London by Night
5 Desencontro
Notas iniciais
Frederick teve uma boa noite, como não tinha tido a muito tempo. E sabia que isso se devia à companhia dela. Deslizou o braço pela cama para abraçá-la quando acordou e sentiu vazio o lado dela da cama, o que o fez despertar de vez.
– Já levantei. – Aladiah, que já tinha acordado a um tempo, falou. – Levei uma hora pra descobrir como usar o banheiro nesse lugar.
O homem riu, então levantou-se, espreguiçando-se.
– Vou sair. Ainda tenho que pensar e observar essa cidade antes de te responder sobre o Mordred.
– E sobre nós dois?
– O que quer dizer?
– Como estamos, depois de ontem?
– Eu também não sei. – Ela passa a mão nos cabelos, refletindo. – Acho que estamos... Analisando a situação.
– Então... Analisando a situação. – Frederick concorda e ri. Depois de ter saído de casa como fez, não esperava que eles fossem chegar nem a isso. Parecia que tudo estava entrando nos eixos. – Até mais.
– Eu volto. – Aladiah se despede e some.
Depois disso, Frederick toma as suas poções matinais e convoca a porta do banheiro. E como não acontecia a muito tempo, ele canta enquanto toma banho.
***
Logo de manhã Alex, Olivia e Michael estavam de pé. Além de preocupados, eles começavam a ficar ansiosos pra desvendar os mistérios e encontrar o amigo. Iriam encontrar-se de novo no apartamento de Olivia, onde Mike deixara os computadores.
Passavam poucos minutos das oito da manhã quando a loira e o garoto batiam à porta da outra, que também já estava de prontidão para recebê-los.
– E aí? – As outras duas não saíam do pé de Mike enquanto ele lia os resultados.
– Hah! – Ele levanta da cadeira jogando os braços pra cima – Consegui. – Ele senta de novo quando as duas apertam ele com força, animadas.
– E aí, onde ele tá?
– Calma, eu só descobri a senha do e-mail. Agora que vem a parte do rastreamento.
As duas suspiraram e se jogaram na cama de Olivia. Mas ao contrário do que imaginavam, não demorou muito e Mike virou a cadeeira giratória.
– Tenho um endereço! – Ele falou, apontando os indicadores como armas imaginárias.
– Fala logo, onde ele tá? – Alex pergunta, ansiosa.
– Pelo que eu pesquisei – Michael começa a explicar – é um hotel pequeno, não muito longe daqui.
– E a Skin? – Olivia estava ansiosa pra seguir a pista que tinha encontrado.
– Não acha muito cedo pra ir lá? – Alex disse. – Quer dizer, o lugar deve estar até fechado.
– Mas é isso mesmo. – Olivia fala, assumindo um tom de voz astuto. – Agora é a melhor hora. Não vai ter gente olhando.
– E como você pretende fazer? Além do mais, o Max é mais urgente.
– Vamos fazer o seguinte. Vocês dois podem ir buscar ele. Eu vou e procuro mais pistas na Skin. Me encontrem lá com ele.
– Ok. – Alex fala, depois de pensar um pouco. – Mas por favor. Não vai fazer nenhuma loucura. Não antes da gente chegar. – Os três riem e Michael anota o endereço do hotel, pouco antes de saírem.
– Tá. – Alex tenta colocar as ideias em ordem – E como a gente vai saber em que querto ele tá?
– Boa pergunta. – Mike começou a pensar. – A gente pergunta na recepção?
– Não seja bobo. Com certeza não vão nos dizer.
– E se a gente fingir que ela já deveria saber que estamos indo lá?
– Não sei... – Alex fala, começando a se convencer da ideia. – Mas se não der certo não teremos outra chance.
– É o único plano até agora. Se não pensarmos em nada melhor até lá teremos que fazer isso.
E não pensaram, até que viram no fim do quarteirão o hotel pequeno, de dois andares e com um letreiro de madeira sobre a porta dupla, com os dizeres “Hotel St. Mary”
– Acho que vamos ter que dar uma de impostores. – Michael fala. Eles tinham que inventar logo a história. – O que vamos falar?
– Só vai no meu fluxo.
Michael concorda e eles entram no estabelecimento. Vão direto até a recepcionista. Uma mulher ruiva com cabelo preso num coque alto e apertado, usando um traje vermelho que a Alex repugnaria se fosse a patricinha que as pessoas costumam pensar que ela é. Lia-se “Jenny” em seu crachá.
– Pois não? – ela falou, com uma voz tão fina que Michael duvidou que pudesse manter uma conversa com ela por mais de três minutos.
– É... – Alex olhou o crachá dela. – Jenny. Somos a Dianne e o Paul. A gente que vinha pra ver o Maximillian Amber, lá no segundo andar.
Como a loira esperava, a atendente ficou vermelha. Certamente não lembrava disso, e devia estar se culpando. Agora estava tudo resolvido.
– Claro. – Ela concorda. – Quarto 203. – Ela indicou as escadas.
– Que gênia! – Mike falou, animado, quando eles já estavam no segundo andar, procurando o quarto com a numeração indicada.
