Notas iniciais
Pov. Dany

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Parecia que todos estavam olhando para ela.

E é claro que estavam. Era o que sempre acontecia. Ela passava e as pessoas olhavam. Mas ao contrário do de sempre, ela não acenava de volta, não estava se sentindo confortável com aqueles olhares. Seu estômago revirava e só de lembrar que teria de falar para meio mundo de alunos dali alguns minutos, já sentia a ânsia tomando-a.

– Daenerys. – Ouviu a voz grave atrás de si e seu coração deu um salto, desde que terminara o namoro nunca mais o tinha visto.

– Drogo. – Forçou um sorriso.

– Você está linda como sempre. – Ele se aproximou e beijou-lhe a testa. O perfume forte que ele usava encheu o ar. Automaticamente a mente de Dany vagou para o dia em que ela escolhera aquele perfume para ele, no sétimo mês de namoro. Sempre adorara o fato de ele usa-lo, porém já não tinha tanta certeza quanto isso. – Então – Drogo afrouxou o abraço para olha-la nos olhos – Pronta para o discurso?

– Eu faço isso todos os anos, Drogo. – Deu de ombros saindo de perto dele e retomando seu caminho para o ginásio, ele certamente a seguiria. — Estou mais que pronta.

– Claro que está, afinal, você é a..

Rainha dos Dragões. – Completou com amargor enquanto mudava a direção dos seus passos. Geralmente a companhia de Drogo era das mais agradáveis, no entanto não era dessa forma que ela via a presença dele ali. Talvez o problema fosse com ela e tudo não passasse de TPM. – Eu vou recepcionar os alunos que chegarão nos ônibus daqui a pouco, você pode ir pro ginásio na frente.

Não esperou por uma resposta do ex-namorado, apenas seguiu para a entrada do colégio, mais e mais olhares a acompanhando, revirou os olhos diante daquilo. A grande verdade é que ela odiava toda aquela exposição e todo aquele circo que era sua vida. Uma grande mentira, pensou colocando as mãos no bolso da calça jeans azul. Logo dois ônibus amarelos chegaram e ela correu para falar com o máximo de alunos e dizê-los para onde deveriam ir, seu principal foco eram os novatos, aqueles que não conheciam nem o colégio nem a ela.

Quando o quinto e último ônibus escolar chegou, Dany já estava ali há 25 minutos, suspirou pesadamente antes de colocar o ensaiado sorriso no rosto. A maioria dos alunos que desceram era conhecida, o que a fez agradecer secretamente, já que não teria de explicar muita coisa. Assim que o último aluno saiu, ela acenou para o motorista e preparou-se para ir embora. Entretanto o motorista fez uma cara esquisita e olhou para o fundo do ônibus. O que haveria ali? De cenho franzido ela subiu os quatro degraus e parou no começo do corredor de poltronas. Dois alunos estavam ali. E um deles nunca tinha se afastado realmente, não de seus pensamentos pelo menos.

– Por que vocês dois não descem do ônibus? – Perguntou com a voz mais autoritária que pôde.

O garoto de cabelos cacheados e negros virou-se para ela, o sorriso que trazia no rosto se alargou. O coração dela falhou uma batida só para bater freneticamente contra o peito logo em seguida. Esse tipo de reação não é normal, Daenerys, se controle! Forçou-se a sorrir cordialmente, ele era um aluno como qualquer outro, não deveria ser tratado com distinção.

– Por que você não desce do ônibus, Jon? – O outro aluno, que tinha cabelos castanhos e lisos, e era bem mais baixo que Jon, perguntou com ironia.

– Por que você não desce do ônibus? – Devolveu a pergunta ao garoto. Estavam debochando dela?

– Por favor... Sei que voltar às aulas não deve ser difícil, mas se os dois mocinhos... — Não terminou a frase, os garotos que estavam no fundo do ônibus gargalharam escandalosamente. Daenerys bufou. O que havia de tão engraçado naquilo? – Parem de rir!

– Ouviu? Ela fala “mocinho”! – O mais baixo dos garotos caçoou segurando a barriga.

– Ouviu? Ela acha que você é um mocinho... – Jon disse rindo ainda mais. – Eu te avisei Arya, essa droga de corte de cabelo ia realçar sua cara masculina...

– Bem, papai tem que ter algum filho heterossexual, não é Jon? Porque se depender de você...

– Tá me chamando de quê, ô homenzinho?

– Tô te chamando disso que você ouviu, seu viado. – A garota que parecia um garoto respondeu.

– Por favor, parem de brigar. – Pediu colocando-se entre os dois, a atitude só arrancou mais gargalhadas de ambos.

– Não estamos brigando, ó grande rainha. – A garota fez uma reverência. – Somos irmãos, fazemos isso todos os dias.

– Você é Arya Stark? – Dany havia ouvido muito sobre a tal garota Stark, mas nunca tivera a oportunidade de conhecê-la. Aparentemente ela era como Jon, sumia diante de qualquer tentativa de socialização.

– Não, sou Sonsa Stark. – Arya disse e Jon gargalhou.

