Looking around The lonely People
2 I think we're destined to fall for each other
Até seus treze anos, a Toca foi seu lar. A casa de sua família, um lugar para descansar e se sentir acolhido. Mas agora, quando ele olhava para aquela construção estreita e torta, para o campo verde e os animais em volta, tudo o que Ron conseguia sentir era uma sensação de ser indesejado.
Suspirando, ele caminhou em direção a sua casa de infância. A porta da cozinha estava aberta, o aroma do bolo recém assado fez seu estômago roncar, mas ele ignorou, poderia muito bem comer em algum café perto do beco. Ron parou na porta, ele sabia que sua mãe não se importaria dele entrar sem bater, mas mesmo assim os nós de seus dedos se elevaram para se encontrarem com a madeira maciça da porta. Porém antes que pudesse bater, o latido alto ressoou, Ron abaixou os olhos encarando o filhote de pastor-alemão de pelos escuros. Sirgin continuou a latir para ele, a pequena cria do diabo era o pior cachorro do mundo, ele odiava qualquer pessoa que não fosse sua dona.
—Quem é? — a voz de sua mãe soou pela casa, se aproximando gradativamente. Ron sentiu um calor em seu peito, fazia muito tempo que ele não ouvia ou via sua mãe, evitá-la era mais fácil quando não se envolvia.
Ron prendeu a respiração quando sua mãe entrou na cozinha, Sirgin ainda aos seus pés, latindo e rosnando para ele. Molly Weasley o encarou com os olhos arregalados e um sorriso surgiu em seus lábios enquanto ela se apressava até ele, expulsando Sirgin para finalmente alcançá-lo. Ron deixou que sua mãe lhe envolvesse em um abraço, seu corpo relaxou momentaneamente, mas se tornou alerta quando ouviu os passos descendo os degraus. Seus olhos se encontraram com a figura solitária parada aos pés da escada, Ginny usava um vestido longo e solto, um casaco de tricô todo repuxado nas mangas, seu cabelo estava mais longo e opaco do que da última vez que ele a viu. Ela parecia deslocada, como se não pertencesse a aquele lugar.
—Meu filho, que bom que você veio. — sua mãe segurou seu rosto com as mãos e beijou suas bochechas. Seus olhos castanhos estavam brilhando de lágrimas não derramadas, Ron sentiu um aperto no peito, mas empurrou qualquer sentimento para longe. — Quer comer algo? Tomar um pouco de chá? Fiz bolo de laranja do jeito que você gosta?
—Eu apenas passei para vê-la, mamãe. Ainda tenho que ir para o trabalho. — Ele disse a desculpa que havia memorizado durante todo o caminho.
—Oh não, fique mais um pouco, Ron. — sua mãe insistiu, seu rosto implorando por mais alguns minutos com ele. Mas estar na mesma sala que Ginny sempre o deixava desconfortável. — Vou tirar um pedaço para você. — Ron foi empurrado para a mesa, sua mãe não era forte, mas podia ser persuasiva quando queria. — Ginny, querida, sente-se para comer.
Sua mãe correu pela cozinha recolhendo pratos e talheres, Ginny se sentou à frente, sua mão abaixo da mesa para poder brincar com Sirgin, Ron não precisava olhar para saber que o cachorro estava feliz por estar com sua dona.
—Eu acho que isso é seu. — Ginny disse suavemente, quebrando o silêncio entre eles. Ela empurrou uma pequena caixinha preta em sua direção, ele franziu a testa e a encarou. O rosto de sua irmã estava mais pálido, olheiras profundas enfeitavam seus olhos e sua boca estava em um tom mais claro de rosa, quase branco. Ela estava doente, ela sempre esteve. — Eu guardei, como você pediu.
Ron parou por um segundo pensando em como responder a aquilo. Ele não lembrava de pedir para Ginny guardar nada, porém uma sensação estranha de posse tomou conta de seu corpo quando subitamente estendeu a mão para pegar a caixinha.
—Obrigada. — Ele sussurrou, seus dedos apertaram o pequeno objeto.
—Eu sei que é importante para você. — Ginny disse acenando levemente com a cabeça. Ron franziu a testa, abriu a mão encarando a caixa, algo em sua mente parecia agitar.
