London by Night
10 Portas
Notas iniciais
Olivia permanecia com os olhos vidrados no mapa feito por Frederick.
– Que impressionante, mas ao mesmo tempo tão ilógico. – Ela resmunga sozinha ao ver as contas se movimentarem.
Ela acompanha o desenho do mapa com os dedos e tenta deduzir em qual lugar seria sua casa e onde os demônios com as bolinhas brancas estariam.
– Hum, algo me diz que isso é obra do Frederick. — A mulher loira comenta fazendo Olivia saltar da cadeira e colocar a mão no peito tentando controlar a respiração acelerada.
– Assim você me mata Aladiah!
– Desculpe criança, não era a intensão. – A Lorde sorri amigavelmente para a garota. – Estou certa? – Ela aponta para o mapa esperando pela resposta de Olivia.
– Sim, ele fez isso pra ajudar o Max, mas como você sabe? – Olivia olha para Aladiah curiosa.
– Digamos que quando você passa uns bons anos de sua eternidade com uma pessoa, você aprende os truques dela. – Aladiah sorri e se senta na cama.
– Sério? Você e o Frederick? Mas isso não é contra as regras?
– Que regras? – Aladiah olha para a menina sem entender.
– Ah, sei lá! O Frederick treina pessoas para matar demônios, e eles são como você. Seria o mesmo que o Fred querer te matar.
– Olha, eu nunca pensei dessa forma, talvez por amar perdidamente ele, mas eu não posso ser morta.
– Então você é como o Mordred e a irmã dele?
– Sim. Nós somos Lordes. Somos imortais. – Aladiah suspira.
– Como que demônios da mesma raça podem ser tão diferentes assim? — Olivia olha a loira.
– Diferentes?
– Sim, Mordred e sua irmã são assassinos sem coração, são frios como um iceberg. Já você é um doce, se preocupa com os outros e tem sentimentos. – Olivia sorri sem graça. – Você me salvou sem nem ao menos me conhecer.
– Ah criança, aquilo era o mínimo que poderia fazer, eu não iria deixar você morrer. – Aladiah sorri. – Quanto ao Mordy... Bom, deve ter algum sentimento nele, não sei. – Aladiah levanta os ombros como se desculpasse.
– Mordy? Ele não é seu parente não né?
– Eu cuidei dele quando ele era pequeno. – Aladiah olha para Olivia. – Não vim falar sobre ele, mas sim pra saber se você e seus amigos estão bem.
– Nós estamos. Max está mudando de hotel pra hotel pra não ser descoberto, Mike não sai mais de casa, fica enfurnado naqueles livros e jogos malucos dele e a Alex deve estar fazendo compras. — Olivia sorri.
– Essa Alex. Ela não gosta muito de mim não é?
– Alex é assim. Ela não gostou de você a princípio, mas vai gostar quando te conhecer melhor.
– Ou não. – Aladiah ri e se levanta indo até a mesa para olhar o mapa.
– Qual desses é você? – Olivia aponta para as contas brancas.
– Vamos ver se você descobre. – Aladiah fecha os olhos e a sua conta desaparece do mapa por um momento. – Descobriu?
– Incrível! – Olivia olha admirada e surpresa para a loira e o mapa.
– Agora sabe onde é sua casa. – Aladiah pega um pedaço pequeno de papel e marca no mapa onde é a casa da garota e faz sua conta aparecer novamente.
– Fica mais fácil saber agora. – Olivia sorri.
– Não hesite me chamar se precisar de ajuda Olivia. Sempre vou te proteger e ajudar seus amigos, ok? – Aladiah olha para ela.
– Obrigada Aladiah. – Olivia abraça a loira que retribui.
– Não precisa agradecer. – Aladiah sorri e se afasta. – Preciso ir, mas estarei de olho. Se cuide Olivia. – A loira acena e desaparece diante dos olhos da jovem.
– Você também Ala. – Olivia sorri olhando para o nada voltando a sentar na cadeira e admirar o mapa.
***
– O que é isso? – Michael apontava para a chave de Frederick. Os dois estavam no salão de luz dourada que Max conhecia bem, mas que era visitado pela primeira vez por Mike.
– A chave é o símbolo da ordem dos conjuradores. Nós somos a chave que destranca todas as portas.
– O seu poder vem disso?
– Não. – Frederick riu. – O meu poder... o poder de qualquer conjurador, vem dele mesmo.
– E quando eu vou aprender a usar esse poder?
– Vou começar te ensinando um feitiço simples e útil. Feitiço das mil portas.
– Caramba! É esse que você usa pra se locomover, né?
– Sim. Não parece, mas é bem simples.
– E o que eu tenho que fazer? – A face de Michael estava agora repleta do mais puro entusiasmo.
– É... No começo você vai ter alguma dificuldade, mas esse feitço é a base de toda a magia.
– E por que?
– Você descobrirá isso sozinho. Primeiro... Lembra-se do seu quarto?
– Sim.
– As portas que você abrirá serão pra lá. Pelo menos de início.
