Loki abriu os olhos e viu que ele estava agarrado a Sigyn, ele a abraçava por trás e a mão dela estava levemente segurando seu braço. Lentamente ele se soltou dela para não acorda-la. Ele coçou os olhos e percebeu que ela estava com um leve sorriso no rosto, ele ficou se perguntando o que ela estaria sonhando. Loki se levantou da cama e observou o lugar, pela janela entrava um pouco de luz, o céu estava nublado. O tapete em baixo da cama era um vermelho e preto debotados, no canto havia uma pequena cômoda com uma vela em cima. A banheira que havia usado na noite passada ainda estava úmida, ele saiu do quarto e mandou um empregado encher de água quente a banheira. Ao voltar para o quarto ele notou que Sigyn tremia de frio, ele pensou em deixa-la assim, mas a consciência falou mais alto e ajeitou o cobertor. Se o quarto não fosse revestido de madeira o frio seria insuportável para uma humana.

Loki vestiu as roupas e assim que o empregado encheu a banheira ele acordou Sigyn, ela lentamente abriu os olhos, um pouco perdida até ver ele.

– Bom dia Loki.

– Precisamos ir, os dias são mais curtos no outono. A banheira já está cheia, tome seu banho, quanto mais cedo melhor. Esperarei-te no saguão para quebrar o jejum.

– Ta bom, e as suas feridas? Está se sentindo melhor?

– Não preciso da sua preocupação, eu já disse-te que me curo rápido.

Ele se levantou e saiu do quarto deixando ela só. Sigyn removeu o vestido e tomou um banho rápido antes que a água esfriasse, ela se vestiu novamente e desceu. Loki esperava impaciente por ela. O lugar não estava muito cheio, normalmente as pessoas ainda estavam dormindo durante esse horário.

– Demorastes demasiadamente, Sigyn.

– Ai meu Deus, que milagre, você finalmente me chamou pelo meu nome.

– É por esta razão que eu não gosto de chamar-te pelo nome, sempre fazes este escândalo.

– Desculpa, mas é que quando um milagre acontece, nós temos que comemorar.

– Chamar-te-ei pelo nome se prometer-me que não fará esse alvoroço novamente.

– Por que? Não quer que pensem que somos um casal novamente?

Sigyn ri levemente, uma empregada deixou o que Loki pediu na mesa, ambos começaram a se servir do bacon e ovos.

– Loki, não farei mais o alvoroço, só estava brincando com você, achei que você fosse um deus mais divertido.

– Eu sou divertido, tu que me deixas fervendo de raiva.

– Sei, me faça rir.

– Não mandas em mim, desista dessa tolice.

– Eu acho que você está desviando do assunto, deixa de ser medroso, será que é tão difícil me fazer rir?

– Sinceramente, eu não sei porque perco meu tempo contigo.

Alguns guardas passaram pela janela do saguão, quando Sigyn iria se levantar ele segurou a mão dela para que ela ficasse parada. Os guardas não entraram, passaram direto. Ela relaxou e suspirou.

– Loki, eu acho que você já pode soltar a minha mão.

– Duvido que sobrevivas sozinha nesse reino, se não fosse por mim tu já estarias com a corda no pescoço enquanto corvos se alimentam de seus belos olhos.

– Nem me fale, me dá até arrepios só de ouvir essas palavras.

Realmente isso a deixava nervosa, os pelos do braço dela ficaram eriçados pelo medo. Loki observou o olhar dela de preocupação, ele desviou o olhar. Não queria criar um laço com a humana. Para ele era errado se importar com ela, não somente por Sigyn ser humana, mas pelo fato de todos sempre traírem ele.

– Onde está sua bravura nesses momentos? Ou ela só aparece para me confrontar?

– Loki, príncipe de Asgard, coloque uma coisa nesse cérebro por trás desses olhos verdes. Para de puxar briga comigo! Droga, eu não quero ficar brigando com você a todo momento. Por favor, eu imploro. Será que nem no café da manhã você guarda seu veneno?

Sigyn terminou de comer e se levantou abruptamente, deixando ele sozinho na mesa. Por um momento Loki pensou em se levantar para ir atrás dela, mas optou por permanecer sentado. Ele não se importava, mas ficou olhando o vazio sem tocar na comida. Ela se aproximou do cavalo branco dela que estava nos estábulos e abraçou o pescoço dele.

O príncipe pagou a conta e perguntou a um dos empregados se tinha visto uma mulher bonita de cabelos castanhos e olhos violeta. O homem apontou para os estábulos, Loki caminhou devagar e parou para observar a humana. Ainda abraçada ao cavalo, afagando o pescoço do animal. Ele queria se desculpar, mas seu orgulho falou mais alto, ele caminhou até ela. Quando foi proferir palavras em tom de comando sua voz saiu com uma certa ternura. Fazendo-o ficar com raiva de si mesmo.

