Looking around The lonely People
3 Some people really do that, think
Ela estava sendo prensada contra a cama, seus dedos agarraram os lençóis molhados de suor enquanto erguia os quadris sentindo a pressão crescente em seu corpo.
—Hermione. — os lábios dele estavam em seu pescoço e então em sua boca, um beijo profundo que lhe tirou o fôlego.
—Mais... — ela se ouviu gemer afundando as unhas em suas costas, seu corpo implorava pelo dele, pedindo cada vez mais. Ele empurrou com força contra ela, entrando e saindo com agilidade, a conhecia tão bem que sabia o que fazer para levá-la ao limite.
—Porra. — ele grunhiu quando ela gemeu mais alto e se viu caindo. Tão doce e tão suave. Ele logo veio cantarolando seu nome e sussurrando declarações de amor. — Eu te amo tanto, Mione.
Hermione abriu os olhos, íris azuis lhe saudaram com tanto amor e carinho que tiraram o ar de seus pulmões. Ela não conseguia respirar, seus olhos fixos no rosto dele.
—Ron. — ela se ouviu suspirar, ele sorriu e se inclinou para beijá-la mais uma vez.
Hermione se sentou na cama perdida e ofegante, seu coração estava acelerado e ela mal respirava. Jogou os lençóis para longe sentindo seu corpo quente, cada pequeno pedaço de sua pele parecia em chamas. Ela se levantou e correu para a janela, suspirou aliviada quando a brisa da noite esfriou seu corpo, aquele sonho ainda rodava em sua cabeça, as imagens dele lhe beijando, tocando-a, os seus sussurros, sua voz rouca contra o ouvido dela. Hermione balançou a mão contra o rosto, se abanando, tentando dissipar a torrente de pensamentos que lhe deixava sem ar.
Maldito sonho. Como ela podia sonhar com alguém que havia acabado de conhecer? Principalmente um sonho tão picante como aquele.
—Hermione. Hermione. Não faça isso. — ela sussurrou para si mesma. Ela não o conhecia, eles só haviam se visto duas vezes e ambas tinham sido encontros rápidos demais para qualquer coisa.
—Hermione? — Draco entrou no quarto, seus olhos vagaram para a cama vazia antes de se voltarem para ela. — Você está bem?
—Sim. Acabei de acordar. Que horas são?
—Quase oito da noite. Dorcas mandou uma mensagem, vamos nos encontrar com ela no Largo.
—Ok. — Hermione suspirou passando a mão pelo cabelo, os grossos cachos prenderam-se entre seus dedos. — Me dê dez minutos.
—Está bem. Eu estarei esperando na sala.
Hermione esperou Draco sair do quarto para poder correr até o banheiro, abriu a torneira da pia e jogou água gelada em seu rosto tentando apagar as imagens e sensações que vinham com o maldito sonho. Ergueu os olhos e encarou seu reflexo no espelho.
—Veja bem. Vamos descobrir o que diabos aconteceu hoje e apenas isso vai ficar na nossa mente, esqueça o maldito sonho.
Ela respirou fundo, fechou a torneira e saiu do banheiro em busca de roupas decentes. Quando Draco a trouxe para casa, tudo o que Hermione conseguiu fazer foi deitar na cama e dormir pelo o que parecia horas. Sua cabeça ainda estava doendo e todas aquelas perguntas estranhas borbulhavam em sua boca prontas para sair assim que alguém lhe desse uma brecha, mas Draco estava sério demais, até um tanto irritante sendo superprotetor com ela, era como se a qualquer momento algo entrasse pela porta e tentasse lhe matar.
Ignorando as misturas de sentimentos rodopiando em sua barriga, Hermione saiu do quarto e sorriu para Draco. Eles pegaram um táxi para o Largo, Hermione observou os prédios ao seu redor mudarem enquanto saiam de Walworth e cruzavam o rio Tamisa, Draco se manteve em silêncio, algo que ela não reclamou.
—Onde estamos? — Hermione indagou sem reconhecer o bairro que estavam.
