Looking around The lonely People
1 In the begining was the verb
—No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós. — o homem de terno gritou, o rosto vermelho enquanto erguia a bíblia acima da cabeça. A movimentação da rua estreita não diminui à medida que ele progredia com seu sermão, algumas pessoas apenas o ignoravam, vidas agitadas demais se importarem com qualquer outro ser humano.
Entretanto ela havia parado, imersa em seu próprio questionamento existencial, encarando fixamente o homem com a bíblia. O "Verbo" em si não era o que lhe incomodava, na verdade era a adoração à palavras escritas pelo próprio homem há milhares de anos. O homem, ou homens, que haviam escrito a bíblia eram apenas pessoas que poderiam muito bem estar apenas inventando histórias, porém por algum motivo a raça humana havia decidido que palavras escritas há milênios valiam mais que palavras sensatas ditas por pessoas sensatas.
Suspirando, ela seguiu seu caminho. A pequena livraria já estava aberta, a vitrine exibe os lançamentos mais recentes, assim como os livros mais populares. Iris Books era uma empresa familiar que residia naquela pequena rua há décadas, sua fachada era pintada de verde com plantas trepadeiras e flores brotando. Ela abriu a porta e o ouviu tocar.
—Está atrasada. — a voz ecoou entre as estantes repletas de livros.
—Desculpe, me distraí no café. — ela murmurou caminhando até o balcão, empurrou a pequena portinha e seguiu para sala dos fundos onde guardou sua bolsa e casaco. Vestiu o avental com seu nome bordado no peito e colocou o celular no bolso da frente.
—Tenho que pegar algumas encomendas hoje, então você ficará sozinha por algumas horas, está bem? — ela saiu do quartinho e parou atrás do balcão. Dorcas Meadowes lhe encarou com seus olhos castanhos claro, uma expressão de incerteza adornava seu rosto.
—Eu posso fazer isso, Dorcas. — ela afirmou com confiança.
—Não queria te deixar sozinha, mas pelo menos é quarta-feira, o movimento está menor. — Dorcas murmurou para si mesma, então acrescentou em voz alta. — Se eu não voltar antes do meio-dia pode fechar a loja e ir almoçar.
Ela assentiu silenciosamente e observou a mulher sair da loja. Puxou o cabelo para cima e o prendeu com um elástico, alguns cachos se soltaram, mas ela agilmente os atrás da orelha antes de pegar a caixa de livros sobre o balcão e começar a organizá-los nas prateleiras. Estava naquele trabalho há quase seis meses e estava acostumada com a disposição dos móveis, sabia que Dorcas tinha uma leve tendência ao perfeccionismo, por isso tentava organizar tudo da maneira mais perfeita possível.
Depois de alguns minutos em silêncio, o sino da porta tocou avisando sobre um novo cliente, saindo de detrás da sessão de terror ela observou o homem alto e elegante parado na porta da loja, ele usava uma blusa de gola alta preta e sobretudo marrom, seu cabelo era loiro, quase branco, e seus olhos eram cinza, como um dia nublado de inverno. Ela sentiu seu estômago revirar de ansiedade, algo que no fundo de sua mente estava cutucando, buscando, farejando. Por Deus, ela sentia que conhecia ele.
—Bom dia, posso ajudar em algo? — ela indagou com um tom cordial.
—Claro. Estava procurando um livro para uma… — ele limpou a garganta antes de terminar a frase. — garota.
—Uma garota especial? — ela perguntou. — Uma namorada?
—Oh não, ela tem 14 anos. Uma pirralha irritante, mas eu tenho que participar do aniversário dela, então pensei em comprar um livro.
Ela assentiu e o guiou até a sessão de romances adolescentes.
—Temos alguns livros em lançamento como o novo volume da saga de Meg Cabot, A mediadora, e também temos Gossip Girl de Cecily Brooke von Ziegesar. Eles estão super em alta, são os mais procurados pelas adolescentes. — ela disse enquanto entregava os dois exemplares para ele, seus olhos cinzas analisaram as capas sem muita disposição.