—Onde você está morando, querido? Está se alimentando bem? — sua mãe indagou colocando um prato com dois pedaços de bolo na frente dele. Ron puxou a mão e rapidamente colocou a caixa no bolso.
—Um apartamento perto do Beco Diagonal. É mais prático. — ele disse enquanto se empanturrar com o bolo, seu estômago agradeceu por aquele pedaço.
—Você ainda está namorando Lyra?
—Não estamos namorando, mãe. Apenas… — Ron deu de ombros. O que estava acontecendo entre ele e Lyra era assunto apenas deles.
—Então quem você levará para o casamento?
—Não tenho certeza se irei ao casamento.
—Por que não, Ronald?
Ron encarou sua mãe com a testa franzida. Como explicar para ela que ele não iria ao casamento porque simplesmente não concordava. Não que ele odiasse Zabini, mas assim como o Malfoy, Ron dificilmente esquecerá as coisas que ele fez.
—Talvez eu esteja trabalhando. — Ele disse. — Consegui um emprego noturno em um bar. Não sei se conseguirei ir.
—Mas você estará no almoço de noivado? Será nesse domingo, aqui mesmo. — Ginny disse em um tom baixo, seus olhos pareciam implorar por uma aceitação. — Todos virão.
Ron assentiu, a contragosto. Talvez pudesse passar pelo menos uma hora na Toca para compensar o fato de que não iria ao casamento.
—Isso seria maravilhoso, Ron. — sua mãe afirmou sorrindo para eles, ela então se virou em direção ao fogão, mas Ron não deixou de notar a maneira como sua mão correu ao rosto limpando as lágrimas.
Sirgin latiu tentando chamar a atenção para si, Ginny o pegou no colo e começou a acariciar seu pelo escuro. O anel de ametista brilhou em sua mão, o valor da joia poderia facilmente comprar a Toca e ainda sobraria dinheiro para eles, Ron não via muito sentido em algo tão ridiculamente desnecessário, às vezes achava que Zabini queria apenas se promover.
—Você ainda não gosta dele, não é? — Ron desviou o olhar do anel se sentindo constrangido por ter sido pego. Ginny tinha uma expressão suave, ou melhor, sonhadora em seu rosto, quase como se sua mente estivesse longe dali.
—Não acho que Zabini seja o cara certo para você. Você merece mais do que ele.
—E o que eu mereço? — Ginny indagou. Ron queria dizer que ela merecia alguém que pudesse lhe entender, que fosse capaz de ir ao inferno apenas para mantê-la segura, alguém que a fizesse rir e chorar de alegria. Porém ele não falou isso, apenas abaixou a cabeça e disse.
—Você merece muito mais que ele, Ginny.
—Eu sei. — ela afirmou em um tom mais baixo. Ron a encarou, Ginny estava sorrindo. Ele suspirou e então se levantou.
—Acho melhor eu ir antes que me atrase para o trabalho. Tchau mãe, tchau Ginny, tchau pequeno demônio.
Sua mãe se despediu com um beijo molhado em sua bochecha, Ginny apenas acenou levemente e Sirgin rosnou.
Ron cruzou o quintal sentindo sua cabeça doer. Ele queria discutir com Ginny, fazê-la reagir e terminar de uma vez esse falso noivado. Ele queria que ela gritasse ou zombasse do gosto sofisticado de Zabini, como ela fazia com tia Muriel quando eles eram menores, mas ela não faria isso porque sua irmã não era mais a mesma garota com quem ele cresceu. Ginny tinha mudado desde a Câmara, desde o basilisco, ela tinha sofrido um trauma duro e ainda não havia se recuperado.
Ele chegou ao fim do quintal e cruzou os limites, seus calcanhares giraram contra o chão quando aparatou. As formas ao seu redor se moveram formando borrões coloridos, sua mente deve ter vagado para outro lugar, porque Ron se viu parado no meio de uma floresta, árvores se elevaram ao seu redor, os pássaros cantavam e as sombras lhe envolviam.
—Depois que você foi embora, ela chorou uma semana. — a voz ecoou como um sussurro com o vento. Ron se virou buscando a fonte dessas palavras. Sua mão voou para o bolso da calça onde guardava a varinha. — Provavelmente mais, só que não queria que eu visse. Teve muitas noites em que nem nos falamos. Com a sua partida…
Seu coração pulsou forte quando seus dedos envolveram a caixinha preta que Ginny havia lhe dado. Ele fechou os olhos e uma imagem estranha se fixou em sua mente, um garoto de cabelo escuro e olhos verdes, pele parda um tanto avermelhada, principalmente o nariz e as bochechas, seus lábios estavam roxos devido ao frio.