—Borough of Islington. — Draco respondeu, depois voltou a ficar em silêncio.
Hermione apoiou a cabeça na janela e observou, as ruas iluminadas a fizeram franzir a testa, e novamente, aquela sensação de familiaridade se instalou em seu peito. O táxi parou em um parque, Hermione desceu sentindo a brisa fria de Londres.
—Vamos, temos que cruzar o parque para chegar lá. — Draco estendeu o braço e Hermione aceitou. Seus olhos corriam pelas árvores e pessoas que ainda passeavam pelo parque. — O Largo pertence ao meu tio, está na família há gerações, é um lugar escuro e sombrio.
—Você não parece gostar de lá. — Hermione comentou, Draco se voltou para ela, seus olhos cinzas pareciam distantes.
—Não muito. Sirius também não, mas é o único lugar seguro o suficiente para as reuniões.
—Reuniões?
—Bem, eu não entendo o motivo de Dorcas querer que você esteja lá hoje à noite, mas creio que ela esteja planejando algo.
—Ela disse que iria me explicar tudo.
—Sim, ela vai. Mas antes irá precisar convencer a todos que essa é uma boa ideia.
—E por que não seria uma boa ideia me explicar tudo? — Hermione indagou se sentindo irritada.
—Por tantos motivos, Hermione. Mas o principal é que eu não quero que você se envolva nisso.
—Nisso o que, Draco?
Draco parou de andar, a forçando a parar também. Eles haviam chegado ao fim do parque, parados à frente uma rua de casas antigas, pequenos portões de ferro e prédios de tijolos. Hermione olhou para as casas e então para Draco, ela esperava que ele se movesse em direção a uma das casas, mas ele apenas piscou. Ela voltou para as casas, de repente algo começou a surgir entre as casas onze e treze, uma fileira de tijolos sujos que logo se seguiu de outra e então a sua frente surgiu uma nova casa. Hermione ofegou surpresa, apertou o braço de Draco e piscou.
—O que diabos…?
—Venha. Temos pouco tempo. — Draco a guiou em direção à nova casa. Hermione tentou fugir da onda de ansiedade que a dominava, eles subiram os degraus da velha casa, Draco se manteve calmo, até um pouco demais dada a situação.
A porta de madeira se abriu e Hermione suspirou aliviada quando Dorcas sorriu para ela.
—Vamos, querida. Temos muito o que conversar. — Dorcas deu passo para o lado e deixou que eles entrassem. Um longo corredor se estendeu a frente dela, Hermione seguiu Dorcas até o fim do corredor, ouviu vozes enquanto se aproximava do que parecia ser uma ante sala, o sofá velho e escuro estavam sentados um casal, ambos pareciam não ter mais do que quarenta anos, a mulher tinha um cabelo vermelho escuro e olhos verdes, ela sorriu docemente quando Hermione se aproximou, o homem, o mesmo do trio que havia visto mais cedo, não sorriu para ela, apenas a encarou de uma maneira que a fez tremer por dentro. — Hermione, estes são Lily e James Potter, eles são meus amigos e irão explicar o que aconteceu hoje mais cedo.
Hermione olhou para Dorcas e então para o casal. Havia muita tensão no ar, era óbvio que ela não deveria estar ali.
—Sente-se, querida. — a senhora Potter indicou a cadeira vazia perto da lareira, seus olhos verdes estavam calmos. Algo cutucou a mente de Hermione, olhos verdes deveriam ser agitados e inquietos. — Sei que tudo o que aconteceu hoje está sendo demais para sua cabeça, mas não se preocupe, estamos aqui para responder cada pergunta que tenha.
Hermione colocou as mãos sobre os joelhos e assentiu minimamente, ela percebeu que cada gesto seu era analisado pelo senhor Potter.
—Como está Ron? — ela indagou, a senhora Potter piscou surpresa. — Ele está bem?
—Sim, Ronald está melhor. Ele virá mais tarde para a reunião. — a senhora Potter disse. — Como você falou, o dementador não chegou perto o suficiente para causar nenhum mal a vocês.