– Arya, não chame a Sansa desse jeito...

– Mas ela é uma sonsa, Jon.

– Absolutamente sonsa. – As palavras escaparam dos lábios sem que ela pudesse controlar. Mas, em seu íntimo, uma pontinha de satisfação a atingiu, ao ver a cara de surpresa de Jon Stark. No fim das contas, ele não era inatingível.

– Você conhece a Sansa? – A garota falou. Olhando atentamente, Daeny conseguiu perceber os traços femininos, que eram até bem presentes na garota. O que parecia é que ela, a Stark, queria esconder desesperadamente cada mínimo ponto delicado de seu corpo, usando roupas largas e o cabelo de forma desalinhada. Uma pena, ela tinha potencial.

– Sansa Stark, a garota que roubou meu papel principal na peça de teatro do ano passado. Ela sempre quis isso, desde que começou a fazer aulas de teatro. E acabou conseguindo. – Respondeu dando de ombros. – Mas eu também conheço você, Arya. Quer dizer, ouvi falar.

– Ouviu falar?

– É, algo me diz que você, assim como... – Esforçou-se para não olhar para Jon — Outra pessoa que conheço, não gosta de ser encontrada.

– Não gosto das pessoas pegando no meu pé. – No fundo Dany também não gostava. – Inclusive, você estava pegando no meu pé para que descesse do ônibus...

– O que me lembra... – Fez um gesto exagerado com os braços indicando a saída – Desçam do ônibus.

– Eu não posso, desculpe.

– Por quê?

– Apostei com o Jon que eu demoraria mais a chegar no colégio, então ele tem que descer do ônibus primeiro. – Uma aposta? Quanta maturidade, Jon. – Ele ganhou a última de nossas apostas e está se achando o melhor agora.

– Eu sou o melhor, manin...

– Jon Stark! Eu tenho muito que fazer hoje, tenho que estar em cinco minutos no ginásio. – Reuniu o máximo de autoridade que conseguiu e virou-se para encara-lo. Pela primeira vez naquele dia estava o olhando atentamente. A barba por fazer lhe dava um ar misterioso, contrastando com os cachos negros que lhe davam um ar brincalhão e jovial. Seu coração bateu acelerado contra o peito. – Acho melhor você descer do ônibus, ou ficará responsável durante todo o ano pelas festas e comitês do colégio, inclusive o baile.

Esperava que sua ameaça surtisse um efeito, ao menos que mínimo nele, entretanto aquilo só fez um novo sorriso surgir nos lábios de Jon. Ele andou lentamente, até parar a sua frente. Fez um sinal para que Arya ficasse onde estava. Abaixou-se um pouco, talvez para que os olhos de ambos ficassem na mesma altura, então pôs as duas mãos em seu rosto. Neste momento o ar pareceu lhe faltar. Ele era ainda mais bonito visto de tão perto. As mãos quentes deslizaram por seus braços até segurarem as suas, que levou aos lábios e beijou cada uma delas. Só então, segurou-a pela cintura. Dany fechou os olhos esperando sentir os lábios, que segundos antes beijaram suas mãos, contra seus lábios.

Então foi como se tivesse sido jogada para cima. Sentiu seu corpo sacudir e o sangue ir todo para cabeça. Abriu os olhos e a compreensão a tomou. Jon não pretendia beija-la, pretendia carrega-la sobre os ombros, como um saco de batatas. Dany bateu em suas costas e pediu, desesperadamente, para descer, mas ele não fez isso, continuou a andar com ela pelos corredores do prédio antigo.

– Estou facilitando as coisas pra você, Daeny. – Daeny, ele falou Daeny. Só sua mãe chamava-a assim e desde a morte da mesma nunca mais ouvira o apelido tão amado. – Você queria que eu descesse do ônibus, eu desci. Você queria chegar rápido ao ginásio, aqui está. – Dizendo isso ele tirou-a de seus ombros, colocando-a no chão bruscamente. – Seja feliz.

– Você é um grosso...

– Você é mal agradecida.

– Bronco.

– Patricinha.

– Patricinha? Que título clichê.

– Você é um grande clichê, Daeny. – Disse e virou as costas, não antes de piscar-lhe um dos olhos.

– Ei! – Chamou e ele parou sem virar-se para ela – Você não vai participar da cerimônia de boas vindas?

– Tenho uma coisa importante pra fazer.

– Mais importante do que me ouvir falando? – Jon deu uma risada fraca e então a encarou.

– Qualquer coisa é mais importante do que te ouvir falando, Daeny.

Tudo o que ela fez foi marchar para dentro do ginásio, tinha um grande discurso de “boas vindas” a fazer. Cumprimentou Robert e sua filha, Myrcella, com um abraço, ao resto da família Baratheon deu apenas um sorriso fraco. Respirou fundo e sorriu abertamente, suas bochechas estavam doendo de ter que dar tantos sorrisos forçados, seus olhos percorreram atentamente a plateia, mas aparentemente ele não estava ali. Ótimo, seria melhor falar sem que algo fosse capaz de tirar sua concentração.

