Loren, The Strange
5 Parte 4 – A reação bizarra de Ross
Loren, the Strange
Parte 4 – A reação bizarra de Ross
Os olhos de Ross se arregalaram de espanto; ele prendeu a respiração e permaneceu inerte, com a boca entreaberta tentando proferir alguma palavra racional – em vão.
- Eu sei que você deve me achar tão louca quanto dizem por aí, mas acredite em mim: é verdade. Eu não os vejo por que quero, simplesmente... Acontece – Loren, que apertava uma mão na outra com força, suspirou pesadamente enquanto contava a Ross, detalhadamente, tudo o que sabia a respeito.
O garoto, no entanto, permanecia estranhamente inexpressivo e calado, sem demonstrar emoção alguma – nem medo, nem repúdio, nem pesar -, como se já tivesse ouvido aquela história várias e várias vezes.
Loren ficava mais nervosa a cada instante, tendo certeza absoluta de que tal atitude não passava de ironismo, e que Ross desacreditaria em cada palavra dela. Suas mãos tremiam levemente só de pensar nisso, mas se ela havia decidido contar até o fim, ela contaria, mesmo que estivesse cavando a própria cova.
- ...por isso você teve a convulsão hoje. Aquele homem... Eu consegui tira-lo de você; acho que tenho poder de cura, mas ainda não sei controlar direito... – ela suspirou, derrotada – Agora diga alguma coisa, não sei o que esse seu silêncio significa, Ross.
Ele pendeu a cabeça para trás, apoiando-a na cabeceira da cama, enquanto mirava o teto de forma vaga e de certa forma, impaciente. Quando voltou a olhar Loren – que o encarava com toda a expectativa-, o rapaz parecia decidido, ao mesmo tempo em que não sabia por onde começar.
- Eu já sabia de tudo isso, Loren.
- Mas como? É impossível você saber, eu...
- Eu sei porque tive um amigo que era como você; as mesmas palavras, as mesmas experiências, exatamente como você contou. Ele também dizia que espíritos dominavam meu corpo, mas ele não sabia como tira-los.
- O que houve com ele?
- Bom, a família dele não gostava disso, sabe? Diziam que era invenção da cabeça dele e que eu era uma má influencia, e por isso devíamos nos afastar. Mas lógico que não nos afastamos, ele era meu melhor amigo afinal. Mas ele piorou, ficou estranho derrepente, mas eu não imaginava que Tristan estava se drogando.
- Sério? – perguntou a garota. O rosto do rapaz assumiu uma expressão vazia, mas ele não respondeu.
- No Natal eu escalei a janela do quarto dele, como eu sempre fazia quando queria vê-lo, mas ele não estava lá, assim como não esteve lá em nenhum outro dia da semana. No Ano Novo a gente havia combinado de se encontrar, como sempre fazíamos, mas ele não foi.
- O que houve com ele?
- Se suicidou – disse num fio de voz, mordendo os lábios com força – e ninguém me disse nada; nem da morte dele, nem do enterro. Nada!
- Sinto muito – disse num sussurro, sem nem ao mesmo saber se dizia ou não.
- Já superei. Mudei de escola e tudo mais – ele olhou para ela, seus olhos negros pareciam mais frios do que nunca – No entanto apareceu você aqui, e logo de cara já se mostra igual a ele.
- Não sou igual a ele! – afirmou indignada – não uso drogas, e por mais que a minha vida seja uma merda eu não pretendo me matar.
Ela mordeu a língua.
- Desculpa, mas quis dizer isso.
- Não esquenta. Já disse que superei.
- Então você acredita em mim? – perguntou a garota, recuperando o assunto inicial, bruscamente.
- Loren, depois do que aconteceu com Tristan eu quis me afastar de tudo isso, de toda essa... loucura. Eu achei que ia ter uma vida menos problemática me afastando disso – e sob o olhar de reprovação da garota, ele continuou – Mas agora eu vejo que não posso me afastar; já faz parte de mim.
Loren delineava a cruz em seu pescoço, passando os dedos sob o relevo do símbolo de metal, quando o rapaz pegou em sua mão, suavemente.
