London by Night
4 Skin
Notas iniciais
– Aqui. Esse é o lugar – Michael concluiu quando eles estavam na frente da boate. Logo acima do prédio, o letreiro com o nome do bar fê-los engolir em seco. “Skin”.
– Algo me diz que a gente vai descobrir alguma coisa. – Disse Alex, esperançosa. – Então eles se apressam a entrar no lugar.
Do lado de dentro, o Skin era um bar comum. Algumas mesas ocupavam a área principal, e atrás do balcão ao fundo, um homem beirando os quarenta anos e uma garota que não parecia ter mais de vinte e dois. A pista ao lado, como as mesas, não tinha muita gente. Ainda era muito cedo, os amigos de Max concluíram.
– Peguem uma mesa ali no meio, vou buscar algo pra gente beber, – Alex decidiu.
– Ei! – Michael censurou a colega. – Não é hora pra isso.
– Fica calmo, tá. A gente tem que se misturar, se quisermos conseguir alguma informação.
Michael meneou positivamente a cabeça, concordando.
– Novos por aqui, né? – A bartender perguntou, sorrindo. – É que nunca vi vocês por aqui. Não é como se tivéssemos o maior movimento do mundo, então...
– Não é comum ficarem com a casa cheia? – Alex respondeu a pergunta com outra pergunta.
– Se não é comum? Nunca acontece. Caba sendo até bom. Eu conheço todos que frequentam aqui. – Isso deu um aponta de esperança pra Alex, fazendo-a pensar que estavam no caminho certo. – Pandora. Prazer. – Ela sorri e estende a mão.
– Prazer, Pandora. Me chamo Alex. E os meus amigos ali são a Olivia e o Mike.
– Até que enfim! – Olivia falou, quando a amiga se aproximou na mesa.
– O lugar é um tédio. Duvido que encontremos qualquer coisa aqui. – Michael falou, desapontado.
– Calma, Mike. – Ela se inclina para o centro da mesa e sussurra – A garçonete parece conhecer todo mundo por aqui.
– Pelo jeito é a única luz no fim do túnel. – Olivia desanima. – Talvez a gente não seja tão bom assim em investigação.
– Pelo menos ainda tem o celular. Se nada der certo ainda teremos uma chance com ele.
– Mas teremos que ver isso amanhã. – Michael fala. – Eu tenho que estar em casa à menia noite.
Alex também tinha que voltar pra casa naquela hora.
– Então é bom nos apressarmos. – A loira sugere, levantando de novo. – Por que não dão uma passada na pista de dança enquanto eu vejo o que descubro com a bartender?
– Parece uma boa ideia! – Olivia levanta, animada, puxando Michael antes que ele dê uma palavra. – Vamos Mike! Eu adoro essa música!
Alex se encaminhou de volta ao balcão e sentou-se do lado em que Pandora atendia.
– Ficou sem par? – Ela fala, limpando o balcão perto de Alex.
A outra só sorri balançando a cabeça.
– Martini, por favor. – Ela escolhe o que beber, e a bartender prepara sua bebida prontamente. Então ela decide como jogar a conversa pro rumo que queria. – Não tem medo de trabalhar à noite? Digo... Sair tarde. Principalmente agora, com um assassino à solta.
– Do que está falando? – A morena indaga – Tem sempre assassinos à solta. Mas eu tenho que pagar as contas.
– Quanta coragem – Alex ri. – Quero dizer... Já ouviu dos dois assassinatos num prédio aqui perto?
– Sim. O cara entrou e saiu sem ser visto e deixou mãe e filha mutiladas. Falem o que quiser... Esse tipo de crime, tão cruel, não é cometido do nada.– Ela fala, e um arrepio percorre a pele das duas. – Mas e você... Por que está vindo â farra quando tem um assassino à solta? – A bartender tenta suavizar o tom da conversa.
– Longa história. Em reumo... – Ela bebe um gole do martini pra inventar qualquer coisa sem perder muito a naturalidade – Acompanhando amigos destemidos. – A loira termina e aponta Olivia e Alex, que dançavam juntos na pista quase vazia.
