Lobos de Veneza

25 Honestidade versus Dever


Notas iniciais
Pov. Jon

— Você tá péssima. — Foi a primeira coisa que lhe veio a mente para dizer. Precisava quebrar o silêncio constrangedor que se instalou no quarto assim que foram, ele e ela, deixados sozinhos.

— Posso falar o mesmo de você, Stark. — A garota lhe sorriu e seu coração quase vacilou. Quase, porque lembrou a tempo que não deveria, de modo algum, se permitir de sentir tais coisas.

— Será que dá pra você falar logo o que quer?

— Mas não faz nem um minuto que sua irmã saiu do quarto, ainda não deu tempo de falar o que quero…

— Esses “nem dois minutos” me pareceram uma eternidade, Daenerys. Por favor, fala o que você quer e depois vai embora. — O olhar que ela lançou em sua direção foi cortante, talvez ela esperasse que Jon lhe desse os pêsames e perguntasse se estava tudo bem, como muita gente deve ter feito. Talvez ele devesse fazê-lo, abraçá-la e dizer, mesmo que fosse mentira, que tudo tomaria um jeito, que as coisas voltariam aos eixos. Mas ele não fez isso, apenas encarou uma abatida Rainha dos Dragões, esperando pelo que viria a seguir.

— Então eu vou direto ao ponto. Escutei uma conversa entre o Diretor Robert e o seu pai, eles estavam sobre você e seu possível… Trauma.

— Trauma? — Indagou confuso, onde Daenerys queria chegar com aquela conversa? — Trauma de…

— Bem, você sabe, você viu o meu irmão morto, depois você… Você sofreu tudo aquilo e…E… — Ela andou em sua direção, como se não soubesse o que fazer. Ele recuou. Não queria nenhum contato além do que estava sendo obrigado a ter. — Jon, eu demorei tanto pra encontrar um policial, se eu tivesse chegado antes…

— Se você não tivesse ido atrás de mim na merda do hospital, nada disso teria acontecido comigo! — Esbravejou. Precisava que ela fosse embora dali o quanto antes, do contrário, acabaria cedendo a voz na sua cabeça que gritava para que a abraçasse. — Está arrependida? Sente muito? Ah! Por favor, Daenerys. Já parou pra pensar que se não fosse por você eu não estaria aqui? Não teria sofrido qualquer trauma, nem teria mais um problema pra administrar com meu pai?

Ela não respondeu, mas tampouco saiu correndo como previra. Apenas permaneceu ali, em pé, o encarando. Os olhos claros foram enchendo-se de lágrimas e a decepção tomando-lhe o rosto. Novamente, a voz em sua cabeça, a que controlava a parte boa do seu ser, a mesma que o fez pedir desculpas a Arya, sussurrou para que fosse honesto com Daenerys. Mas, se falasse toda a verdade a ela, se falasse que naquela noite, a que partilharam uma primeira vez dentro do armário de vassouras, sentiu-se a pessoa mais feliz do mundo? Se falasse que havia mentido sobre seus sentimentos? Que sentia muito pelo filho que não tiveram e que, se possível, gostaria de recomeçar? Se falasse tudo… Se falasse, o que aconteceria?

Sim, deveria ser honesto, mas devia tantas outras coisas também…



— Você falou que vai embora — De repente a fala dela lhe veio a mente. — Para onde você vai?

— Não sei… E é por isso que vim aqui, porque antes de ir preciso fazer uma coisa. E preciso da sua ajuda.

— Minha ajuda? — De repente o debate que sua mente travava, entre o que deveria e o que queria fazer de fato, foi silenciado. Uma nova discussão instalou-se em sua cabeça, o que faria ela, mesmo depois de tudo, que ele lhe fez e lhe disse, engolir o orgulho para pedir sua ajuda?

*************

O rosto de Arya estava mascarado em uma carranca. Certamente, quando ela recebera sua mensagem, não pensara que a fuga do hospital seria para fazer o que fariam. Não a culpava. Momentos antes de escutar a ideia, até mesmo momentos depois, fazer o que estavam prestes a fazer, lhe parecera um absurdo. Afinal, quando ele desistira de ouvir o lado do seu ser que gritava “Resistência”? Bem, nem o próprio sabia dizer.

— Arya… — Sussurrou, curvando-se para alcançar a orelha da irmã. — … Eu sei que você tá chateada, mas não custava nada ajudar…

— Não custava? — Ela perguntou um pouco alto demais e, por um momento, Jon teve medo de que fossem descobertos. Olhou para um lado e para o outro, certificando-se de que ninguém os ouvira. — Isso é porque não foi você quem fez todo o trabalho sujo, né? Roubar um uniforme de enfermeiro, se vestir com essa bosta de roupa de paciente de hospital e, como se não fosse ruim o bastante, ainda ter que bancar a vítima da cadeira de rodas! — Ao dizer isso, a garota sacudiu-se na cadeira violentamente, caindo no chão e chamando desnecessária atenção sobre o disfarce deles.

