London by Night
9 Poder
Notas iniciais
As ruas de Londres corriam ao redor de Maximillian enquanto ele acelerava a Harley. O destino já estava traçado, e o garoto começava a sentir o sentimento de vingança apoderar-se dele, com a iminência do embate com o neófito.
Levou dez minutos para vencer a distância, e chegou à frente de um sobrado aparentemente abandonado. Uma cerca de madeira podre rodeava a grama, que não parecia ter sido cortada recentemente. A construção, feita em madeira, trazia uma pintura descascada e desgastada, mas podia-se ver que um tom pastel tinha sido ostentado pelas paredes, algum dia.
Maximillian estacionou a sua Harley no final da quadra e andou até o sobrado, o punho cerrado pronto para manifestar a lâmina.
Abriu a porta, mostrando uma sala-de-estar sem móveis e empoeirada. As janelas foscas não mostravam o exterior, e a escada ao lado do cômodo se mostrava pouco segura, com vários degraus faltando. O ruivo subiu-a com cuidado assim que certificou-se de que não havia ninguém no térreo.
No pavimento superior, a camada de poeira era igualmente grossa. Via-se num corredor longo, com algumas portas no lado direito, dando provavelmente para mais salas vazias. Já tinha checado todo o andar de baixo, então aqui provavelmente encontraria algo, por isso tratou de manifestar a lâmina antes de continuar explorando o local.
Ainda andava no corredor quando ouviu, atrás de si, uma madeira rangendo. Parou e pulou para a direita, por reflexo. Quando olhou para trás, viu um dos demônios que viera abater. A pele pútrida revelando alguns dentes e ossos, bem como o olho amarelado e ressecado, deixavam claro que se tratava de um carniçal, e Maximillian decidiu acabar com ele antes que o neófito se juntasse e a desvantagem numérica pudesse atrapalhá-lo.
O golpe foi rápido e conciso. Aquele tipo de criatura realmente não apresentava tanto perigo para um especialista. Antes que pudesse perceber o que fazia, seu braço precipitava-se num movimento de arco, talhando profundamente o pescoço do carniçal e fazendo a cabeça do monstro pender penosamente para trás. Mais cinco segundos e ele estava ao chão.
– É só isso? – Max desafiou em bom som, esperando atrair a atenção do neófito. Não esperava mesmo ter nenhum tipo de elemento surpresa, então não se preocupou em anunciar a própria presença. – Sei que está aí, então porque não vem tentar tirar a minha cabeça pro Mordred?
– Pode ter certeza que não será só uma tentativa...
Mordred ouviu a voz feminina, mas não sabia dizer ao certo de onde ela veio. Um arrepio percorreu o seu corpo quando a temperatura no corredor começou a cair rápido, e viu a espessa névoa negra cobrir o chão. Lembrou-se da noite em que fora atacado, e seu sangue ferveu. Deu uma volta em torno de si para localizar seu atacante e visualizou-a. Uma garota (pois não aparentava ter sequer a idade dele. Diria que ela era uma aluna que começara o colegial a pouco) com os cabelos louros presos num rabo de cavalo alto atrás da cabeça e lábos finos inexpressivos como o resto do rosto de olhos castanhos.
– Não deveria estar brincando de bonecas?
Quando essas palavras chegaram ao ouvido dela, a face inexpressiva riscou-se de raiva e ela precipitou-se na direção dele, rápida como o pensamento. E tudo o que Max teve a presença de espírito pra fazer foi saltar, saindo do caminho.
Ela virou-se, dessa vez rindo. A diferença entre um carniçal e um neófito era de fato muito grande. Involuntariamente, ele apertou o cabo da espada e girou, cortando o ar ao seu redor. Não tinha percebido, mas ao que parece, sua arma percebeu o tentáculo negro atrás dele, que agora se dissipava em fumaça negra.
O garoto suspirou ao mesmo tempo aliviado por ter sido protegido pelo poder de especialista e preocupado ao ver que o inimigo mostrava ainda mais força. Retesou os músculos e flexionou um pouco as pernas, preparando-se para a próxima investida, que já se aproximava.
