Notas iniciais
Pov Daenerys

Depois de um primeiro dia de aula para lá de desgostoso, quando enfim achou que tudo iria ficar bem, a vida lhe deu mais uma rasteira. Não lembrava exatamente do que acontecera. Agira por impulso, movida pela adrenalina. No entanto, três cenas não deixavam sua mente, mesmo que estivesse dormindo, como se para assombrá-la. A primeira delas se traduzia apenas no seu desespero. Desespero ao constatar que Jon estava demorando demais para voltar. Correu em busca de ajuda e demorou-se nessa missão. Poderia ter simplesmente usado o celular, poderia ter usado o carro para achar ajuda mais rápido. Mas não o fez. Não pensou. E, talvez toda aquela sua demora, tenha sido decisiva para o garoto Stark.

Ainda era capaz de sentir o arrepio que lhe percorreu o corpo, quando a segunda cena — atualmente responsável por seus piores pesadelos — se mostrou diante de seus olhos: Seu irmão morto. Largado nas escadas da mansão. Parecia que alguém o tinha queimado e torturado até a morte. Aquele não se parecia em nada com o Viserys nobre que sustentava o nome de uma grande família. Outra pessoa, qualquer outra pessoa, teria chorado ao constatar que seu irmão morrera — ainda mais de forma tão cruel. Mas ela…

Ela não sentiu nada.

Não chorou e não teria esboçado reação alguma, se um barulho vindo da cozinha a tivesse despertado de seu quase transe. Lembrou-se de Jon e a adrenalina que comandava seu corpo acendeu-se novamente. Correu, sendo seguida por um dos policiais. Correu e correu. Correu e viu a terceira cena chocante do dia: Jon estava desmaiado, com cabeça envolta numa poça de sangue, com um Drogo ensandecido o batendo. Neste momento as lágrimas vieram, assim como os sentimentos.

Ela sentiu tudo.

O nojo, a tristeza e o medo misturaram-se. Gritou, fazendo o olhar do louco cair sobre si. Drogo pareceu relaxar e sorriu para ela, estendo-lhe os braços para ser abraçado. Ignorou-o. Não importava-se com ele, não mais. Era um assassino. Olhou para trás, vendo que o policial se aproximava. Com lágrimas nos olhos, deixou a dispensa, enquanto ouvia gritos e protestos de seu ex-namorado criminoso.

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Aqueles três dias não haviam sido, nem de longe, fáceis.

Era a primeira vez, desde que começara a estudar ali, que caminhava pelos corredores de cabeça baixa. Mesmo que mantivesse o foco no chão, pelo canto do canto conseguia ver as encaradas que lhe eram dirigidas. No entanto, diferente de todos as outras muitas vezes em que isso acontecera, os olhares não eram de admiração e tampouco de inveja. Eram de pena. Olhares, gestos, palavras… Tudo, tudo o que faziam para ela estava repleto de pena.

E para piorar tudo, ainda havia um novo boato sobre ela. Já não era mais a Daenerys vadia do armário. Era agora a garota vingativa. Segundo as más línguas, para se vingar de Jon Stark por ter revelado sua verdadeira face, Daeny o encurralara e espancara com uma pá. Após, é claro, tê-lo feito cavar a própria cova. Ainda na versão original deste quase conto, ela teria se arrependido profundamente e chamado uma ambulância. Outra versão, nem tão misericordiosa com a Rainha dos Dragões, dizia que ela tinha sido pega no flagra por Arya Stark e acabou levando uma surra da garota mais nova.

Idiotas…

Mas em uma coisa eles tinham razão: Arya Stark chegara muito perto de batê-la.

— Daenerys. — Um par de sapatos surgiu em seu caminho, ao mesmo tempo que a voz soou. Sabia a quem pertenciam. Os sapatos e a voz. E odiou o fato de ter que falar com ela.

— Eu não estou com tempo para ouvir declaração de peninha, desculpe. — Foi grossa pela primeira na vida, nunca, em todos os seus anos naquele colégio, havia usado de grosseria direta com alguém. Mas agora não se importava mais com seu status, não possuía sequer um status para preocupar-se.

— Não vim aqui fazer isso. Não sinto nada por você, nem pena. — Aquilo a surpreendeu. Não pôde deixar de levantar o olhar surpreso para encarar a ruiva. Não havia mesmo um traço sequer de pena naqueles olhos. Pelo contrário, a garota a encarava como uma igual. A encarava com ódio. Daenerys sorriu. Seu primeiro sorriso em dias.