—Não acho que ele seja esse tipo de garota que lê essas histórias. Da última vez que a vi ela tinha um grosso exemplar de História da ma… maravilhosa vida marinha. — ele tossiu se complicando com suas palavras e então devolveu os livros para ela. — Você não teria algo mais… intelectual?
Ela pensou um pouco e caminhou até a vitrine, pegou o livro que queria e voltou até ele.
—A revolução dos bichos, é um bom livro. — ela estendeu o livro. — Um dos meus favoritos.
—Fala sobre o quê? — ele indagou observando a capa e a contracapa.
—É basicamente o que o nome diz, os animais da fazenda se juntam contra seus donos e começam uma revolução. É uma crítica aos governos e governantes.
—Parece ser bastante interessante. Talvez eu devesse ler.
—Você não irá se arrepender. — ela afirmou. — O livro abre margem para muitos debates. Eu mesma já iniciei diversas discussões sobre esse livro.
—Então deveríamos discutir sobre esse livro… em um jantar. — ele disse e ela arregalou os olhos surpresa.
—Um jantar? — ela o encarou perplexa. Seu estômago revirou novamente, mas não lhe causou uma sensação de animação ou ansiedade, era quase como uma hesitação. — Nós dois em um jantar?
—Rápido demais?
—Um pouco. Eu acabei de te conhecer.
—Então acho que devo me apresentar primeiro antes de continuarmos. — ele limpou a garganta e estendeu a mão em um gesto elegante. Ela colocou a sua mão sobre a dele, ele a levou aos lábios e beijou o dorso antes de dizer. — Prazer em conhecê-la, sou Draco. Draco Malfoy.
Ela piscou sentindo aquela leve pontada na cabeça. Tão familiar. Umedeceu os lábios e então disse com a voz baixa.
—Prazer, Hermione Granger.
~~~
Hermione entrou no bar se sentindo apreensiva, ela tentou ignorar a sensação de inquietação que tomou conta de seu corpo e sorriu quando avistou Draco. Já era o terceiro encontro deles nas últimas duas semanas e por mais que adorasse a companhia dele, suas conversas e sua presença, Hermione não pode deixar de sentir uma certa… hesitação. Ela não havia estado em um relacionamento há anos, deveria estar feliz por finalmente alguém ter lhe notado, porém não conseguia deixar de lado aquele sentimento de reconhecimento.
Hermione sentia que conhecia Draco. Mas não lembrava de onde.
—Hermione, gostaria que você conhecesse alguns amigos meus. — Draco disse assim que ela se aproximou. Hermione observou o grupo atrás de Draco, uma variedade de pessoas que lhe sorriam.
—Ora, finalmente teremos o prazer de conhecer a tão misteriosa namorada de Draco. — um homem, alto, negro de cabelo raspado que usava roupas escuras e elegantes sorriu para ela enquanto estendia a mão. — Prazer, Blaise Zabini.
—Hermione Granger. — ela apertou a mão dele e sorriu.
—Agora deixe-me lhe apresentar os outros. — Draco colocou a mão nas costas dela e apontou para uma mulher de pele cor de oliva, cabelos escuros e olhos azuis, e ao seu lado um homem de cabelos castanhos claros e olhos claros. — Essa é minha prima, Lyra Black, e meu amigo, Neville Longbottom. — Lyra e Neville acenaram para ela com sorrisos no rosto, Draco apontou para outras duas pessoas, um homem mais velho de cabelo ruivo e olhos azuis, e uma mulher de cabelo rosa vibrante. — E esses são Charlie Weasley e a namorada dele, que também é minha prima, Tonks.
Hermione sentiu um leve arrepio quando ficou frente a frente com a mulher, algo em sua expressão era familiar, seus olhos brilhantes e seu sorriso lembravam-na de alguém.
—Prazer em conhecê-los. — ela afirmou, embora sentisse uma estranha sensação de déjà vu.
—Já pediram algo? — Draco indagou.
—Estávamos esperando por você. — Charlie disse. — E pelo meu irmão é claro. Mas não acho que ele venha.
—Qual deles? — Blaise indagou, seu tom descontraído. — Você tem cinco irmãos, então tem que ser mais específico.
