Notas iniciais
Olá para todos! Será que ainda tem alguém aí? Passei muito, muito, muito tempo ausente não é? Bem, me desculpem. De verdade. Não vou me alongar muito nesse mimimi de autora arrependida, então boa leitura >

A culpa de ela estar ali era toda do seu irmão.

Sempre fora assim, ele fazia algo de errado e ela levava a culpa. Não era de todo inocente naquela história, era verdade. Já que estavam fugindo, há algum tempo de estar ali, onde estavam agora. Mas, se não fosse por seu irmão, e pela pseudo-namoradinha dele, nada daquilo teria acontecido. Maldito garoto romântico.

– Acho que você não está contente de estar aqui. – Seu irmão disse, cutucando-a de leve. Estavam sentados em cadeiras de plástico, altamente desconfortáveis, numa espécie de auditório improvisado. Em cima do palco, a garota sem sal que lhe dera “boas vindas” logo na sua chegada – quando descera do ônibus escolar –, preparava-se para fazer um discurso, que seria, provavelmente, sem pé nem cabeça, e a encheria de sono.

– Melhor você ficar calado seu pirralho. – Rebateu revirando os olhos, fingindo uma falsa concentração na garota do palco, que sorria abertamente, indicando que começaria a falação. O irmão mais novo bufou, ela riu e passou o braço pelos ombros dele, dando-lhe um beijo leve na bochecha. Às vezes, não fazia por mal, perdia a paciência fácil, mas gostava muito daquele que era sua única família – pelo menos a única que ela considerava.

– Bom dia a todos e me desculpem o atraso. Gostaria de dizer a todos que estou muito feliz por estar aqui com vocês. – Obviamente aquilo era mentira, com toda a certeza aquele sorriso nos lábios dela era forçado. – Aos que não me conhecem ainda, sou Daenerys a representante oficial do comitê de boas vindas...

Ou simplesmente uma chata sem sal. Pensou em gritar, mas não teve tempo de dizer nada, uma figura, muito conhecida por ela, roubou toda a cena.

– Ou simplesmente a Rainha dos Dragões. – Chamando toda a atenção para si, lá estava ele, novamente em sua frente. Não podia negar que tinha a ideia de talvez procura-lo pela Itália, no entanto não sabia que o encontraria tão fácil.

– Acho que estragamos o discurso dela, Jon. – Uma garota falou. Ela era muito parecida com ele, os mesmos olhos grandes e expressivos, com a mesma cor penetrante. Os lábios também eram idênticos, e o leve sorriso trazido na boca da garota, revelava que ela e Jon também tinham a mesma covinha no lado direito do rosto. De certo os dois eram irmãos. Se não fosse toda essa semelhança física, ela pensaria que eram namorados. Já que a menina, que tinha o pé engessado, estava nas costas de Jon.

– Na verdade não, vocês chegaram em boa hora. – Daenerys manteve o sorriso forçado no rosto. – Por favor, subam aqui. – A representante sinalizou as escadas e ainda com garota, sua irmã, nas costas, Jon subiu no palco, que era pequeno de mais. Colocou a irmã numa cadeira, que parecia ser tão desconfortável quanto a que ela se encontrava sentada. E então foi para o lado de Daenerys. – Bem, como eu estava dizendo, sou a presidente do comitê de boas vindas. E este ano farei uma proposta diferente dos outros anos. Quem aqui gosta de festas? – A maioria dos alunos, inclusive seu irmão, levantaram as mãos. Ela não. – Então, é o que teremos. – Continuou — Entretanto, para que a festa seja feita precisaremos da colaboração de todos. Peço que tenham as melhores ideias do mundo, para que possamos coloca-las em prática e arrecadar o dinheiro suficiente para nossa festa, que acontecerá daqui a quatro meses. – Alargou o sorriso e apontou para aqueles que pareciam intrusos no palco. — Esses são Jon e Arya Stark, os responsáveis, além de mim, pela organização do evento e adaptação dos alunos novatos. Quaisquer dúvidas procurem a um deles. Tenho certeza que ambos adorarão ajudar.