– Entendo... – Pandora encarou Alex, que viu a música acabar e os amigos sentarem-se de volta na mesa. Olivia chamou uma garçonete. Parece que a amiga estava animada agora.
– Ah! – A loira tornou – Já parou pra pensar que o assassino pode ter estado aqui? Que você pode ter servido ele pouco antes de ele ir fazer suas vítimas?
Pandora riu.
– Se eu tivesse atendido alguém diferente eu saberia. Já falei, Detetive Alex – Ela brinca – São só algumas duzias de pessoas que frequentam aqui.
– Ah, sei lá. – Alex dá de ombros. – Só estava imaginando.
As duas riem e Alex paga a conta.
– Essa ali tá escondendo alguma coisa, eu tenho certeza. – Alex comenta ao sentar-se de novo na mesa com os dois amigos.
– Tá, detetive. – Michael repete a mesma piada que a outra tinha falado, coincidentemente – E como sabe disso?
– Não sei. – Alex admite. – Só sei que sei.
– Ok, mas ela falou alguma coisa?
– A mesma coisa que os repórteres, e as mesmas coisas que já sabemos. – Os dois olham pros seus copos, desanimados – Mas algo que ela falou realmente me fez pensar. – Eles a encaram.
– O quê? – Falam, quase em uníssono.
– Um crime desses não é cometido à toa. O assassino queria deixar um recado. – Ela engole em seco.
– Não está achando que o Max tá envolvido com... Máfia ou algo do tipo, né? – Olivia ri. – Talvez seja só um psicopata.
– É, pode ser. – Alex dá de ombros. – Acho que é só isso por hoje. E ainda é bem cedo.
– Por isso eu acho que devíamos ficar mais um pouco. A gente merece um descanso, vamos nos divertir um pouco. Se distrair desse monte de coisa que resolveu acontecer logo agora. – Olivia é que dá a ideia, e os outros não sentem dificuldade em acatá-la, desde que estejam em casa no horário.
***
O interior do galpão mudara completamente. Havia sangue espalhado por toda parte, e as paredes mal rebocadas agora receberam uma decoração de no mínimo extremo mau gosto.
Cerca de dez cruzes de madeira pendiam em cada uma delas, com homens pendurados. Cada um deles com ferimentos diferentes. Alguns tinham a face inchada e desfigurada por golpes repetidos, outros tinham membros estranhamente moles, como se cada osso tivesse sido quebrado em vários lugares. Alguns ainda tinham a barriga aberta.
Outros, no entanto, não tinham marca de violência no corpo, exceto pelas lágrimas de sangue que vertiam dos seus olhos. Esses eram os que traziam a expressão mais angustiante no rosto.
No centro da sala uma mesa de madeira longa tinha um outro homem em cima. Seu nome era Paolo. Ele não tinha amarras, como os que estavam pendurados nas cruzes. Mas não mostrava nenhum sinal de querer fugir.
Na mesma sala, de pé, estava Mordred, olhando Paolo e limpando o sangue das mãos com um lenço. Ao lado deles, Samantha observava a cena, angustiada. Ela não se acostumava com esse tipo de crueldade, não importava o quanto a visse.
– Ainda gosta da sua liberdade, Paolo? Ainda quer dominar Londres?
O outro ficou em silêncio. Ele também vertia lágrimas de sangue, mas além disso, suas mãos e pés não tinham mais dedos, e uma estaca de ferro estava enfiada no seu tórax, atravessando o esterno. Ele tremia encarando os outros dois.
– Sabe o que tem que fazer, não é? É só fazer, e eu paro. – Mordred toca a estaca e Paolo retesa os músculos, agonizando demais para gritar.
– Mordred! – Samantha intervém pelo rebelde.
– Quer visitar o Noah, não é? – Ela se encolhe quando ele fala isso. – E então, Paolo? Já está pensando melhor? Assim que entrarmos num acordo eu até deixo a Sam aqui usar os poderes dela pra te curar.