—Nenhum deles para falar a verdade. Bill está fazendo trabalho redobrado, os gêmeos devem estar preparando seus produtos e… — Charlie deu de ombros, o clima se tornou tenso em questão de segundos. — Você sabe que ele gosta de muitas pessoas.
Draco assentiu. Hermione sentiu uma certa urgência para saber de quem eles estavam falando, a curiosidade revirou seu estômago, era uma estranha necessidade de saber aquele nome, de ouvi-lo de uma vez. Encarou Charlie esperando que ele disse algo a mais, que explicasse porque seu irmão não estava ali, porém Lyra começou a discutir sobre trabalho e Draco a levou para pegar as bebidas.
—Espero que eles não sejam demais para você. — Draco disse, sua mão gentilmente colocada na cintura dela. Hermione sorriu para ele e balançou a cabeça.
—Está tudo bem. Eu estou acostumada com grandes multidões. — ela deu ombros. Era estranhamente familiar estar envolvida por tantas pessoas.
—Pensei que preferia se isolar com os livros.
—E prefiro. Mas algumas vezes é bom socializar. — Hermione passou a mão pelo cabelo e então abaixou os olhos para o balcão. — Lyra, eu acho, falou que vocês trabalham juntos. Mas agora percebo que você não me contou com o que trabalha.
—Bem, isso é um tanto complicado.
Hermione se voltou para Draco, ele parecia agitado, seus dedos batendo contra a madeira do balcão em um ritmo vazio.
—Por que? Não me diga que você é um foragido da justiça.
—Não. Estou mais para aquele cara que procura os foragidos, mas não ganha para isso. — ele disse com um sorriso, Hermione riu mesmo sentindo que ele estava escondendo algo.
Embora ela não pudesse negar que os amigos de Draco eram divertidos, em especial Tonks, Hermione ainda se sentia uma intrusa. Talvez fosse por ser nova no grupo, mas para ela, algo não parecia certo.
Olhou ao redor, o bar não estava cheio, mas havia uma agitação crescente no ar que fez Hermione morder a ponta do canudo, sua bebida intacta em sua mão. Draco discutia com Lyra e Charlie sobre algo relacionado à empresa de seus irmãos, Hermione tentou prestar atenção, mas seus instintos a fizeram fixar o olhar na porta de entrada.
—Oh não, Ginny vai detestar isso. — Blaise disse e Hermione se voltou para ele. — Ela quer algo simples.
—E o que mamãe acha disso? — Charlie indagou.
—Ela quer algo grande. Um casamento grandioso.
—Casamento? — Hermione franziu a testa. — Quem vai se casar?
—Blaise vai casar com Ginny daqui a três semanas. — Draco disse apontando a garrafa de cerveja para o amigo. Hermione o encarou surpresa, algo dentro dela gritava dizendo que aquilo não parecia certo.
Ela se forçou a sorrir e desejou os melhores votos a Blaise, então se voltou para Draco e discretamente sussurrou que estava com dor de cabeça.
—Eu levo você.
—Não precisa. Fique com seus amigos. — ela beijou a bochecha dele e se despediu do pequeno grupo antes de sair.
Hermione suspirou, quase aliviada, quando saiu do bar. O vento frio de Londres amenizou a ansiedade crescente em seu corpo, ela caminhou calmamente pensando sobre as conversas que havia escutado, ainda estava incomodada sobre o irmão de Charlie e sobre sua decisão de não ir ao bar. Hermione perguntou a si mesma sobre os motivos dele não ter ido, sua família estava com problemas? Ele não se dava bem com os irmãos? Ele estava bem? Estava machucado? Por que ele não foi vê-la?
Hermione parou no meio da calçada e balançou a cabeça se sentindo boba por pensar isso. Ele não tinha motivo para vê-la, ele nem a conhecia. Voltou a caminhar, mas acabou esbarrando em alguém, a força do impacto a empurrou para trás, fechou os olhos prevendo a queda, porém antes que pudesse chegar ao chão, uma mão agarrou sua cintura e outra sua nuca.
