London by Night
11 Sapatos
Notas iniciais
Mordred guia Samantha através da entrada do restaurante, e o mâitre logo os leva até uma sacada de onde podia-se ver o luar. O lugar estava iluminado, em sua maioria, pelas velas ali acesas. Numa das cadeiras, Noah sentava, com uma mulher loura de cabelo preso num coque alto atrás da cadeira dele. Assim que Mordred entrou, ela retirou-se do local, deixando os três a sós.
– Noah! – Samantha se afasta de Mordred e vai até o filho para abraçá-lo.
– Mãe! – Noah pula da cadeira e abraça Samantha, sorrindo. – Esse lugar não é demais?
– É lindo! – Ela sorri e beija ele várias vezes no rosto. – Como você está?
– Muito bem! O Tio Mordred falou que eu vou me mudar.
– Vamos sentar? – A entrada já vai chegar. – Mordred falou, Polidamente.
– Ele também me disse isso. – Samantha suspira e vai até a mesa com Noah.
– Ele falou que eu vou morar com ele. Por que eu não posso morar com a senhora, mãe? – Quando Noah pergunta isso, Mordred encara Samantha.
– Porque... – Samantha engole em seco ao perceber o olhar do demônio. – Porque é melhor você ficar com ele. – Ela força um sorriso. Samantha não podia contrariar Mordred. Ela sabia das consequências.
Após ser srvida a salada, com o silêncio entre os três, Noah torna a falar.
– Tio Mordred, o senhor já matou aquele cara mau que estava fugindo?
– Noah! – Samantha olha pra ele.
– Ainda não, Noah. – Mordred ri um pouco. – Mas quando eu pegar ele, vou tirar o fígado dele e comer e depois queimar ele ainda vivo, bem aos poucos, pra ele saber quem manda. – Noah ri e levanta os braços.
– Você é o máximo, tio Mordred
– Será que ninguém me escuta? – Samantha resmunga
Noah baixa a cabeça e fica calado, comendo sua salada.
– Claro, Samantha, mas você está sendo um pouco dura demais com o Noah, não deixando que ele faça algumas coisas divertidas de vez em quando. – Mordred fala. Samantha conhecia-o bem o bastante para sentir na pele a falsidade em suas palavras. – Façamos o seguinte, campeão. Eu vou deixar você tirar o fígado do cara mau. Mas vamos jantar em paz hoje, ok? Do jeito que a mamãe gosta.
– Só acho que isso não é assunto para um jantar, muito menos para qualquer outro momento.
– Já paramos! – Mordred levanta as mãos em rendição e volta a comer a salada, então termina seu prato. – Ei, aí vem o prato principal. – Ele beberica um pouco de água.
Samantha respira fundo e deixa os talheres no prato. Ela mal havia tocado na comida. Estava chateada e principalmente irritada. Não era pra ser assim. Noah não era pra ser criado desse jeito.
– Está guardando espaço pro prato principal Samantha? – Mordred sorri cortesmente quando é servida a carne com molho acompanhada de legumes cozidos.
– Se me conhecesse melhor, saberia que prefiro a sobremesa. – Ela pisca para ele e serve o filho, ajudando-o a cortar a carne e os legumes.
– Sabe... – Mordred come uma garfada. – É isso que eu gosto em você. Mesmo depois de tanto tempo, ainda não sei tudo sobre você.
– Mas sabe qual é o meu ponto fraco. – Ela bebe um pouco de vinho. – E essa é a pior coisa sobre mim.
– Assim você faz parecer que eu tento te atingir ou alguma coisa do tipo. – Mordred ri e desconversa. – Então, o que estão achando da comida?
– Deliciosa! – Noah Exclama.
“Você sempre quer me atingir” – Samantha pensa e sorri olhando o filho. – Noah tem razão.
– Eu queria que o chef cozinhasse o coração, mas ele falou que era muito fibroso. Que os pulmões seriam bem mais macios e absorveriam melhor o tempero. Não posso deixar de concordar agora.
– Noah, não coma isso! – Samantha sobressalta-se e tira o prato da frente do filho.
– Vamos lá, Sam. O garoto precisa de proteínas. Quer que ele cresça saudável, não? – Mordred fala, colocando de volta o prato onde estava para que noah comesse.
– Não esse tipo de proteínas! – Samantha fuzila o demônio com o olhar.