– Precisamos ir, necessito visitar o Roy de Ferro. A arma e a armadura devem estar prontas.

Ela o olhou nos olhos, estava com raiva nos olhos. Sigyn queria esbofeteá-lo, porém sabia que ele aplacaria o ataque. Não suportava mais aquela humilhação toda, então tomou uma atitude drástica.

– Eu não quero mais seguir você, vou seguir meu caminho sozinha. Estou exausta dos seus insultos e suas humilhações desnecessárias. Jamais tive intenção de machucar ou trair você. Sinceramente, fui a mulher mais estúpida dos nove reinos em acreditar que valia a pena te seguir. Sou uma tola, por achar que você merecesse atenção e o carinho que aparentemente não teve de seus conterrâneos.

– Tu não entendes, passei por coisas terríveis, humano algum conseguiria suportar tais eventos ocorridos comigo. Eu não confiei em ti, pois era-me uma estranha. Até mesmo minha mãe biológica traiu-me, imagina o que faria uma desconhecida. Sigyn, eu quero voltar para casa da mesma forma que tu desejas voltar para Midgard. Não é algo que costumo dizer, mas.... Eu preciso de ti, sem sua ajuda minhas chances de retornar ao meu lar são extremamente reduzidas. Se tu tens um coração bom como dizes, então terás peso na consciência por deixar-me desamparado em momento de necessidade. Prove-me que tu tens razão, e que estou errado ao seu respeito.

O vento soprava forte nos estábulos fazendo o cabelo de ambos se balançar continuamente. Loki usou esse jogo de palavras para manipular ela. Sigyn suspirou, para ela, ele estava certo. Ela jamais descansaria sabendo que deixou desamparado alguém que precisava de sua ajuda.

– Eu continuarei ao seu lado, mas em troca quero que controle essa sua língua de prata. E que me trate com o respeito que mereço, não sou puta para ter que aturar seus desaforos.

Por um instante hesitou, contudo aceitou as condições impostas pela moça. Ele ordenou que o cavalariço selasse os cavalos, assim que os cavalos estavam prontos, ambos cavalgaram em um ritmo devagar por causa da movimentação das ruas da cidade. As ruas eram todas pavimentadas com paralelepípedos e as casas eram em maioria feitas de tijolos. Sigyn evitava olhar para ele, ela ainda sentia raiva pelos comentários do deus. Loki a olhava quase constantemente, querendo mudar aquela situação, todavia não sabia como o fazer. Por fim ele tentou puxar conversa, era tentar e levar uma resposta ríspida ou permanecer naquele silêncio desconfortável.

– Foi engraçado ver aqueles dois marmanjos sendo derrotados por uma humana. Acho que eles vão ficar com vergonha de aparecer em público por muito tempo.

– Você acha que eles sobreviveram?

– Talvez, mas não preocupe-se.

– Loki, eu queria te pedir uma coisa. Se não for grande incomodo, você poderia me ensinar a lutar com uma espada?

– Por Valhalla, por que tu queres aprender luta com espada?

– Pra me defender, e se alguma coisa acontecer? Sabe, eu ficar longe de ti ou precisar ter que defender você.

– Não necessito ser defendido por ti, quanto a outra opção, até que ela tem sentido. Ensinar-te-ei a arte da luta com espadas, mas quero que sejas obediente, nada de petulâncias.

– Prometo seguir suas instruções, quando começamos?

– Assim que sairmos dessa cidade, tenha paciência. Não quero que fiques tropeçando em objetos, necessito que treines em um campo aberto, até porque tu és iniciante.

Após cavalgarem por entre algumas ruas da cidade, por fim chegaram a forja do Roy de Ferro. Ambos desceram e deixaram seus cavalos amarrado na entrada. Loki entrou primeiro no lugar, como de costume a forja era escura e quente. Roy viu o príncipe a e Sigyn e deu um sorriso. Ele estava sentado num banco de madeira comendo pão.

– Fiquem a vontade, Loki eu já terminei sua espada e armadura. Me de alguns segundos, já voltarei.

Roy terminou de comer e se levantou, Loki olhou rapidamente para Sigyn, ela estava observando como era uma forja. Era bem parecido com o que ela via em filmes que se passavam na era medieval. O ferreiro voltou, e mostrou ao Loki o peitoral em fumê preto com um detalhe dourado, os ante braçais e os espaldares dourados. Assim que Loki removeu os antigos e colocou os novos, Roy lhe entregou uma espada numa bainha. A espada era de aço com o fio bem amolado e polido, o cabo era dourado com uma esmeralda no final. O príncipe pagou com moedas de ouro e prata, porém Roy caminhou até Sigyn.

