Looking around The lonely People
4 You are the only one who still has salvation
O Largo Grimmauld n°12 era um lugar frio e escuro, Ron não gostava das paredes azuis ou do piso de madeira, detestava a escada escura e o teto baixo, desprezava a pouca iluminação e principalmente os móveis antigos, mas sentado na poltrona velha na sala principal, ele pensou o quanto realmente odiava era o velho elfo da família Black. Monstro, um elfo velho, corcunda e com os pêlos das orelhas maiores do que as próprias em si, o encarava com desprezo enquanto batia a bandeja de chá sobre a mesa, causando um barulho que a senhora Longbottom se virar surpresa, Neville colocou a mão sobre o braço de sua mãe, acalmando-a. Ela sofria de nervos, se Ron lembrava bem.
—Volte para a cozinha, Monstro. — Sirius ordenou, balançando sua mão cheia de anéis. O elfo deu uma relutante reverência antes de desaparecer.
Ron olhou para a bandeja com chá, café e biscoitos, seu estômago se animou apenas com o pensamento de comer algo e sua mente concordou apenas para se livrar da ansiedade que o consumia, mas antes que pudesse esticar o braço e pegar um biscoito coberto pelo açúcar branco, unhas cravaram na pele de seu braço, Ron virou para o lado e encarou Ginny, sua irmã exibiu um pequeno sorriso no canto do lábio quando se inclinou para pegar o biscoito que dele.
—Damas primeiro. — ela sussurrou.
—Desde quando você é uma dama, Ginny. — ele retrucou pegando o biscoito de baixo que havia perdido metade de sua cobertura.
—Quieto. — Ginny colocou a mão sobre a boca para impedir que os farelos do biscoito caíssem em seu vestido.
—Ah, Ginny, nós dois sabemos muito bem que mamãe nunca conseguiu transformar você em uma dama. — Ron murmurou, seu tom irônico fez Ginny riu e se virou para ele pronta para revidar com suas palavras, porém se calou.
Ron observou o brilho nos olhos dela se esvair, seu rosto se tornou indiferente e o sorriso morreu em seus lábios. Ginny ergueu sua máscara e Ron foi colocado de lado, novamente.
—Ginny. — Zabini os alcançou em alguns passos, parando ao lado de Ron na poltrona. Ginny colocou um sorriso em seu rosto, muito diferente daquele que Ron havia recebido durante o dia, era um sorriso falso, daqueles que os lábios erguem para cima desejando ir para baixo. — Como você está hoje?
—Vou bem, Blaise. — Ginny disse, seus olhos desviavam do rosto dele por alguns segundos antes de voltar, Ron percebeu, muito rapidamente, que ela estava incomodada.
—Sua mãe me disse que você teve uma crise de nervos, há dois dias. Por que não me avisou?
—Não queria incomodar, mas já estou bem. Foi algo rápido.
Zabini suspirou e se apressou até ela, Ron não se importou em ser ignorado, na verdade, o que mais lhe incomodou foi o tom condescendente que Zabini deu a Ginny no que se seguiu.
—Você deve me dizer quando algo assim acontecer, querida. Terei que ficar a par de todos os seus nervos para que possamos evitar gatilhos desnecessários, principalmente se estivermos com pessoas importantes.
Ginny abaixou a cabeça e Ron revirou os olhos.
—Sinto muito, Blaise. Tentarei melhorar. — ela garantiu, sua voz baixa e calma, Ron se levantou da poltrona e saiu sem olhar para trás, Zabini não falou nada ou talvez tenha optado por ignorar sua presença, ele não sabia, mas também não importava. Cruzando a sala até a única porta de entrada, Ron virou a esquerda, seus pés o levaram a subir a escada até o segundo andar, a agitação crescente que vinha se acumulando desde o incidente estava tomando proporções imensuráveis. Ele não sabia se conseguiria aguentar toda aquela encenação, o falatório desnecessário ou a merdas que provavelmente ouviria.