—Merda. — a voz masculina resmungou, Hermione abriu os olhos encarando um azul profundo, como o céu durante o verão, calmo e familiar. — Me desculpe, me desculpe, eu apenas…
Hermione respirou fundo e o observou hipnotizada, cabelo ruivo, olhos azuis, sardas pontilhando sua pele branca, uma expressão surpresa em seu rosto. Seu coração saltou, as batidas se tornaram constantes enquanto ele a colocava de pé e se afastava para lhe dar espaço.
—Está tudo bem, foi minha culpa. — Ele passou a mão pelo cabelo, seu nervosismo agitou Hermione.
—Não, é minha culpa. Eu deveria estar olhando para frente, acabei me distraindo… — ela apertou a alça de bolsa e desviou o olhar. Então quando olhou para ele, foi como se todo ar de seus pulmões tivesse sido sugado enquanto ela se perdia em seus olhos azuis. Merda, o que estava acontecendo com ela?
×
Ele abriu os olhos e se sentiu instantaneamente exausto. Havia dormido um número considerável de horas naquela noite, mas não o suficiente para descansar seu corpo e sua mente. Encarou o teto do quarto, as manchas escuras de infiltração se destacam contra o branco, o ventilador girava precariamente em uma ameaça silenciosa de que um dia iria cair. Ele suspirou.
Um gemido suave o fez virar a cabeça, cabelos escuros estavam bagunçados contra o tecido branco, ela estava de costas para ele, seu corpo curvilíneo escondido por baixo da manta grossa enquanto rosto estava afundado no travesseiro. Ela então se mexeu, virou de barriga para cima e esticou os braços sobre a cabeça, ele a observou piscar seus olhos claros e então fixá-los nele.
—Que horas são?
—Pouco mais de sete. — Ele disse, o sol e o barulho do trânsito de Londres invadiam o quarto pela única janela do cômodo.
—Droga, preciso estar no Ministério às 08:00. — Ela se levantou e pegou o vestido que havia jogado no chão na noite anterior.
—Algumas vezes eu esqueço que você trabalha. Beber até às três da manhã e acordar às sete não parece algo aconselhável. — Ele disse enquanto se esticava na cama para pegar o isqueiro e os cigarros que ficavam na mesa de cabeceira. Ele colocou um na boca e o acendeu.
—Fumar tão cedo também não é algo aconselhável. — ela retrucou antes de tomar o cigarro da mão dele e dar uma tragada. — Assim como dormir apenas duas horas por dia ou se alimentar de comida trouxa industrializada. Seus hábitos são horríveis, Ronald Weasley.
Ron não olhou para Lyra, apenas tragou seu cigarro e soltou a fumaça, deixando-a flutuar a sua frente.
—Você virá à reunião hoje à noite? — Lyra indagou ao mesmo tempo que vestia suas roupas descartadas precariamente na noite anterior.
—Por que você pergunta se já sabe a resposta? — Ron pegou a varinha na cabeceira e com um gesto simples o cinzeiro voou em sua direção.
—Você precisa se envolver mais nesses assuntos. Você não pode ficar parado sem lutar. Estamos fazendo isso por todo mundo, não apenas por nós.
—Pensei que entrar ou não, era uma opção.
Lyra revirou os olhos e calçou as botas. Ela saiu sem se despedir, mas Ron não se importou. Seu relacionamento era complicado, era apenas sexo sem sentimentos, mas quando alguma emoção surgia, era a raiva enclausurada de Lyra, ela odiava quando ele não fazia o que ela queria. E naquele momento a raiva dela era referente ao mesmo assunto que fez metade de sua família discutir com ele.
Ron se levantou da cama e foi para o banheiro. Seu pequeno apartamento não era nada mais do que um quarto de poucos metros quadrados com banheiro e um fogão elétrico, no prédio morava apenas trouxas, muitos eram estudantes de uma Universidade perto dali. Pequeno, mas era tudo o que conseguia pagar com seu salário.
Tomou um banho antes de sair para o trabalho, cruzou a rua até o beco escuro e ainda com o cigarro na boca aparatou no Beco Diagonal. Evitou a Wizard Wheezes, mudando de calçada, e seguiu direto para Dongs & Dings, perto do Knockturn Alley. A loja, como sempre, estava vazia, Kerlon estava sentado em um dos seus antigos e tão ricos sofás de couro de dragão, falsificados caso lhe perguntem.