– É, eu sei... – Alex fala, orgulhosa.
– Aqui! – Michael anuncia que encontrou a porta e segura a maçaneta. Ele abre a porta, revelando a visão do quarto.
Um quarto vazio.
– Han? – Alex entra, olhando o quarto mais cuidadosamente. – Que merda! – Ela suspira, sentando na cama. Sobre a escrivaninha descansava o aparelho celular de Max, que Mike prontamente pegou e verificou.
– Sei lá. Ele deve estar pra chegar. Se a gente tivesse demorado um pouco mais... O celular tem 2% de carga.– Mike falou, sentando ao lado dela. – E agora? Esperamos?
– Esperamos.
E esperaram, por cinco minutos, até que escutaram passos. Alex colocou o indicador direito na frente dos lábios exigindo silêncio de Mike, e puxando-o pra baixo da cama. Ele não entendeu então, mas ela não confundiria o som dos passos de alguém usando saltos altos.
Mal tiveram tempo de olar pra baixo do móvel, a porta se abriu. Pela força aplicada, a pessoa que a abriu com certeza estava zangada.
– Sua estúpida! – Os garotos ouviram um som de bofetada, que os assustou o suficiente pra fazê-los prender a respiração.
– Mas eles... – Essa voz eles reconheceram da recepcionista. Agora sentiram uma ponta de culpa. – Pareciam saber de tudo, eu só achei que fossem enviados seus.
– Achou errado. Agora você fez eu perder o meu brinquedo. – A segunda mulher esbraveja. – Tem certeza que só eles dois subiram, não é?
– Sim senhora. Disseram se chamar Dianne e Paul, nã faz nem dez minutos.
– Com certeza eram as harpias que estavam com o Dante. Pro seu bem, é bom encontrar eles, ou vou acabar arrancando a sua pele também!
Alex e Michael arregalaram os olhos, sobressaltados. Ela era o assassino, então?
– Desculpe-me, senhora Qetsiyah.
– Desculpar? Eu te dou uma ordem simples, e você não consegue cumprir nem isso, sua neófita estúpida? Cinco horas. Eu te dou cinco horas pra encontrar ele, porque depois dessas cinco horas eu vou te mostrar como a crueldade do imperador de Londres também está no meu sangue.
Eles escutam um suspiro choroso e então passos. Deduzem que a recepcionista saiu de lá às pressas. Então ouvem mais alguns passos e veem os saltos vermelhos de onde estavam. Já começavam a ficar vermelhos e a sentir os pulmões arderem, mas não tinham coragem de soltar a respiração. Alívio foi quando aquela segunda mulher também foi embora, e finalmente podiam respirar.
– Ouviu isso? – Michael encarou Alex, perplexo, enfiando o celular de Max no bolso. Mesmo estando sozinhos, ele sussurrava.
– Muito suspeito. – Alex acompanhou-o no tom de voz sussurrado.
– Suspeito? Foi praticamente uma confissão! Você não prestou atenção nas outras coisas que ela falou? Neófita... Imperador de Londres... Sem falar na normalidade com que ela tratava essas coisas. Aí tem treta, e das grandes.
– Tem razão. Mas... Como vamos sair daqui?
– A janela! Se a gente conseguir dar a volta no prédio, podemos descer pelos fundos sem ser vistos, eu acho.
– Vamos!
E os dois saíram do prédio, da maneira como Michael sugeriu. Não sem Alex distender a panturrilha e ficar mancando com a dor. Eles andaram uma quadra quando tiveram um sobressalto.
– Olivia!
Os dois saíram dali o mais rápido que puderam. Mas ainda tinham a cabeça ocupada com um pensamento: Se eles eram os únicos que tinham subido e o Max sumiu, então onde e com quem ele estaria?
***
Maximillian acordara cedo. Ainda não conseguia dormir direito, e mesmo antes das suas escassas horas de sono, derramava lágrimas. A única coisa a que se apegava para se distrair da dor era ao recém-adquirido ódio dos demônios.
Agora ele estava sentado na cama, pensando. Suas horas se resumiam a isso, ultimamente. Não tinha a menor vontade de sair dali. Esperava que seus amigos aparecessem. Sabia que assim que eles soubessem do acontecido iriam até a delegacia pegar o endereço de onde estava. Sabia que era uma questão de tempo até eles irromperem pela porta do hotel barato e resgatarem ele. Ele até toparia ir na festa a que Olivia e Alex sem dúvida nenhuma o convidariam, ou pra jogar um dos jogos do Michael... Uma lágrima lhe escorreu do rosto enquanto lembrava da sua antiga vida, que acabara a tão pouco tempo.
Foi acordado dos seus devaneios pelo barulho da porta se abrindo. Mas não era a porta do quarto. Era a porta do Frederick. O conjurador entrou na sala e ele se apressou em secar as lágrimas.
– Está pronto?
– Sim. – E esse era o outro convite que ele aceitaria. Aprender a destruir demônios. O garoto se levantou, determinado e andou até onde o conjurador estava.
– Então por favor... – Frederick indica a porta do próprio aposento para o outro, convidando-o a entrar.