Seus pés o levaram até um corredor vazio, que assim como o resto da casa parecia assombrado, Ron sabia que se pintassem as paredes de verde o lugar teria mais vida, poderiam trocar o piso escuro por uma madeira clara e talvez consertar a iluminação. Sirius tinha dinheiro, Ron sabia disso, mas apenas não entendia porque o homem havia decidido manter a casa daquele jeito. Entre o papel de parede escuro e o piso envelhecido, sua atenção foi atraída por uma porta de madeira escura, ao se aproximar notou uma placa escrita à mão com um aviso em letras caprichosas.
"Não entre
sem a expressa permissão de
Régulo Arturo Black."
Erguendo a mão lentamente, Ron abriu a porta, a luz invadiu o quarto assim como o cheiro de mofo inundou seu nariz, o quarto embora estivesse organizado, demonstrava sinais que não havia sido aberto há anos, os tons de verde e prata adornavam as paredes indicando uma preferência óbvia. Ron deveria sair, ele tinha certeza que deveria sair, mas por algum motivo não conseguia, caminhou pelo quarto, analisando as fotos nas paredes, e com um certo desgosto reconhecendo alguns rostos, seus pés agiam de maneira própria, sua mente estava desligada do mundo exterior, focando apenas naquele quarto e naquele momento.
Ele se inclinou sobre a escrivaninha onde havia alguns papéis espalhados, como se o antigo dono quarto tivesse saído às pressas, ele ergueu um pedaço de pergaminho rabiscado de maneira descuidada, a tinta da pena havia caído sobre as letras, manchando-as de uma maneira incompreensível. Ron leu com atenção as partes legíveis.
"Pan…(nome inelegível). Recentemente recebi uma carta e um livro de seu amigo da Patagônia, que expressava bastante curiosidade e interesse sobre o assunto cujo o qual discutimos algumas semanas atrás. Vejo que não pode guardar para si o que pe… (mancha de tinta sobre duas palavras)..., então peço que esqueça o que conversamos durante o momento em que nos encontramos. Sei que será difícil pois em sua posi… (palavras riscadas em um rabisco ilegível). Creio que não poderei compartilhar mais do que meia dú… (letra apressada, sem leitura)... tenho pouco tempo em casa, não estarei em… (pingo grosso de tinta)... meus pais acham que estou me encontrando com aquele cujo o nome não pode ser dito voz alta, mamãe está irritada e enojada, pois, segundo ela, o nome da família está sendo manchado. Não sei se poderei continuar a escrever com frequência, tenho assuntos a tratar e… (pingo de água, não tinta).
Sei que está chateada por eu nunca contar o que realmente está acontecendo, mas das poucas pessoas que me relaciono, você é a única que ainda tem salvação. Me esqueça se puder e não mencione meu nome para ning… (risco grosso sobre a última frase)"
Ron observou a carta tentando encontrar sentido nela, mas não havia. Sem uma resposta ele não poderia entender a situação, devolveu a carta para a mesa e deixou os dedos correrem pela madeira, ele estava prestes a se virar e sair da sala quando notou algo pelo canto do olho, pela luz que entrava ele viu um pequeno objeto brilhante escondido entre as tábuas soltas. Ron se agachou e moveu a tábua, seus dedos se enroscaram em um cordão de metal, ele ergueu um colar prateado com um pingente de uma pedra amarelada.
—Você não deveria estar aqui. — ele murmurou, a pedra brilhou com a pouca luz que entrava no quarto parecendo zombar dele. Tão inútil.
Ron sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Errado, muito errado. Havia poucos momentos em sua vida que ele tinha alguma certeza do que estava acontecendo e essa certeza geralmente se seguia por maldições que arruinaram o fino equilíbrio de sua vida. Ron não era supersticioso.
Passos abafados ecoaram para dentro do quarto, próximos o suficiente para saber que havia mais de uma pessoa no corredor. Colocou o colar em seu bolso assim como a carta, que por algum motivo lhe atraiu a atenção. Se apressou ao sair do quarto, deixando o mofo e escuridão para trás em direção ao mesmo mofo e escuridão. Tossiu com força ao sentir o cheiro forte de… bem, era algo, um perfume diferente que inundou seus sentidos. Era familiar, mais intenso que rosas e mais suave que lírio.
