London by Night
6 Reunião
Notas iniciais
O corredor onde Mordred apareceu com Samantha não ficava no covil. O alçapão na Skin não dava entrada pra cá. Essa construção ficava no subsolo do fundo do Tâmisa. Uma brisa artificialmente criada percorria o lugar, onde vários carniçais rondavam, automatamente. Não existiam portas nem janelas que davam para o mundo exterior, mas o lugar fora construído para ser assim. A única maneira de entrar ou sair dali era usando o teletransporte.
E esse corredor eles percorreram até o fim, ignorando os carniçais, que também não pareciam notá-los. Tinham ordens explícitas de ignorar a presença de Mordred e qualquer um que estivesse com ele. Ao final do corredor, havia um par de portas de aço. Como descrito antes, e como Samantha sabia, não era uma porta para o mundo exterior.
Mordred se apressou a digitar um código extenso no teclado ao lado, e com um barulho mecânico as portas deslizaram para os lados, revelando uma saleta comum, com uma portinha comum ao fundo. Samantha caminhou até a porta e repousou a mão na maçaneta. Ela olhou para trás.
– Duas horas. – Ele advertiu-a.
Ao ouvir as palavras do demônio, Samantha meneou positivamente a cabeça e abriu a portinha, entrando no outro cômodo.
Era um quarto de criança, com brinquedos espalhados sobre o tapete colorido que cobria quase todo o chão de madeira. As paredes, de um tom creme, eram decoradas com adesivos de navios de todos os tipos e tamanhos. Ao fundo, uma das paredes tinha um papel de parede azul ricamente decorado com tipos infantis, mas também ali os navios eram maioria. Naquela parede, havia duas portas brancas.
Entre as duas portas brancas, estava uma cama grande de mogno, com um colchão tão macio quanto as cobertas que a cobriam. Azuis, e com estampas semelhantes às do papel de parede.
E deitado na cama, Samantha reconheceu Noah, dormindo tranquilo. Ele tinha a mesma cor de cabelo que ela, mas com os olhos do pai, verdes e grandes. Não que eles pudessem ser vistos agora, com o garoto no meio do sono.
Samantha andou lentamente para o lado da cama e ajoelhou-se, com os olhos cheios de lágrimas, e ficou alguns instantes olhando o rosto do filho.
– Meu pontinho... – Ela sussurrou, chorosa, e segurou a mãozinha do garoto, que contraiu um pouco o rosto e abriu os olhos.
– Mãe! – Ele falou, animado e saltando da cama para abraçã-la. Mesmo ajoelhada ela era um pouco mais alta que ele. Noah beijou o rosto de Samantha e passou as costas das mãos nos olhos dela, secando as lágrimas. – Não chora, mãe.
– E então... como o meu pontinho está? – Ela falou, sorrindo. Sempre se emocionava ao ver o filho infante, quase sempre uma vez por semana.
– Agora eu sou o capitão Noah! – Ele riu, enquanto a mãe o deitava na cama.
– Ok, capitão pontinho. – Samantha brincou. – Então quer brincar de navio?
– Claro! Você será minha imediata!
Samantha riu. Visitar o filho sempre melhorava o seu humor.
– Ok, capitão. – Ela subiu na cama, ficando atrás de Noah. – Mas se você é um capitão... vai precisar de um chapéu!
– Sério? – Ele erguntou, do alto da sua incredulidade inocente.
– Claro. – Samantha falou como se fosse óbvio. – Todo capitão tem o seu chapéu. Todo mundo sabe disso.
Noah riu e Samantha olhou em volta, procurando qualquer coisa que pudesse usar como chapéu para o filho. À frente da cama, havia um criado-mudo com um caderno e vários lápis coloridos e gizes de cera. Ela foi até lá, curiosa, e viu várias letras desenhadas com a habilidade de uma criança.