– Proteínas são proteínas, não é? Como médica, você sabe mais do que ninguém que é melhor pra ele que seja como eu falo, não? – Era perceptível que agora Mordred não falava apenas da nutrição do garoto.
– Tudo bem. Pode comer, Noah. – Ela pega sua taça e bebe o restante do vinho.
Noah continua a comer a comida, assim como Mordred.
– Que tal um fim de semana com o campeão, hein Samantha? Sei lá, de repente numa fazenda ou nas montanhas. Posso providenciar isso, se quiser.
Samantha olha para os outros dois e sente seu estômago embrulhar. Ela serve um pouco mais de vinho para si e segura a taça olhando o filho. Era bom passar mais tempo com ele, mesmo com Mordred por perto. Ele lembrava seu ex-arido, John. Eles se separaram quando Mordred tirou-lhes a criança. A médica pisca algumas vezes, tirada de seus devaneios pela Voz de Mordred.
– Seria ótimo. – Ela sorri. – Eu e o meu pequeno juntos e sozinhos.
– Juntos e sozinhos. – O demônio fala, bebendo mais água ao ver a sobremesa chegar.
– Achei que seria bom pra vocês se conectar um pouco. – O mâitre retira os pratos, que logo são substituídos por uma torta de morangos. Mordred sinaliza para que ele não deixe o local.
– Obrigada Mordred. – Samantha sorri e olha para o filho. – O que acha, meu amor?
– Eu acho o máximo! – Noah sorri, animado.
Samantha come um pedaço da torta e olha pra Mordred.
– Dessa vez acertou no doce. – Ela sorri. – Pode dispensar o rapaz, não?
– Na verdade, tenho outra coisa em mente. Já que vocês estarão sozinhos, achei que seria melhor se o Noah aprendesse a se defender, então ensinei um pequeno truque pra ele usar caso precisem. Por que não mostra pra sua mãe, Noah?
– Que truque? – Samantha levanta uma sobrancelha e olha para o filho e depois para o mâitre. “Não pode ser o que estou pensando.”
Os olhos de Noah se enchem com um suave brilho arroxeado quando ele encara o homem, parado à frente da mesa.
– Você é mau, e caras maus merecem morrer. Enfie a mão pela garganta e me dê o seu coração.
Samantha abre a boca para falar algo, mas logo a fecha ao ver o olhar de Mordred sobre ela. Ela balança a cabeça negativamente como se pedisse para que o demônio parasse com aquilo.
Mordred ri e faz um leve aceno com a mão, trazendo a normalidade para o olhar de Noah e sanidade para o mâitre, que já estava com os dedos na boca.
– Tudo bem, campeão. Pode deixar ele dessa vez, é só o nosso mâitre.
***
Qetsiyah estava sentada à mesa do seu escritório, ou melhor, do escritório da detetive Misaki. Não havia motivo em manter aquilo já que não a estava mais ajudando. Mas ela também sabia de uma coisa. Gostava daquilo. Ninguém ali sabia quem ela era de verdade, e a sensação de poder enganar todas aquelas pessoas... Ser a única conhecedora da verdade... aquilo ainda mantinha Qetsiyah sob o nome Misaki.
Ela ordenava a papelada dos casos que estavam encerrados por falta de provas, quando sentiu dois dedos todarem-na na cintura.
– Ei! – Ela falou, um pouco assustada, e então continuou, surpresa. – Dante!
Ele levantou uma sobrancelha e deslizou os dedos, segurando a cintura de Qetsiyah. Sorriu, usando um uniforme parecido com o que a outra usava.
– Sub-delegado Paul. Recém transferido de Surrey.
– Corta essa, Dante. O que você está fazendo aqui?
– Bem... Eu resolvi me infiltrar na polícia e usar isso pra encontrar o pirralho, e aproveitar pra dar uma checada nas detetives gostosas daqui. – Ele então apertou-a de leve.
– Ei! Esse é o meu local de trabalho. – Qetsiyah tentou parecer inofensiva.
– Meu também. E ainda assim... – Ele então empurrou tudo que estava sobre a mesa para o lado, espalhando o que levou horas pra ser organizado.
E de fato, ele foi tão rápido que qualquer mulher não teria tido tempo de reagir. Mas Qetsiyah não era qualquer mulher. Ela era um Lorde extremamente poderoso. Ela poderia reagir, se realmente quisesse.
