronia. Lorena chegou a chorar pensando nisso.
Vários dias se passaram em que este evento não mais se repetiu. Lorena salvou a gravação da menininha, e até mesmo procurou identificá-la junto a amigos e as babás. Sabiamente ela procurou evitar responder perguntas sobre quem era aquela menina, e como ela havia tido acesso o seu tablet. Ela suspeitava que sua estória lhe renderia mais intervenção médica.
Uma outra Lorena, a menina de nove anos, continuava a ter estranhos sonhos em que desfrutava de um luxuoso quarto em uma cidade muito bonita. Ela mexia em aparelhos eletrônicos nem tão complicados, e até assistia estranhos desenhos animados no imenso aparelho de televisão, fininho com um quadro de parede.
Ela nunca tentou sair do quarto, pois tinha medo do sonho se transformar em pesadelo. E quando ela tinha saudades de sua avó, simplesmente deitava na cama e fazia força para dormir. Isso sempre dava certo, e ela, ao abrir os olhos novamente, estava de volta ao seu velho quarto de bonecas, e no regaço de sua avó. E isso era muito bom.
Fale com o autor