—Ela é como uma irmã. Eu a amo como uma irmã e acho que ela sente o mesmo com relação a mim. Sempre foi assim. Pensei que você soubesse.
Ron abriu os olhos e encarou o chão repleto de folhas. Aquela voz pertencia a aquele rosto, isso era a única coisa que ele sabia. Ron se ergueu e olhou ao redor, seus olhos focaram no lago a poucos metros onde os raios de sol que atravessavam as folhas refletiam iluminando-o. Porém havia algo a mais. Ele se aproximou, seus pés esmagando as folhas secas e o barulho ecoando pela floresta. Ron se inclinou para frente, seu reflexo apareceu na água, mas não parecia ele.
—Você tem que lembrar. — uma voz feminina ecoou em sua mente. Ron pulou para trás, atordoado demais para lidar com aquilo.
—Foda-se! — Ron gritou antes de aparatar para longe dali. Ele tropeçou contra seus pés e caiu para frente, para sua sorte acabou caindo sobre sacos de lixo, causando um estrago menor. Ele havia caído em um beco que cheirava a esgoto. — Merda! Porcaria!
—Quem está aí? — alguém indagou, a voz fez Ron congelar. Poderia se passar mil anos, mas ele reconheceria aquela voz, mesmo que só tivesse escutado uma vez. — Olá?
Seus passos se aproximaram e Ron ergueu-se pelos cotovelos observando sua aproximação. Ela parou a sua frente, seu cabelo castanho e volumoso estava preso em um firme coque, seus olhos que focaram nele estavam assustados e perplexos, ela segurava um livro grosso entre as mãos, uma arma inútil para aquela situação.
—Porque toda vez que nos encontramos, um de nós está caindo. — ela murmurou com a testa franzida, mas um sorriso no rosto.
—Que eu me lembre, foi você quem caiu direto pros meus braços. — ele disse, um sorriso surgiu em seus lábios enquanto ele se levantava. Ela olhou para cima, seu rosto visivelmente envergonhado. Era tão fácil lê-la e gostoso irritá-la. Ron limpou a sujeira visível de suas roupas, porém o cheiro do lixo ficou impregnado no tecido.
—Esse não é o ponto. — ela retrucou. — O que você está fazendo aqui? Como chegou aqui?
Ron olhou ao redor, o beco se iniciava em uma movimentada e terminava em uma parede de tijolos, estava coberto de sacos e caçambas de lixo, não havia como entrar ali se não fosse pela rua, mas ninguém em sã consciência precisaria entrar em um beco escuro por vontade própria.
—Bem, é uma história complicada. — Ron murmurou passando a mão pelo cabelo. — E você?
Ela franziu a testa e cruzou os braços apertando o livro contra o peito. Ron sentiu um sopro frio atravessar o beco, ele olhou para cima, observou o céu azul e as nuvens brancas, então se virou para o final do beco. O cabelo em sua nuca se arrepiou quando ele percebeu que algo estava errado.
—Vamos. — Ron instintivamente segurou a mão dela e a puxou em direção a saída do beco.
—O quê…? — ela mal teve tempo de terminar seu questionamento quando a figura sombria surgiu nas sombras. Ron cambaleou para trás, empurrando-a contra suas costas, tentando protegê-la.
O Dementador trouxe o frio para o beco sujo, Ron podia senti-la tremer contra si. Ele pegou a varinha, mas não a ergueu, qualquer movimento brusco e…
—Fique calma. — ele sussurrou.
—Eu estou calma. — ela retrucou em um sussurro frenético.
—Não é o que parece. Agora fique quieta.
—Eu estou quieta. — ela estava histérica, Ron percebeu. Embora seu tom fosse baixo, quase inaudível, ele sentia o corpo dela tenso contra o seu, sua mão apertava com força a dele e sua respiração estava irregular.
O Dementador flutuou a poucos metros deles, seus braços esqueléticos esticados em busca de algo. Ele iria atacar.