—Ron, aí está você! — Lyra veio em sua direção acompanhada de outra pessoa, uma mulher loira de sorriso fácil e olhos azuis, que lhe causou uma estranha sensação de reconhecimento. — Perdido?
—Sim, estava procurando o banheiro e acabei… — ele acenou em desdém, sem olhar diretamente para a porta atrás de si, não queria que Lyra pensasse que estava bisbilhotando. — Essa casa é uma merda.
—Concordo plenamente. Papai a odeia.
—Então por que estamos aqui?
—Para que tio Regulus não possa vir. — Lyra deu de ombros.
—Ron! Vem aqui em cima, depressa! — a voz o chamou não muito longe, seus instintos dominaram fazendo-o correr escada acima, o sangue pulsando em seus ouvidos e a varinha em punho pronto para o combate.
—Que aconteceu? Se é outro ataque maciço de aranhas, eu quero o meu café da manhã antes de...
O rosto borrado apareceu à sua frente, aquele mesmo rosto que lhe perseguia, a dona daquela voz que sussurrava em seu ouvido, seus dedos apontavam para a porta de madeira.
—Quê? Esse era o irmão de Sirius, não era? Régulo Arturo... Régulo... R.A.B.!O medalhão... você acha...? — ele indagou. Oh merlin isso era maravilhoso, eles estavam tão perto e…
—Ron? — a voz de Lyra o puxou para baixo fazendo-o piscar rapidamente, a cabeça tonta e pesada como se tivesse voado por horas em meio a uma tempestade colossal. — Você está bem?
—Sim, sim, apenas me deu uma dor de cabeça. — Ron passou a mão pelo cabelo, ele deu um sorriso estranho a Lyra antes de voltar olhar para a mulher atrás dela. — Susan?
A mulher loira arregalou levemente os olhos e abriu um sorriso educado.
—Fico feliz que lembre de mim. — ela disse, sua voz ecoou em Ron, causando novamente aquela inquietação.
—Você ouviu falar da tia dela? Pobre Susan!
—Como vai sua tia, Susan? — ele indagou, sem pensar. Ela piscou.
—Bem, ela vai bem. — Susan respondeu, os lábios em uma linha tensa. — Obrigada por perguntar.
Pelo canto do olho notou as sobrancelhas escuras de Lyda arqueadas, havia muito Black nela para seu próprio bem, porém não havia com quem comparar, sua mãe tinha sumido no mundo depois de seu nascimento sendo mencionada apenas como "desagradável em questão".
—Susan está aqui para a reunião, Ron. — Lyra disse.
—Na verdade estou aqui para acompanhar meu primo Victor. — Susan explicou, mais nervosa do que antes. — Ele acha que a Ordem pode ajudar.
—E você não acha? — Ron indagou.
—Não quero me meter nisso. Eu apenas quero o melhor para minha família. Eu faria qualquer coisa por eles, sei que entende isso, Ron. — os olhos azuis de repente ficaram ansiosos, como se houvesse a necessidade de uma concordância.
—Sim, eu entendo. — ele concordou, seus olhos ainda sobre ela, sua atenção apenas nela. — Mas sei que existem limites, meus próprios limites que não posso cruzar sem se perder de quem eu sou.
—Se perder é mais fácil do que você pode imaginar.
—Por isso precisamos de âncoras, Susan, e de um porto onde descansar.
—Muito profundo, Weasley. — Lyra murmurou soltando uma risada. Ron balançou a cabeça, envergonhado. — Mas agora vamos descer, Lily e James já devem ter terminado de falar com Hermione.
—Hermione está aqui? — ele indagou. Sua pulsação estava soando mais alto fazendo com que seu corpo esquentasse e de repente suas roupas pareceram um forno quente. Ron podia se derreter em si mesmo. — O que ela está fazendo aqui?