—O que nos leva ao principal ponto, por que ele te atacou? — o senhor Potter perguntou, por um segundo Hermione pensou que era apenas uma pergunta ao acaso, porém os olhos dele estavam fixos nela.
—Eu não sei. Estávamos apenas lá e… aconteceu. — ela disse dando de ombros.
—Por que você estava no beco? — o senhor Potter indagou. Pelo seu tom, Hermione percebeu que talvez estivesse em um interrogatório.
—Eu ouvi um barulho e saí para ver o que era. Quando cheguei, encontrei Ron caído em meio aos sacos de lixo, então o dementador atacou.
—O que aconteceu depois?
—Ron pegou aquele graveto. Então aquele cachorro brilhante saiu voando e afastou aquela coisa.
—Ron conjurou um patrono corpóreo, Hermione. É um feitiço difícil de fazer. — a senhora Potter explicou.
—Feitiço? Como magia? — Hermione indagou, a mulher assentiu em afirmação. Ela piscou surpresa e perplexa. — Você está me dizendo que aquilo era magia?
—Sim. Ronald é um bruxo. — Dorcas disse. Hermione arregalou os olhos. Ela tinha ouvido direito? Bruxo? Bruxos?
—Do que você está falando? — ela indagou perplexa. Parecendo notar a confusão que estava se formando em sua mente, Dorcas falou.
—E eu sei que pode soar estranho, mas a magia é real, Hermione. Existe todo um mundo bruxo que se esconde bem a frente de seus olhos, e agora, você faz parte dele.
×
—Calma, rapaz. — Ron foi empurrado para trás, ele voltou a deitar, sua cabeça doía e sua boca estava seca. Ele abriu os olhos, demorou alguns segundos para associar tudo ao seu redor, não estava deitado, era estreito demais para um colchão, havia um cheiro de flores no ar, algo como jasmim e lavanda, também haviam pessoas na sala, mais de duas, ele podia ouvir pelos passos. O lugar não era familiar, ele não estava em casa ou na Toca. Ron não sabia onde estava e isso lhe deixou intimidado.
—Ron, você está bem? — Lyra pairou sobre ele, seu cabelo escuro traçando uma cortina entre eles e o mundo ao redor.
—Minha cabeça dói. O que aconteceu?
—Vocês foram atacados por um Dementador. — Remus Lupin explicou, ele estava atrás de Lyra, com um olhar sério, ao lado estavam Sirius Black e James Potter. Ron sentiu seu estômago revirar.
—Você mostrou magia para uma trouxa. — James falou, seu tom indicava que ele não estava feliz com a situação.
—Eu estava tentando me salvar e salvar Hermione. — ele disse, o nome saiu de sua boca antes que ele pudesse pensar. Ron franziu a testa, como ele sabia o nome dela?
—Como você chegou ao beco? — Sirius indagou.
—Deveria ter ido ao Beco Diagonal, mas errei.
—Como assim errou?
—Eu não sei. Eu simplesmente errei. — Ron deu de ombros e jogou o braço sobre os olhos, bloqueando a luz.
—Você viu algo antes do dementador aparecer?
—Não.
—Como você conseguiu fazer um patrono corpóreo?
Ron tirou abaixou o braço e olhou para Sirius.
—O que? Do que você está falando?
—Você fez um patrono corpóreo, Ron. — Lyra disse. — Um terrier, segundo Hermione.
—Pensei que você não conseguisse produzir um patrono. — Remus comentou, ele havia sido seu professor durante alguns anos em Hogwarts, mas mesmo depois de sua saída, ele ainda havia lhe ensinado por conta da Ordem. — Principalmente um corpóreo.
—Acredite, eu também estou surpreso. — Ron murmurou com desgosto, então se levantou e sentou-se, ele estava em uma sala pequena, uma escrivaninha, uma poltrona e aquele sofá, o qual ele estava sentado, eram os únicos móveis do cômodo. Ron suspirou. — Ela está bem?
—Sim. Hermione está bem. Apenas você desmaiou. — James explicou. — Agora, voltando ao assunto, onde você esteve antes de vir parar no beco?