Lágrimas normais se misturam às lágrimas de sangue de Paolo. Ele sabia que Mordred daria um jeito dele sofrer pra sempre, se não aceitasse tudo que ele dizia.
– Por favor... Para, por favor. Eu faço qualquer coisa.
– Agora começamos a conversar. – Os lábios dele se enrolam num sorriso cheio de sadismo e satisfação. – O que você quer mesmo?
– Eu quero... – Paolo arfava e engasgava com sangue, o que fazia com que falasse pausadamente. – Que você pare de me torturar.
– Vamos fazer o seguinte. Eu paro de te torturar e deixo você ir, mas em troca, terei a sua alma e você me servirá pelo resto da eternidade. – Ele sorri. Sempre sorria antes de falar a frase que estava prestes a sair da sua boca. – Temos um acordo? – Mordred estende a mão ao líder dos rebeldes
– Sim. – Paolo levanta a mão sem dedos com dificuldade, tremendo. Ele toca a mão de Mordred com a sua palma, e o outro fecha um aperto de mãos. Pelo que ele sabia sobre Mordred, estava feito. O pacto estava fechado.
– Samantha, cure o nosso amigo, aqui.
Samantha vai até bem perto da mesa onde Paolo deitava. Era médica, desde antes de encontrar Mordred pela primeira vez. Fora sua imensa dedicação à profissão que fez com que ela caísse nas garras do demônio. Ela virou serva dele em troca do poder de curar, mas não fazia ideia de que isso a poria em tal situação. Desde então, ele a fez fazer coisas que ela antes duvidava que os piores psicopatas tivessem estômago para fazer, só pra ver como ela reagiria.
– Em nome de Mordred, eu te curo! – Com essas palavras ela ativava os poderes dos quais desenvolvera uma aversão.
Em dois segundos, Paolo está completamente curado. Uma fraca luz dourada o envolve durante o processo, e ao fim deste, O sangue espalhado nele era o único vestígio que indicava o que ele tinha passado.
– Só pra avisar, Seus companheiros não são nada fortes. Nem valem a pena ter a alma tomada.
Paolo desperta completamente e então se ajoelha à frente de Mordred.
– Agora que tenho a sua alma, não acho que precise dos seus serviços. Sabe, você me dá náuseas. – Mordred olha o homem ajoelhado com desdém. – Minha primeira ordem: Vá correndo para o mar, então nade para o mais fundo que conseguir e nunca mais saia de lá.
Paolo levanta, tremendo, mas incapaz de desobedecer. Ele sai correndo.
– E os outros dez? – Samantha pergunta, se sentindo mal por Paolo, mas sem querer abusar da boa vontade de Mordred antes de ver o filho.
– Não sei. Vou mandar alguém vir depois e cuidar deles. Não são muito mais poderosos do que carniçais, então não me interessam.
– Disse que ia me deixar ver o Noah.
– Eu sei o que eu disse. – Mordred revira os olhos – Vou te dar duas horas com ele, dessa vez. – Ele estende o braço pra ela, como se a convidasse para dançar. – Vamos?
Sem pronunciar nenhuma palavra, Samantha segura o braço dele. E de repente, nenhum deles estava mais ali. Sumiram sem deixar rastros
***
– Olha a hora! – Alex se surpreende ao ver que tinha menos de meia hora para estar em casa. Apesar de o bar Skin ter parecido muito monótono quando entraram ali, acabaram se divertindo bastante.
– Agora temos que ir. – Michael olhou o relógio no pulso. – Amanhã com sorte teremos um longo dia indo para o lugar onde o Max tá.
– Ok, Cinderelas! Vamos embora. – Olivia falou, levantando.
Enquanto pagavam a conta, viram o homem entrar. Ele era forte e trazia os cabelos castanhos compridos presos atrás da cabeça. Usava calça jeans e regata, e conversava com um homem e uma mulher, mas este ficaram esperando do lado de fora, diferente dele, que entrou. Mike, Olivia e Alex não sabiam, mas o nome desse homem era Dante.