—Ela tem magia, Dorcas estava desconfiada, mas parece que se confirmou. Estamos contando a verdade para ela.
—Não! — Ron exclamou, a irritação percorreu seu corpo, tudo estava vermelho. Seu rosto, suas mãos, seu corpo, seus olhos. — Vocês não podem fazer isso de novo? Não lembra o que aconteceu com Dean? Como vocês empurraram tanto que…
—Dean foi um acidente. — Lyra disse erguendo as mãos. Ron bufou.
—Acidente, Lyra?! Vocês botaram uma arma na mão dele e deixaram que ele a apontasse para a própria cabeça. Isso não é acidente! Isso é a porra de assassinato! Vocês não podem fazer isso de novo!
—É uma escolha dela. Hermione é adulta e se ela escolher ficar será por vontade própria.
—Não, não é. — Ron murmurou. Por mais que estivesse com raiva, por mais que quisesse quebrar cada canto daquela maldita casa, estava cansado de lutar, estava cansado de tentar mostrar como aquilo era errado. Não há vantagem em gritar quando tudo o que se ouve é o eco.
Ele passou por elas em direção a escada, Lyra há menos de dois passos dele, repetindo o mesmo sermão de todos os dias, tentando enfeitiça-lo para fazer o que ela queria.
—Eu não vou cair nesse canto de sereia, Lyra. Como você mesma diz, minha cabeça é dura demais para entender. — ele parou aos pés da escada, as portas da sala estavam abertas e podia muito bem sentir os olhares sobre ele. Aqueles mesmo que durante os últimos anos lhe julgaram como um inferno.
—Ron, se você não entende o que estamos fazendo a culpa não é minha. — Lyra insistiu, o rosto vermelho de raiva. Ron riu com ironia.
—O mais cômico disso tudo é que vocês não percebem a ironia da situação. Seduzindo eles para esse mundo, dizendo que vocês são os mocinhos, que são o lado do bem, mas jogando-os em meio a um guerra que não é deles. — Ron olhou em volta, Ginny ainda estava ao lado de Blaise, tão frágil, tão delicada. Mas sua atenção se voltou para Hermione, de onde estava, meio escondida na sombra Draco, ela parecia pequena, tão frágil quanto sua irmã. — Eu vou te dar um conselho, Hermione. Fuja para longe enquanto ainda tem tempo, não acredite nas histórias deles, a motivação deles não é a sua. Você não precisa fazer isso, você não tem a obrigação de fazer isso, mesmo que digam que você tem.
—Ron… — Bill o chamou, seu tom dizia claramente para ele parar, mas Ron não queria. Ele estava cansado daquilo.
Continuou o caminho até a porta sabendo que não haveria ninguém para lhe deter. Ele esperava que o som da batida ecoasse por todo o Largo, lembrando-os que a única diferença que eles tinham contra aquele que não deveria ser nomeado era o local onde estavam.
×
—Seus olhos não são verdes. — era uma observação um tanto inadequada para a situação, mas Hermione não conseguia deixar de lado sua surpresa ao perceber que os olhos de Matilda Potter não eram verdes.
—São castanhos como o de papai. — a jovem disse, os olhos em questão semicerrados por trás das lentes quadradas. — Nenhum dos meus irmãos tem olhos verdes, bem os de France são castanhos esverdeados, mas papai disse que o único que tinha os olhos verdes de mamãe era… — Matilda parou, olhando para onde seus pais estavam, Lily Potter não parecia prestar atenção a conversa, mas isso não impediu que a jovem Potter de desconversar. — Esperávamos que Danny tivesse olhos verdes, eles pareciam esverdeados quando ele nasceu, mas ficaram escuros depois dos cinco meses.
—Ah sim. Eu apenas… você se parece com sua mãe, então pensei que talvez tivesse os olhos dela.
—Eu sei como é, Willow é ainda mais parecida com mamãe, seu cabelo é bem mais ruivo que o meu, mas ela tem os olhos do papai.
Hermione franziu levemente a testa, de tudo o que havia ouvido e visto nas últimas horas, aquilo era de longe o mais irreal. A genética parecia brincar até com os seres de magia.