Max entra no quarto místico, deixando o do hotel vazio quando o conjurador fechou a porta.
O salão onde Frederick morava estava diferente agora. Não havia mais livros empilhados, nem móveis antigos, nem tapeçarias, nem prateleiras com garrafas estranhos. O lugar estava vazio, exibindo as paredes cheias de desenhos e símbolos que Maximillian não reconhecia.
– Ok. Eu tenho aqui alguns carniçais pro seu treinamento. Vai ter que enfrentá-los. Isso vai te ajudar a começar a dominar a sua lâmina.
O garoto balança a cabeça concordando e o conjurador senta no canto do salão, então murmura algumas palavras numa língua desconhecida e o primeiro carniçal surge, no centro da sala. Ele não hesita. Ao que parece, a capacidade intelectual daquele tipo de ser era pequena demais para isso, e assim que ele está perto o suficiente, pula sobre maximillian, que salta para o lado pra esquivar.
– Tem que usar a lâmina, e não só se defender. – Frederick sugere, logo antes da segunda investida do demônio.
Maximillian aponta a mão para o inimigo, mas nada acontece. Vendo que seria atingido, ele tenta saltar de novo pra esquivar, mas o carniçal consegue golpear seu ombro esquerdo, deixando-o um pouco dolorido apesar de o golpe ter apenas resvalado. Ao que parece, mesmo o tipo mais fraco de demônio tinha uma força considerável.
– Não é só apontar a mão. Tem que chamar a lâmina. E antes que tente, não precisa realmente chamar ela. Use a sua mente e tente convocá-la. – Frederick continua falando, enquanto vê maximillian saltando para um lado e para o outro para esquivar os golpes do carniçal. O garoto estava começando a ficar cansado.
Enquanto pulava para desviar das incessantes investidas do oponente, Max sente o golpe na canela quando o carniçal o acerta com uma rasteira. Agora estava no chão. Já tinha tentado se concentrar pra fazer a espada aparecer, mas não funcionava. Então viu o demônio se precipitando para cima dele. “Se vai aparecer, agora é uma boa hora.” Ele falou, esperando que a arma o ouvisse. Mas nada aconteceu de novo e ele teve que rolar no chão pra evitar que sua face fosse atingida pelo pé do monstro. Enquanto rolava, pensou em sua mãe e em sua irmã. Pensou no demônio que o atacara antes, na rua escura, ainda que não tivesse visto a face dele. Pensou em todo o mal que essas criaturas faziam, as pessoas que matavam. E queria livrar o mundo deles.
E então aconteceu.
Ele sentiu o cabo da espada na sua mão, e brandiu-a, ainda deitado, contra o carniçal. Um só golpe, que acertou em cheio as pernas dele, e antes que o sangue negro tocasse o chão, o carniçal simplesmente se desfez, virando primeiro uma fumaça densa e negra (como a que tinha visto na noite em que foi alvejado) que em um instante se dissipou.
– Eu consegui! – Ele ergue a espada reta de lâmina dupla prateada com inscrições desenhadas no centro e empunhadura dourada ornada de joias azuis protegendo o cabo coberto de couro preto.
– É... você começou. – Frederick disse, apontando os dois carniçais que tomavam o lugar do primeiro e vinham na direção de Max querendo sangue.
O garoto virou-se e voltou, apesar da espada em suas mãos, a esquivar dos ataques dos monstros e fugir o máximo que podia.
– O que eu faço Frederick? – Ele bradou.
– Cale a sua boca e a sua mente e deixe a lâmina te mostrar o que fazer.
– Dá pra ser mais direto?
– Só... deixa fluir.
Maximillian não fez muito esforço pra entender o que o outro falou, até porque dois carniçais pressionavam bem mais do que um só. Ele sabia que se continuasse como estava logo seria encurralado, e nem queria imaginar o que isso significava.
Deu um passo rápido pra trás e segurou a espada fazendo menos força com o cabo e retesando menos os musculos do braço. E então sabia o que fazer, e sabia como fazer. Depois disso não sabia distinguir quais movimentos nasciam na sua mente e quais não.
Ele girou, segurando a espada na lateral do corpo e cortando o ar em forma de arco. Quando completou a volta, tudo o que havia era fumaça negra se dissipando.
– Acho que agora sim. – Frederick concluiu, levantando-se.
– E agora? – Max percebeu a espada se desfazendo em suas mãos.
– Agora? Bem... agora você está começando a ficar pronto pra próxima etapa.
– O que quer dizer com isso?
– Pode voltar a Londres. Sei lá, vai procurar seus amigos, assim que estiver pronto. Se for atacado, saberá o que fazer, e se tiver problemas maiores... bem, é só me chamar. Por hora, só confie nos seus melhores amigos, vá embora desse hotel e procure outro. Nunca se hospede mais de duas noites no mesmo.
– Como se eu tivesse dinheiro pra tudo isso!
Frederick balança a cabeça e acena pra maximillian. Um cartão de crédito preto aparece na mão dele.
– Não há de que. Não tem limite. Melhor assim?
Agora Maximillian estava pronto pra voltar pra Londres. Seu sangue fervia e sentia que logo iniciaria sua vingança.
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