– Desculpa! – Oliva falou, quando esbarrou nele, na hora que iam sair. Ela ainda o olhou por uns segundos depois que ele deu de ombros e seguiu em frente.
– Ei, você tá bem? – Michael perguntou, segurando o ombro dela
– Estou, estou sim. Me beija!
– O que? – Michael julgou não ter ouvido bem o que ela disse.
– Vai, rápido! – Ela falou e se inclinou para frente, agarrando o pescoço de Michael e beijando-o intensamente.
O aluno de engenharia arregalou os olhos. Fora surpreendido pelo beijo da morena. Sempre achara Olivia linda, mas a vida tinha lhe ensinado que garotas como ela não ficavam com garotos como ele. Ficou feliz em saber que a vida estava errada e levou a mão à nuca dela ouvindo os risinhos de Alex.
***
– Aí está você! – Qetsiyah falou ao ver Dante chegar ao covil. Ela estava prestes a sair atrás dele de novo, e não usava mais o uniforme de policial.
– Me procurando, é? – Ele lança um olhar malicioso para ela.
– Tem tido sortes nas buscas? – Ela fala, depois de responder o olhar malicioso de Dante com um cheio de desdém.
– Talvez.
– Hah! Duvido. Não faz a menor ideia de onde ele esteja.
– E como sabe disso?
– Porque eu sei onde ele está. – Ela continua, cantarolando as palavras para provocar – E nem te con-to...
– Vai esconder isso do seu próprio irmão?
– O quê? Eu só estou brincando com o garoto. E mesmo assim vou levar menos tempo do que você teria levado.
– Você me subestima, Qetsiyah.
– Não, acho que não. – Ela dá um passo à frente, e apoiando as mãos no ombro dele, ela fica na ponta dos pés, pra aproximar a boca da orelha dele e sussurrar – Dei uma olhada naquele conjurador que te pegou. Ele nem parece tão forte. – Ela ri e volta para onde estava.
– Para de me provocar desse jeito.
– Ou o quê? Vai tentar me matar? Ouvi dizer que não anda muito bom nisso. Ah! Fala pro Mordred que eu sei onde o garoto está e eu te mato. E não vai ter nenhum conjurador pra te salvar, pode ter certeza. – Ela fala e vai saindo do lugar, quando vira de costas e fala alto, para Dante ouvir à distância. – Se estiver procurando o Mordred, ele não está aí. Saiu com a médica e ainda não voltou.
***
– Desculpa, Mike – Olivia falou, em tom normal quando eles saíram do bar.
– Não, eu...
– Mas eu tinha que olhar pra trás e não podia dar bobeira, foi a primeira coisa que me veio à mente.
Olivia interrompeu Mike, e o que ela disse caiu como um balde de água fria nele. Afinal, a vida estava certa. Toda a euforia desencadeada pelo beijo dela foi substituída por frustração, que ele fez de tudo para disfarçar.
– Claro. Mas o que estava tentando olhar?
– O cara que entrou.
– Eu vi ele. Era bonitinho, mas não era tanto assim pra ter feito tudo isso. – Alex falou.
– Não é isso, sua idiota. – Olivia corou – Quando esbarrei nele, percebi que ele estava armado, e quando olhei, primeiro, comprovei. Ele estava com uma pistola na cintura. Aí eu vi ele conversando aos sussurros com a bartender que você disse que estava escondendo alguma coisa. Aí eu beijei o Mike pra não ficar ali parecendo uma coruja.
– E o que viu? – O garoto falou, tentando parecer displicente pra maquiar sua tristeza.
– Ele andou até o fim da pista de dança e entrou num alçapão lá.
Os outros dois arregalaram os olhos pra ela.
– Tem certeza? – Alex indagou.
– Eu não tou doida, ok. Ele abriu o alçapão lá e desceu.
– Ok, isso tá na lista de coisas estranhas a serem investigadas. – Alex falou, levantando o dedo.
– Tem razão. A gente tem que voltar na Skin e ver o que tem dentro daquele alçapão.
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