Quando chegou ao Largo esperava encontrar respostas para o evento até então sobrenatural, parecia mais fácil acreditar em fantasmas ou até alienígenas, vida inteligente fora da terra parecia um sonho, mas magia era, em toda a sua essência, surreal. Como a fada madrinha de Cinderela, com um aceno de sua varinha, Dorcas havia produzido vinho para seu copo, um milagre que Jesus havia feito com as mãos. Talvez Jesus fosse um bruxo.
Entretanto, aos poucos se convenceu de talvez devesse abrir um pouco mais a mente e foi somente assim que conseguiu aceitar a verdade que lhe contavam, sobre um mundo escondido no coração de Londres com uma comunidade inteira vivendo às margens do perigo.
—Vamos ter uma reunião daqui a pouco, Dumbledore, ele é o direito de Hogwarts, mamãe explicou o que é Hogwarts, não explicou?... Geralmente essas reuniões acontecem a cada quinze dias, mas adiantamos um pouco por conta do que aconteceu com você. — Matilda explicou enquanto a levava pelo corredor escuro e frio. — Dementadores não costumam atacar durante o dia e muito menos em lugares tão… comuns. Ainda não sabemos o que aconteceu, mas algo o atraiu para lá, para você.
—E o que poderia ser?
—Não tenho certeza, mas papai vai descobrir, ele é auror, tipo um policial bruxo, e é muito bom no que faz.
Hermione assentiu. Dementador. Auror. Bruxos! Oh céus, sua cabeça iria doer antes de chegar em casa. Ela tinha inúmeras perguntas, algumas fáceis de se fazer, outras entretanto eram mais difíceis. Por que ela não estava surtando?
—Não foi tão difícil, não é? — Draco sorriu para ela, os olhos cinzas piscando suavemente enquanto se acomodava perto dele na entrada de outra grande sala. Por que tudo aquilo era tão familiar?
—Ainda estou esperando acordar em um hospital. — ela brincou soltando uma risada. Draco franziu a testa.
—Por que você acordaria em um hospital?
—Não, é apenas uma…
Gritos altos ecoaram pela casa, como uma sinfonia desafinada. Hermione sentiu o coração bater mais rápido em uma agitação crescente que fez seu estômago revirar, Draco rapidamente se colocou à sua frente de maneira, protegendo-a, embora não necessitasse.
—Você pode agir como um covarde e virar as costas para seu povo, ou criar vergonha e agir como uma pessoa sensata. Você está sendo egoísta! — Lyra gritava seguindo atrás de Ron, enquanto o mesmo estava vermelho de raiva marchava escada abaixo. Seus olhos azuis inquietos e raivosos, mas ainda exibia uma expressão de determinação. E ela sabia que sua raiva não era por algo fútil.
—Eu não vou cair nesse canto de sereia, Lyra. Como você mesma diz, minha cabeça é dura demais para entender. — Ron parou aos pés da escada, de onde ela estava podia ver o desgosto em seu rosto.
—Ron, se você não entende o que estamos fazendo a culpa não é minha. — Lyra disse fazendo-o rir com ironia. Hermione respirou fundo, ela não deveria ofendê-lo assim.
—O mais cômico disso tudo é que vocês não percebem a ironia da situação. Seduzindo eles para esse mundo, dizendo que vocês são os mocinhos, que são o lado do bem, mas jogando-os em meio a um guerra que não é deles. — havia muito mais do que ela conseguia perceber nas palavras dele, muito mais do que raiva e indiferença. E ela notou isso quando seus olhos se encontraram, o azul brilhava como chamas enfurecidas. — Eu vou te dar um conselho, Hermione. Fuja para longe enquanto ainda tem tempo, não acredite nas histórias deles, a motivação deles não é a sua. Você não precisa fazer isso, você não tem a obrigação de fazer isso, mesmo que digam que você tem.