– Como assim?
– Você não pode abrir portas para um lugar que não existe. Esse salão, por exemplo. Ele existe de verdade, eu só abro portas para me transportar pra ele rapidamente.
– Entendi. Então o meu quarto seria como isso aqui?
– Isso. Mas primeiro você tem que encontrar a porta dele, pra poder ser digno de usar esse poder. Tome isso. – Ele falou, empurrando-lhe um lápis sem falar mais nada.
– E como eu faria iss...
Michael não foi capaz de terminar sua frase. Foi surpreendido por um empurrão de Fred, que o jogou direto ao chão. O impacto em seu peito o fez fechar os olhos e então sentiu o baque contra as costas e os cotovelos. Caíra no chão, mas tinha certeza absoluta de que atrás de si havia uma parede.
Abriu os ohos, e verificou verdade o que suspeitava. Não estava mais no salão cheio de prateleiras e livros. Ao invés, o ambiente em que se encontrava era uma imensidão branca preenchida com escadas e portas, todas exatamente iguais e fechadas, sem mostrar para onde davam.
– Acho que foi isso que ele quis dizer com achar a porta do meu quarto.
O garoto encarou a situação com uma naturalidade impressionante, simplesmente se levantando e subindo uma escada na direção de uma das portas.
Assustou-se ao abri-la. Assustou-se e de fato quase morreu, pois assim que houve espaço, com a entrada aberta, labaredas roxas procuraram passagem, crepitando alto e chamuscando os pelos dos dedos do garoto quando ele fechou, por reflexo, a porta de madeira.
– Tudo bem... Essa não é. – Ele falou, com o coração disparado. Acabara de escapar da morte, e o cheiro de queimado poderia vir não só dos seus pelos. – Agora... é melhor eu marcar isso aqui pra não abrir ela de novo. – Entendendo o motivo, ele procurou no bolso o lápis, marcou a porta com um “X” e escreveu nela “Fogo roxo perigoso”.
Depois de marcar a porta, ele andou para o lado, onde viu outra porta, idêntica à primeira, a não ser pelas inscrições em lápis. Nessa outra, não foi atacado.
Ao invés, apenas sentiu cheiro de grama cortada e de flores. Não tinha visto o interior da outra por causa do fogo, e agora, um fino véu brilhante tapava completamente a visão do outro lado, permitindo, no entanto, que ele sentisse o cheiro.
Primeiro ele tocou o véu, mas não sentiu nada. As pontas dos seus dedos simplesmente atravessaram-no, sem nenhum tipo de resistência. Então ele respirou fundo e criou coragem para colocar o rosto através da camada etérea.
Ao abrir os olhos no que pensou ser o outro lado, percebeu que a porta não estava ligada a nenhuma parede. O que via era um campo gramado e florido, sem nenhum fim que ele pudesse ver. Desse lado, o cheiro era ainda mais forte e inebriante, e o sol era morno. Teve vontade de ficar mais um pouco ali, mas agora não era a hora, então apenas recuou o rosto, fechou essa porta e marcou como “Campo romântico”.
Ainda escreveu, em outras portas, marcações como “Bonecos cantores”, “Areia viva” ou “Pedaços de zumbis”. Também notou que várias outras estavam trancadas e ele não conseguia abrir. Estava cansado, e não fazia ideia de quanto tempo havia se passado até que chegara ali ou de quantas portas havia aberto. Mike, pela primeira vez desde que recebera a visita de Fred, não estava animado. Só queria achar de uma vez a maldita porta do seu quarto.
E ele não sabia se esse tipo de pensamento estava relacionado ao fato de a próxima que abriu ser não menos que a porta do seu quarto. Diferentemente de todas as outras, não havia véu cobrindo essa. Ele podia ver claramente o outro lado. Enxergava a mesa do seu computador e a cadeira, os pôsteres, as almofadas bagunçadas no chão, sua coleção de livros na estante ao canto, a sua cama e...
Sentado na cama, Fred parecia já estar esperando ele. Antes de pular para dentro do quarto, porém, Mike não esqueceu de escrever na porta.
“A droga do meu quarto!”
– Parabéns! – Disse Frederick, quando Michael entrou no cômodo. O homem olhava o pulso, apesar de não haver relógio ali. – Só levou duas horas e meia. Teve sorte.
– Sorte?
– Claro. Tinha incontáveis portas, e sem nunca ter estado lá você encontrou a sua. – Então Mike entendeu que não tinha tido nada a ver com a sua vontade. – Aquilo é a magia, Mike. Cada porta é uma conjuração que você aprenderá. Quanto mais portas conseguir abrir, mais poderoso será.
– Então tenho que fazer isso toda vez que quiser me locomover? Achei que fosse algo mais... Sei lá, mais rápido. – Frederick riu com o que Michael falou agora.
– Não, não precisa mesmo. Depois que encontra a porta, fazer a conjuração é simples. Só precisa lembrar de como marcou ela.
– Entendo.