- Eu gosto de você Loren – ele sorriu – oficialmente, sou tão louco quanto você.
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Quando Bad pulou em meu colo, com seus olhos amarelos reluzindo de satisfação – ele havia acabado de arranhar Daniel de cima a baixo -, eu me lembrei do dia em que havia o encontrado, quase morto na friagem daquela rua imunda, tão pequeno e recém nascido. Eu realmente havia o curado naquele dia, e acho que foi por isso que Bad se afeiçoou tão rápido a mim.
Estava feliz, mesmo com Daniel praguejando Bad na porta do quanto, eu estava feliz. Por ter encontrado um amigo, e uma pessoa que acredita em mim, e isso era um motivo mais do que forte para me levar a pular a janela e escapar daquele antro de gente bizarra.
Com Bad no meu encalço, eu desci o morro cercado de casinhas pequenas e andei próximo ao rio, sob a vegetação mal cuidada que aos poucos atraia cada vez mais insetos e caramujos africanos. Quanto mais longe eu ia, mais carrapichos iam aparecendo no meu jeans — não que eu me importasse é claro, sou eu que lavo mesmo.
Eu estava distraia vendo Bad perseguindo uma borboleta, quando uma voz me desperta de meus devaneios.
- E aê, Loren?
Do outro lado da rua estava Ross, com um estilingue na mão, acenando alegremente.
- Ah, oi.
- Não me diga que mora aqui perto – disse ele se aproximando.
- Na verdade, não. Eu dei uma fugida e vim passear com Bad – eu apontei para o gato que tentava inutilmente pegar a borboleta – Moro um pouquinho longe daqui.
- Certo então – ele apontou o estilingue para a lâmpada do poste e atirou – Droga!
- Errou feio, hein? – a pedra havia batido a mais ou menos um metro e meio abaixo da lâmpada.
- Eu ainda estou eu fase de treinamento, entende?
- Sei.
- Enfim, aproveitando que o velho não está, vem ver como é a minha adorável casa – ele disse ironicamente, me puxando para dentro de uma casinha pequena e verdadeiramente desorganizada.
- Bizarro – foi como eu consegui descrever aquela bagunça sem fim, onde revista, livros, roupas e comida tentavam ocupar um mesmo espaço. Pelo menos Bad havia encontrado um passatempo produtivo: caçar baratas.
No final de um corredor estreito havia uma porta pintada de preto, cheia de adesivos colados um por cima do outro. Quando Ross abriu a porta, parecia que tínhamos entrado em outra casa.
- Esse é o seu quarto? – perguntei espantada. O quarto era todo dividido entre livros, jogos de Playstation, CDs e tudo mais. Um ambiente limpo, respirável e organizado, ao contrário do resto da casa.
- Eu me cansei de limpar a bagunça que aquele velho vive fazendo – disse dando de ombros – e aê, curtiu o meu quarto?
- Cara, troca comigo? – perguntei, já pegando os jogos de Ps2 e lendo as capas – seu quarto é dahora!
- Você acha? Eu queria uma casa melhor, sabe? Com a herança eu até podia arrumar, mas o problema é o meu tio: eu destrói tudo, como você pôde perceber.
- Ahã – respondi, vidrada na coleção enorme de mangás que ele tinha e depois passando para os pôsteres de banda e por fim, os livros – A coleção toda do Harry Potter?
- Os livros e os filmes – mas antes mesmo dele terminar, eu já estava vidrada na prateleira, onde um série de estatuazinhas de personagens de anime ocupava todo o espaço – Ross, eu vou roubar esse quarto pra mim!
Ele riu e então começamos a conversar, e ficamos assim pelo resto da tarde. E todas as outras tardes nós fizemos a mesma coisa, e antes de anoitecer eu ia embora, para o caso do tio dele aparecer. Mas um dia algo estranho aconteceu: um homem bêbado invadiu a casa, a adentrou bruscamente no quarto de Ross. Eu temia, pois já imaginava quem era.
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Notas finais
Enfim, o proximo cap. já está pronto - ou quase -, amanhã eu vou postá-lo, sem falta!
Até mais!
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