A menina correu até perto dele e quando ele levantou a espada na direção dela ela parou. Mas por menos de um segundo, só para mudar a direção do seu ataque, saltando sobre o garoto e com a ajuda do teto desferindo um golpe direto com o pé.
Ele tentou segurar a espada à frente dela para impedila, mas a força com que fora atingido empurrou a espada contra ele e o fez cair ao chão, um metro e meio de onde estava. Como segurava a espada de lado, não sofreu danos maiores.
Golpeou mais uma vez o ar com a espada, cortando mais dois tentáculos sombrios que precipitavam-se sobre ele. Levantou-se a tempo de evitar a nova investida dela e encará-la.
– Até que está se saindo bem... Mas o que acontece se não puder enxergar? – A loura entreabriu os lábios, soprando mais da névoa negra, que agora ocupava mais espaço no corredor.
Então Maximillian percebeu o que era a tal névoa. Ela não tinha cheiro, e não adensava o ar ao redor dele, embora cobrisse todo o lugar a tal ponto que impedisse totalmente que ele enxergasse. Aquilo era escuridão.
Com a espada levantada à altura do ombro, Maximillian engoliu em seco. Aquele breu o impedia totalmente de ver, e começou a sentir o efeito psicológico do medo de sofrer uma das investidas dela a qualquer momento.
Então lembrou do último poder de especialista que aprendera. Graças a Michael, poderia ter uma pequena esperança de escapar àquela situação. Suspirou, tentando recriar o momento em que rastreara a Skin. Tensionou os músculos do antebraço, concentrando-se em dar liberdade à lâmina. Precisava saber onde a neófita estava, para ter alguma chance na luta.
Assim que sentiu a espada mover seu braço para a direita, Maximillian saltou para aquele lado golpeando o breu sem se importar com o resultado, mas sentiu o objeto chocar-se com algo e algo respingar-lhe na face, e dois segundos depois, a escuridão começou a dissipar-se.
Maximillan fechou os olhos com força e então reabriu-os, acostumando-se à luz que retornara. Só então viu, caída à sua frente, aquela que até alguns segundos atrás o ameaçava. Com as costas das mãos, limpou o sangue na sua pele, deixando ali apenas algumas manchas avermelhadas.
Agora ele realmente sentia algo estranho. Seu estômago revirou quando viu o talho no pescoço dela. Isso era completamente diferente de matar carniçais.
O Especialista apertou os olhos quando posicionou-se perto da garota inconsciente e perfurou seu peito, finalizando, por fim, a vida da outra.
Ele engoliu em seco, apressando-se para fazer a lâmina sumir e descer as escadas para sair dali. Ligou a Harley ainda sentindo-se mal e rumou para o hotel. Não parava de pensar que deixara um corpo para trás, largado para apodrecer sobre a poeira, e em que consequências aquilo poderia ter.
***
Como de costume, Mike trancou a porta do quarto assim que entrou nele. Ligou o computador sobre a mesa ao lado da janela e despencou sobre a cadeira olhando os pôsteres que preenchiam cada pedaço da parede. Cinco minutos depois, a sua playlist com rock n’ roll clássico tocava, enquanto ele abria um dos seus jogos preferidos, antes de terminar a pesquisa dos sapatos.
Antes que começasse, no entanto, ouviu com alguma dificuldade, por causa da música, o som da maçaneta da porta, e virou-se para trás. Achou que fosse sua mãe querendo alguma coisa.
Diferente disso, ele presenciou mais uma vez a porta que ele tinha certeza de ter trancado abrir-se, dando para o salão de luz dourada bruxuleante. Mike sabia, é claro, que do outro lado da porta do seu quarto estava o corredor. De dentro do ambiente novo, saiu a figura recentemente conhecida. Frederick, o conjurador. Claro, o garoto não fazia ideia do motivo de ele aparecer ali, mas supôs que quisesse tratar de algo sobre o amigo.
– Frederick? – ele perguntou, e viu o homem encarar a porta e então olhá-lo.
– Olá. Michael, não é? – Michael meneou positivamente a cabeça, e então Fred continuou – Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar aqui. Bom, não é sobre o Maximillian.
– N-Não? – Mike gaguejou, num misto de medo e insegurança.
– Não. Estou aqui por que você é um conjurador.