Ron encarou o auror Potter, seu rosto sério indicava que ele precisava de respostas e não sairia sem elas. Ron não desviou o olhar, na tentativa de não parecer muito desnorteado. Se havia algo que ele odiava mais do que tudo, era se sentir perdido. E naquele momento, se admitisse ao auror o que havia acontecido na floresta, receberia o mesmo olhar que sempre havia recebido de seus irmãos.
—Estava pensando em um prédio próximo ao Beco Diagonal, mas acabei me confundindo. Devo ter pensado demais na hora de aparatar.
James cruzou os braços e o encarou com uma expressão de incerteza. Ele não acreditava em nenhuma palavra que Ron havia dito.
—Pensou demais? — Sirius indagou, parecendo tão descrente quanto James. Ron não se moveu ou hesitou antes de dizer.
—Sabe, algumas pessoas realmente fazem isso, pensar.
Sirius semicerrou os olhos, pouco descrente e agora irritado. Ron suspirou e passou a mão pelo cabelo. Ele tinha poucas alternativas e mentir parecia ser a mais sensata, não quereria que ninguém pensasse que ele era fraco, mas não podia negar que sua magia estava falhando. Aparatar e desaparatar estavam se tornando mais difíceis, era como se ele não tivesse controle sobre isso. Ron estava sentindo-se fraco e não apenas fisicamente, sua magia parecia enfraquecer à medida que usava e aquela situação era apenas uma grande prova disso. Mas ele não falaria isso em voz alta, não admitiria que algo estava errado, não iria parecer fracote na frente dessas pessoas.
—Você está bêbado? — Lyra indagou, embora seu tom fosse mais uma acusação do que uma pergunta. Ron a encarou, Lyra suspirou e continuou a falar. — Pensei que você tivesse parado de beber antes do café.
Ele havia, mas isso não o impediu de dizer.
—Sempre precisamos de um pouco de coragem líquida para começar o dia, querida.
Lyra bufou e os homens mais velhos apenas reviraram os olhos.
—Você por acaso sabe o risco que se colocou? — James indagou. — Que colocou a Hermione? Se tivesse errado o feitiço…
—Mas eu não errei. — Ron o interrompeu e se levantou do sofá, olhou diretamente para James. Há muito tempo havia parado de chamá-lo de senhor, muito provavelmente na mesma época que o havia ultrapassado na altura. — Eu acertei o feitiço. Pode parecer surpreendente vindo de alguém como eu, mas eu aceitei. Agora se me dão licença, estou atrasado para o meu trabalho, se ainda tiver um depois de hoje.
Ron deu um passo à frente, pronto para enfrentar qualquer acusação, mas se surpreendeu quando Remus disse.
—Vá para a Toca, há uma agitação no Knockturn Alley devido a uma reunião dos Comensais, não há segurança para ninguém e sua mãe já está lhe esperando. — ele hesitou por alguns segundos, seu desejo era voltar para seu pequeno e sujo apartamento com uma garrafa de firewhiskey na mão, mas apenas de se imaginar entrando na Toca e se jogando no sofá enquanto era paparicado por sua mãe, fez seu corpo relaxar. — E mais tarde, precisamos que você vá a reunião da ordem.
—Como? — Ron olhou surpreso para Remus. — Por que?
—Apenas vá. — o Lupin disse sem dar brecha para qualquer discussão. — Seus irmãos já estão aqui. Você vai com eles.
—Eu não sou mais uma criança.
—Mas pode acabar pensando demais e se confundindo. — Sirius murmurou arqueando a sobrancelha. Ron respirou fundo, a raiva aumentou e sem perceber ele avançou contra Sirius, porém Lyra se colocou entre eles.
—Ron! Papai! — ela o puxou para longe de Sirius. — Vamos nos acalmar, está bem? Não precisamos erguer as varinhas.
—Vá para casa, Ron. — James disse colocando a mão sobre o ombro dele. Ron se afastou, deixou que Lyra o guiasse para fora da sala. Fred e George o esperavam conversando com Dorcas Meadowes e Marlene McKinnon, ambas participantes ativas da Ordem da Fênix.