Mas ela se deixou ser jogada sobre a mesa por ele. Não tentou impedi-lo de tirar a sua roupa e a própria, bem ali, onde qualquer um poderia entrar a qualquer minuto.
***
– Finalmente! – Michael exclamou, comos olhos vidrados no computador. Desde a última aula de magia com Frederick, tinha trabalhado duro com a pesquisa dos sapatos. Não podia desperdiçar a melhor pista que tinham.
E o sacrifício valera a pena, pois ele finalmente tinha a lista dos paradeiros de todos os 300 pares.
– Agora eu só preciso dar uma olhada um pouco mais a fundo e... – Ele arregala os olhos quando vê o resultado. Abre a boca mas não emite som algum, e fica só encarando a tela.
O garoto pula da cadeira e sai de casa praticamente correndo, enviando mensagens para o celular dos amigos e pedindo que se reunam na casa de Olivia.
***
Dante deixara Qetsiyah na sala dela, e agora se encaminhava para a própria. Como sub-delegado, ele era chefe de Misaki, e, apesar de não ter sido esse o real motivo de ele ter vindo aqui, realmente achava que poderia descobrir o paradeiro do garoto se tivesse toda a força policial do distrito sob seu controle.
Com os pés descansando sobre a mesa, o líder dos algozes refletia sobre os últimos dias. Depois de falhar a missão a ele imposta, acabara se envolvendo com a irmã do comandante de todos os demônios de Londres.
E era essa a pior parte.
Pois ao longo de toda a sua vida, desde quando nasceu, no auge da segunda guerra, tivera uma vida difícil. Antes mesmo que descobrisse que a sua mãe não tinha uma alma – O que fazia dele um demônio – Ele já tinha fechado o coração. Nem precisaram receber a notícia do falecimento do pai, para tornar a vida difícil.
Sua mãe, tentando manter vivo o filho, gastava dia e noite fora de casa, trabalhando, e deixava-o sozinho. – Dante levou anos para perceber, mas ela era prostituta. – Assim, acabou por se meter em muitas brigas com os garotos mais velhos.
O estilo de vida que sua mãe levava não era feito para ser longo. E ainda no meio da adolescência ele estava órfão. A vida nas ruas completou a sua personalidade durona e adaptada à violência e crueldade. Preparou-o para liderar os algozes.
Qetsiyah trazia-o algo que estava a muito esquecido. Fazia seu coração funcionar novamente. Fê-lo sentir coisas boas de novo. Tudo acontecera tão rápido, e apesar de não querer admitir, ele sabia. Amava aquela mulher.
***
– E então, o que era tão importante? – Alex perguntou, sentando num dos pufes na sala de Olivia. Os quatro amigos estavam reunidos, todos sentados, exceto Mike, que parecia empolgado demais pra isso.
– Os Jimmy Choos. Eu sei quem é a dona deles!
Os outros o olharam por uns segundos, sem entender bem do que falava, até o momento em que Alex exclamou.
– Finalmente! Agora estamos mais perto que nunca de descobrir quem é a vadia!
– Quem é? – Olivia perguntou
– De todos os pares de Divina do mundo, dois estão em Londres. Um deles pertence a uma socialite, mas o que me chamou a atenção... Max... Como disse mesmo que era o nome da detetive responsável pelo seu caso?
– Detetive Misaki, mas...
– É ela. Ela é a nossa Cinderela.
Um silêncio constrangedor seguiu-se àquela revelação. Nenhum deles pareceu saber o que dizer ou fazer, até que Maximillian rompeu a mortalha silenciosa.
– Que... Tipo de pessoa doente faz o que ela estava fazendo? Brincando comigo.
– Demônios, Max. – Alex abraça o amigo. – Demônios. Eles são assim.
– Pelo menos a maioria deles são. – Olivia falou, lembrando de Aladiah.
– Já sabemos que ela é um deles mas... – Mike andou, indo em direção à mesa com o mapa. Os outros foram em seguida, quando o ouviram falar. – Pessoal... É melhor vocês virem aqui.
E ao chegar lá, todos ficaram estupefatos. Perscrutaram as linhas intricadas tentando ler a localização do distrito policial. Sobre a parte do mapa correspondente à delegacia, uma pequena conta branca.
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