– O quê? – Arya levantou de forma brusca e contorceu-se de dor.

– Arya. Seu pé. – Jon falou num tom claramente preocupado. Era bom vê-lo daquela forma, depois de tudo. Mas ao falar com Daenerys sua voz mudou. – Continue o discurso, Daeny.

– Vou continuar Jon. – Disse e então continuou. No entanto, ela não prestava atenção. Apenas olhava para o garoto carrancudo em cima do palco. As lembranças, que ela tanto revivera durante a longa viagem para Itália, estavam mais fortes. Mais vívidas. Mais intensas. E prazerosas.

Não notou quando a representante chata saiu do palco e deu lugar ao diretor, que parecia tão chato quanto à oradora anterior. Só percebeu a presença de Robert, esse era o nome dele, quando este praticamente gritou que havia uma surpresa e tanto para os alunos nesse novo semestre. Então ela voltou sua atenção ao palco, permitindo-se desligar das lembranças por um tempo. Jon não estava mais lá. Nem Arya. Eles não estavam em lugar algum.

– Esse sorteio vai ser uma droga. – Seu irmão falou ao seu lado. – Tudo aqui esta sendo, aliás.

– Que sorteio? – Indagou confusa.

– Você não estava prestando atenção, mas que coisa. – Ele revirou os olhos. – O diretor vai fazer um sorteio, entre os novatos, no caso nós e metade dessa gente, com os veteranos, a outra metade dessa gente.

– Pra quê isso?

– Caramba, às vezes eu penso comigo se você não tem alma de loira... Novatos e veteranos, interação social. Entende?

– Isso vai ser uma droga.

– É o que eu disse.

– Ygritte Watters. – A voz grave do diretor chamou seu nome, interrompendo a conversa que ela tinha com o irmão mais novo. Todos olhavam de um lado para o outro, como se esperassem por algo. – Ygritte Watters – O diretor tornou a chamar – Apresente-se.

– Aqui, senhor. – Disse um pouco alto de mais, de forma que suas palavras soaram pretensiosas e irritadas. Alguns alunos soltaram risinhos, outros fizeram cara feia. Mas tanto fazia, ela estava pouco se lixando para eles. O diretor fez sinal para que ela fosse até o palco, assim ela o fez. Caminhou com o máximo de segurança que conseguia transmitir, tinha consciência dos olhares que a acompanhavam. – Eu.

– Seja bem vinda à nossa escola, Ygritte. – Ele sorriu, cheirava a álcool. Muito provavelmente, se ele tivesse uma mulher, ela o traia. Especialmente se fosse bonita. – De acordo com o sorteio que foi feito muito antes de hoje, logo no ato da matricula de vocês, você ficará, junto com os outros, na turma 2.3-1. Ou seja, a primeira turma do segundo período do terceiro ano. – Então, se virando para os outros cerca de 20 alunos que já estavam no palco, ele completou – Acompanhem a Professora Mel até a sua sala.

Olhou por sobre o ombro para as cadeiras de plástico, e viu seu irmão dar-lhe um tchau. Ligaria para ele assim que tivesse tempo. Caminhou com os seus colegas de classe, todos eles conversavam amenidades, mas ela limitava-se a sorrir e acenar com a cabeça. Cabeça que estava cheia de pensamentos. Pensamentos confusos. E impróprios para menores. Suspirou com pesar quando chegaram à sala. Sua vida acadêmica, após um ano de pausa, recomeçaria.

Caminhou até a última carteira, perto da janela estreita. Logo os veteranos chegaram à sala também. Barulhentos. Ygritte fez uma careta quando um deles arrastou uma carteira de um lado para o outro. Um deles, dos barulhentos veteranos, sentou-se bem na sua frente. Esse, ela dava graças, parecia ser menos barulhento que os outros.