— Então o que você quer, Ygritte?

— Jon não está mais correndo nenhum risco, já foi para o quarto e vai ficar por lá até seus machucados desincharem e…

— Ele acordou? – A pergunta saiu sem que pudesse controlar. Curiosa demais, entusiasmada demais...

— E até acordar. — Ygritte concluiu sua frase com uma careta — Se você me deixasse falar até o final, saberia de tudo. E não, eu não fui visitá-lo. — Respondeu prevendo sua próxima pergunta. — Nem vou, tenho meus problemas para resolver. Mas meu irmão me falou isso e ele é uma fonte segura.

— Teu irmão?

— É, parece que ele e a versão feminina do Jon estão namorando. Algo assim. — A ruiva deu de ombros e levantou um dos braços, sacudindo a mão em seguida. — Se Deus quiser: até nunca mais, Daenerys.

Não respondeu aquela provocação, sua mente estava mergulhada numa cena que sempre lhe parecera impossível. Arya Stark namorando… Perguntou-se que tipo de pessoa seria o irmão de Ygritte. Porque para atrair uma garota como aquela… Se bem que, ela e Jon eram completos opostos e, mesmo assim, se relacionaram. Ela e Jon. O pensamento a fez soltar um risinho amargo. Nunca tiveram relação alguma.

Jon…

Pelo menos ele não corria mais nenhum risco.

Deu duas batidas de leve na porta, torcia secretamente para que não fosse ouvida. No entanto, suas esperanças se foram pelo ralo, quando o rosto sorridente de Cersei surgiu na sua frente. Era óbvio que a psicóloga estava tão irritada quanto ela. Era óbvio que não queria “tomar conta” da garota traumatizada, mas fora designada por seu marido. Assim como Daeny fora obrigada a fazer o que fariam ali.

— Você já conhece a sala, então sinta-se a vontade.

— É impossível. — Disse em alto e bom som. Mesmo assim entrou e se sentou no lugar destinado aos “pacientes”. Cersei sentou-se a sua frente. — Eu não quero conversar, nem com você, nem com ninguém…

— Aposto que se Jon Stark quisesse conversar, você conversaria. — A provocação da mulher mais velha a atingiu em cheio. Cersei era venenosa de todo, mas nem por isso sua declaração deixava de ser verdade. Daenerys permaneceu calada e a outra continuou: — Você sabe que eu não quero ter essa conversa com você também, estou exausta. E também tenho meus problemas!

— Engraçado como todos estão me dizendo isso hoje…

— Todos? Uma pessoa que não quer conversar fala com “todos”? Que novidade interessante…

— Foi apenas maneira de falar. — Bufou. — Apenas encontrei a Ygritte no corredor e ela me falou algo parecido.

— Essa garota parece estar em todo lugar. — A feição de Cersei se fechou numa expressão de puro desgosto. Nunca a vira reagir de tal maneira. Talvez os problemas de Ygritte e Cersei estivessem relacionados… — Bem, não estamos aqui para falar daquela… Daquela outra aluna. Temos que falar de você. — Ela ressaltou o “temos”, deixando claro que só o fazia por obrigação. — Soube que não foi ao enterro do seu irmão, aliás, eu e toda a cidade.

— Os jornais ainda não se cansaram de falar de mim ainda, um dia eles param.

— Claro, estão só esperando o próximo Stark se acidentar. — A psicóloga sorriu. Um sorriso sinistro, medonho… Então voltou a olhá-la, com a expressão séria mascarando seu rosto. — Por que não foi ao enterro do seu irmão Daenerys?

Suspirou afundando-se na cadeira, aquela tortura estava longe de acabar.

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A semana que terminou e a seguinte foram a mesma coisa: Olhares de pena, consultas com Cersei e notícias no jornal.

Mantinha-se indo as aulas, apesar de Jorah lhe aconselhar para que fizesse o contrário. Não poderia deixar-se abater. Afinal, ainda havia resquício da Rainha dos Dragões dentro de si. Pôde perceber que os rumores envolvendo sua fama de vingativa foram diminuindo, isso só podia significar que aqueles abutres haviam arrumado outra vítima. Sentia pena da pessoa, mas não deixava de ficar aliviada por si.