Ron tentou pensar em todas as suas memórias felizes, tentou pensar em sua infância, tentou pensar em sua família, qualquer coisa, mas nada parecia forte o suficiente para projetar um patrono. Então ele a sentiu, sua mão apertando a dele, sua respiração contra seu ombro, o calor de seu corpo. Ele lembrou de seus olhos, castanho que cintilavam, puros e convidativos.
O Dementador avançou, Ron ergueu a varinha, mas não precisou gritar, o feitiço surgiu em sua mente tão claro quanto a luz azulada e brilhante que saiu da ponta de sua varinha, o cachorro avançou contra o Dementador que recuou. Ron observou o cachorro afastar a figura encapuzada, mas somente quando o beco estava de volta a temperatura normal de um dia em Londres que ele se deixou cair. Estava fisicamente exausto, tanto que mal percebeu quando caiu para trás.
—Não! — ela gritou quando o segurou, ambos acabaram caídos no chão. Ron sabia que não aguentaria muito tempo, a inconsciência levando o que restava dele. Juntando o que restava de sua energia, disse.
—Viu, acho que estamos destinados a cair um pelo outro.
×
Hermione estava tendo uma manhã bastante agitada. Primeiro a senhora Hilton, sua vizinha de cima, havia batido em sua porta alegando que ela tinha feito muito barulho durante, uma mentira descarada para uma senhora de tão pouca idade; então Dorcas havia desaparecido da loja depois de jogá-la no meio de meia dúzia de clientes; e por fim, como se sua manhã já não tivesse sido estressante o suficiente, ainda havia um cara caído no meio dos sacos de lixo.
Ela suspirou um tanto aliviada quando o reconheceu, porém não deixou de sentir a súbita inquietação em seu estômago. Umedeceu os lábios e abaixou a enciclopédia que havia pegado para se defender.
—Porque toda vez que nos encontramos, um de nós está caindo. — ela franziu a testa enquanto o encarava, os olhos azuis límpidos que lhe observavam com surpresa, indicar que ele não estava ali por querer. Hermione sorriu minimamente, estranhamente satisfeita por ele ter caído ali.
—Que eu me lembre, foi você quem caiu direto pros meus braços. — ele insinuou, sorrindo. O sorriso dela se desfez, olhou para cima tentando esconder a vergonha em seu rosto.
—Esse não é o ponto. — Hermione retrucou voltando a olhar para ele, o cara havia se levantando e limpava a sujeira de suas roupas. — O que você está fazendo aqui? Como chegou aqui?
—Bem, é uma história complicada. — Ele passou a mão pelo cabelo, seu tom vermelho pareceu brilhar com o sol que iluminava precariamente o beco. — E você?
Hermione prendeu a respiração, seu coração bateu mais rápido, ela franziu a testa com a súbita emoção e apertou o livro contra o peito. Ela estava ali fora por culpa dele, se não fizesse tanto barulho, ela não teria sido obrigada a sair. Porém antes que pudesse responder isso, uma torrente de ar frio a fez estremecer, Hermione passou a mão pelos braços tentando se aquecer.
Ela se voltou para ele pronta para discutir o quão irracional era continuar naquele beco quando ele subitamente agarrou sua mão e a puxou para a saída.
—Vamos!
—O quê… — Hermione perdeu o fôlego quando a criatura vestida em um manto escuro surgiu das sombras. Uma nova sensação de familiaridade surgiu em sua mente, mas desta vez era um tanto quanto inconveniente. Ela foi puxada para trás dele, suas mãos permaneceram unidas enquanto ele olhava fixamente para a criatura.
—Fique calma. — ele sussurrou. Hermione apertou o braço dele, a figura flutuava a frente deles, parecia irreal, como uma ilusão. E era uma ilusão, porque seria impossível algo assim existir.
—Eu estou calma. — Hermione retrucou em um sussurro, ele balançou a cabeça.
—Não é o que parece. Agora fique quieta.
—Eu estou quieta. — ela não sabia porque não estava calada. A criatura parecia preste a atacar, mas a única coisa que Hermione conseguia fazer era discutir com ele.
A criatura sombria avançou, Hermione se escondeu atrás dele, espiando por cima de seu ombro, ou tentando o melhor que podia. A criatura esquelética envolta em um tecido fúnebre os encarou, parecendo sentir que eles estavam ali, então sem avisar, avançou. Ela instintivamente fechou os olhos esperando o inevitável, mas por baixo das pálpebras uma luz intensa brilhou, Hermione piscou tentando se acostumar com a claridade, então arregalou os olhos quando viu o belo cachorro, um Terrier, ela observou, azul e brilhante, um espectro de luz que afastou a criatura sombria e aqueceu o beco frio.