– Sou Robb. – Ele disse virando-se para ela.

– Oi, Robb. – Sorriu forçadamente. Ele riu fraco.

– Você é muito simpática.

– Obrigada!

– Era uma observação irônica. – Ele coçou a cabeça coberta pelo cabelo castanho escuro. Os olhos apertaram-se, enquanto os lábios repuxaram-se num sorriso sínico. Ele a lembrava, muito levemente, alguém que já conhecera.

– Pode me chamar de Ygritte. – Disse-lhe dando um peteleco na cabeça dele. – O que eu devo esperar deste lugar?

– Nada, vai ser melhor assim. – Ele era sincero. Bom. – Está assustada? Você parece assustada.

– Ter ficado longe da escola por muito tempo me fez ter fobia de lugares como este...

– Bem. — Robb comprimiu os lábios naturalmente rosados – Eu nunca fiquei longe da escola e também tenho fobia de um lugar como este... – Ele riu, ela o acompanhou na risada. Era bom rir ao lado de alguém desconhecido. – Acho que teremos que arrumar outra desculpa, Ygritte.

– Talvez sejamos antissociais?

– Eu não tenho nada contra as pessoas, apesar de gostar de ficar na minha. Acho que antissociabilidade mesmo é com meu irmão. E, se você quer saber, eu não acho que você seja antissocial também.

– Não acha?

– Não.

– Se você quer saber, eu não tenho nada contras as pessoas, apesar de gostar de ficar na minha. – Robb gargalhou.

– Você é engraçada, Yggie.

– Yggie?

– Ah, seu nome é muito...

– Não importa. Você acha mesmo que tem intimidade pra me dar um apelido? – Cortou o que quer que ele fosse falar, enquanto inclinava-se sobre a mesa para intimida-lo. – As coisas não funcionam assim, Robb.

– Oh. Me desculpe. – Ao ouvir o pedido dele, ela não se conteve e gargalhou. Alguns dos alunos pararam o que estavam fazendo para olha-la. O jovem a sua frente também sorria. – Yggie, você é uma boa atriz.

– Coisa de brasileira, sou boa em tudo.

– Quanta modéstia!

– É, eu tento. – Piscou para ele. E assim deu-se por encerrada aquela conversa. Não por não terem mais o que falar, mas sim porque o professor entrou na sala e começou o falatório sobre o seu método de trabalho e conteúdo programático do semestre.

Vez ou outra Robb olhava por sobre o ombro e lhe sorria, ele era realmente encantador, mas a impressão de que já o conhecia não a abandonava. Talvez ele já tivesse ido ao Brasil? Ou talvez aquilo tudo fosse só uma impressão. Depois de reencontrar Jon seu cérebro pode ter ficado com alguma espécie de trauma, não? Algo do tipo “Reconheço até os que nunca conheci”.

O assunto escrito no quadro era só uma introdução à Biologia do terceiro ano. Ela já havia visto aquele conteúdo. Já estivera naquele ano do ensino médio no Brasil, mas então, após tudo virar de cabeça para baixo em sua vida, ela nunca mais retornou à escola. Porém, ficava feliz em saber que ainda lembrava-se de algumas coisas.

– Bem, acho que por hoje é só. – O professor, ela não reparara em seu nome, dissera batendo duas palmas. E então, passando o olhar rapidamente pela turma, completou – Vejo que a 2.3-1 tem bastante calouros. Que tal uma rápida chamada para conhecermos seus nomes?

– Cheguei bem na hora da chamada. Bingo. – A porta foi aberta pelo jovem de sorriso encantador. Pelo visto ele adorava uma entrada triunfal.

– Jon Stark.

– Presente.

– Por um momento tive esperanças de que você tivesse reprovado.

– Professor, você sabe que isso é impossível.

– Eu sei.

– Então, posso me sentar? – Jon apontou para uma carteira vazia.