– Eu tenho algo para você, era de minha esposa. Como só tivemos filhos não há mais motivo manter isso. Ela faleceu não faz muito tempo, ela sempre desejou uma menina. Acho que ela ficaria feliz se isso fosse passado pra uma mulher como você.

Ele tirou do bolso um colar de prata, o pingente era uma cruz cética com um círculo ao fundo e uma pedra lápis lazuli encravada no meio da cruz. Roy foi para atrás dela e colocou o colar.

– Obrigada, é muita gentileza sua. Não sei como eu posso te agradecer.

– Apenas tome conta desse príncipe, ele vai ficar perdido sem você

– Pare com essas asneiras, sei cuidar-me muito bem.

Roy pegou uma espada mais leve e colocou nas mãos da Sigyn, era uma espada também de aço, porém menor e o cabo era de prata, seus únicos ornamentos eram os desenhos tipicamente celtas entalhados no cabo. Ela agradeceu com um abraço e colocou a bainha na cintura usando um cinto de couro para segurar.

Todos se despediram, Roy voltou aos seus afazeres na forja e Loki e Sigyn seguiram seus caminhos para fora da cidade, após algumas horas cavalgando por entre colinas e árvores com folhas vermelhas e alaranjadas ambos pararam para dar água aos cavalos. Loki pegou a espada e fez menção para que Sigyn fizesse o mesmo.

– Hoje começa as suas aulas, tu escolhestes um excelente tutor. Fui treinado desde criança a lutar com uma espada. Lembre-se, a espada faz parte do seu braço.

Sem um aviso prévio Loki começou a atacar Sigyn, ela tentava se proteger, porém seus reflexos não eram como os do deus. O príncipe tomava cuidado com os golpes, aquelas espadas não eram de treinamento, eram extremamente afiadas. Ele temia machuca-la com um dos golpes. Conforme os segundos se passavam mais ela pegava o jeito, uma hora ou outra ela deixava cair a espada por conta do cansaço. Mas Loki queria leva-la ao limite, queria que ela aprendesse rápido e de forma apropriada, no momento de perigo os inimigos não usariam espadas sem fio e atacariam para matar. Sigyn era durona, não desistiria tão fácil, apesar de quase não ter mais forças ela continuou com o treinamento. Até que suas pernas ficaram bambas e ela caiu de joelho ofegante. Loki parou imediatamente e guardou a espada na bainha.

– Por hoje é só, para alguém que nunca teve o costume de lutar com espada saístes bem hoje.

Loki estendeu a mão para ajuda-la, Sigyn segurou a mão dele e se levantou. Como estava suada ela tirou o vestido e pulou na água de calcinha e sutiã. O deus era sentia menos vergonha que a humana, ele removeu toda roupa e entrou nu na água. Sigyn manteve certa distância dele. Isso fez o príncipe de Asgard sorrir, porém antes que pudesse proferir alguma palavra um grupo de ladrões encontrou os dois. O que parecia ser o líder deles foi o primeiro a comentar.

– Ora, ora. O que temos aqui? Um casal de pombinhos tomando banho!

Os outros três ladrões que o acompanhavam se juntaram a troça.

– Uma mulher tão gostosa com um homem tão ridículo, o que será que ela viu nele?

– Dinheiro, pois acho que esse aí tem pinto pequeno, anda se levanta dessa água e mostra que eu estou certo!

– Se ele tem pinto pequeno ele com certeza não vai querer mostrar, mas pouco importa, logo ele estará sem a cabeça de cima e a mulher com certeza será a mais arregaçada dos nove reinos.

– Então, meus seguidores. Estupramos antes ou depois de acabarmos com esse bastardo?

Loki se levantou, estava em fúria. Mesmo sem roupas ele sabia se impor, como se estivesse de armadura. Sigyn não pode deixar de olhar o corpo perfeito do deus, então desviou o olhar por estar embaraçada com o que viu.

– Hel espera-lhes ansiosamente, não preocupem-se serei misericordioso, suas mortes serão rápidas.

O príncipe rapidamente saiu da água e pegou a espada a tempo de bloquear um dos golpes de espada dos ladrões, todos os ladrões estavam protegidos com couro e cota de malha e Loki estava apenas como veio ao mundo. Mas ele era mais habilidoso com a espada, um dos seguidores teve a garganta cortada ao meio, um jorro de sangue saiu pela fenda. O ladrão ainda segurou com a mão o corte, mas logo caiu sem vida no chão. Loki cortou a mão de um dos ladrões fazendo ele cair de joelho e urrar de dor, o deus cortou a cabeça do fora da lei, esta caiu com os olhos arregalados e a boca escancarada num eterno grito de dor. Restavam apenas dois, Sigyn deu a volta sem chamar atenção e saiu da água, agachada ela correu até a espada que havia ganhado do Roy. Nesse tempo Loki havia aniquilado mais um seguidor, sobrando apenas o líder.

