Loren, The Strange

2 Parte 1 - Medos


Loren, the Strange

Parte 1 — Medos

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Eu queria que todos fossem se danar; fossem à merda; pro cacete! Aquelas garotas que pensam que o mundo gira em torno de um espelho, e aqueles otários que se acham muito importantes. Eu os detesto, sério.

Dei graças aos céus quando finalmente pude ir embora daquele sanatório, ao mesmo tempo em que não queria ter que voltar para casa.

Antes mesmo de abrir a porta eu já ouvia os gritos histéricos da minha mãe no telefone. Eu passei pela sala e ela fez uma careta tipo “ah, já voltou?” e então apontou para a cozinha. O cheiro que vinha de lá era pavoroso; um típico almoço requentado de antes de ante ontem. Eu perdi a fome na hora.

Meu irmão Daniel é cinco anos mais novo do que eu — um pirralho de dez anos que faz de tudo para detonar minha imagem já apodrecida na frente da minha mãe.

Quando eu estava me arrastando exaustivamente até meu quarto, eu escuto.

- Mãeee...a Loren me deu um tapa – choramingou o garoto, que eu nem se quer tinha visto ainda.

- Não, eu não fiz nad...

- Cale a boca, sua garota mal educada! – veio gritando a mulher de cabelo curto repicado, unhas compridas e roupas de marca – se não se conforma de ser uma anormal revoltada, não precisa descarregar no seu irmão mais novo.

- Mãe, eu na...

- Calada! – ela berrou ao dar um tapa doido no meu rosto, com suas unhas pontudas raspando em minha pele.

- Se fodeu – li os lábios de Daniel, atrás de minha mãe.

- Agora vá para o seu quarto! Vai ficar sem janta hoje! – berrou, enquanto marchava até a sala, pegando a bolsa e saindo para fazer a melhor coisa que sabia fazer na vida: gastar o dinheiro da pensão que meu pai pagava para nós.

- Uuuh, a anormalzinha ta de castigo de novo, é? – disse Daisy, minha irmã de 17 anos – muito bom, Dan!

- Há, espera a mamãe chegar que tem mais – riu o garoto. Tão novo e tão maldoso.

- Sabe, garota – disse Daisy, enrolando a ponta do seu cabelo Chanel nos dedos – eu acredito, no fundo do meu coração, que você é adotada.

Se ela mordesse a língua, morreria intoxicada com o próprio veneno.

- Ah não, Daisy – retrucou o garoto – se fosse assim, a mamãe já teria devolvido, não é?

- Quem sabe o orfanato ou o hospício de onde ela veio, não quis aceitar ela de volta– disse crispando os lábios cheios de gloss cor de rosa e então dizendo, dramaticamente – Pobre mamãe! Adotou a criança errada! Adotou uma anormal!

Antes mesmo da explosão de risadas ecoarem pelo corredor, eu já havia me trancado no quarto, e de lá só sai na manhã seguinte.

Sorte minha que eu não sou sozinha, pois eles sempre estão aqui comigo. Todas as vezes em que perco a vontade de viver, eles ficam comigo.

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Mesmo desconhecendo a palavra, Loren era sensitiva. Ela via, sentia e ouvia coisas que os outros não podiam. Às vezes apareciam pessoas bondosas em seu quarto, que conversavam com ela nos momentos em que se sentia só. Outras vezes pessoas ruins apareciam na rua, cheias de ódio e rancor, tentando instigá-la a fazer coisas ruins.

Mas Loren não sabia distinguir as coisas que só ela podia ver.

- Você está perdida? – perguntou a uma menina mais nova que vagava pela sala de aula, quando tinha 10 anos – acho que está na sala errada.

- Não, na verdade eu estava com saudade daqui – respondeu a garotinha, que aparentava ter uns 6 anos – eu já estudei nessa escola antes, sabia?