— Espero que seu dia tenha sido agradável, Dany. — Foram as primeiras palavras que ouviu, assim que entrou no carro. Revirou os olhos, ele começaria o mesmo discurso de sempre. — Temos que conversar seriamente. — O encarou assustada. Aquele não era o típico que Jorah fazia sempre que ia buscá-la na escola, algo estava diferente. Não só nas palavras, no jeito dele também. — Vamos embora em dois dia, Daenerys.

— Embora?

— Sim, estou responsável por você e tomei essa decisão…

— Eu tenho 18 anos e, se não estou enganada, essa é a maioridade civil aqui na Itália.

— A justiça e os médicos concluíram que você não tem condições psicológicas de ficar sozinha. E eu concluí que ficar nesta cidade não te faz bem também. Vamos mudar… Se você quiser, podemos até sair do país!

— Qual o seu problema? Eu poderia sair do planeta que nada mudaria! — Gritou, estava cansada de ter Jorah de babá a tratando como uma criança. Abriu a porta do carro e saiu andando, não sabia para onde iria, só não queria ficar ali, com ele.

— Olha aqui, Daenerys, não adianta agir como uma garotinha mimada. Você vai comigo por bem ou por mal. — Não parou e continuou seu caminho, estava pouco se lixando para o que aquele homem queria. — Daenerys, onde você vai?

— Aproveitar meus últimos minutos de liberdade. — Respondeu e acelerou os passos. Não queria ser seguida.

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Avistou as duas figuras parecidas andando em direção ao seu carro.

Depois da discussão que tivera com Jorah, andara sem rumo, mas acabara em casa.Iria embora. Dali a dois dias iria embora. Sua mente passou a recapitular os acontecimentos das duas semanas anteriores e Jon, mesmo que não fisicamente, se fazia presente em quase todos eles. Uma lembrança em especial lhe fez ter uma ideia. Então, em mais uma de ações impulsivas e desesperadas, decidira ir até o Hospital, iria visitá-lo.

Precisava ao menos vê-lo uma última vez.

Tinha certeza de que Jon não aceitaria ajudá-la. E, no entanto, contrariando suas expectativas, lá estava ele, bem na sua frente. Talvez pela primeira vez na vida, se sentiu feliz em estar errada. Manteve os olhos nele por um instante, demorando-se para observar os hematomas. Não estavam inchados, mas ainda possuíam uma coloração roxa. Observou-o colocar o sinto e, enfim, encará-la. Os olhos não passavam sentimento algum.

— Você vai ficar babando no Jon por muito tempo — A voz petulante de Arya a fez acordar.

— Não estava babando em ninguém. — Defendeu-se, mandando um olhar ameaçador para a garota no banco de trás. Mas aquilo só a fez rir. Ignorou a risada debochada, decidiu mudar de assunto e dar partida no carro. — Sério mesmo que vocês precisavam se disfarçar pra sair do Hospital? Não dava pra... sair apenas?

— Olha aqui, criatura amadora, se você está pedindo a minha ajuda, não questione os meus métodos.

— Olha aqui, criatura detestável, eu não pedia a sua ajuda. Pedi ao seu irmão. — Rebateu.

— É a mesma coisa. — A resposta não veio de quem esperava. — Eu e Arya somos um pacote só, Daenerys. E eu não ia conseguir sair de lá sem ela. Se você não reparou, meu pai está naquele mesmo andar e corria o risco de ele me ver tentando fugir. O disfarce foi a melhor das ideias.

— Talvez… — Murmurou não querendo dar o braço a torcer. — Mas sua irmã não precisava se disfarçar, não tem nada a ver com ela…

— Okay, vou explicar melhor pra ver se seu cérebro lerdo acompanha. — Arya voltou a falar. A voz dela soava ainda mais arrogante que a de Jon. Realmente era inegável que aqueles dois eram da mesma família. — Jon precisava de um disfarce que também o permitisse cobrir seu rosto, por isso enfermeiro. Mas, se ele estivesse sozinho e dessemos o azar de que precisassem de um enfermeiro para alguma emergência, o disfarce seria facilmente descoberto. E mais, o que um enfermeiro devidamente fardado faria pegando o elevador especial? Ele precisava estar ocupado. E ocupado com um paciente, então eu entrei em ação…

— Admita, Daeny, foi uma ideia genial, a prova de falhas. — Jon lançou-lhe um sorriso travesso e, por um momento, ela esqueceu de que iria embora, de tudo que havia acontecido e tudo que aconteceria a seguir. Por um momento, ela desejou ficar com ele.