— Droga, Arya. — Ralhou e, após levantá-la e recolocá-la na cadeira, como se realmente fosse uma paciente, tornou a apertar, desta vez de forma mais violenta, o botão do elevador. — Por que essa porra demora tanto?

— Desculpe… — Uma voz desconhecida o fez virar para trás. Ao constatar quem era, seu coração acelerou no mesmo instante. Estavam perdidos! Com certeza, depois daquele pequeno chilique de sua irmã, foram descobertos. Já estava pensando em sair correndo para fugir, quando teve seus planos interrompidos pela continuação da fala da enfermeira. — … Posso ajudar você? Eu acho que esta paciente está dando problemas…

— Hã? — Não conseguiu evitar a surpresa momentânea, mas logo se recompôs. — Ah! Não, não. Foi só um susto, não se preocupe.

A mulher olhou-os por alguns segundos e depois assentiu silenciosamente, virando para continuar o caminho que fazia antes de parar para tentar ajudá-los. Jon pôde escutar o suspiro aliviado de Arya e não se conteve em fazer o mesmo. Para a sorte de ambos, antes que pudessem ser surpreendidos por mais alguma alma caridosa, o elevador abriu suas portas. Jon tratou de empurrar a cadeira de sua irmã para dentro e logo apertou o botão do estacionamento.

Tinha plena consciência de que, quando sua fuga fosse descoberta, seu pai se encarregaria de acabar com sua vida. Sabia que deveria voltar e negar qualquer ajuda a Daenerys, ainda mais se ajuda envolvia invadir uma clinica psiquiátrica, mas, para ser honesto, não queria fazê-lo. O seu dever... Das muitas coisas que Jon devia, a honestidade estava no topo da lista. E, sendo honesto como fora em poucas vezes em sua vida, ele decidiu deixar o dever para lá. O pensamento não deixava de ser irônico.

Sorriu para sua irmã pelo espelho do elevador, mesmo que ela não pudesse ver seu sorriso. Ali, eram refletidas duas pessoas que em nada se pareciam com os irmãos Starks. Um jovem enfermeiro, usando máscara e uniforme. Uma paciente recém curada, que seria levada até seus parentes — que a aguardavam no estacionamento. O cubículo de metal parou e abriu suas portas, no mesmo instante, Arya levantou, abandonando a cadeira de rodas, sem se importar em deixá-la ali mesmo. Observou a irmã olhar para um lado e para outro, certificando-se de que estavam no ponto cego das câmeras de segurança.

— Você faz isso parecer um filme policial. — Brincou depois de retirar a máscara que cobria metade de seu rosto. A mais nova demorou um pouco para reagir a seu comentário, estava concentrada demais, quando o fez, foi um leve dar de ombros.

Bem, se é pra se foder, que seja em grande estilo. — Falou por fim e Jon teve de concordar com ela.

Eles estavam mesmo ferrados...

Como nos velhos, nem tão velhos, tempos.

Notas finais
OLAR! Acabei demorando com esse capítulo porque mudei algumas coisas na história, de novo! Pra vocês terem uma noção, antes desse capítulo, tinha mais dois, mas como eles não acrescentavam nada - além de mais dúvidas - decidi retira-los. E, por isso e por outros motivos, acrescentei mais alguns capítulos à fanfic. No fim de tudo, acho que teremos quase 50 capítulos (o.o) Bem, vale lembrar que esse capítulo e o passado (narrado pela Arya) se passam antes do encontro do Jon com o Tyrion, estou explicando as N - e verdadeiras - razões que levaram o Jon a ir procurar o psiquiatra. O próximo capítulo será narrado pela Daeny e fechará esse arco de dúvidas do ocorrido pós-enlouquecimento-de-Drogo. Daí a gente vai chegar na minha parte favorita da história; Ou seja, vai ter treta, muita treta e umas mortesinhas também ~ acho que a "batalha pelo poder" vai se iniciar logo! Espero que vocês estejam ansiosos. Ah! Não vou desejar um feliz ano novo porque volto amanhã com o capítulo da Daeny. Até os comentários e beijos de luz! AH DE NOVO! A fanfic chegou aos 100 acompanhamentos, fiquei feliz, dá gosto de ver esse número quando vou checar os números das histórias ahsuhauh. Muito obrigada a todos vocês que leem, que comentam e que se divertem com a história. Isso me faz bastante feliz