Lobos de Veneza
10 Na encrenca...
Notas iniciais
O que seria da vida sem correr riscos, sem se viver superando os seus limites? A vida é feita de cada momento, cada instante e cada expectativa. Todo mundo sabe que pode errar, pode falhar, pode sofrer, pode cair, pode sucumbir a algum risco, e é exatamente isso que faz a vitória ser tão mais atraente. Podem até dizer que isso ou aquilo é perigoso, mas o viver em si é perigoso. E o perigoso é sempre o mais divertido.
– Acho que meu pai não vai gostar muito disso... – Murmurou. Estava numa cela fedida e cinza ao lado de Touro, seu mais novo... Amigo? Não, ela achava que não.
– Qual é? – Seu companheiro de cela fez uma careta. – Vai me dizer que o Cavalo é uma patricinha que tem medo do papai?
– Claro, sou muito patricinha. – Revirou os olhos, era tudo o que poderia fazer, se batesse naquele grande idiota, que a colocara dentro de uma cadeia dum país que ela nem conhecia direito, sua situação se agravaria. – Meu pai não gostar do que eu faço não é novidade, Touro.
– Não, Arya Stark? Quer dizer que você apronta muito lá em Portugal? Meio que estilo sessão da tarde? – Fingiu que sua mão esquerda era um microfone e continuou – Não percam o filme de hoje, A menina cavalo, essa garotinha vai aprontar todas na tela da sua tevê! – E então ele gargalhou, de uma piada tão interna que só ele mesmo poderia entender.
– Primeiro, seu idiota – Bateu em sua cabeça, com um pouco de força de mais do que o lugar em que estavam permitia – Eu sou da Itália. I-T-Á-L-I-A! E o que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta, okay?
– E quem disse que era? – Foi a vez dele de revirar os olhos. – Você pode não se achar patricinha, mas no fundo é tão patética quanto uma. Patética por achar que tudo é sobre você.
– Minha vez de perguntar: E quem disse que era? Quando que eu disse que tudo é sobre mim? Sabe o que é interpretação, caro Touro? Treine isso.
– Sabe o que é...
– Calem a boca os dois! – Um homem barrigudo e com um bigode do tamanho de sua gordura, interrompeu aquela conversa nada amigável. – Você por aqui de novo meu amigo Gendry? – Então esse era o verdadeiro nome de Touro... – Quando me disseram que pegaram você e uma garota pensei que fosse sua irmã, aquela ruiva idiota. – O barrigudo continuou, mas seu discurso não parecia irritar Gendry. – Mas aqui está você, com essa pirralha.
– Pirralha? – Arya esbravejou – Pirralha il culo!
– Il o que? – o homem do bigode fez uma careta, enquanto Gendry se contorcia numa gargalhada.
– Vaffanculo! – Vociferou mais uma vez. Não havia aprendido como eram as traduções daquelas expressões em português, então as falou em italiano. Entretanto o homem não parecia entender, mas Gendry, ele sim. Entendia e se divertia muito com aquilo. Olhou para ele confusa. Como ele poderia saber italiano se era um garoto de rua? Não entendia muito do Brasil, mas pelo que sabia, as pessoas não aprendem outras línguas na rua.
– Ela mandou você se danar, para não falar outra coisa. – Touro, agora Gendry piscou para o mais velho.
– Sua nojenta! – Ele gritou.
– Il culo, eu já disse! – sorriu ironicamente, sorriso que se desmanchou assim que viu certa face muito conhecida na sua frente.
Ned Stark.
– O que você fez, Arya Stark? Pelos deuses, o que fez?
– Eu não fiz nada. Só acompanhei um completo desconhecido e tatuado para uma casa abandonada, no meio de um país mais desconhecido ainda. – Reabriu o sorriso, seu pai estava realmente irritado. E se Jon tivesse mesmo cumprido a aposta ele iria ficar muito pior...
– Olá papai Stark. – Gendry acenou por trás das grades e passou o braço pelos ombros de Arya. – Ou deveria chama-lo de sogrão?
– So-sogrão? – Seu pai fez uma careta de descontentamento. – ARYA STARK!
– Ned Stark! – Ironizou a voz do pai – Homem, por favor, eu não iria para cadeia aqui. Você sabe muito bem como está minha situação lá pela Itália, tudo foi um mal entendido. – Caminhou até as barras e passou as mãos por elas, para toca-lo – Paisinho... Eu sei que sou uma péssima filha, e que o senhor está muito chateado, mas preciso sair daqui. O senhor já tirou o Jon da cadeia uma vez, faça isso por mim?
Não demorou muito para que saísse de lá. Segundo o delegado, Gendry ficaria lá até que eles conseguissem um contato com um e seus parentes, que morava distante dali. A irmã dele, a tal ruiva, também seria procurada e ambos seriam levados para casa do tal parente. Quanto as crianças de que cuidavam, estas seriam encaminhadas para orfanatos. E Arya não seria fichada. No fim, tudo ficaria bem. Pensou.
Ned não falou com ela durante todo o caminho de volta. Mas aquela raiva não duraria muito, ela sempre aprontaria outra pior. Era o que fazia. Uma competição eterna com Jon, para ver quem era o pior filho. Até àquela hora, ela estava ganhando de três à zero. Chegaram ao hotel e Arya correu para falar com o irmão mais velho. A esta altura, mesmo que ele tivesse ficado com a tal mulher da aposta, já teriam se despedido há tempos. O pai foi em seu encalço, talvez tivesse medo que ela fugisse para encontrar o tal namorado criminoso, já que ela não desmentira a história do “sogrão”. Porém ao abrir a porta tudo pareceu mudar, o placar virou imediatamente. Arya, três. Jon, cinco. E um pai furioso com seus dois filhos inconsequentes.
– JON STARK! – O pai berrou. E ela não pôde deixar de sorrir. Ela e Jon estavam sempre juntos. Na alegria e na tristeza, na encrenca e na encrenca!
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– Muito bom ver esse dia lindo aqui da janela. – Ironizou seu irmão mais velho.
– É melhor ainda ver todos eles se divertindo lá fora. – Completou.
Estavam ambos – ela e Jon — de castigo. Não sairiam do hotel até que eles voltassem para a Itália, esse fora o castigo de seu pai, até eles chegarem em casa é claro. Quando algo pior aconteceria. Provavelmente Jon perderia a moto e ela seria proibida de sair de casa. Os dois teriam que ir para a escola de ônibus, e comer a comida sem graça e saudável que o pai comia, sem sobremesa. Grande castigo!
– Odeio isso. – Socou o vidro da janela. – Odeio ficar presa aqui.
– Nós não vamos ficar aqui, vamos pequena delinquente?
Olhou para Jon, ele tinha um sorriso desafiador nos lábios. Obviamente tinha algo na sua mente, e obviamente que ela aceitaria de prontidão fugir daquele castigo. Afinal, eles eram ou não eram os piores filhos do grande Ned Stark? Viver em si é perigoso. E o perigoso é sempre o mais divertido.
– Não vamos mesmo, grande delinquente! – Respondeu e seguiu o irmão para fora daquele lugar.
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