—Oh, veja, George, se não o nosso pequeno irmão. Oh veja como ele cresceu tanto, já está se metendo em suas próprias confusões. — Fred disse, um sorriso de merda em seu rosto.
—Oh, oh, sim. Nosso querido irmão conseguiu irritar tantas pessoas. — George concordou, diferente de Fred, ele tinha a decência de parecer menos animado com a situação, seu olhar era quase solene enquanto encarava Ron.
—Podemos ir? Ou vocês gostariam de ficar um pouco mais a fim de encontrar novas maneiras de me irritar? — Ron indagou.
—Vamos lá. — George bateu no ombro dele e o empurrou para a saída.
Ron estava levemente irritado quando eles chegaram a Toca, sua mãe estava de prontidão, um olhar preocupado em seu rosto, nada muito diferente do comum. Ron não falou com ela, apenas subiu para o seu quarto, teve um breve vislumbre de Ginny antes de trancar a porta e se afastar do mundo.
Erguendo a varinha no ar, Ron lançou feitiços silenciadores em seu quarto, quando terminou jogou a varinha sobre a cama e sentou no chão. Seu coração estava batendo com tanta força contra seu peito que Ron mal conseguia respirar, ele apoiou os cotovelos nos joelhos e encarou o chão.
—Como você conseguiu fuder com tudo de novo? — Ron indagou, sua voz estava tão baixa que mal passava de um sussurro. — Você é um idiota. Mantenha a cabeça baixa, fique longe de encrencas, deixe os outros cuidarem de tudo. É isso que você tem que fazer seu grande idiota. — ele bateu as mãos contra a cabeça sentindo a frustração borbulhar em seu corpo. Ron levantou e sem conseguir conter raiva arremessou a primeira coisa que viu contra a parede, o estrondo alto o fez gritar e continuar. A raiva o deixava cego, como sempre fazia e a única maneira de se livrar dela era jogá-la para fora, Ron queria quebrar tudo, queria destruir qualquer coisa que chegasse em suas mãos, ele jogou no chão tudo das prateleiras, das mesas, dos armários, tudo o que estava a um palmo de distância foi destruído, destroçado.
—Não faça isso, você não precisa disso. — a voz suave sussurrou, Ron parou, o velho porta-retrato em suas mãos. — Apenas se acalme, concentre-se, eu acredito em você.
—Então você deve ser a única. — ele murmurou jogando o objeto no chão. Ron suspirou olhando ao redor, ele caminhou até sua cama, começou a retirar todos os objetos jogados, seus antigos cadernos, livros de escolares, a bandeira do Chudley e algumas coisas que apenas caíram das prateleiras, ele recolheu os livros para colocá-los na prateleira quando notou algo.
—Esse é o livro favorito dela, atualmente. Acho que ela leu umas três vezes desde que comprei. — ele falou olhando para a capa meio desgastada, a lombada estava marcada e as folhas amarelas de tanto que seus dedos passaram pelas laterais. — Se não mais.
—E você já leu?
Erguendo os olhos em direção a janela, ele observou a cidade logo abaixo, os carros, os prédios e as pessoas.
—Uma vez, ficamos comentando sobre ele a noite inteira. Acho que foi a única vez que passamos a noite acordados sem que nenhum de nós estivesse com a boca ocupada.
—Nojento! — o grunhido de desgosto o fez rir.
Ron piscou, seus olhos focaram no livro em sua mão. Seus dedos escorregam pela capa dura, as letras em relevo brilhante e por fim o abriram, no canto da contracapa, em uma letra cursiva e delicada estava escrito…
—Ron? — As batidas acompanharam a voz de Ginny. Ele rapidamente colocou o livro embaixo do travesseiro e terminou de procurar sua varinha, lançou alguns feitiços sobre os objetos quebrados e os colocou de volta no lugar antes de caminhar até a porta.
—O que foi? — ele indagou, abrindo a porta, mas não deixando ela entrar.
—Mamãe mandou perguntar se você quer comer algo?