—Está atrasado. — Kerlon grunhiu enquanto saltava para ficar em pé, com menos de meio metro de altura ele o encarou de cima a baixo, seus olhos castanhos esbugalhados em repreensão.
—Não finja que isso é uma novidade. — Ron murmurou ao passo que caminhava em direção ao balcão. Jóias de segunda mão brilhavam no armário, lustres restaurados ocupavam o teto brilhando intensamente e iluminando a loja. Ron deu a volta no balcão e acenou com a varinha chamando seu avental que sempre ficava na porta dos fundos. — Manhã calma?
—Não tanto quanto gostaria. — Kerlon resmungou e mancou em direção a porta. — Vou sair. Tome conta da loja, o Knockturn Alley está um tanto agitado nestes últimos dias.
Ron assentiu e assistiu ao seu chefe sair da loja. Ele não relaxou quando o sino da porta bateu, Kerlon estava certo, desde que havia começado a trabalhar ali, há onze meses atrás, Ron nunca tinha visto tanta agitação nas ruas que levavam ao Knockturn Alley. Era óbvio que os comensais da morte estavam trabalhando, Aquele-que-não-deve-ser-nomeado estava se preparando para algo e logo o caos reinaria.
A Ordem da Fênix estava mais agitada ultimamente, embora não participasse das reuniões, seus irmãos, principalmente Bill, e Lyra sempre faziam questão de deixá-lo a par das notícias. Ele não queria, mas eles insistiam. Era quase como se o forçasse a entrar naquele pequeno clube suicida que faziam parte. Ron não queria entrar na Ordem, porque não queria morrer.
O sino da porta soou, uma velha bruxa usando uma capa espalhafatosa entrou, Ron suspirou. Seria um longo dia.
~~~
Ele não foi a reunião. Não havia motivos para ir, mas isso não significava que ele tivesse que ficar de fora dos assuntos tratados. Bill o encurralou na entrada do Caldeirão Furado, ofereceu uma cerveja e o empurrou para a mesa mais próxima. Ron piscou apenas uma vez ao perceber que estava envolvido em uma conversa sussurrada.
—Há alguns caras que preciso que você fique de olho, como sua loja está quase na frente do beco, será mais fácil você ver.
—Eu não sou seu espião, Bill. — Ron resmungou, tomou outro gole de sua bebida e respirou fundo. — Eu não trabalho para a Ordem.
—Eu sei. Mas estou te pedindo isso como irmão. — Bill o encarou, seus olhos imploravam por ajuda. Estava tão ruim assim? Ron havia se distanciado das notícias do mundo bruxo, mesmo estando cercado de bruxos.
—Ok, eu posso ficar de olho. Mas não garanto de ver nada.
Bill sorriu aliviado e assentiu, mas então seu rosto ficou quando ele disse.
—Mamãe está preocupada com você. — Ron virou a cerveja na boca sabendo onde aquela conversa iria parar. — Faz meses que ela não o vê, Ron.
—Eu mandei uma carta.
—Dois meses atrás! Até os gêmeos são mais prestativos.
Ron revirou os olhos. Ele era um péssimo filho, um péssimo irmão e uma péssima pessoa. Ele sabia disso, ninguém precisava ficar lembrando-o o quão ruim ele era. Esse era um dos motivos pelo qual ele havia se afastado de sua família, o outro motivo era obviamente sua irmã.
—Vá falar com a mamãe, Ron. Amanhã ou nesse final de semana, vá à Toca e diga que está bem. Ela precisa disso.
—Eu vou tentar. — Ron disse, Bill o encarou por alguns segundos antes de balançar a cabeça.
Ron sabia que mesmo com sua negação constante, Bill não desistiria tão facilmente como seus irmãos, ele tinha esse instinto protetor sobre a família, queria mantê-los juntos mesmo que isso significasse um constrangimento monumental entre eles. Ron evitava seu irmão por esse motivo.
Bill não tomou mais o seu tempo, mas antes de ir embora, avisou a Ron sobre o encontro que estava tendo em um bar trouxa perto dali.