— E, se você ainda não entendeu tudo: Assim que nosso pai der pelo sumiço do Jon, a primeira coisa que ele vai olhar são as câmeras de segurança, por isso usamos os pontos cegos da vigilância.

— Vocês parecem profissionais criminosos.

— Somos quase isso. — Foi a vez de Arya lhe direcionar um sorriso. Aquilo era novo, dois dos Starks mais difíceis sorriram para ela. No mesmo dia. Em menos de cinco minutos.

— Mas espera… Como conhecem o ponto cego das câmeras?

— Isso? Ah! Já fugimos muito do hospital. — Jon deu de ombros, como se aquilo não fosse nada. — Éramos sempre pegos facilmente, então começamos a melhorar nossas técnicas, saber onde ficam as câmeras é fundamental.

— Vocês são piores do que pensei...

— Se fossemos boas pessoas, não te ajudaríamos a invadir um sanatório.

— Eu sei, Arya. E sou grata por vocês estarem me ajudando. Apesar de tudo. — Olhou de soslaio para Jon, ele estava de olhos fechados, como se estivesse dormindo.

— Só estou ajudando porque o Jon disse que tu vai embora. Estou feliz.

Depois desse comentário, voltaram a ficar em silêncio. Daeny dirigiu por mais 10 minutos, antes de parar em frente ao imóvel. Era bonito, com um jardim deslumbrante a sua frente. Poderia se passar facilmente pela casa de uma família feliz, mas a placa nada discreta entregava tudo. Arya jogou uma sacola na direção de Jon e ele prontamente retirou a blusa e a calça do uniforme de enfermeiro.

Tentou desviar o olhar para qualquer outro ponto, mas não conseguiu. Não após notar a cor da roupa íntima de Jon, era vermelha. E Daeny adorava vermelho. Mas, como tudo que é bom dura pouco, o Stark vestiu suas roupas normais rapidamente e saiu do carro. Nenhuma das duas o seguiu, haviam repassado aquele plano várias vezes: Jon iria na frente para distrair o psicólogo chefe, que era o único que estaria ali naquele horário — além dos auxiliares -, quando estivesse com ele na sala, mandaria uma mensagem para Arya e a segunda — e mais difícil — parte do plano seria posta em ação.

Olhou para garota que permanecia no banco de trás de seu carro. Ela, assim como Jon fizera alguns segundos atrás, estava trocando de roupa.

— Pensei que você fosse mais magra, Arya. — Não conseguiu conter o comentário, mas a mais nova não pareceu ofendida, pelo contrário.

— Você quis dizer mais reta… Porque magra eu sou.

— Verdade. — Corrigiu-se e então lembrou-se do que Ygritte havia lhe falado uma vez. — Arya, posso fazer uma pergunta?

— Pode, só não garanto que eu vou responder.

— Você… Você está namorando? Namorando o irmão da Ygritte? — Por um momento, a Stark pareceu constrangida.

— O Gendry? Eu… Ele… Nós não temos esse tipo de relação. Somos… Bons amigos.

— Entendo.


Dito isso, permaneceram em silêncio novamente. Não havia o que conversar, não eram amigas e, mesmo que estivessem compartilhando uma situação de pseudo cumplicidade, não passariam disso. O silêncio era o melhor que poderiam querer. E nenhuma das duas ousou quebrá-lo, até que o celular de Arya tocou. Estava na hora. Iria confrontar seu ex-namorado louco e assassino e dar-lhe o adeus que tanto merecia.

Notas finais
Primeiro de tudo: desculpem, pensei que tinha programado o capítulo pro dia 29. Mas não fiz isso, sorry. Well, os capítulos de 20003000 palavras estão de volta, acabaram-se os de 1000, então quem preferia os capítulos menorzinhos.... :( Acho que deu pra ter ideia do plano dos três, né? E, quanto a conversa do Drogo com a Dany, vai permanecer em mistério por enquanto. A ponte da história que levava aos "verdadeiros acontecimentos" acaba aqui. O próximo já vem com a minha fase favorita e mds tem tanto Gendry e Arya s2s2s2s2s2 enfim, FELIZ ANO NOVO, espero que o 2016 de vocês seja abençoado. Muito obrigada por terem me feito feliz nesse 2015, beijos de muita luz :*