– Acho que é melhor você ficar em pé, Stark. Vou começar por você.

– Eu não curto...

– Cale a boca! Ou vai pra diretoria. – Jon levantou as mãos em sinal de rendição, se encostando ao birô. – Pois bem, prestem atenção, todos. Esse ano, alguns veteranos ficarão responsáveis pelos novatos. Apenas por algumas semanas, que fique claro. Esta ordem partiu do diretor. Então eu farei um sorteio para determinar as duplas. Aqui neste chapéu estão os nomes de todos os novatos... – Estendeu o objeto para Jon – Stark, retire o nome da sua dupla.

– Isso é sério? – Resmungou retirando do chapéu o nome de sua dupla. – Vamos lá, minha dupla é uma tal de Ygritte.

– Uma tal de? – Ela levantou tentando parecer o mais confiante possível. Mas a verdade é que seu interior estava num estado de completo em choque. Enfim chegara a hora em que eles se reencontrariam, oficialmente. – Você não sabe nada, Jon.

– Você? – A surpresa dele era evidente. – Você... Vo.. Você vem comigo. Agora. – Disse recompondo a pose de sempre e caminhando até ela para puxa-la pelo braço. – Vamos começar nossa tour por este lindo colégio.

O professor tentou protestar, no entanto, já era tarde. Eles já estavam fora da sala de aula.

– Pensei que você... – Ele começou e então parou. – Seu nome é Ygritte? E você me disse que era brasileira...

– Eu sou. Minha família que não. Uma parte é irlandesa a outra...

– Italiana, suponho.

– Talvez você saiba de alguma coisa. – Ironizou.

– Talvez...

–Jon? – Robb chegou onde estavam, interrompendo a frase do outro garoto, que seria sua dupla por semanas. – De onde você conhece a Yggie?

– Yggie? – Jon fez uma careta – De onde você conhece a ruiva? Não vai me dizer que no Brasil...

– Brasil? Eu não a conheço do Brasil, eu a conheci no início da aula.

– O quê? – Outra careta. – Eu não acredito que você a conheceu depois de mim e a chama até pelo apelido...

– Qual o problema? O Robb me pareceu confiável, então eu falei meu nome. – Sorriu. Aquilo era divertido.

– Sério Yggie, de onde você conhece meu irmão?

– Irmão? O Jon é seu irmão? – Robb fez que sim com a cabeça. – Não acredito.

– Nem eu. – Jon disse.

– Eu não consigo entender... – Murmurou.

– Nem eu. – Robb concordou.

– Vocês são irmãos.

– Vocês se conhecem.

– Vocês são amiguinhos.

– Vocês são um porre. – Uma voz zombeteira acresceu-se a conversa. – Sério, qual a dificuldade de entender essa história? Vou lhes dizer. Essa é a ruiva que o Jon pegou no Brasil.

– Essa é aquela garota?

– Exatamente, meu caro Robb. – A garota, que ela reconhecera de mais cedo, Arya, era mais uma Stark. Aquela confusão estava longe de acabar. No entanto, não deixava de ser divertido. Às vezes a vida era mais que engraçada.

– Que primeiro dia de aula agitado... – Jon disse.

– Você nem imagina, João. – Arya deu ombros. Eram realmente muito parecidos.

– Não vai me dizer que você também encontrou um amigo do passado? – O outro Stark, o mais amigável deles, indagou. Recebeu uma afirmativa silenciosa como resposta. – Não é o garoto da cadeia, é?

– É sim. – Arya bufou. – Gendry está aqui. – Ao ouvir tal nome, Ygritte reprimiu, sem sucesso, uma gargalhada. Os três irmãos, tão parecidos e tão distintos ente si, ao mesmo tempo, apenas a encararam; esperando por uma explicação. Ela então respirou fundo e preparou-se para dizer algo que pareceria absurdo e que era a mais pura verdade.

Seria muito ridículo de minha parte dizer que... o Gendry é meu irmão?