—Não, obrigado.
Ginny assentiu, as mãos entrelaçadas e um olhar angustiado.
—Você quer sair? — ela perguntou. Havia algo na sua voz que fez Ron baixar sua guarda.
—Claro.
Ela sorriu e se virou para descer a escada, Ron fechou a porta e a seguiu. Eles saíram em silêncio da casa, sua mãe apenas lançou um breve olhar para eles, porém não tentou impedi-los. Ginny o guiou até a orla do bosque, as árvores tomavam um tom de laranja mais escuro à medida que o outono se aproximava do fim, Ron sabia para onde eles estavam indo, na árvore baixa com poucas folhas, a plataforma de madeira que seu pai havia construído quando eles eram crianças, ainda seguia firme.
Ele ajudou Ginny a subir, seu pé encontrou a barriga dele antes do segundo degrau.
—Ginny! — ele resmungou e ela riu. Ron sentiu seu próprio sorriso crescer. Eles se sentaram e olharam para a Toca, a casa inclinada que lançava uma fumaça cinza aos céus.
—Os gêmeos disseram que você conjurou um patrono. — Ginny disse, quebrando o silêncio entre eles, Ron respirou fundo se preparando para uma nova discussão, mas ele o interrompeu ao questionar. — No que você pensou?
—No que eu pensei? — Ron pensou nela, na sua mão quente, nos seus olhos castanhos e em sua voz. Mas ele não entendia porque havia pensado nela. — Uma memória feliz.
—E qual seria essa memória feliz?
—Não lembro.
—Deveria ter sido feliz o suficiente para conjurar um corpóreo.
Ele deu de ombros.
—Foi o suficiente para me proteger.
—Que bom. Fico feliz que você tenha uma memória feliz para se proteger. Não acho que teria uma assim, na verdade não consigo pensar em nenhuma memória feliz o suficiente.
—Você deve ter alguma com seu noivo. — Ron sugeriu, Ginny torceu o nariz, algo que fazia quando estava inquieta. — O amor traz memórias felizes, Ginny. Você deve ter alguma. Se não tiver, então teremos um problema, porque você não pode se casar sem amor.
—Pensei que você não ligasse para o amor.
—E não ligo, mas para você eu abro uma exceção.
Ginny abaixou a cabeça e puxou as pernas contra o peito.
—Blaise me ama. — ela declarou, Ron franziu a testa.
—Mas você ama ele?
—Eu posso aprender a amá-lo.
—Não deveria ser necessário aprender a amar alguém. Se você não o ama…
—Eu gosto dele e isso é o suficiente.
—Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos. — ele disse.
—De onde você tirou isso? — Ginny perguntou, curiosa.
—Um livro que uma amiga me deu. Ginny, você não deveria casar com alguém que você goste, você tem que se casar com alguém que você ame.
—Blaise vai me proteger. Ele prometeu isso. — ela insistiu. — Mamãe e papai confiam nele, sabem que ele vai cuidar de mim se algo acontecer.
—Se lembra que eu te falei que você deveria estar com alguém que te mereça? Zabini só vai te tratar da mesma maneira que todos te tratam, como um móbile de cristal prestes a quebrar. Por Merlin, você merece alguém que te trate como igual, não como alguém inferior ou incapaz.
—Alguém tão louco quanto eu? — Ginny ergueu os olhos para ele. Havia uma faísca em seu olhar, algo que há muito tempo Ron não via.
—Sim. Alguém tão louco quanto você, alguém que saiba que você é incrível e te idolatre por isso.
—E onde eu vou achar esse alguém?
Ron a encarou, seus olhos castanhos pareciam mais brilhantes do que nos últimos anos.
—Você vai, eu sei que vai. — ele afirmou segurando a mão dela. Ginny sorriu para ele.
—Eu sei que você também vai.
Ron torceu o nariz.
—Não tenho tanta certeza assim. — ele olhou para o céu por alguns segundos, para as nuvens cinzas que se acumulavam cobrindo o azul anil, e pensou em castanho escuro e lábios carnudos.
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