O olhar dele parecia queimar em sua pele, fazendo-a se sentir desconfortável em suas roupas. A porta bateu com um estrondo quando Ron saiu deixando a sala silenciosa, Draco estava tenso a sua frente, as mãos fechadas em punho.
—Por que ele sempre tem que fazer uma cena como essa? — ele resmungou antes de se voltar para ela, seus olhos cinzas exibiam um brilho pálido de uma irritação mal escondida. — Não escute o que ele diz, Ron é apenas orgulhoso demais para aceitar ajuda.
—Não acho que ele precise de ajuda. — ela sussurrou, as vozes a sua volta aumentaram gradativamente, como um rádio sendo ligado.
—Ron acha que pode se afastar disso, mas o momento chega para todos. — Draco disse, seu tom profundo indicava a seriedade de suas palavras. Ele realmente acreditava que Ron estava errado, mas estranhamente Hermione não via isso. — Dumbledore está quase…
—Acho que quero ir para casa. — ela falou, o interrompendo. Por algum motivo a reunião não parecia mais tão interessante. — Minha cabeça está doendo, eu quero ir para casa.
—A reunião está quase começando, você poderia aguentar um pouco mais e…
—Se você não me levar, eu posso ir sozinha.
—Hermione. — Draco suspirou. Irritação inflamou em seu peito, então percebeu que a inquietação não era animação por tudo aquilo, na verdade a irritação por algo que não dito. A sensação que lhe seguia desde que havia conhecido Draco ou talvez antes, quando conheceu Dorcas. Havia muito mais a ser dito do que as palavras diziam.
—De que guerra Ron está falando?
—Não há nada para se preocupar. — ele assegurou segurando os ombros dela. — Você estará pronta para isso.
As vozes ao seu redor diminuíram, mas as conversas apenas passavam por ela como um vento fraco. Hermione não gostava de ser mantida no escuro, há muito tempo se orgulhava por sua lógica e dedução, era inteligente, sabia muito bem disso, mas ainda era uma mulher e sempre seria subestimada.
—Por que me quer aqui? — ela perguntou, sem enrolação, um pouco mais rude do que deveria. Draco hesitou parecendo chocado com sua pergunta.
—Você foi atacada, Hermione. — ele murmurou.
—Não, não é apenas isso. Quando você apareceu na livraria eu tive essa sensação de conhecer você, mas não era isso, você me olha da mesma maneira que Dorcas me olha, como se esperasse algo de mim. Por que eu estou aqui, Draco?
Ele suspirou, em seu rosto não havia mais calma ou afeto, mas uma expressão de incerteza e… apenas não parecia certo.
—Algumas vezes pessoas comuns nascem com magia, mesmo não tendo ninguém em sua família com traços mágicos, eles são chamados de nascidos trouxas. Por muito tempo eles foram levados a Hogwarts para aprenderem a controlar sua magia e se tornarem bruxos, mas há alguns anos, o registro dos nascidos trouxas foi sendo queimado ou apagado, nosso trabalho é encontrá-los e ajudar a entender a magia. — Drica explicou. Seu coração parou de bater por alguns segundos, era algo impossível de acontecer, mas Hermione não se sentia racional naquele momento.
—Então era isso que Ron quis dizer com a sua motivação não ser a minha?
—Ele está apenas exagerando. Ron acha que estamos aqui por vontade própria, mas é algo maior, Hermione, estamos protegendo nosso mundo. Estamos tentando viver. — Draco disse erguendo um pouco seu tom.
—Nosso mundo é diferente. — ele disse, o sol brilhava contra seu rosto ofuscando seus olhos. Mas sua voz era tão suave, que ressoava em seus ouvidos. — Lutamos para sobreviver sendo que não estamos vivendo.
—Sobreviver não é o mesmo que viver. — ela murmurou, mas Draco não retrucou.
—Dumbledore chegou, todos na sala. — Neville avisou colocando a cabeça para fora da sala.
—Nós falamos sobre isso depois, está bem? — a expressão no rosto de Draco mudou, a irritação passou dando lugar a um sorriso calmo. — Eu apenas quero que você fique bem, isso não é ruim, é?
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