– O Tio Mordred que está me ensinando. – O menino falou sorridente, e então sobressaltou-se e lembrou-se de algo. Foi correndo para o móvel e abriu a primeira gaveta. Lá hava vários papeis, e ele pegou um deles. Um desenho do que parecia ser uma mulher segurando a mão de uma criança. – Esse sou eu e essa aqui é a senhora. – Ele sorri. – Fiz de presente.
– Que lindo! – Samantha impede mais lágrimas de brotarem e dobra o desenho, guardando-o na bolsa. Ela tira uma folha em branco do caderno e dobra um chapéu. – Aqui está o seu chapéu, capitão!
Noah comemora pegando o chapéu e pondo-o sobre a cabeça. Coube perfeitamente, e ele voltou para a cama, todo risos.
– Vamos zarpar, imediata! Todos a bordo!
– Sim, capitão! – Samantha faz uma continência e acompanha o filho. – Veja! Um tesourro! – Ela aponta uma pilha de brinquedos ao canto da sala.
– Aquele é o tesouro do pirata barba-colorida! – Noah fala, como se soubesse de tudo. – Vamos fazê-lo sofrer e matá-lo, então o tesouro será nosso!
– Ei! – Samantha começa a repreender o filho. Sentira um aperto forte no coração ao ouvi-lo dizer aquilo.
– O Tio Mordred falou que é assim que se fazem as coisas. Que nós somos os caras bons, e que os caras maus têm que morrer, mas têm que sofrer antes.
Samantha engoliu em seco e tentou mudar de assunto. Ela conhecia as regras. Da última vez que desmentiu algo que Mordred disse, ficara um mês sem ver o filho. Ela não conseguiu segurar as lágrimas dessa vez, e disfarçou ficando atrás de Noah para que ele não a visse chorando.
***
Olivia andava normalmente pelas ruas, até que viu o letreiro (ainda apagado) da Skin. Ela não percebeu, mas o modo de andar e a expressão na face dela eram tão suspeitos quanto podiam ser.
Ela deu uma volta no prédio, procurando qualquer maneira de entrar lá. Apesar do que tinha combinado com os outros dois, seria cuidadosa, não havia nada a temer. Deixou o celular pronto para discar para a policia na mão e prosseguiu com a procura.
– Eureka– Ela exclamou, em tom baixo, quando viu uma porta nos fundos. Ela andou até a porta pra ver se estava aberta.
Nada. A porta estava trancada. Ela até tentou abri-la usando um grampo de cabelo, como nos filmes de ação, mas não conseguiu. Aquilo era mais difícil do que ela achou que fosse (ou ela era mais desastrada do que queria admitir pra si mesma.)
– Vamos, lá, Olivia... – Ela fala pra si mesma, um segundo antes de olhar pra cima e ver uma janela aberta. Provavelmente de um dos banheiros. Um sorriso desenhou-se em sua face.
Olivia andou até cada uma das esquinas, para certificar-se de que ninguém estava chegando, então voltou ao prédio e entrou pela janela, com alguma dificuldade.
Como ela esperava, estava dentro de um banheiro. Pé ante pé, foi até a porta e colou o ouvido à madeira para tentar ouvir se havia algum barulho do outro lado;
Quando não ouviu nada, abriu a porta devagar e certificou-se de que ninguém estava no bar perscrutando-o cuidadosamente, e só então foi para a parte da pista de dança onde vira antes o alçapão.
Estava destrancado. Ela levantou a tampa e pode ver uma escadaria marmórea cujo destino estava escondido por sua curva.
– Seja o que Deus quiser. – Ela sussurrou pra si mesma e desceu os degraus, chegando num correddor longo com várias portas dos dois lados
– Ai meu Deus, e agora?
Antes que ela pudesse chegar a qualquer conclusão, uma das portas se abriu, dando passagem para a coisa mais estranha – E mais amedrontadora – Que Olivia Jamais vira.