Hermione sentiu seu coração saltar em sua garganta, o animal era tão belo e conhecido. Quase como se ela já tivesse visto-o em algum lugar.
O Terrier avançou sobre a criatura que então desapareceu nas sombras. Hermione respirou aliviada, mas então ele caiu e ela o segurou.
—Não! — ela gritou enquanto o segurava, o agarrou pelos ombros tentando mantê-lo longe do chão, pelo menos a maior parte do seu corpo. Seus olhos azuis estavam se fechando lentamente, seu rosto se tornou mais pálido do que sua pele branca.
—Viu, acho que estamos destinados a cair um pelo outro. — Ele sussurrou antes de cair na inconsciência.
O tempo congelou para Hermione, o peso da cabeça dele em suas pernas era a única indicação que aquilo era real, pois tudo o que havia acontecido nos últimos minutos parecia um estranho delírio. Ela olhou para a mão dele, um estranho graveto havia rolado para longe, tinha sido dali que o cachorro havia surgido. Hermione esticou o braço e pegou o graveto, era fino, bem moldado e com alguns entalhes diferentes. Seu coração estranhamente se aqueceu ao tocar naquele pequeno pedaço de madeira.
—Wingardium leviosa. — Ele ordenou, sacudindo os braços dentro das vestes, seu rosto sardento contorcido em concentração.
—Você está dizendo o feitiço errado. — ela disse balançando a cabeça, aborrecida. — É wing-gar-dium levi-o-sa é bem pronunciado e longo.
—Diz você então, que é tão sabichona. — Ele retrucou, emburrado. Seu rosto se tornou avermelhado, deixando-o parecido com um tomate.
Ela limpou a garganta, arregaçou as mangas e disse no tom mais claro que conseguia.
—Wingardium leviosa.
Hermione piscou surpresa, tanto pelas imagens que surgiram em sua mente, quanto pela lata vazia que flutuava à sua frente. Ela moveu a mão que segurava o graveto e a lata se moveu. Hermione encarou o homem ruivo que havia salvado sua vida, seus olhos correram pelo seu rosto, queixo marcado, o nariz alongado, a barba ruiva que aos poucos tomava conta de sua pele branca. Seu coração apertou e o desejo de se aproximar corroeu seu corpo.
—Hermione? — ela se afastou mal notando que havia se inclinando para frente, olhou para a esquerda, Dorcas correria em sua direção com os olhos arregalados. — O que diabos aconteceu?
—Eu… eu… — Hermione olhou para o ruivo em seus braços e então para Dorcas. — Eu não sei. Eu realmente não sei.
~~
—Aqui, beba isso. — Dorcas empurrou o copo com água em suas mãos, Hermione estava tremendo quando o levou até a boca e tomou longos goles enquanto repassava o que havia acontecido nas últimas horas. Pouco depois de Dorcas a encontrar no chão sujo do beco, três homens apareceram, todos pareciam ter a mesma idade, por volta dos quarenta anos, os três, um homem loiro com cicatrizes no rosto, um homem branco de cabelos longos e escuros, e o último homem tinha a pele escura e cabelo preto bagunçado, tinham um olhar determinado em seus rostos. Todos eles pareciam estranhamente conhecidos, mas Hermione não sabia o porquê.
—Ele está bem? — ela indagou. Havia sido separada do cara ruivo assim que os homens chegaram, eles não falaram muito, apenas trocaram rápidas palavras sobre o que havia acontecido antes de levá-lo. Hermione estava nervosa desde então, sua garganta estava apertada, a preocupação corroendo seu corpo.
—Sim, sim. Ron está bem. Remus está cuidando dele. — Dorcas assegurou. Hermione sentiu seu coração apertar novamente. Ron. Aquele nome ecoou em sua mente, uma memória sutil, um lembrete de olhos azuis e cabelo ruivo. — Vamos levá-lo para o St. Mungus caso ele não acorde logo, mas não é nada grave. Você disse que o Dementador mal chegou perto, então isso significa que ele não fez nenhum mal.