– Eu, por exemplo, uso símbolos pra cada porta que abro. Se eu pensar no símbolo, posso abrir a porta, e então conjurar o poder que está atrás dela.
Michael então não pode parar de pensar quão estúpida era a marcação que fez nas portas que viu antes. Fez uma nota mental para, no futuro, marcar outras portas de maneira mais... Épica.
– E como eu faço isso?
– Crie uma porta imaginária e abra ela, tudo dentro da sua mente. Lembre-se de que essa porta tem que ser a porta certa, então você tem que lembrar-se da marcação.
– Mas algumas das portas tinham coisas... estranhas.
– Nem toda conjuração é fácil de entender. – Frederick olhou para o garoto com uma expressão séria. — Nunca! Em hipótese alguma abra uma porta se ainda não tiver entendido no que isso acarretará.
Isso realmente soou ruim para ele. Na verdade, Michael não tinha entendido quase nenhuma das portas que abriu. Resolveu testar algo e pensou na segunda porta que abriu, ela era cinza e de maçaneta dourada, com os dizeres “Campo romântico”. Imaginou-se abrindo ela e quando deu por si, uma das tulipas amarelas que enchiam o lugar estava em sua mão.
***
Samantha caminhava pelos corredores abaixo da Skin. Ela estava feliz e ao mesmo tempo aflita. Ela estranhava a ligação que havia recebido do demônio, que a havia convidado para um jantar com ele e Noah. “Talvez ele esteja de bom humor e queira me deixar ver o pontinho”, Samantha pensava esperançosa, para cobrir os gritos mentais de “Ele está tramando alguma coisa!”.
Ela suspirou e balançou a cabeça para afastar os pensamentos negativos. Ao parar diante da porta escura, ela bateu três vezes e esperou uma resposta.
– Pode entrar – Ela ouviu a voz de Mordred responder, lá de dentro.
– Boa noite. – Samantha sorri ao entrar no escritório de Mordred. – Trouxe vinho. – Ela balança a garrafa depois de fechar a porta e ir até ele.
– Meu preferido. – Ele sorri olhando o vinho. – E então, pronta para uma noite memorável?
– O que está tramando?
– Surpresa. E então... – Ele estende a mão para a outra. – Vamos?
Samantha segura na mão dele e o acompanha.
– Seus “seguranças” me dão calafrios.
– Eles não são tão ruins assim, uma vez que você se acostuma com eles. – Mordred andava com ela para a saída do local, no alçapão que dava para a Skin.
– Talvez se eu viesse mais aqui eu me acostumasse.
– É uma questão de ponto de vista, veja você. O Noah, por exemplo, já não tem problema algum com eles. – Os dois chegam ao bar, que àquela hora estava no seu auge, com um pouco mais de meia dúzia de pessoas.
– Meu filho convive com eles? – Samantha olha Mordred inconformada.
Mordred dá de ombros, andando para a saída.
– Uma vez ou outra, sim. Mas isso é normal, considerando o padrinho que ele tem, não?
– Já falei que você não é o padrinho dele. – A médica revira os olhos.
– Padrinho, pai adotivo, tio postiço... No final dá no mesmo. – Mordred sorri quando eles chegam ao lado de fora, e abre a porta da limusine lustrosa para que Samantha entre.
– Impossível discutir com você. – Samantha entra no carro e espera o outro.
– Não vou argumentar. – Mordred entra e fecha a porta. O carro logo começa a se mover, guiando eles através da cidade. – Hoje o pequeno Noah vai até sair do esconderijo. Tem um restaurante em Westminster que eu achei... perfeito para a ocasião.
– Sério? Eu vou ver mesmo o meu pontinho? – Samantha se anima e decide deixar a possível discussão de lado.
– Não achou que eu mentiria, achou? Sabe que eu não sou disso. – Mordred olha a rua quando cruzam a ponte sobre o Tâmisa.
– Você é capaz de coisas piores. – Samantha sorri de lado olhando para ele.
– Exatamente. – Ele deixa o silêncio reinar por um tempo. – Sabe Samantha, estou pensando em tirar o Pequeno Noah daquele lugar, tipo... De uma vez por todas. Colocá-lo onde ele tenha contato com gente que sabe falar e com um QI maior que 20.
– Mesmo? E por que o meu filho não pode ficar comigo? Eu o matricularia em uma escola que você queira, mas ele estaria comigo.
– Bom, isso, Samantha, é porque eu não quero. Era o meu covil que eu tinha em mente. Ele nem precisa tanto assim de uma escola. Posso ensinar tudo pra ele, por agora. Na verdade, ele aprende muito rápido, você deveria ver. Uma pena você estar perdendo todas essas... Fases importantes.
– Por que faz isso comigo Mordred? – Samantha olha para ele e cerra os punhos.
– É que eu gosto da sensação. – O carro para. – Ops, sem mais discussões na frente da criança. Não queremos passar a imagem errada para o Noah, não é?
– Eu odeio você.
– Não está sozinha nessa.
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