Um esqueleto cheio de carne decomposição saiu da sala, e seus olhos sem brilho vidraram na intrusa. Apesar de ter a garganta rasgada, o carniçal sibilou na direção dela, fazendo um barulho alto e macabro.
Talvez atraídos por esse som, dois outros seres preocupantemente semelhantes ao primeiro irromperam de outra sala, e também sibilaram ameaçadoramente para Olivia.
Os três uniam-se e cercavam-na contra a parede, se aproximando a passos largos para pegá-la.
***
Maximillian Estava deitado na cama king-size do quarto de hotel em que estava hospedado. Graças a Frederick, que tinha providenciado-lhe documentos falsos e um cartão de crédito sem limites. Pelo que o conjurador explicara, não era difícil alguém como ele conseguir coisas tão simples.
Fred também mencionara o poder de rastreamento, que Maximillian devia desenvolver antes de tentar caçar qualquer coisa.
O único problema é que ele não fazia a menor ideia de como fazer isso. Devia simplesmente se transformar numa bússola humana que aponta paa demônios?
Max manifestou a sua espada. Fizera isso incontáveis vezes depois da primeira, só para garantir que tinha realmente aprendido. Enquanto encarava o metal, ensou no quão inútil ele era se não pudesse encontrar nenhum deles.
Largou o objeto sobre a cama e foi ao frigobar, onde pegou uma lata de coca-cola. Voltou, bebendo o líquido, e a lâmina não estava onde a deixara. Checou a palma da mão. O desenho estava lá outra vez. Claro Se perdesse o contato com a arma por tanto tempo ela sumiria.
– E... Aprendi um monte de coisas sobre você... – Ele manifestou de novo a arma. – Menos o que eu queria saber.
O próprio Frederick falou que não podia ensinar muito pra ele. Sabia muito sobre magia, mas os poderes de um especialista eram um mistério para o conjurador. Talvez precisasse de um tempo longe disso. De uma folga. Foi o que Max pensou, antes de pegar o telefone descartável que comprara e discar o número de Alex.
***
– E aí, ainda nada? – Alex questionou, olhando Michael enquanto andavam apressados.
– Desligado. – Mike falou, balançando a cabeça. Era a décima sexta vez que ligava para o celular de Olivia, sem obter resposta. Ele e Alex começavam a entrar em desespero.
– Droga, ela não deu nenhuma notícia! Também não mandou nenhum S.O.S
– Das duas uma – Mike começou – Ou ela está perfeitamente bem na casa dela ou em maus lençois de verdade, lá na Skin.
– Acha que a gente devia se separar e ir checar os dois lugares?
– Não! Foi assim que isso começou. Vamos na Skin, porque se ela estiver lá, estara precisando de ajuda mais urgente. Se estiver bem em casa, pode eserar. – algo no nervosismo e seriedade na voz do amigo fez Alex olhá-lo com um sorriso triste.
– Mike... Ontem na Skin?
– O que teve? – Ele respondeu, sem diminuir o passo.
– Quando a Olivia te beijou... Quer dizer... Você gosta dela, não é?
– Claro que gosto, Alex! Ela é minha amiga.
– Não, Mike. Eu perguntei se você gosta dela. – Ela enfatiza a palavra “gosta” enquanto fala; – Eu vi como você ficou quando ela falou que só te beijou pra disfarçar.
O garoto permanece em silêncio por vários minutos, até achar que o assunto acabou. O silêncio constrangedor impera entre eles até terem alcançado a rua do Skin, quase 20 minutos depois.
– Vamos dar a volta no prédio e ver se vemos ela. – Michael quebrou o silêncio, por fim. Alex sentiu-se aliviada e concordou sorrindo.
E eles não encontraram ela, mesmo depois de dar duas voltas. A única pista dela que acharam foi vista por Alex.
– Ali! A janela está aberta. Ela deve ter entrado por ali. – E ela continua, sussurrando – Que cabeça-dura...
Eles se aproximaram quase correndo.