– Bom dia a todos e me desculpem o atraso. – Falou assim que estava com o microfone nas mãos– Gostaria de dizer a todos que estou muito feliz por estar aqui com vocês – Aquilo era mentira. – Aos que não me conhecem ainda, sou Daenerys a representante oficial do comitê de boas vindas...

– Ou simplesmente a Rainha dos Dragões. – As portas do ginásio abriram-se e lá estava ele, carregando a irmã mais nova nas costas. Jon. Talvez ele tenha tirado o dia pra tentar me tirar do sério, ela pensou enquanto o via fazer uma reverência exagerada.

– Acho que estragamos o discurso dela, Jon.

– Na verdade não, vocês chegaram em boa hora. – Tentou manter-se o mais calma possível. Era guerra que o Stark queria, era o que teria. – Por favor, subam aqui. – Ainda com Arya nas costas, Jon subiu no pequeno palco. Colocou a irmã na cadeira em que ela estivera sentada antes de começar a falar e parou bem ao seu lado. Foi só aí que Daenerys percebeu que Arya estava com o pé engessado, como ela não tinha visto aquilo antes? – Bem, como eu estava dizendo, sou a presidente do comitê de boas vindas. E este ano farei uma proposta diferente dos outros anos. Quem aqui gosta de festas? – Mãos levantaram-se e assobios soaram. – Então, é o que teremos. Entretanto, para que a festa seja feita precisaremos da colaboração de todos. Peço que tenham as melhores ideias do mundo, para que possamos coloca-las em prática e arrecadar o dinheiro suficiente para nossa festa, que acontecerá daqui a quatro meses. – Fez uma pausa e olhou para os garotos ao seu lado. — Esses são Jon e Arya Stark, os responsáveis, além de mim, pela organização do evento e adaptação dos alunos novatos. Quaisquer dúvidas procurem a um deles. Tenho certeza que ambos adorarão ajudar.

– O quê? – Arya se pôs de pé bruscamente e fez uma careta. Daenerys não sabia dizer se a careta ela de dor ou de surpresa. Ou, até mesmo, de ambos.

– Arya. – Jon sinalizou para que ela voltasse a sentar – Seu pé. — Arya bufou e revirou os olhos, ele riu e então tornou a olhar para ela, entretanto sua expressão não era mais tão risonha – Continue o discurso, Daeny.

– Vou continuar Jon. – Passou os minutos seguintes falando da forma de ensino e avaliação do colégio. Apresentou os professores que estavam presentes, a psicóloga, o diretor, até a copeira. Por fim, mostrou uns slides que continham o mapa da instituição, informando onde cada um dos alunos poderia pegar seu horário. Despediu-se de todos e entregou o microfone a Robert, para que ele “desse a palavra final”.

– Daenerys – Sentiu alguém puxa-la pelo braço, assim que alcançou o jardim lateral. — Até onde eu sei, quem ajuda nessas frescuras que você inventa são os voluntariados. Nem eu, nem minha irmã somos um deles.

– Jon, estamos nos encontrando muito hoje, hã?

– Nós sempre nos encontramos muito, você só não me tonava. Mas você nunca nota nada, não é? Não notou nem o pé quebrado da Arya... – Ele fez uma pausa. – Isso não vem ao caso, eu só vim atrás de você pra dizer que eu não vou ajudar nada nem ninguém.

– Não entendo essa sua aversão às pessoas.

– Eu odeio essa gente e estou mais que feliz de só faltar um semestre para eu, enfim, me ver livre disso aqui.

– Tudo bem, Stark. Não vou te obrigar a me ajudar com a festa, mas saiba que esse ano acontecerá os sorteios que vão definir os responsáveis pelos alunos novatos. Essa ideia veio do diretor, não de mim. Então se você for sorteado não será tão fácil assim se livrar de ajudar “essa gente que você odeia”.

– Você não me conhece mesmo.

– E alguém te conhece Jon Stark? Se bobear nem a tua mãe te conhece direito...

– Olha só, Daeny, dessa vez você tem razão. – Ele sorriu largamente e acenou com a mão – Foi um prazer conversar com a grande rainha, mas agora eu vou indo. Afinal, tenho um sorteio pra boicotar.

– Jon!

– O que é?

– Por que você me odeia?

– Eu não te odeio Daenerys, eu odeio esse personagem que você criou.

– Mas...

– Você se afundou tanto na rainha dos dragões que, se bobear, esqueceu quem é de verdade. Esqueceu que você é incrível exatamente por ser quem é, que não precisa mudar para agradar os outros...

– Eu sou a rainha dos drag...

– Não é não. E sabe por que eu digo isso? – Ele se aproximou e colocou uma das mãos em seu rosto. – Eu já conheci a verdadeira Daenerys, e é ela quem você deveria ser.

Queria ter a certeza de que alguém me valoriza pelo que sou.
Que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu seja sempre eu mesmo.

Notas finais
Queria agradecer a Bonny Anarchist pela recomendação fofíssima :3 OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADA E, quero pedir desculpas pela demora e por não responder os comentários (mas eu leio todos :3). Tô numa correria só! Well, até mais