– Desista, você jamais vai me derrotar nessas condições, irei vingar meus companheiros.

O líder começou a golpear com mais força fazendo Loki esquivar dos golpes em vez de bloquear, até que o deus golpeou e o bandido aplacou o golpe, ambos ficaram frente a frente. Uma espada fazia pressão sob a outra.

– Meus amigos irão te infernizar em...

Mal ele terminou de falar ao sentir algo atravessar seu corpo, ele olhou pra baixo e viu a ponta de uma espada saindo de seu coração. Sigyn removeu a espada e o ladrão caiu morto no chão. Loki a olhou e tocou no ombro dela, ela tremia pelo o que havia feito.

– Venha, necessitamos limpar as espadas, caso o contrário as espadas enferrujarão.

Sigyn obedeceu trêmula, após limparem as espadas ela se vestiu e montou no cavalo, Loki fez o mesmo, mas antes ele pilhou os corpos, adquirindo peças de prata e ouro. Ambos saíram dali e acamparam longe dos ladrões mutilados.

Eles acamparam a céu aberto com uma fogueira crepitando ao luar, Sigyn tentou dormir, mas não conseguia. Lágrimas escorriam ao se lembrar da boca escancarada da cabeça decapitada, ela nunca havia matado ou viu pessoas morrerem. Nos filmes eram diferente, ela sabia que não era real. Loki percebeu que ela estava chorando e tentou conversar com ela.

– Sei que não estás acostumada, mas caso eles sobrevivessem eles teriam tirado nossas vidas e tu serias violada pelos quatro ladrões. Sigyn, olhe em meus olhos.

Ela virou o rosto e olhou diretamente nos olhos dele, o rosto dela estava molhado pelas lágrimas mornas, Loki limpou o rosto dela com as mãos.

– Não culpe-se pelo o que fizeste, foi apenas auto defesa. A vida daqueles quatro não se equiparam com a sua, eles roubavam e matavam por diversão. Tu matastes e roubastes por necessidade. Sei que teu isqueiro não pertence-lhe, nem sequer fumas.

Sigyn ouviu o que o deus disse, porém não estava atenta a tonalidade da voz. Loki falava de forma zombeteira, como se dirigisse a uma criança. Ela apenas se atentou as palavras, logo em seguida o abraçou, Loki ficou sem reação, não estava esperando por um abraço. Sem saber o que falar ele a abraçou de volta. Somente a lua e as estrelas testemunharam aquele momento, Sigyn sussurrou no ouvido dele.

– Obrigada.

Ele sorriu e se soltou do abraço e ficou sentado olhando para a fogueira, Sigyn deitou-se perto do fogo e adormeceu com o calor. Assim que ela dormiu ele também adormeceu com o vento frio soprando e a lua cheia sob o céu estrelado.

Loki começou a sonhar com o dia que foi expulso de Asgard. A sala do trono reluzia com as luzes das tochas, milhares de asgardianos foram presenciar a humilhação de um príncipe, alguns cochichavam, outros riam, outros davam graças a Valhalla por esse dia ter chegado. Odin estava de pé com seu cetro dourado e polido para a ocasião, Frigga o olhava com pesar no coração, Sif e os três guerreiros estavam sérios e Thor se recusava a olhar nos olhos do irmão. Ele tentava falar, mas palavras não saiam de seus lábios. Sem ser ouvido foi ele foi julgado por traição ao reino, ninguém quis interceder pelo príncipe. Perante todo o reino ele foi humilhado a ficar sem seus poderes e banido, ele só poderia voltar se fosse digno. Loki gritava contra todos, amaldiçoando todos que estavam presentes.

Sigyn balançava o deus e chamava por ele para que acordasse, Loki acordou ofegante e suado. Ela acariciou o rosto dele e tentou acalmar ele com uma voz suave.

– Calma, foi um sonho.

– Não foi um sonho, eles estavam lá para ver-me humilhado, eu odeio todos eles. Quero que todos eles morram e passem a eternidade em Hel.

Ele removeu a mão de Sigyn em seu rosto, pois ele estava gostando da carícia e não queria se render a um afago. Ele se sentou rapidamente para reclamar, ainda segurava a mão dela.

– Não acorde-me novamente, estendestes? Deixe-me dormir.

Seus rostos estavam próximos, seus olhos ficaram cerrados, porém desviaram seus olhares e distanciaram-se. O coração de ambos batia freneticamente e antes que pudessem dormir suas mentes trabalhavam de forma incessante para entender o que estava acontecendo com eles mesmos.

Notas finais
Fiquem a vontade para comentar :)