– Aqui. Me ajuda a subir e aí eu te puxo. – Michael sugeriu.
Alex meneou a cabeça positivamente e juntou as mãos sobre o joelho, criando um degrau pra Mike se apoiar. Mas quando ele estava com a mão apoiada na janela, pronto pra passar pra dentro, uma voz atrásdeles os fez parar.
– Esperem!
***
Olivia tremia quando levantou o celular, mas de nada adiantou, pois um golpe de um carniçal precipitado foi suficiente pra destruir o aparelho. Agora, junto dos outros dois, ele se aproximava da sua presa, pronto para matar.
E teria matado, realmente, não fosse a presença de espírito de Olivia pra chutar o monstro na cintura, empurrando-o para trás e abrindo espaço suficiente pra correr.
Mas o medo anuviou demais sua cabeça pra que ela soubesse pra que lado ir, e logo estava encurralada de novo, agora ainda mais longe das escadas. Ela tentou repetir a façanha, mas dessa vez não teve sucesso. O carniçal segurou seu tornozelo, os dedos como uma pinça quase esmagando os ossos da garota. Um puxão e ela estava ao chão, olhando os olhos leitosos deles.
Antes mesmo que ela pudesse ter noção da situação e perceber que estava prestes a morrer, no entanto, algo aconteceu.
Uma luz branca iluminou o corredor, mais forte do que os olhos de Olivia podiam aguentar sem fechar-se automaticamente. Quando a luz tinha ido, os carniçais estavam caídos no chão, e lá estava a mulher loira.
– O que... Você é um... Anjo? – Ela falou, olhando a mulher que usava um vestido branco. Os olhos dela eram compenetrantes, pareciam poder ver atraves de tudo.
Aladiah sorriu, com a confusão da garota.
– Não existem anjos, criança. – Ela estendeu a mão pra ajudar a outra a se levantar. – Devia saber disso ao entrar num covil de demônios.
– Demônios? – Olivia falou, ainda confusa.
– Sim. Eles existem, e eu sou um deles. – Ela falou, sorrindo, e então completou ao ver o espanto na cara da garota. – Mas eu não sou como os outros. Vem, eu te explico tudo.
Olivia levantou, segurando a mão de Aladiah. Agora estava calma.
***
Alex quase derrubou Michael, que pulou ao chão. Os dois olharam pra trás, eufóricos e Aliviados ao reconhecer a voz da amiga.
– Olivia! – Alex exclamou, sorrindo, e então notou que a amiga não estava sozinha. – Quem é essa? – Ela apontou para a mulher loira que acompanhava a morena.
– Calma. Essa é a Aladiah. Explicamos tudo no caminho pra casa.
Um pouco relutantes de início, Alex e Mike entraram no Miata dourado estacionado ali na rua (Quando ele chegou ali, exatamente, nenhum deles sabia responder) e rumaram mais uma vez pro apartamento de Olivia. Era quase noite quando todos terminaram de contar as novidades. Alex e Mike contaram sobre o hotel, e tudo que aconteceu no quarto de Maximillian. Sobre Qetsiyah, a assassina, sobre a conversa estranha e como fugiram de lá, indo atrás dela.
– Demônios? – Alex e Mike perguntaram, em uníssono, quando Olivia chegou nessa parte da estória. Alex olhava desconfiada pra Aladiah o resto do relato, enquanto Mike lançava olhares de admiração.
– E isso é tudo. – Olivia finalizou contando sobre os tipos de demônio, o sistema político oculto da cidade, e sobre o motivo de o amigo ter desaparecido. Tudo isso tinha sido explicado a ela por Aladiah.
Nem bem tinha acabado, o celular de Alex tocou.
– Desculpa, gente. – Ela falou, olhando o número que não reconheceu.
Os outros deram de ombros e a oira atendeu o telefone.
– Alô?
Olivia e Michael observaram ela empalidecer e arregalar os olhos logo no primeiro instante da conversa.
– Max?
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