St. Mungus? Dementador? As palavras se acumulavam na cabeça de Hermione. Ela colocou as mãos sobre os olhos, o cachorro brilhante e azul parecia correr a sua frente, ela ainda podia sentir o toque quente contra sua mão.
—Você tem certeza que está bem, Hermione?
—Eu estou, Dorcas. Eu apenas… — ela abriu os olhos e encarou sua chefe, sua pele escura e olhos brilhantes. — O que está acontecendo? O que era aquilo? Por que me atacou?
—Oh minha querida. — Dorcas passou os braços ao redor dos ombros dela e a puxou para um abraço. — Eu lhe explicarei tudo, está bem? Mas não agora. Draco está vindo lhe pegar para te levar para casa, ele queria ter vindo antes, mas estava ocupado com uma missão. Apenas se acalme, está bem?
Hermione não conseguia ficar calma. Se ele estivesse machucado por salvá-la, ela se culparia pelo resto da vida.
Draco chegou alguns segundos depois acompanhado de Lyra, a garota estava visivelmente abalada, seus olhos azuis estavam preocupados. Draco correu até Hermione e se ajoelhou ao seu lado, seus braços a envolveram para lhe acalmar, mas por algum motivo isso a deixou mais apreensiva.
—O que aconteceu? Onde está Ron? — Lyra indagou a Dorcas. A mulher suspirou e calmamente disse.
—Ron e Hermione foram atacados por um Dementador.
—Um Dementador? Como…? — Hermione abaixou a cabeça ao receber os olhares perplexos dos dois, mas para sua sorte, Dorcas veio ao seu socorro e explicou a história que Hermione havia contado.
—Ron produziu um patrono? — Draco indagou, seu tom era descrente e Hermione não gostou muito disso.
—Sim. Ele produziu e foi isso que me salvou. — ela disse. — Se não fosse por Ron, eu estaria… — Hermione fechou os olhos, a estranha sensação de frio permanecia em seu corpo e nem mesmo o contato direto com Draco parecia diminuir aquilo. — Era um cachorro.
—Um cachorro? — Lyra indagou, surpresa. — O patrono dele é um cachorro como o meu?
Hermione de repente se sentiu mal. Seu estômago embrulhou apenas pensando naquele cachorro sendo acompanhado de outro cachorro. Parecia errado.
—Era um Terrier, eles caçam lontras. — Hermione disse, três pares de olhos se fixaram nela, era óbvio a surpresa com o seu comentário um tanto ácido. — Minha avó tinha um Terrier, Blind, ele caçava as lontras que viviam perto da casa dela. Por isso eu reconheci.
—O meu é um Husky siberiano. — Lyra revelou, seu tom meio desapontado. — Onde ele está?
—Remus está cuidando dele. Ele veio com James e Sirius. — Dorcas falou. — Ron estava inconsciente quando cheguei.
—Eu ainda não entendo. Por que o dementador atacou? Por que justo aqui? — Draco olhou para Dorcas então para ela, Hermione porém não olhou de volta. Ela encarou suas mãos, seus dedos nus e gelados.
—Draco, leve Hermione para casa, está bem? Ela precisa descansar. — Dorcas ordenou. — Mais tarde a leve para o Largo. Conversaremos melhor lá.
—Tem certeza?
Hermione ergueu a cabeça diante do tom de Draco.
—Sim. Poderíamos fazer isso agora, mas sinto que preciso ter uma conversa séria com algumas pessoas antes de qualquer coisa. — Dorcas disse. Hermione nunca havia a visto tão séria. Seus olhos estavam escuros e tensos. — Vá agora.
Hermione deixou que Draco a guiasse para fora da loja, eles pegaram um táxi saindo do coração de Londres. Seu peito estava doendo, sua respiração era apenas superficial enquanto ela tentava se acalmar diante da situação. Não havia sentido ou lógica no que tinha acabado de acontecer, era surreal demais pensar que um dementador havia lhe atacado à luz do dia, eles geralmente atacam à noite…
—Eles atacam à noite. — Hermione sussurrou um tanto surpresa pela sua própria revelação.
—O quê, amor? — Draco indagou, seu braço ao redor dos ombros dela. Por um segundo Hermione sentiu aquela inquietação em seu coração, mas empurrou para baixo antes de dizer.
—Nada. Apenas pensando.
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