—Todo o grupo vai estar lá, acho que Draco irá apresentar sua nova namorada. — Bill disse antes de desaparecer completamente.
Ron não se sentiu motivado a ir, Draco não era uma das suas pessoas favoritas, seus irmãos podiam até ter esquecido, mas ele lembrava perfeitamente bem de todas as coisas que o Malfoy havia lhe falado. Todos os atos e falas ainda estavam gravados em sua memória.
Ele pediu mais uma cerveja enquanto ponderava se iria ou não ao bar. Se Draco estava apresentando sua nova namorada ao seu grupo de amigos, aquele que Ron não fazia parte, era óbvio que ele pagaria as bebidas daquela noite. O Malfoy podia ser um filho da puta, mas pelo menos seria justo na hora de pagar. E foi com esse pensamento que Ron seguiu em direção ao bar trouxa, com as mãos no bolso e a cabeça longe.
O grupo a qual Bill se referia, era o grupo que Ron evitava na maior parte do tempo, eles sempre foram unidos desde Hogwarts, a maior parte deles pelo menos. Draco Malfoy, Neville Longbottom e Lyra Black eram inseparáveis desde o quarto ano da escola, dois grifinórios e um sonserino podia ser uma combinação estranha, mas funcionava para eles. Ron admitia que tinha um pouco de inveja da amizade deles, os três sempre unidos em aventuras lendárias. Houve uma vez que eles derrubaram um troll no banheiro do segundo andar.
Porém o fato era que Ron nunca teve amigos de verdade, apenas colegas e conhecidos, mas não pessoas com quem pudesse contar em seus piores momentos. Sua estadia em Hogwarts havia sido algo solitário, principalmente depois de Ginny.
Ele suspirou e passou a mão pelo rosto, estava tão cansado que ir para o bar não parecia mais uma boa ideia. Ergueu os olhos do chão e olhou para a multidão à sua frente, seus olhos se encontraram com rostos desconhecidos até que alguém lhe chamou a atenção. Cabelo cacheado e volumoso, pele escura, o rosto franzido em confusão, ela balançou a cabeça e voltou a caminhar. Ron ficou parado. Era como se tivesse sido atingido por um petrificus totalus, seu corpo imóvel enquanto as pessoas passavam por ele. Ela ainda estava de cabeça baixa quando se aproximou dele, seus lábios se moviam silenciosamente, as palavras pareciam não conseguir se conter apenas em sua mente.
Ron sabia que deveria ter se afastado, desviado do caminho dela, mas por algum motivo não conseguiu. Em consequência disso, ela acabou esbarrando nele. Ron agiu sem pensar quando a viu cair para trás, uma mão segurou sua cintura e a outra apertou sua nuca. Ela congelou sobre seu toque, olhos castanhos escuros pontilhados por tons claros, eram tão intensos que ele se viu imerso em um universo único.
—Merda! — Ron resmungou enquanto tentava se distanciar daqueles olhos e dela. — Me desculpe, me desculpe, eu apenas…
Ele a colocou em pé, suas mãos lutaram para permanecer no corpo, mas ele se afastou sentindo que seria incapaz de resistir por muito tempo.
—Está tudo bem, foi minha culpa. — ela disse. Ron passou a mão pelo cabelo, nervoso.
—Não, é minha culpa. Eu deveria estar olhando para frente, acabei me distraindo… — ela apertou a alça de bolsa e desviou o olhar. Quando eles se olharam novamente, Ron se viu mergulhando mais fundo em um universo estranhamente novo. Ela recuou, alguns passos para trás mantendo a distância entre eles.
—Eu preciso ir. Me desculpa.
Ron mal teve tempo de registrar o fato dela estar ali, pois assim que as palavras saíram de sua boca, ela desapareceu no meio da multidão. Por um segundo ele pensou em segui-la, falar com ela, saber mais sobre sua vida, mas isso seria ridículo e assustador.
Ele suspirou e voltou a caminhar, passou pelo bar, mas não entrou. Ainda estava preso nos olhos castanhos e no universo particular que havia descoberto.
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