– Uau! – Mike exclamou. – Então eu posso fazer aquele monte de coisa que você faz, tipo abrir uma porta mágica que nem essa daí ou um mapa encantado daqueles? Claro, depois que você me ensinar. É pra isso que veio aqui, né? Vai me ensinar?
– Eu... Realmente não achei que você fosse reagir tão bem.
– Como assim cara?! Eu descubro da existência de demônios, aí você aparece com mil poderes mágicos! Se um cara como você aparece e fala que você é um mago também, não tem outra. Você aceita!
Frederick ainda se surpreendia. O garoto aceitara mais fácil do que Maximillian. Lembrou-se do passado. Sem duvidas, Mike aceitou os dons mais fácil até que ele. Mas aqueles dias eram difíceis, sem dúvidas...
– E então, quando começam as minhas aulas? – Frederick é puxado dos seus devaneios pela pergunta do outro.
O conjurador mais velho colocou a mão pela gola da própria camisa e puxou uma corrente que trazia uma chave pendurada como pingente. O objeto era feito de algum metal escuro, provavelmente ferro, e aparentava ser bem velho. Ele a segurou, mostrando-a ao outro.
– Agora.
***
Maximillian acordou assustado. Saíra do meio de um pesadelo, provocado pela cena de ter matado a neófita. Não achou que aquilo fosse tão difícil, emocionalmente falando, principalmente porque ele sabia que ela não era uma pessoa de verdade.
Isso não parecia confortá-lo realmente. O garoto secou o suor frio da testa com as costas da mão. Estava ofegante e puxou as cobertas até embaixo do pescoço. O lugar estava frio. Frio demais para um ambiente climatizado. Teria esquecido a janela aberta?
Ele levantava-se para checar isso, quando, apesar da penumbra no local, percebeu algo estranho no chão.
Estava coberto da mesma névoa espessa e negra que presenciara mais cedo. Indicava que um demônio estava por perto e pronto para atacar. Isso foi mais do que suficiente para fazê-lo pular pra cima da cama, o punho apertado pronto para chamar a lâmina.
– Apareça!
Ao não ter resposta, ficou de pé sobre o colchão e manifestou sua arma. Sabia o que tinha que ser feito, e rastreou os demônios.
A espada movimentou-se logo, apontando para um dos cantos da sala, que estava vazio. Floreando a lâmina na direção apontada, Maximillian desceu da cama e andou pela névoa.
Mas diferentemente da última vez, não sentiu-se chocar com nada. O chão estava coberto de escuridão, evidenciando que um demônio estava ali, mas o mesmo não se mostrava, nem Max conseguia encontrá-lo.
Usou de novo a mesma tática de rastreamento, que continuava apontando para a mesma direção. No entanto, sabia que não tinha nada ali. Já tinha checado. Estaria o poder falhando? Ou o demônio estava mexendo com a mente dele, mexendo com o poder da espada?
Ainda sem parar de pensar nas mil e uma possibilidades que poluíam sua mente, Maximillian virava de um lado para o outro no quarto, tentando surpreender algum atacante enquanto andava pelo local.
Numa dessas, ele tropeçou no assoalho, que não via por causa da escuridão cobrindo-o. Tropeçou mas não chegou a cair, pois quando estava a meio caminho disso, e ainda mexendo os braços para se proteger da iminente queda, dois tentáculos negros o seguraram.
Seguraram e apenas ampararam, impedindo que ele caísse. Nenhum dos dois ofereceru a menor resistência quando ele levantou-se. Era como se os tentáculos quisessem lutar.
Somente com um mínimo pensamento de querer destruí-los os dois tentáculos sumiram, e isso fez Maximillian pensar nas possibilidades.
Não havia demônio nenhum ali!
Ele criara a névoa. Não sabia como, mas adquirira o poder da neófita que destruíra mais cedo. Finalmente entendeu o que Fred dissera, e como ele ficaria forte. Entendeu o que era ser um especialista. Ganharia o poder de cada demônio que destruísse, e assim ficaria mais e mais forte até poder enfrentar qualquer um deles.
– Mordred, eu com certeza vou te destruir... – Maximillian falou, finalmente se sentindo esperançoso sobre sua missão.
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