- Ah, sério? Mas... – Loren olhou para a professora sentada na mesa, e os outros alunos conversando escandalosamente ao seu redor — estamos no meio da aula.

A garotinha sorriu e disse: Acho que eles não vão se importar.

- Bom, qual seu nome?

- Emily – respondeu a menina, que usava um vestido branco muito limpo, que parecia até reluzir. Loren não sabia como aqueles marmanjos não estavam zoando a garotinha ainda, mas estava feliz por poder conversar com alguém – eu gosto de borboletas amarelas e chocolate quente. Eu detesto água – disse a voz infantil — E sei seu nome, você é Loren!

- Como sabe meu nome?

- Loren! Com quem está falando?! – perguntou a rancorosa professora de literatura.

- Com Emily – disse apontando para a garotinha.

- Está louca? Não tem ninguém ai! – berrou a mulher.

- Claro que tem, professora, não está vendo? – disse olhando para a garotinha que parecia brilhar naquele vestido branco – Emily disse que gosta de borboletas amarelas e chocolate quente. Ela detesta água.

Nesse instante, Cassey, a garota carrancuda que sempre zoava minhas roupas desabou a chorar alto.

- Como se atreve? Como se atreve a falar dela, sua anormal?! – gritava a garota.

- Preciso ir – sussurrou a garotinha, e quando Loren piscou, ela havia desaparecido e levado consigo todo aquele brilho reluzente.

- Minha irmãzinha Emily morreu afogada num lago há 3 anos – disse Cassey entre lágrimas – enquanto corria atrás de uma borboleta amarela.

- Não! – disse Loren, mentalmente.

- Sua louca! Como pode dizer isso? Como pode dizer que estava falando com a minha irmã morta? Sua anormal!

Coisas assim deixavam Loren perturbada, e cada vez mais infeliz.

Conforme ia crescendo, a garota estranha de cabelo negro passava a ver mais e mais coisas estranhas. Ela ouvia sussurros suaves em seu ouvido e sabia das coisas antes delas acontecerem.

Loren acreditava em anjos, mesmo sendo criada sem religião. Ela podia ouvir seus sussurros doces, assim com às vezes ouvia o bater de assas e logo em seguida, uma brisa leve em sua face.

A garota estranha que punha medo nos outros e via espíritos, tinha um coração tão grande e gentil que, por ser diferente, nunca tinha sua bondade notada.

Foi num dia frio, que no meio de uma fina garoa que Loren ouviu um miado agudo entre umas caixas de papelão. Quando se ajoelhou no chão molhado e mexeu na caixa, viu um magrinho filhote de gato, com pêlos tão negros quanto seu cabelo.

Apesar das constantes tentativas da mãe de colocá-lo para fora, Loren conseguiu criar Bad em seu quarto, torcendo para que seu irmão sanguinário não envenenasse o gatinho.

Bad era o único amigo vivo de Loren, e ele era tão estranho quanto ela. Pois quando aparecia algum espírito em seu quarto, o gatinho se eriçava todo ou então, simplesmente miava para a visita.

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Já me perguntaram por que eu gosto de coisas macabras, de roupas negras e de filmes/livros de terror. Eu-não-sei! Sério, talvez eu curta só porque nada disso me põe medo. Nada disso me afeta como afeta as outras pessoas, e Bad também não se importa – ele é único, na verdade.

Bad perdeu o medo de água quando Daniel o enfiou dentro da privada, quando ainda era um filhotinho. Eu perdi o medo dos espíritos quando vi que tenho alguém me protegendo. Assim como perdi o amor que um dia eu poderia sentir por alguém, pois se as pessoas que deviam me amar, dizem constantemente que sou anormal, eu não tenho motivo para amá-las – não tenho motivos para amar pessoas, porque pessoa nenhuma no mundo é capaz de me amar como eu sou.

As pessoas são todas loucas, são todas anormais!

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Notas finais
Espero que tenham curtido...

A segunda parte já está quase pronta.